24 de dezembro de 2013

acontece há muitos séculos, no fim de cada dia:
eles entram e se instalam
quase sempre no fundo do ônibus
onde cantam, dão cambalhotas
riem e ouvem música alta em seus celulares.

o ônibus é um grande burro amarelo
que aos trancos leva muitos outros burrinhos cansados
e mais as três ou quatro hienas
muito vivas e coloridas.

embora o ônibus leve todos os bichos para a mesma direção
as jovens hienas, rindo, vão no sentido contrário
do sono e tédio dos animais mais velhos
e riem tão alto
e vão com tanta energia para o lado oposto da vida
que é difícil entender como o carro
não se parte ao meio.

partisse o ônibus ao meio
certamente perderia-se
a maior parte dos burros n'água
e as hienas ririam
ririam inda mais alto
a ver no incidente
a primeira aventura da noite.

as metáforas

a fala é sempre imperfeita
e quase nunca dá conta do recado.

lá, no ponto em que não há palavras pra continuar
e a fala trava como travam os pés ante um precipício,
tenta-se construir uma ponte:
a metáfora que estende um pouco mais a ideia
e tenta ser a imagem do que se quer dizer.

impossível:
as palavras não se deixam fotografar ou filmar
e a metáfora acaba sendo porta-voz de uma verdade, sim,
mas um menino dos recados doido
que leva adiante uma mensagem diversa
da que foi encomendada.
 
num tem jeito:
para sempre essas traduções mal-feitas
do que nos vai por dentro do peito.

é difícil identificar onde as falhas na fronteira
entre o que se sente e o que se diz sobre o sentir
(um telhado que pinga e não se sabe onde)

mas parece absurdo se voltar contra as metáforas
ainda que insuficientes.
"vamos destruir a máquina das metáforas?"
propõe sebastião uchoa leite
em algum lugar dos seus poemas

mas pq diabos iria eu abdicar das metáforas
se às vezes o time reserva vai pro campo
e faz melhor que o titular?

se há gatos que caçam
melhor do que muitos cães?

hm?

15 de dezembro de 2013

É possível ser feliz num empate.

Dia desses o @ita_puccini me chamou para assistir a um jogo na Arena Joinville. Jec e Ceará pelo campeonato brasileiro. Eu já nem lembro do placar. Se não me engano, o Jec perdeu ou empatou, frustrando a torcida que comparecia em bom número naquele dia. Ou pelo menos a parte da torcida que tem no anseio pela vitória do time o único objetivo para sentar a bunda na arquibancada e ali permanecer por duas horas. Pois há quem se contente com menos. Se você vai ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz, cê tá correndo riscos, meu amigo. É claro que a vitória é sempre o primeiro desejo do torcedor, mas ele bem que pode curtir a ida ao estádio por outros mil motivos. É bom pensar que as situações da vida contêm várias possibilidades de felicidade ao invés de uma só. É possível ser feliz num bingo da igreja sem sair de lá com o grande prêmio (um liquidificador ou um edredom, geralmente). É possível ser feliz na praia ainda que caia uma bruta chuva no momento em que você põe os pés na areia. Basta enxergar nas tais situações outras razões de alegria. Inventar passatempos, reprogramar a ideia inicial, prestar atenção para o que geralmente não prestamos. Certamente foi o que muita gente fez naquela tarde em que os jogadores faziam de tudo menos demonstrar habilidade com a pelota.
Eu adoro ir num estádio de futebol e acho que todo mundo deveria ir de vez em quando, ainda que não seja um grande fã desse esporte. Ainda que não torça para nenhum dos times que estão jogando (como faz o Ítalo, aliás). Dá pra se divertir e enxergar beleza em uma porção de coisas. Como é bonito o canto da torcida, a nostalgia que há no velho hábito de assistir à partida com o ouvido no rádio de pilha, a presença de pais & filhos; pais, mães & filhos sentados juntos na arquibancada. Para as crianças, a vitória é algo tão importante quanto o copo de refri gelado ou o pacote de amendoim que os pais compram dos homens que passam o jogo todo circulando e atrapalhando a visão da galera pelas arquibancadas. E assim deveria ser pra todo torcedor (por enquanto só no mundo ideal dos sonhos e das crônicas).
Outra coisa adorável num jogo de futebol é acompanhar o folclore da torcida. Mais do que cantar e incentivar o time, o torcedor mais ferrenho profere todo tipo de emoção. Xinga o jogador do seu time, xinga o jogador adversário, pega no pé do árbitro, do bandeirinha etc., e não perde uma chance de fazer graça. Ainda que marcado pela linguagem informal e por inúmeros palavrões, o repertório folclórico dos torcedores é repleto de invenção e criatividade. Velhos bordões e xingamentos clássicos convivem com brincadeiras e piadas criadas na hora, de improviso. É claro que sempre tem alguém que erra a mão, e deixa escapar um dito machista por demais aqui ou uma frase com pouco humor e muita raiva ali. Embora reprováveis, são inofensivas, pois quase nunca chegam aos destinatários. O jogador xingado (ou o juiz, ou o gandula, ou o locutor, sei lá, torcedor dá jeito de xingar todo mundo!) está quase sempre distante, e se ouve, não se dá ao trabalho de virar a cabeça, até porque tem um jogo pra dar conta. Eu diria inclusive que o verdadeiro destinatário desses ditos todos é a própria torcida: o cara está xingando alguém lá no campo, mas seu real objetivo é entreter os que estão a sua volta e a si mesmo.
E naquela tarde de Joinville X Ceará a torcida estava como sempre inspirada. Em certo momento morno do jogo, no qual eu quase cochilava e olhava pra qualquer coisa menos para o que faziam da pobre bola, a galera, que vinha exibindo seu repertório de ditos e bordões, levantou-se da torcida e deu início a uma ovação que sacudiu o estádio, sobretudo aqueles que como eu estavam distraídos. Na mesma hora, olhei para o campo a ver se algum gol havia saído. Qual o quê! A bola tava quicando lá pelo meio do campo. Virei para o lado pra ver se o Ítalo me explicava o que acontecera, mas que nada: tava com a mesma cara de perdido. Foi então que vi o bicho: a causa do auê era um quero-quero, típico pássaro das redondezas de estádios, que cismou de dar rasantes perto das cabeças dos jogadores do Ceará, provavelmente acusando-os de invasão de território. A torcida não poupou a chance: comemorou como se fosse gol cada rasante do pássaro, enquanto a zaga do Ceará se virava pra se livrar do bicho. Foi nessa hora que algum folclorista gritou perto da gente: TÁ CUM MEDO DO QUERO-QUERO, SEU FILHO DA PUTA????
Eu não sei se consigo explicar como um dito como este, aparentemente tão vulgar, e a ovação zoada da galera causam um efeito de humor e leveza na gente toda em volta. Deixa o jogo, e a vida - naquela hora - mais leve. Mais do que estar aberto às estranhas opiniões e emoções que vêm dos outros, a gente precisa estar lá, na galera, pra curtir o folclore do torcedor. Minha crônica não dá conta de falar das mil coisas boas que há numa ida ao estádio, até porque variam de gente para gente. Sugiro que o leitor vá ao estádio mais próximo uma hora dessas. Arquibancada popular, por favor. Com a galera. E o mais importante: não vá ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz.

