quem metralhou?
quem metralhou
alta maré noturna
na boca do ocaso
(o vento)
dentro da noite
as meninas se acenam
e já entram no parque fluvial
final de domingo
comichão de medo
se na noite houvesse mais meandros
não descarrilavam as cordas,
e lá do alto as meninas veriam a pequena boca laranja
mas mui corrente o escuro
engole o degelo
e
entre
ra
ja
da
de
ri
sos
revoam
os
casacos
uma placa dentalmetálica se solta:
(por que sussuram as meninas isoladas?)
pois papéis de balas,
céu de repicadas imagens
xaubeijam-se as meninas
sob noturna
enxurrada
e a rua
agora ganha dois tiros
no escuro.
chão batido,
campo sem flores a vender luzes
a flor não-sei-o-que-é
foi metralhada,
quem metralhou?
chove pelo chão.
se todos a favor da chuva quem contratempo
quem meninas
se ferinas
não cabem
quem noturnou?
(foi o vento)
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8 de março de 2011
6 de dezembro de 2010
26 de junho de 2010
Suicídio
O escritor estava com o conto na cabeça há duas semanas.
Frio e sucinto como uma barra de ferro, o conto deslizava na cabeça do escritor.
Passou dias trancado em seu quarto. ele e o conto.
O conto precisava sair, era sua vida!
E nesse misto de trabalho e angústia, madrugadas e cafés consumiam-se.
E o conto se alterando, a mão tremendo, a obra-prima, o sonho primeiro e último.
E o conto sempre apontado, quase saindo, na cabeça.
Um dia, não aguentou mais aquele conto apontado pra cabeça. Atirou-o rapido e livramente no jornal.
Tinha apenas 24 anos, o escritor:
Mil reticências para o pobre!
Frio e sucinto como uma barra de ferro, o conto deslizava na cabeça do escritor.
Passou dias trancado em seu quarto. ele e o conto.
O conto precisava sair, era sua vida!
E nesse misto de trabalho e angústia, madrugadas e cafés consumiam-se.
E o conto se alterando, a mão tremendo, a obra-prima, o sonho primeiro e último.
E o conto sempre apontado, quase saindo, na cabeça.
Um dia, não aguentou mais aquele conto apontado pra cabeça. Atirou-o rapido e livramente no jornal.
Tinha apenas 24 anos, o escritor:
Mil reticências para o pobre!
1 de maio de 2010
Felicidade
Tudo preto. Ô, meu Deus! Será que esse troço estragou? Não, não. A tela negra dura pouco. Logo surgem luzes exageradas, vindas de refletores doidos, que dançam ao som de um medonho toque de corneta - É assim que se inicia o programa "Teu Sonho agora é nosso!". Apesar da edição semanal, em todo programa o apresentador entra no palco e, equilibrando-se entre as luzes frenéticas (que param, depois de um longo sorriso plástico dele), dá a explicação - sempre o mesmo roteiro - sobre o título do programa - "A rede Felicity de produções, junto com seus honrosos parceiros, realiza mais uma vez um sonho brasileiro. Não importa em que canto do país ele esteja: A Rede Felicity vai caçar o sonho para realizá-lo. Para isso, basta enviar uma carta para a nossa produção [nessa parte, às vezes, não sei por quê, o apresentador se atrapalha, sai do roteiro e utiliza a expressão"linha de produção"] contando o seu desejo - tem que ser um desejo honesto, hein!, ele acrescenta - Além, é claro, de enviar a seguinte pergunta com sua resposta correta: Quem traz a alegria a todos os momentos do meu dia?" - Quando termina essa apresentação, começa a brilhar, ao fundo do cenário colorido, o letreiro FELICITY.
O terno do homem tá meio manchado, tá não? Não, não. Apenas a tela que deu uma leve pifada. Para voltar a imagem ao normal, um tapa no lateral do televisor basta.
- Jusué! Bate na Tv, meu filho!
E lá vai o pequeno descer do sofá para acertar o aparelho com um tapa. Feito isso, volta ao sofá onde também está Rosa, a mais nova, que não desgruda o olho da TV.
- Mas é muita carta, meu Deus!
