21 de fevereiro de 2026

o mal estar do presente

repleto daquilo que não mais está

e de quem não mais está

repleto da saudade do que

não mais se sente

o mal estar do presente

feito de tanta gente ausente

e de tudo que poderia

ter sido diferente

em meio ao caos chega de repente

uma carta de amor do amigo ausente

demoro a buscar o pacote

e o entregador que por ela 

ganha tão pouco se ressente

joga por cima do portão e do cão

e o amor que já era distante 

se esfarela pelo chão e vira

qualquer coisa indiferente

porque não passo bem 

do presente e de solidão ardente

demoro a ler o que me disse

o amado remetente parte por 

querer parte por acidente 

as coisas não vão muito bem

também lá para seu ocidente

e não há quem o amor nos 

incendeie e reinvente de modo

que toda sua carta é denúncia

do incômodo que sente

com o mal estar do presente

o elefante que um dia na sala esteve

foi caçado e espurcado em brasa quente

e mal pode o amado usar palavras

para expressar o que lhe passa

pelo coração e pela mente

por isso mente mente mente

no desespero de por acidente

achar uma imagem delirante

que seja também bela o suficiente

e expresse o vazio torvelinho

o enredo perdido

o bicho louco e morto

e ainda sensciente

que persegue seu sexo

seu chifre seus dentes.