11 de dezembro de 2013

me ponho louko!
há uma falta específica da qualpouko se sabe e para a qual se candidatam todas as palavras de modo que se me perguntam bem posso dizer que o que me falta é uma porção de tainhas um pau virulento e chumbado a varrer minha boca um pequeno gesto de adeus um evangelho que eu ainda não tenha ouvido e que encha meu coração de poeira prazerosa
ou talvez ou quem sabe,
só pode ser! que eu sinta é falta de ti abrir todos os bichos como se frutas
e bater e bater e bater nos rostos das gentes
até que se deformem e seja natural e justo lhes dar outro nome e função na Terra
falta de te ver defendendo na tribuna novíssimas técnicas de circuncisão e recheio de pombos
a chamar pra si toda a responsabilidade das partidas de várzea e todos os mísseis extraviados
nas últimas guerras numa tentativa desesperada de ir ao encontro da desgraça
pra ver se lá
cuacara no tiro
se possa escapar dele poisque chega uma hora do desespero que tudo parece tolo e só resta apostar na sequência 1,2,3,4,5 6 para o grande prêmio da loteca e por as granadas na boca para escapar da explosão ou seja eu sinto muita falta de sentar contigo sábadatarde a contar e ouvir como foi a semanumundo
e nessa hora pensar é num mesmo segundo bater e abrir e ver que não há morrer

8 de dezembro de 2013

Crítica Literária

EU SOU VANGUARDA SÓ NÃO REPARE NA MINHA CALÇA JEANS. Que coisa horrenda esses poemas que os muito imaturos dedicam aos velhos poetas RESPOSTA À NERUDA ELEGIA PARA RILKE etc. Há quem não consiga produzir duas linhas sem fazer uma citação pomposa. O que falta a essa gente é uma boa dose de Semancol 50mg. Ou quem sabe Balzac 20mg. E ainda há os terríveis poemas metalinguísticos a palavra é isso a palavra é aquilo, o poeta é aquele que faz isso e aquilo. Imagine a cena: vc entra no açougue cheio de fome coisa e tal e tudo o que o açougueiro tem para lhe vender são vídeoaulas sobre as mil e uma posições do corte do boi, isso quando o vídeo ainda não vir com extras a exaltar a maravilha que é ser açougueiro! O poema, um desesperado narciso vendendo a si mesmo. A verdade é que as palavras são desnecessárias e nada podem fazer na hora do vamovê. A poesia não é importante, não tem valor, e ainda inventam de lhe cercar e contratar guardacostas!!! Já pensastes quantas apetitosas porções de peixinhos fritos perdemos queimadas por dedicarmos sempre um olho pro gato burro, louco, saciado, vegano? É por isso que me dá nojo essa gente que se acha superior porque lê muitos livros 
ai eu gosto de poesia olha como sou culto 
vá se foder meu filho 
à distância, toda página diz a mesma coisa: 
o livro de poemas 
o manual de instruções 
o folheto publicitário 
não há salvação no mundo literário 
os leitores também vão para o inferno 
condenados a lerem eternamente sinopses dos capítulos de telenovela 
sim meus amigos 
continuem lendo mas parem de falar sobre a maravilha que é continuar a estar lendo 
a poesia o conto o romance 
essas esfinges sacanas 
que mesmo quando decifradas 
nos devoram
sim meus amigos 
a literatura
é linda
a conversa vai conversa vem mais inteligente 
o melhor dentre todos os
dá o cu que passa
a mais linda de todos os
tanto faz como tanto fez

2 de dezembro de 2013

E COMO NÃO HÁ ESPAÇO PARA O QUE GERAMOS
E nenhum sábado se mostra aberto a receber nossas dores
Você faz a promessa:

Um dia
A gente vai rir
De tudo isso.

Vamos?
Chegará tal dia?
Ou haveremos de dormir no meio da vigília,
Cochilar no ônibus
Perder o ponto
e o horário?

Quando você diz:

Um dia
A gente vai rir
De tudo isso

Eu penso no calendário Maia
No dia 37 de Março
na sétima-feira
Penso em dias que não existem
Em anos trissextos e tristes
Num show de stand-up
Um sujeito bizarro contando para a vasta plateia a nossa história desencontrada
e todos rindo
eu & vc,
na mesma mesa,
rindo
Um dia
lindo
e a gente
rindo
de tudo
aquilo.

24 de novembro de 2013

é bem verdade que a partir das tuas dores
vc constrói uns quadros até que bem bonitos
e que tanto desencanto fez de você
um ótimo frasista
das mesas de bar
mas vc só conta a parte boa da história né biscate

com o sorriso malandro vc diz
que Ele foi um trampolim
pra vc entender melhor as coisas e o mundo
vc diz que

ELE (PFF) FOI UM TRAMPOLIM
PRUMAS COISAS MUITO MELHORES...

como quem diz
"ele não faz falta"

E SABE A MINHA VIDA DEU UM SALTO...

como quem diz

"foi até bom ele ter me abandonado"

mas pq então omite detalhes importantes
como as notas 4 e 5
que o júri atribuiu
aos teus atos ornamentais
e o que é inda mais relevante
por que vc omite
o fato de que a piscina
para a qual salta
está sempre vazia?

23 de novembro de 2013

faz parte da gente
não ter controle
sobre coisas
que nos são caras e muito nossas
e os controladores de voo não se entendem
sobre a natureza de vários objetos que nos passam
- atirados por alguém ou a passeio -
por sobre a cabeça, todo dia.

pra amenizar isso criamos lendas
de amores e culpas extraterrestres
teorias sobre a ilusão de ver e as falhas
do olho humano
mas das mãos ninguém duvida
o que me parece muito
muito insensato:

gestos em falso são coisas naturais
e é por isso que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa:

um copo que escapa do pano de louça
a previsão de sol que insiste em dar chuva
um tapa que era pra ser brincadeira
e magoa a carne por toda uma vida:

é tão grande a vontade e o perigo de ultrapassar
que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa.

um lance de dardos

mais
acertará o balão de hélio do acaso
que sobe, sobe, rumo ao léu azul
enquanto a gente olha pra cima querendo prever alguma coisa
por mera coisa que seja.

e para o que não tem jeito
vamos criando novas loterias
bingos, frases d'efeito
poemas, piadas
falsas crenças
ditados populares.

10 de novembro de 2013

I

eu sou o homem-bomba no coração da espera.
meu dizer é tudo que tenho e posso gastar.
mas usá-lo é matar a mim e a muitos:
falar sobre o que desejo
é afastar o objeto
um pouco mais
de mim.

II

até o instante em que explode na terra
e instala o horror e a raiva no público
o kamikaze é o artista mais lindo & encantador
que o povo já viu.