E são mesmo. Uma pilha imensa. A própria Cleusa constata isso. Deixa, por um momento, a vítrea pilha de louça para se embriagar naquela branca pilha de papéis
-Jisuis, que seja! É hoje que meu envelope cai na mão do hômi!
E Cleusa, a mãe, dona de casa por sina e profissão, senta-se no sofá surrado ao lado das duas crianças.
Faz mais de um minuto que as moças loiras mexem e remexem naquela pilha de cartas. Jogam pra cima, e ficam olhando elas cairem com cara de besta. Qual a graça disso? O que dá é apreensão: Cleusa, Jusué e Rosa estão grudados no sofá, só aguardando.
Enquanto isso, um deles pede café. Cleusa não escuta. O outro fala alguma coisa sobre dinheiro.
Hã? Dinheiro?
- Mãe, você pediu novamente aquele valor em dinheiro? Pra quê?
- Hã?
- É, mãe, se nós ganharmos o dinheiro... vamos comprar o quê?
- Ah.. Ah.. é pra uma casa né. Chega desse pardieiro, esse barraco cheio de goteiras. Olha essa cozinha, que nojo! - e aponta para o chão encharcado.
- E uma estátua? A gente compra?
- Que é isso muleque! eu, hein. Vocês pensam em cada coisa.
Coisa, mas que coisa demorada. Ó! Atenção que o apresentador pegou, enfim, uma carta.
Sempre com seu sorriso plástico, o apresentador apanha uma das cartas flutuantes. Tambores rufam em algum lugar: em algum botão. A câmera focaliza-se no rosto do apresentador: risonho ele mostra o envelope como se fosse um troféu. Começa a abrí-lo... e..e.. e o sonho agora é...
- NOSSO! Gritam com contida exaltação, as loiras.
Coisa estranha.
- O que é estranho, muleque? - pergunta Cleusa, com o pano de prato nas mãos, sem desgrudar os olhos do televisor.
- Por que o nosso sonho é das meninas loiras? Será que elas ganham também?
Cleuza não responde. Rosa está muda. Estão concentradas, pois o apresentador, lentamente, abriu a carta e sacou uma folha com linhas
- É o meu caderno, mãe! a folha é do meu caderno, mãe! nós ganhamos! Nós ganhamos! - grita a pequena Rosa desafinada e magramente.
- Sossega, menina! Pode nem ser. Todo mundo deve mandar a resposta e o sonho em folha de caderno, não é?
Éééééé, pessoal! Minutos de apreensão. Acabei de entregar o cartão resposta pro nosso auditor e ele está avaliando. É só ele dar o ok e vou dizer quem é o felizardo!
- Que é felizardo, mãe? - diz Jusué
- Mas, peraí, felizardo é homem. Felizarda é que é mulher - diz Rosa, pensativa
- Espera, espera! - esbraveja, ansiosa, Cleusa.
E os segundos parecem minutos, minha gente! Opa! Mas peraí!
O apresentador bota a mão sobre o ouvido, a escutar seu ponto eletrônico. Logo a cena é cortada para outra, que mostra o auditor, de terno e gravata, com o dedo polegar para baixo, trazendo uma tristeza alegre para o estúdio-coliseu da rede Felicity de produções. Rapidamente, o apresentador remonta seu sorriso e pede para sa moças loiras jogarem novas cartas. Enquanto isso, avisa - Pois é, pessoal, infelizmente uma resposta errada. Mas não tem problema, sabem por quê? por que, meninas? Por que seu sonho ééééé.....
- NOSSO!
E com um gesto alegre e agitado, o apresentador pega nova carta.
- Outra carta?
- É, seu besta, a outra tava com resposta errada!
- Mãe, olha a Rosa me chamando de besta!
E a Cleusa calada. Inerte como as cartas no chão do estúdio.
- Ah, cala a boca, seu chato. Ô mãe, ô mãe, acho que nem era minha aquela folha, né? Foi só impressão. Agora que é, ó!
Carta aberta. Polegar do auditor pra cima. Palmas que pipocam nas mãos das loiras.
- Parabéns, José Geraldo do Carmo! Você, amigo, que pediu um caminhão para melhorar seu trabalho aí na sua fazenda, em Montes Claros, Minas Gerais, parabéns!
Agora um toque de cornetas. Mais luzes. Mais sorrisos loiros.
