o mal estar do presente
repleto daquilo que não mais está
e de quem não mais está
repleto da saudade do que
não mais se sente
o mal estar do presente
feito de tanta gente ausente
e de tudo que poderia
ter sido diferente
em meio ao caos chega de repente
uma carta de amor do amigo ausente
demoro a buscar o pacote
e o entregador que por ela
ganha tão pouco se ressente
joga por cima do portão e do cão
e o amor que já era distante
se esfarela pelo chão e vira
qualquer coisa indiferente
porque não passo bem
do presente e de solidão ardente
demoro a ler o que me disse
o amado remetente parte por
querer parte por acidente
as coisas não vão muito bem
também lá para seu ocidente
e não há quem o amor nos
incendeie e reinvente de modo
que toda sua carta é denúncia
do incômodo que sente
com o mal estar do presente
o elefante que um dia na sala esteve
foi caçado e espurcado em brasa quente
e mal pode o amado usar palavras
para expressar o que lhe passa
pelo coração e pela mente
por isso mente mente mente
no desespero de por acidente
achar uma imagem delirante
que seja também bela o suficiente
e expresse o vazio torvelinho
o enredo perdido
o bicho louco e morto
e ainda sensciente
que persegue seu sexo
seu chifre seus dentes.