III

no ar na cama
no mar na lama
no domingo
na tabela do campeonato
no esquecimento na cova
o prazer de submergir
às pressas
de quem sabe
não conseguir.

IV

o sol é uma estrela bonita
que nasce e se põe todo dia
e posa para fotos e é o marido da lua
e um dia vai explodir e matar a tudo que existe.

8 de novembro de 2013


De repente é sábado de novo
e mais uma vez entre as traves me sinto obrigado a pegar todos os coices sem dar rebote
o coração virado em bichos
uma casa revirada por ladrões que nada roubam
e intrigam a polícia do acaso
novamente é sábado de noite
e deixo algo importante
por debaixo das pernas passar.
as coisas por dizer, pobrezinhas,
se deprimem e se jogam
uma a uma
da ponta da língua
as coisas por dizer
que a torcida tanto ensaiou
viram vaias
e os aplausos virados pelo avesso
se tornam tapas atirados para dentro do campo
enquanto lá vem o atacante cocô
ele que nada fez o jogo todo vem a galope
para enfiar a bola na rede
pra me enfiar no inferno me empalar na trave
me afundar nas trevas do estádio pós-jogo
me entochar um microfone pela garganta
e então pelo cu eu falo que mais uma vez não conseguimos
o resultado esperado para o sábado
e que lamento por mais uma noite de fogos e cantos em vão

1 de novembro de 2013

PAIXÃO É QUANDO VC SENTE BORBOLETAS NO ESTÔMAGO
sente o voo obstruído pelas paredes do estômago
a invenção de partos
feitos somente de dores
o delírio de quem se descobre
dentro de um aquário de carne

e, então, a chuva
de sucos gástricos
a despedaçar as borboletas
digeridas & empacotadas
para, enfim,
virarem merda
colorida
voadora
romântica
merda

26 de outubro de 2013

súbito no meio da tarde
enquanto jogas xadrez
fodes
ou ensinas teu pequeno a andar
sentes o cheiro terrível
e espiando discretamente o teu pé descobres:
pisastes na merda da vida.

descobres
não sem antes disfarçar o cheiro podre
não sem antes dissimular
e creditar o ar denso de carniça àqueles que te cercam

(e nem o teu amor escapa à acusação
pois antes de descobrir-te culpado
culparás teu amor
e é essa uma verdade que os filmes sempre nos ocultaram:
o último pedido dos condenados à forca é sempre
tirem-me daqui
ponham outro em meu lugar
e se apenas houver meu amor
tirem-me daqui
ponham meu amor em meu lugar).

sim, sim!
é injusto que isso te aconteça e justo contigo e justo agora
mas pisastes na merda
cagada e semeada por esse bicho que nos vai por dentro
e a que muitos chamam: vida.

e não há remédio: larga teus sapatos, arrasta os pés pela calçada,
lamenta e chora pitangas e mágoas e desinfetantes
que o cheiro da merda na vida não sai:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

podes, é bem verdade, arrancar o pé pela raiz
mas ainda assim, creia-me, a merda estará contigo
graças à traição dos sentidos:
entre o gosto que tinha a mais feliz época da tua vida
e as cores dos teus piores pensamentos
lá está a música da merda
girando e girando dentro da tua cabeça.

ai, a merda.
não há muita escolha senão amá-la
e domesticá-la como fizestes com os outros mil bichos que antes te apareceram
e descobrir nela algum prazer ou importância
como fizestes com cada um dos teus peidos
e mijos e axilas e
 - convenhamos -
nenhum perfume é mais especial
que o de tuas próprias axilas
estas flores que fedem a todos menos a ti mesmo
assim pode ser também esta merda
que carregas no coração do teu pé
no coração preto dos peidos do teu pé de pedra
essa paz haverá, se quiseres.
mas não te apresses que haverá tempo para pensar e repensar nisso:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

18 de outubro de 2013

Deixa eu ver se explico o porquê dessa festa num dia que as pessoas se esforçam pra que seja triste. Conheci a tua mãe numa aula de lambaeróbica. Na verdade, mal nos falamos durante as aulas. Fui conversar e conhecer e me apaixonar depois do dia em que fomos ao cinema. Tua mãe era muito estranha: ora dizia umas coisas muito lindas e ora falava umas merdas, de modo que fiquei em dúvida se a convidava para ver um filme de hollywood ou algum filme b, daqueles mais franceses, sabe. Na dúvida, chamei ela pra ver um filme c, num cinema pornô que ficava ali no centro e que há um tempo fechou pra dar lugar a uma igreja evangélica. Ela achou o enredo do filme ruim, mas elogiou a trilha sonora e a fotografia. Daí em diante fomos a muitos lugares e muitas coisas por lá fizemos: cinemas, missas, terreiros, açougues, museus, convenções de microempresários, terapias em grupo, reuniões de associações de moradores, vernissages, casa de massagens, hospitais e bem, em algum desses lugares fizemos você. Ai, ai, fazer você. Isso me lembra de quando vc tinha quatro anos e tua mãe contou pra vc como vc nasceu: disse que um quero-quero havia trazido vc numa trouxinha e explicou que, se nos estados unidos os bebês eram trazidos pela cegonha, que era muito simpática e bondosa, no brazil os babys eram entregues por quero-queros chatíssimos que não aceitavam reclamações ou pedido de troca. ai de vc se reclamasse ou dissesse que não queria menina, e sim menino: o quero-quero metia-lhe uns rasantes e aí era ferroada na bunda da mãe e do pai sem dó. É claro que não reclamamos de vc, e por isso o quero-quero até que nos atendeu muito bem. Tanto que sua mãe pensou em te chamar de Kevin Kevin. Tipo uma homenagem, saca? Convenci ela de que as pessoas não pegariam a poesia e aí ficou só Kevin mesmo. O que vc prefere? Bom, agora é tarde, nem responda. E me deixa falar mais dela, pois disso nunca canso. Ai, a gente se divertia muito. E brigava às vezes, é verdade. Mas não duravam muito os conflitos, pois no meio das brigas eu descobria alguma coisa amável nela e dava um jeito de acabar com aquele folhetim. Como aquela vez em que, depois de muito chorar, ela tirou a meia do pé para assoar o nariz. Ai, como era sensível tua mãe. Quando a lokura do amore baixava, e eu sentia a necessidade de me reapaixonar por ela, ia com ela ao mercado. Numa dessas vezes saímos para comprar mostarda e ketchup pruma pizza que assaríamos. Sua mãe olhou e reolhou pros condimentos e disse: "Que horror essas embalagens de mostardas. São todas, todas, todas mesmo, amarelas! E os ketchups...., cristo, são todos vermelhos! Quando vão criar uma embalagem rosa ou azul? Credo!" Ela ficou tão chateada com os fabricantes que decidiu que não compraríamos mais nada. Detesto pizza a seco e aí tive a brilhante ideia de sugerir aquela variante holandesa, observando a ela que, bem, existia uma mostarda marrom. Ela comprou-a, mas meio ressabiada. Tua mamis detestava as coisas que eram muito iguais, ou facilmente adivinháveis, previsíveis. Por isso odiava shows de mágica, entrevistas e poetas, e por isso gostava tanto de acompanhar a previsão do tempo, a bolsa de valores e os resultados da loteria. Sua mãe gostava das coisas pelo avesso, sabe. E é por essas e por outras que sempre nesse dia compramos bolo e velas pra soprar em vez da gente ir no cemitério, entende?