- Rá, que chato! Minas Gerais. Muito longe daqui.
- Ah – Jusué ficou triste.
Cleusa não. Levantou alegre da tv e foi pro fogão esquentar um café. Aliás, que é isso? Uma goteira caindo bem dentro do bule!
- Ô, diacho!
Cleusa do sofá olhava para os dois pequenos. Um dia a carta dela seria sorteada. Ia mudar de vida. Os dois pequenos, tão engraçados.
- A capital de Minas Gerais é Belo Horizonte, sabia?
- Grande coisa! – Jusué ficou bem chateado com o não-sorteio.
Cleusa não; tranquila. Essa manha, essa birra das crianças. Não estão acostumadas a perder. Mas um dia – ela sente – sua carta vai ser premiada. Ela vai continuar mandando, toda semana. Abriu o armário atrás de três copos. Um de vidro e dois de plástico. Pôs na mesa. Olhou de novo para os dois filhos. Na Tv, o programa já havia acabado para dar lugar à novela das 7. Ora, quem traz a alegria para todos os meus dias? Meus filhos, é claro! Uma lembrança tão simples e boba a fez sorrir.
E, sorrindo, chamou os pequenos para tomarem café.
O terno do homem tá meio manchado, tá não? Não, não. Apenas a tela que deu uma leve pifada. Para voltar a imagem ao normal, um tapa no lateral do televisor basta.
- Jusué! Bate na Tv, meu filho!
E lá vai o pequeno descer do sofá para acertar o aparelho com um tapa. Feito isso, volta ao sofá onde também está Rosa, a mais nova, que não desgruda o olho da TV.
- Mas é muita carta, meu Deus!
E são mesmo. Uma pilha imensa. A própria Cleusa constata isso. Deixa, por um momento, a vítrea pilha de louça para se embriagar naquela branca pilha de papéis
-Jisuis, que seja! É hoje que meu envelope cai na mão do hômi!
E Cleusa, a mãe, dona de casa por sina e profissão, senta-se no sofá surrado ao lado das duas crianças.
Faz mais de um minuto que as moças loiras mexem e remexem naquela pilha de cartas. Jogam pra cima, e ficam olhando elas cairem com cara de besta. Qual a graça disso? O que dá é apreensão: Cleusa, Jusué e Rosa estão grudados no sofá, só aguardando.
Enquanto isso, um deles pede café. Cleusa não escuta. O outro fala alguma coisa sobre dinheiro.
Hã? Dinheiro?
- Mãe, você pediu novamente aquele valor em dinheiro? Pra quê?
- Hã?
- É, mãe, se nós ganharmos o dinheiro... vamos comprar o quê?
- Ah.. Ah.. é pra uma casa né. Chega desse pardieiro, esse barraco cheio de goteiras. Olha essa cozinha, que nojo! - e aponta para o chão encharcado.
- E uma estátua? A gente compra?
- Que é isso muleque! eu, hein. Vocês pensam em cada coisa.
Coisa, mas que coisa demorada. Ó! Atenção que o apresentador pegou, enfim, uma carta.
Sempre com seu sorriso plástico, o apresentador apanha uma das cartas flutuantes. Tambores rufam em algum lugar: em algum botão. A câmera focaliza-se no rosto do apresentador: risonho ele mostra o envelope como se fosse um troféu. Começa a abrí-lo... e..e.. e o sonho agora é...
- NOSSO! Gritam com contida exaltação, as loiras.
Coisa estranha.
- O que é estranho, muleque? - pergunta Cleusa, com o pano de prato nas mãos, sem desgrudar os olhos do televisor.
- Por que o nosso sonho é das meninas loiras? Será que elas ganham também?
Cleuza não responde. Rosa está muda. Estão concentradas, pois o apresentador, lentamente, abriu a carta e sacou uma folha com linhas
- É o meu caderno, mãe! a folha é do meu caderno, mãe! nós ganhamos! Nós ganhamos! - grita a pequena Rosa desafinada e magramente.
- Sossega, menina! Pode nem ser. Todo mundo deve mandar a resposta e o sonho em folha de caderno, não é?
Éééééé, pessoal! Minutos de apreensão. Acabei de entregar o cartão resposta pro nosso auditor e ele está avaliando. É só ele dar o ok e vou dizer quem é o felizardo!