25 de setembro de 2013

sim, tia marlene
eu realmente acredito
que você não tenha nascido
para estacionar carro em vaga de prédio
duvido mesmo
que alguém nasça com uma missão assim
tão pouco bíblica.

ai, tia marlene
eu a compreendo,
eu mesmo quando me ponho a pensar na vida
por mais que tome cuidado
acabo sempre tirando-lhe umas lascas

tá bom, tia, ok, passou,
eu sei, eu sei que vais gastar um bocado, mas paciência
isso, tia, coma mais biscoitos
são de araruta
eu também passo apertos, sabe
quase todo dia tem batida e aí já viu, né
gasto várias tardes de domingo
meia hora, todo dia, antes de dormir
consertando parafusando desmontando
cena por cena
dos motores
perna por perna
dos pensamentos
ai, não, não é fácil
a gente não nasceu pra isso né, tia
pra que então



23 de setembro de 2013

menstruam as borboletas?
morrer é sempre ao vivo ou algumas mortes são gravadas
e posteriormente dubladas????
quantas melancias uma girafa carentíssima por atenção pode sustentar em seu pescoço???
morrem os peixes de velho um dia
ou zanzam ao léu no mar até que um dia alguém os pesquem
posso ou não posso amarrar meu bode onde bem quiser
é ou não é verdade que se eu me masturbar a noite inteira
acordarei virado
no próprio
doctor
sigmund
fufffru
 freud?
????

22 de setembro de 2013

que tipo de enchente é o desamor que sempre pega a gente desprevenido? é sempre assim: a Defesa Civil vem e avisa e tudo mais, a gente vê os barracos caindo e sonha: mas o meu não cairá, agora é amor, eu sei, a gente vai ser muito feliz junto e, sabe, eu tô cansado de participar de final de campeonato e não levar, o calor por causa da camisa extra por baixo, OBRIGADO JESUS POR ESSA CONQUISTA, e no final não levar, e no final olhar os cara do outro time tirando o uniforme e exibindo camisas muito parecidas com a minha, enquanto a minha mensagem pra deus apodrece de suor, por que a gente ainda faz essas coisas, por que ainda aposta tudo que tem no outro? e de repente o objeto amado vai embora e a gente passa a odiá-lo porque é o jeito mais fácil de esquecer. Poxa vida, eu odeio o jeito da torcida que finge nos amar e canta o jogo todo mas se a gente escorrega uma vez só ah não não tem perdão somos vagabundos filhos da puta.  E sabe o pior? Sempre tem um filho da puta. Sempre tem a porra dum comentarista pra explicar nossa derrota, um cuzinho de um governadorzinho que aparece abalado na tv declarando estado de calamidadezinha, a bosta dum amigo que nos dá um tapinha leve nas costas e diz ah, mas isso vai passar, cara. Sim, é verdade que uma hora a água desce, e o barro seca, e se enterram os mortos, e um novo campeonato se inicia, e me apaixono de novo, depois da chuvarada vem o arco-íris né? ha-ha-ha, seus pau no cu do caralho. Como isso me cansa. Esses treinos de condicionamento físico me cansam. Pendurar e recolher a rouparada da casa inteira. Esses ciclos me cansam e me cansa a loucura de abandonar o ciclo, me cansa pensar em outro lugar pra morar, porque não há dinheiro e as crianças precisam comer a cada três horas, a cada três horas tão chorando, me cansa treinar treinar treinar e ficar no banco. eu fiz um gol no treino, dei vários passes, o treinador não viu? o que esse filho da puta quer? que eu faça milagre? que eu pare essa chuvarada que já dura uma semana? que eu dê uma paulada nos corno da mulher pra que enfim perceba o quanto eu a amo? porque o treinador ainda escala aquela poita gorda que no treino só faz firula e chuta bola na trave? porque ela decidiu namorar aquele bosta? por que deus faz chover tanto aqui e nada nos deserto? que ódio que eu tenho dessa gente que na falta do que dizer diz merda. Porque não se calam? Vocês já viram o mundo da marca do pênalti? Vocês já perderam um grande amor? Aliás, vocês atribuem ao amor o mesmo valor que eu? Vocês já perdero um parente pra enxurrada? Não né. Só quem passou por isso é que sabe.

21 de setembro de 2013

Para né !  !
Não sei se vc sabe mas
numa remota vila do Azerbaijão mora
uma pessoa que, se te conhecesse,
tuas dores e defeitos entenderia,
amaria e riria de quase tudo que vc diz,
Que besteira se sentir sozinha! Deixa disso, menina !  !
Vc já devia saber que
para cada pessoa que se pensa sozinha e incompreendida
existe uma espécie de peixe bizarro
com cabeça quadrada ou guelras espinhosas
a morar nas altas profundezas do oceano
e que a entende, sim,
e responde a ela por meio de ininterruptos borbulhos.
Coisas que não quis e depois me arrependi:
Viraram todas estátuas de sal.

Aquelas tardes em que líamos
lado a lado
livros de criança
Viraram tardes de sal
E o esforço de lembrá-las
Faz de nós doidas e suicidas abelhas
A produzir cada vez mais
sal em vez
de mel.

Aquele livro de sebo que deixei para comprar no outro dia
no outro dia, que maravilha!, lá estava.
Mas era um livro de sal
que entre os dedos se desmanchava
ilegível.

Não, ele não mata.
O arrependimento salga
as horas e as pessoas e as coisas deixadas pra trás.
Que deveriam ir lá para o reino das coisas que não são
e ficam pelo caminho: os mortos, as poeiras, as placas, as cascas
mas não.

As horas e as pessoas e as coisas deixadas pra trás
ficam com a gente
charques embalados eternamente para viagem
estátuas de sal no jardim de nossas novas escolhas
sombras que se agarram à pontinha dos pés
âncoras nas asas
que resistem
mínimas e desafiadoras
como agulhas em palheiros.

Se o arrependimento matasse
eu nem saberia o que iria matar:
se a mim mesmo, por meus erros
se as coisas deixadas e sua insistência em ficar.

19 de setembro de 2013

A CATEQUESE DO CU

desde muito cedo fui iniciado nos mistérios gozosos da vida e quase tudo se deve a meu tio jarbas que amava panos de louça e amava as coisas às quais se davam muitos nomes. mamãe não gostava nada dos modos e dizeres do seu irmão e vivia brigando com ele, dizendo você não fale bobagens perto do meu filho porque se você é um porco que seja, mas não faça meu filho se tornar um. Nessas horas de xingamento meu tio sempre fingia que era um porco e fazia um barulho tipo ROINC ROINC que deixava minha mãe louca e me fazia rir, e isso resume muito aqueles anos em que convivemos sob o mesmo teto: tio jarbas deixando minha mãe louca e me fazendo rir. Minha mãe e meu tio brigavam constantemente, mas na verdade não eram brigas de dois lados, porque sempre era minha mãe que reclamava e xingava diante de meu tio, que respondia sempre, mas sempre parecia falar de outra coisa, como se estivesse em outra conversa. Se minha mãe dizia que meu tio era vagabundo e que devia ajudar mais nos afazeres de casa e cozinhar mais, ele respondia EU JÁ TE DISSE QUE NÃO FUI EU QUE PEGUEI ESSA MERDA. Se minha mãe gritava que meu tio era um porco que não abaixava a tampa do vaso sanitário e que assim dava mal exemplo para mim, tio jarbas gritava ainda mais alto, com sua voz grossa e velha CLARO QUE NÃO, SE EU SOU A PESSOA QUE MAIS SECA LOUÇA E VARRE TETO DESSA CASA ! ! !  Minha mãe ficava confusa com a fala torta do meu tio e quase sempre dava a discussão por encerrada chamando-o de louco, de doido varrido, de insuportável, meliante, vagabundo, sem-noção, e uma série de outras palavras feias, mas sempre limpas, porque mamãe não falava palavrões como meu tio. Às vezes de tão nervosa mamãe não achava que palavra dizer e aí inventava uns palavrões-interjeição, arrematando coisas como “Seu, seu... seu Uixii de uma figa!!!”. Só muito tempo depois descobri a intrincada lógica das discussões entre mamãe e tio jarbas. Se na segunda-feira mamãe o acusava de ter dado sumiço no controle remoto da tv e tio jarbas respondia SE VC QUER TANTO, VÁ COMPRAR VC MESMA era  porque estava dando a resposta atrasada para uma crítica feita por mamãe no domingo, dia em que ela reclamou da demora de tio jarbas para ir à padaria buscar o pão e o leite. Mamãe nunca percebeu isso e sempre achava que meu tio estava debochando dela naqueles momentos em que dava respostas tortas. Até hoje não sei dizer se ele fazia de propósito ou se realmente respondia torto por pensar de forma muito atrasada e diferente de minha mãe. De fato, pensavam de formas muito diferentes, até porque ninguém pensava de forma parecida como a de meu tio. Certo dia observei a meu tio que mamãe sempre o xingava de algo diferente, e foi nesse dia que ele me explicou um de seus estranhos amores, dizendo: ISSO É BOM ! ! !  AI COMO AMO AS COISAS PRAS QUAIS DAMOS MUITOS NOMES, É ÓTIMO QUE EU SEJA UMA COISA ASSIM. É TIPO DIABO, OLHA O DIABO, TEM MUITOS NOMES: CAPETA, CAPIROTO, COISA-RUIM, CRUZ-CREDO, CHIFRUDO E MIL NOMES MAIS. PRESTENÇÃO: SE A GENTE DÁ MUITOS NOMES PRA UMA COISA, É PORQUE ESSA COISA É MUITO GRANDE, MUITO LINDA, E DIFÍCIL DE DEFINIR. SÃO COISAS GRANDES QUE NOS ESCAPAM, E POR ISSO NOS MARAVILHAM. VAI VER EU SOU UMA COISA MARAVILHOSA, TIPO O CAPETA! Pensei-pensei no que ele disse e não entendi muita coisa. Daí perguntei: “tipo Deus?” ao que ele respondeu SIM TIPO DEUS... DEUS É SENHOR É JEOVÁ E JERICÓ E JESUS E SALVADOR E MANÁ E LORD E HOSANA ACHO QUE É HOSANA TAMBÉM E ALAH BUDA ALAN KARDEC ENFIM DEUS TEM MTOS NOMES, COMO DIABO. E COMO PINTO TAMBÉM. Eu estava cada vez mais confuso e não ousava mais perguntar, até porque não conseguia organizar qualquer idéia que contivesse palavras tão distantes como deus, diabo e pinto, então me calava e olhava com a cara que eu tinha nos meus dez anos, que certamente era de tacho. Esse olhar entre curioso e estupefato já bastava para incentivar meu tio a continuar aquelas sessões de falação, que eu poderia chamar de serões, ou mesmo sermões, ou monólogos, ou lições, se ele mesmo não tivesse dado nome ao conjunto de seus ensinamentos: a catequese do cu. E continuava, impávido e colosso: SIM, COMO PINTO TAMBÉM. PORQUE OLHA O PINTO, OLHA A PALAVRA PINTO: ELA É PÊNIS TAMBÉM, E PICA E VARA E PAU E PINGUELO E PICA AH PICA EU JÁ FALEI E ENFIM VÁRIOS NOMES, ASSIM COMO VÁRIOS NOMES A BUCETA TEM. Geralmente essas longas e animadas falas de meu tio aconteciam de tarde, quando eu já tinha voltado da escola e mamãe ainda estava no trabalho, momento em que eu e meu tio dividíamos a tarefa de achar o que fazer naquele apartamento apertado e sem-graça. Meu tio era velho, devia ter seus 50 anos, mas mesmo assim eu me identificava muito com ele, sobretudo por esse tédio: tio jarbas sempre queria fazer alguma coisa que não fosse ficar naquele apartamento vendo tv. E eu pensava exatamente a mesma coisa. Mas, ao mesmo tempo que se entediava com a perspectiva de ficar parado diante da tv a tarde inteira, tampouco tio jarbas tinha vontade de sair. Se eu o chamava para um passeio, ele sempre dizia: PRA QUE??? PRA VER GENTE? DEUS QUE ME LIVRE. Tinha horror aos seres humanos e eu me perguntava às vezes se tinha horror à mamãe, a mim, e a ele mesmo. Acho que sim, porque às vezes respondia a falas nossas com caretas estranhas de dor ou nojo, mas apesar disso sempre se mostrou muito carinhoso e generoso. Meu tio sempre estava pronto para falar sobre qualquer assunto e era isso que preenchia as minhas tardes: meu tio discorrendo sobre milhões de assuntos com sua voz rouca e cinquentona enquanto eu fazia o dever de casa ou desenhava alguma coisa: DEIXA EU TE FALAR DOS PANOS DE LOUÇA. JÁ REPAROU COMO TUA MÃE TEM UNS PANOS DE LOUÇA MARAVILHOSOS???? É ÚNICA COISA DE BOM GOSTO NESSA CASA MULAMBENTA. OLHA ISSO – e ia até a cozinha buscar um dos panos para