- Que é felizardo, mãe? - diz Jusué
- Mas, peraí, felizardo é homem. Felizarda é que é mulher - diz Rosa, pensativa
- Espera, espera! - esbraveja, ansiosa, Cleusa.
E os segundos parecem minutos, minha gente! Opa! Mas peraí!
O apresentador bota a mão sobre o ouvido, a escutar seu ponto eletrônico. Logo a cena é cortada para outra, que mostra o auditor, de terno e gravata, com o dedo polegar para baixo, trazendo uma tristeza alegre para o estúdio-coliseu da rede Felicity de produções. Rapidamente, o apresentador remonta seu sorriso e pede para sa moças loiras jogarem novas cartas. Enquanto isso, avisa - Pois é, pessoal, infelizmente uma resposta errada. Mas não tem problema, sabem por quê? por que, meninas? Por que seu sonho ééééé.....
- NOSSO!
E com um gesto alegre e agitado, o apresentador pega nova carta.
- Outra carta?
- É, seu besta, a outra tava com resposta errada!
- Mãe, olha a Rosa me chamando de besta!
E a Cleusa calada. Inerte como as cartas no chão do estúdio.
- Ah, cala a boca, seu chato. Ô mãe, ô mãe, acho que nem era minha aquela folha, né? Foi só impressão. Agora que é, ó!
Carta aberta. Polegar do auditor pra cima. Palmas que pipocam nas mãos das loiras.
- Parabéns, José Geraldo do Carmo! Você, amigo, que pediu um caminhão para melhorar seu trabalho aí na sua fazenda, em Montes Claros, Minas Gerais, parabéns!
Agora um toque de cornetas. Mais luzes. Mais sorrisos loiros.
- Rá, que chato! Minas Gerais. Muito longe daqui.
- Ah – Jusué ficou triste.
Cleusa não. Levantou alegre da tv e foi pro fogão esquentar um café. Aliás, que é isso? Uma goteira caindo bem dentro do bule!
- Ô, diacho!
Cleusa do sofá olhava para os dois pequenos. Um dia a carta dela seria sorteada. Ia mudar de vida. Os dois pequenos, tão engraçados.
- A capital de Minas Gerais é Belo Horizonte, sabia?
- Grande coisa! – Jusué ficou bem chateado com o não-sorteio.
Cleusa não; tranquila. Essa manha, essa birra das crianças. Não estão acostumadas a perder. Mas um dia – ela sente – sua carta vai ser premiada. Ela vai continuar mandando, toda semana. Abriu o armário atrás de três copos. Um de vidro e dois de plástico. Pôs na mesa. Olhou de novo para os dois filhos. Na Tv, o programa já havia acabado para dar lugar à novela das 7. Ora, quem traz a alegria para todos os meus dias? Meus filhos, é claro! Uma lembrança tão simples e boba a fez sorrir.
E, sorrindo, chamou os pequenos para tomarem café.
24 de janeiro de 2010
Mania de Janice
Dia sim, dia não, Janice encomendava um telegrama para o Manuel.
Manuel, homem forte, trabalhador e sóbrio.
Janice, moça discreta e silenciosa, apesar de inquieta.
E Manuel, no meio da tarde, recebia as letras da amada Janice:
* manu as coisa muda-muda etern por aki
Aí ele cismava: ficava emburrado. Como podia! Como podia ele entender aqueles troços!
E ligava pra Janice:
- ô, mulher! Que coisa é essa de E-T-E-R-N?
Do outro lado, Janice pensava na eternidade enquanto secava a louça e escolhia as palavras para devolver ao Manoel:
- tua voz é tão bonita. continuas tão forte como ela, manoel?
E o homem ficava com mais raiva: queria entender as letras, queria entender o porquê de Janice sempre lhe mandar os malditos telegramas, quando podia simplesmente ligar para ele.
- Mas, meu deus, Janice! Ligue pra mim. Escreva-me uma carta, que seja! Mas pare de me mandar essas palavras picadas e miúdas. Isso é loucura!
Janice, sempre serena, explicava que gostava daquilo. Manuel não entendia
- Eu não adivinho, Janice- Falava de um jeito meio chateado, fraco. Depois voltava a subir o tom da voz - E outra! pra quê repetir "muda-muda"? Ora, se é pra economizar, por que repete-se?