exibi-lo diante de mim – QUE DOÇURA.... REPARE, ESSE AQUI É A TERÇA-FEIRA DA SEMANINHA....A MENINA COM O CACHORRINHO VERMELHO NO COLO, O VERSO BIBLÍCO..... A TEXTURA.... TUDO SE ENCAIXA, VOCÊ SENTE? E olhava esperançoso para mim esperando que eu visse algo mágico naqueles panos de louça mas eu só via panos de louça e desenhos banais. Eu só via desenhos de frutas e animais e frases sem-graça, mas evitava deixar claro o que pensava com medo de magoá-lo. E foi evitando contrariá-lo que passei alguns anos de minha infância ouvindo a catequese do cu, que nada mais era do que a série de falas de meu tio sobre as coisas da vida em geral, mas sobretudo o cu, do qual tanto meu tio gostava de falar. Quase toda conversa, não importava o tema, uma hora caía nas suas teorias sobre deus e sobre o cu. CU É DEUS, MEU FILHO, ele sempre dizia. Eu me esforçava para compreender tão curta e forte frase, mas não conseguia. Ouvi ela muitas vezes, de forma descontextualizada, e nunca a entendia, só me limitava a olhar para ele e pensar que tio jarbas não tinha o medo das palavras que a maioria das pessoas, como mamãe, parecia ter. Até que numa tarde daquelas meu tio anunciou: HOJE VOU TE FALAR SOBRE O CU. O CU É DEUS, VOCÊ SABE NÉ? E como eu provavelmente exibi novamente minha melhor cara de tacho, sem-reação nenhuma àquela já famosa mas ainda incompreensível frase, meu tio pôs-se enfim a explicá-la: BOM, CÚ É DEUS. O CU E DEUS SÃO DUAS DAS MAIORES CRIAÇÕES DA NATUREZA. SÃO ENTIDADES QUE NUNCA SÃO EXPOSTAS À LUZ, COMO SE NÃO EXISTISSEM, MAS TODOS SABEMOS: ESTÃO ENTRE NÓS. DEUS É ADORADO EM LUGARES ESPECÍFICOS CHAMADOS IGREJAS, MAS VOCÊ PODE ORAR SEMPRE E ONDE QUISER. O MESMO SE DÁ COM O CU, QUE PODE SER ADORADO EM TUDO QUE É HORA E CANTO, MAS GERALMENTE É NO QUARTO, E DE NOITE. O MOMENTO EM QUE OS HOMENS COMEM O CORPO DE DEUS, A HÓSTIA, É CHAMADO DE COMUNHÃO. O ATO DE COMER O CU TEM VÁRIOS NOMES, E VOCE JÁ SABE QUE SE TEM MUITOS NOMES É PORQUE É ALGO MARAVILHOSO. E AQUI ENTRA UM QUÊ OPINATIVO NA MINHA TEORIA: PARTICULARMENTE, PREFIRO O CU A DEUS, MAS ISSO É SEGREDO E NÃO DEVE TE INFLUENCIAR, POIS LOGO VOCE SERÁ UM ADOLESCENTE E PROVARÁ DOS DOIS POR SI PRÓPRIO. A HÓSTIA.....QUE VOCÊ LOGO EXPERIMENTARÁ.... TEM UM GOSTO BOM SÓ NA PRIMEIRA VEZ QUE A COMEMOS. A PRIMEIRA HÓSTIA É EQUIPARADA À PRIMEIRA LAMBIDA NO CU QUE DAMOS. OUTRA COISA IMPORTANTE: ALGUMAS PESSOAS NEGAM A EXISTÊNCIA DO CU – SÃO OS ATEUS. ALGUMAS PESSOAS SE PERGUNTAM QUEM VEIO PRIMEIRO, O CU OU DEUS, E PARA SER SINCERO NÃO SEI QUEM PARIU QUEM. O FATO É QUE, PARA OS HOMENS, CU E DEUS SÃO REGIDOS PELAS MESMAS LEIS. NÃO É DE BOM TOM FALAR A PALAVRA CU EM VÃO, E O MESMO SE DIZ DOS NOMES DO SENHOR, O QUE ACHO UMA GRANDE BOBAGEM, MAS TÁ. OUTRA COISA: DEUS E CU ESTÃO EM TODOS OS LUGARES, NO CORAÇÃO DAS PESSOAS, NAS IDEIAS DELAS... ONDE QUER QUE ELAS ESTEJAM. E OUTRA NÉ: EMBORA DEUS E CU SEJAM LARGAS FONTES DE PRAZERES E ALEGRIAS, TAMBÉM TRAZEM COISAS RUINS PARA AS PESSOAS. O CU É MUITO CRITICADO PELA FRAGRÂNCIA E CONSTÂNCIA DAS FEZES QUE PRODUZ, E ALGO MUITO PARECIDO SE DIZ DAS MERDAS QUE DEUS MANDA PARA A VIDA DAS PESSOAS, COMO OS MAREMOTOS, AS PRAGAS NOS CAMPOS OU A MORTE DE UM FILHO, MAS OS HOMENS SÃO SERES ESTRANHÍSSIMOS E TRATAM DE AMENIZAR O LADO RUIM DE DEUS E DO CU. DIZEM QUE CAGAR É MARAVILHOSO PARA O FUNCIONAMENTO DO CORPO E SOBRE AS MERDAS MANDADAS POR DEUS DIZEM QUE HÁ MALES QUE VEM PARA BEM E QUE DEUS TEM UMA RAZÃO PARA FAZER TUDO AQUILO. NÓS DOIS SABEMOS QUE ESSAS COISAS NÃO FAZEM O MENOR SENTIDO, MAS QUE SE HÁ DE FAZER? NADA A FAZER !  !! DEIXEMOS AS PESSOAS ACREDITAREM E REJEITARAM O QUE BEM QUISEREM. ATÉ PORQUE, PRA COMEÇAR, TODAS REJEITAM A RELAÇÃO ENTRE ESSAS DUAS ENTIDADES E EU NUNCA ME PONHO A DISCUTIR ISSO COM ELAS, GUARDO APENAS PARA MIM A CATEQUESE DO CU E AGORA REPASSO ELA A VOCÊ.... PARA AS PESSOAS, É ABSURDO ASSOCIAR DEUS AO CU, COMO SE NÃO FOSSEM A MESMA COISA!!! TÁ NA CARA. É SÓ OLHAR PRA NOSSA FALA: QUANDO ALGO DÁ ERRADO O QUE A GENTE FALA??? A GENTE FALA MEUUUU PAUUU OU ENTÃO MEUUUU CUUU OU ENTÃO MEUU DEUSSSS. MAS É BOM DEIXAR CLARO QUE PAU NÃO É DEUS, POIS É COISA MASCULINA. CU E DEUS SÃO ETERNOS E ONIPRESENTES, TODOS TEM CU E DEUS NO CORAÇÃO, MESMO AS CRIANÇAS COMO VOCÊ. Eu já tinha ouvido falar muitas daquelas coisas acerca de deus, mas era difícil compreender a relação que havia entre ele e o buraco que eu tinha na bunda, de modo que o tema dessa palestra teve de ser retomado em muitas tardes daqueles três anos da minha infância. Três anos. Foi esse o tempo em que meu tio jarbas morou conosco até o dia em que desapareceu misteriosamente. Na verdade, não foi uma total surpresa, pois meu tio às vezes anunciava seu plano de partida dizendo UM DIA EU VOU SUMIR... E VOU SUMIR COMPLETAMENTE. OU ENTÃO VOU DESAPARECER, PORÉM NESTE CASO VOU DESAPARECER MISTERIOSAMENTE. Nunca entendi bem a diferença entre esses dois planos e sempre quando vou contar a história de tio jarbas pra alguém tenho que escolher um deles. O fato é que há uns dez anos ele foi embora no meio da madrugada, não sem antes deixar uma carta embaixo do meu travesseiro onde se pode até hoje ler: SE ESTA CARTA FOSSE UM DENTE SEU CERTAMENTE SERIA TRANSFORMADO EM MOEDA PELA FADA DOS DENTES MAS É APENAS UMA CARTA E POR ISSO CERTAMENTE ESTARÁ INTACTA QUANDO VOCÊ ACORDAR. ALIÁS CONHECES A HISTÓRIA DA PRINCESA E A ERVILHA, AQUELA EM QUE A PRINCESA SENTE DOR NAS COSTAS POR CAUSA DE UMA ERVILHA ENFIADA DEBAIXO DO COLCHÃO??? DEUS QUE ME LIVRE QUE HISTÓRIA MAL-FEITA. SEMPRE PENSO NA DOR QUE A PRINCESA SENTIU NO DIA EM QUE ENFIM CASOU CO PRÍNCIPE E LEVOU UMA PINTADA DELE. MAS ISSO É TUDO FICÇÃO E A PROVA DISSO É ESSA CARTA: APOSTO QUE VOCÊ NÃO SENTIU INCÔMODO NENHUM DURANTE O SONO E SÓ ACHOU A CARTA PORQUE TEM QUE ARRUMAR A CAMA ALIÁS ARRUME SEMPRE SUA CAMA E AME SUA MÃE E REZE MUITO SEMPRE. TIO JARBAS.

23 de julho de 2013

aprende bibliófilo:
as folhas do livro uma hora se soltam
e caem os cabelos e dentes
em outonos que ninguém celebra.

deixe as coisas caírem em paz
os livros da estante, as xícaras duralex
e tome a reorganização como hábito, e não castigo
já pensou se cada gota de chuva
fizesse muito barulho ao cair?

14 de julho de 2013

Que desconsolo me dá olhar para minha espera, tão fiel e humilde, mas tão ausente de provocação. Não aos modernos produtos inquebráveis e de prática limpeza e esquecimento. Antes chicletes baratos cujo açúcar não passa das primeiras mascadas. A cada dia minha criança prodígio ganha mais medalhas e fica mais limpa para a hora do atropelamento que, sei, não tardará. O banditismo sonhado me é proibido, então discretamente saboto meus próprios projetos. As esperas, em suspenso, sustentam apenas a si mesmo. Essa espera, essa postergação, de tão calma, de tão nada, é falsa. Nem tudo que é leve faz bem. Um sono leve que se perturba com insetos e inúteis fragmentos de sonhos. Um amor leve que se torna bobo diante do êxtase e força dos travestis. Que merda.

30 de junho de 2013

eu não aguento mais esse safety car que há anos está na minha pista a incrível história do atacante que está há cinco anos em posição de impedimento meu coração incediado por tantas largadas queimadas e bebo e me dopo e choro mas nego tudo e sorridente aceno para as câmeras de tv para vc do outro lado da rua

8 de junho de 2013

Há símbolos demais no mundo
e a tua fala é gorda de crenças como uma árvore de natal.

Tudo significa e leva a outras coisas e outros tempos
tudo é tanto que
às vezes não vejo a hora de entrar no museu do google
e olhar para alguma natureza morta.

Que quer tua mão para mim estendida?
talvez queira ajuda
talvez queira que lhe passe a margarina.

Em tudo eles veem falos
em tudo eles veem traumas da infância
e até hoje querem saber como estava o humor da monalisa no dia em que a estupraram.

Há símbolos demais no mundo.
Na cama, fumamos dois pintos marlboro e então apago o abajur.
Poucas coisas significam tanto quanto o preto o escuro a noite
e quando apago a luz não sei como dormimos.
Pela manhã acordarei cedo e prepararei para nós
uma deliciosa vitamina de banana com pecado .
novela das sete

ontem capotei meu carro
no corredor da sala
e enquanto eu e as coisas
perdíamos os sentidos
vi minha vida inteira
passar em um minuto

e eu não sei se vc vai acreditar mas
quase todo o filme
era feito de acidentes
de outros acidentes
de acidentes.

1 de junho de 2013

Posto aqui porque li há um bom tempo, mas sempre tô relembrando esse trecho.
(De uma carta do Flaubert a não sei quem. tá naquele Cartas Exemplares, da Imago.)

"Procuro passar o tempo da maneira menos tediosa, e achei como. Faça como eu: rompa com o exterior, viva como um urso - um urso branco - deixe que tudo se dane, tudo e você junto, mas não sua inteligência. Existe agora um intervalo tão nítido entre o que sou e o resto do mundo, que me espanto às vezes de ouvir dizer as coisas mais naturais e mais simples. A palavra mais banal me deixa às vezes em singular admiração. Há gestos, sons de vozes dos quais não me recupero, e tolices que me dão vertigens. Você já escutou alguma vez atentamente as pessoas falando numa língua estrangeira que você não entendia? Comigo é assim. à força de querer compreender tudo, tudo me faz sonhar. Parece-me no entanto que essa estupefação não é estupidez. O burguês, por exemplo, é para mim qualquer coisa de infinito. Você não pode imaginar o que o apavorante desastre de Monville me causou. Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo."

12 de maio de 2013

Old Song

Take off your clothes, love,
And come to me.

Soon will the sun be breaking
Over yon sea.

And all of our hairs be white, love,
For aught we do

And all our nights be one, love,
For all we knew.

---

Robert Creeley.

(O collected poems dele tá integral no google books!)

11 de abril de 2013

um poema de Maria Ângela Alvim

Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.



do livro "Poemas", de 1980, Editora Fontana. Pág. 108

31 de março de 2013

um poema de alejandra pizarnik


[El olvido]
en la otra orilla de la noche
el amor es posible

23 de março de 2013

fb

A voz, a imagem, as ideias e o humor,
a tua risada
hahaha
entra sempre na hora exata
mas nunca faz eco.

Porque apertam um botão e colocam uma senha,
já podem dizer: cheguei, fui embora, este agora não é mais.
a presença está fora do corpo?

Ontem mesmo a moça postou
boa noite!
e ninguém curtiu.

11 de março de 2013

três pais

1

Eu nunca morri, claro, mas vou te contar como é quando se morre. Não tem essa de muito novo, não. Esperar pra quê, acontece com todo mundo e você já fica sabendo desde já, guri. É assim: primeira coisa é a saliva doce. De repente você sente que de algum lugar da boca, algum caninho fino, muito fino, vem açúcar. É um doce distante. Um doce bom, mas que você não fica pedindo mais. Esse é o primeiro passo de morrer. Depois o corpo vai se preparando para a morte desde cedo. Teu corpo sabe quando vai se finar. Não tô falando de desastre, claro, tô falando de doença, de piripaque. O corpo vai se preparando, deixa de sentir de fome... mantém apenas o básico para, justamente, poder morrer. Ninguém dá arroto no dia em que morre, nem fica peidando. Cê não cuspe, num fica tarado. Nesse dia o corpo já sabe que essas coisas são desnecessárias e se prepara pra morrer. Só não sei como é o último suspiro, aí é querer demais. Há quem diga que você vê um túnel, que vê a vida num filme, mas eu não acredito nessa gente que foi até o meio da coisa e voltou. É assim, um dia você vai sentir. Você é um guri esperto. Só não comenta com teu tio esse ensinamento. Se comentar ele vai ficar desfiando o que falei, ele desmerece tudo que falo, vai vir com uma história aí dum cara que morreu do nada enquanto fazia cocô e vai dizer que o lance do corpo se preparar é roubada. Olha, cocô tem é na cabeça dele. Mas enfim. Agora vá lá ajudar tua mãe ou sei lá quem.

2

Na fila do caixa eletrônico, por algum motivo que poucos entenderam, uma confusão se instalou. Um homem gordo e forte, vestido todo de preto e com um capacete na mão, berrava e gesticulava em direção à fila, à maquina e às pessoas. De mão dada ao pai, o menino entendia ainda menos do que ele. O pai, um pouco à frente do homem irritado, tentava ignorar as imprecações do outro, parte porque não queria se irritar e parte porque ignorar a presença dele seria como torná-lo inexistente ao filho, fazendo desaparecer do mundo dele o estresse, a raiva. Todavia o problema, que não estava claro ao pai, e talvez fosse a demora dos usuários da máquina, não se resolvia. Percebia-se pela voz do motoqueiro cada vez mais alterada, acompanhada pelos gestos do braço livre e pelo giros do capacete no outro antebraço. De repente, ouviu-se um caralho, e depois um porra, e tais palavras soaram invasivas para o pai. Não para seu mundo, tão habituada a elas. Mas para o mundo do filho, e diante desse ataque barato a anos de cuidadoso escolher de palavras diante do filho, o pai virou-se e disse: escute aqui, o senhor faça o favor de ficar quieto aí em seu lugar e respeitar os outros. O outro, encolerizado, aproximou-se e disse com sua voz grossa e potente: você que fique bem na sua seu merda, fique bem na sua. O pai assustou-se, baixou a guarda e sem perceber apertou a mão do filho. Sempre o fazia, antes de atravessaram uma rua perigosa ou quando ambos precisavam apressar o passo. Mas desta vez o ato de apertar a mão não era de controle, era um pedido de ajuda,  e por alguns segundos recaiu sobre o menino o papel de saber o que fazer diante de uma mão a lhe apertar. O menino sentia que seu pai havia encolhido naquele momento e tinha vontade de chorar. O homem irritado voltou para seu lugar, desistiu da fila e de ameaçar aquele que o criticara, não sem antes proferir mais um palavrão em direção às pessoas da fila. O menino ficou a olhar o motoqueiro partindo com pressa e raiva, e quando ele sumiu de sua vista, voltou a olhar seu pai. Estavam diante do caixa e ainda o segurava pela mão. Reparou que a mão do pai voltara a ter o peso de sempre. Era ele que novamente apertava a mão do pai, a mão do pai voltava a ser uma casa. Mas era uma casa um pouco menor.

3

Com uma das mãos segurava a mão do menino e com a outra o empurrava levemente nas costas, bem perto da cintura. As plataformas estavam cheias de gentes, cada uma a olhar distraída para um ponto fixo e era tanto o calor e tantas as pessoas que não era possível entender como ainda sobravam pontos ao redor para pousar os olhos de forma tranquila. O olhar do homem pulava de pessoa para pessoa, não se demorando mais do que alguns segundos em cada, até que voltava para o menino, ao ônibus, à distância do menino para o ônibus. O olhar do menino parecia perdido e tentava se acostumar ao ambiente, como se cada pessoa fosse um raio de sol a incomodar seus olhos.

- Quando o ônibus abrir a porta, disse ele ao pequeno, trate de pegar um bom lugar. O segredo é não vacilar. Entrou, não fica se decidindo, não: escolhe um e pá, senta. ok?

O menino assentiu e, ao abrir da porta, soltou a mão do homem e esgueirou-se nervosamente entre todos aqueles peixes. Sentou num banco duplo e o pai logo apareceu ao seu lado. O menino reparou que todas as pessoas conseguiram achar um lugar e ainda sobravam dois ou três lugares vagos e que os conselhos do pai foram desnecessários. Pensou em observar isso ao pai, e ia o fazer, quando foi interrompido pela voz livre do homem:

- Se o ônibus encher, quero nem saber, não me levanto nem cedo meu lugar. Sabe o porquê? Eu sei que nesse ônibus ninguém tem mais direito do que eu. Esse ali, esse aqui - falava baixo, mas apontando para as pessoas, o homem - tenho certeza que não se matam todo dia carregando tijolo. Se vier um velho muito velho, até vai. Ou uma grávida bem grávida mesmo. Agora mulher só por ser mulher com sacola na mão, agora grisalho cheio de saúde nas pernas, não, esses não. Não vem que não tem, da nossa vida só a gente é que sabe. Cê tá entendendo? O negócio é ser assim.

24 de fevereiro de 2013

essa casa não é minha,
doei toda a minha herança aos calmos.

não é minha essa casa
repleta de portas, cada uma a esconder um desejo
a porta da geladeira, calma, branca, fresca, convidativa
a porta principal ocultando todas as outras.

nego esses muros,
a calha vizinha como um horizonte torto
ao alcance das mãos

nego a falta de lógica dessa casa
o conteúdo das gavetas a anular o das estantes
até que reste apenas a branca porta da geladeira
abençoando a todos.

as ruas e estradas e mesmo as informações erradas que recebemos de estranhos
nos levam sempre para o canto do nosso quarto
e é difícíl conceber a ideia de um lugar estático, casado, graduado:

lá dentro,
debaixo do piso e da lista de compras,
a terra não para um minuto de se revolver.

eu moro aqui, mas essa casa não é minha
o meu lugar no mundo há de estar no guinness
um apartamento feito de sacadas e varandas
uma rua com mil e tantos
andares.

17 de fevereiro de 2013

diálogo reau

- Pois é, vc não apareceu ontem. mas é natural... coisas acontecem, coisas surgem...
- Tava em casa coçando a bunda e depois dormi.

11 de fevereiro de 2013

A rotina e o feriado:
famílias olham vitrines
no shopping center fechado

9 de fevereiro de 2013

Também

estou de volta ao nonsense lá no blog dos limeriques
veja que ironia
o auge da minha alegria
é vc dizendo
que não existo