A isto, Janice respondia, em outras tardes quentes, com outros telegramas:
* manu mudaram nov. aprendi c vc q precisamo nos preenche
E do outro lado da tarde quente, Manuel rasgava o papel. Depois se arrependia. Ora, isso era provocação dela. Era manha. Alguma moda, só podia!
Ligou pra ela:
- Ô, Janice, amada, diga as coisas com todas as letras pra mim, Janice! Explicadas, desenhadinhas, um-mais-um, ô Janice, eu não sou adivinho pra entender essas meias-palavras!
E Janice, sossegada, ouvia Manuel ao mesmo tempo que lembrava trechos de uma música da sua infância. Era bonita, a canção. Música miúda com gosto de manhã. Coisa boa, relembrá-la, justo agora. E Janice sorria.
- Manuel, querido. É simples. Tudo está dito ali.
- Mas eu não entendo esses buraco nas frases!
- Ara, encha com alguma coisa!
Nesses momentos, Manuel julgava-a louca. Mas gostava dela, era bonita, educada, tão tranquila, tão mulher. Por isso, ainda esforçava-se para mudá-la. E sempre dizia:
- Eu não sou adivinho.
Enquanto isso, Janices, carteiros, telegramas e tardes.
* manu-manu-manu eis a tarde eis o gosto q ela tm
E o Manuel, pobre manuel, encolhia-se, afundava-se nos buracos
- Deus do céu, ela repetiu 3 vezes meu nome, ao mesmo tempo que abreviou coisas.
Aí já era demais. Começou a desconfiar da saúde mental de Janice. Ela, Janice, tão simples, com aquelas manias de ausências e inutilidades. Quanta bobagem. Largou seu trabalho (era ferreiro) e foi até a casa de Janice. Duas da tarde, com certeza, ela estaria à janela costurando. Pelo menos, era isso que Manuel imaginava, já que este era o hábito de toda moça da região. Na verdade, o que Janice sempre fazia nessa hora era ler um livro. Ou então, olhar os desenhos que a chuva e o vento faziam no quintal, após grande chuva. Ou então, olhar as pessoas passando na rua e imaginar as transformações que sofriam após virarem a esquina. Sim, menina passava por ali, sob a janela de Janice, caminhando jeitosa. Mas assim que virava a esquina, saía dançando frevo com o resto do povo. Menino sapeca passava atrás do cão. Virava a esquina e... xi! Menino virava cão, juntava-se ao amigo e saíam por aí. Casal de amigos passavam de braços dados. Vinha a esquina, e o casal se atracava com toda a força contra os postes ou então apoiados nos corpos daqueles que ficam parados ali na calçada (um policial, um mendigo, uma senhora distraída), sem nada a fazer. Janice imaginava e via tais transformações. Eram essas coisas que Janice fazia ali pelas duas horas da tarde.
Mas nessa tarde, Manuel, sempre sóbrio, chegou esbaforido e nada encontrou. Casa fechada, sem Janice na janela, sem Janice na soleira. sem Janice no jardim. dentro dele bateu uma raiva. uma mania de Janice? ficou com saudade. com raiva. com preguiça. onde estaria Janice?
Janice estava nos correios. Mas isso Manuel só ficou sabendo no dia seguinte. estava trabalhando, ferreiro, ferrando-se, ferreando, quando recebeu o telegrama. Janice, mania de Janice.
Com as mãos sujas, ansiosas, pegou imaginando mil palavras, repetições e abreviaçãoes. Mil vezes a louca Janice. A miúda e simples Janice:
*Tchau.
Só isso. Tchau. Janice tinha ido embora. Casa fechada. Não adiantou o desespero e a raiva: Janice sumiu. Manuel caiu no desconsolo. Por quê? Por quê ela fazia aquilo? Por quê fez mais isso, agora? Manuel caiu em perguntas e mais perguntas feitas de ferro.
No outro dia, o último telegrama de Janice. De muito longe, o último telegrama de Janice para completar a história. Desta vez com todas as letras:
*Desentorte-se Manuel Solde-se Manuel Adivinhe-se
Manuel sentou-se. Ficou a pensar a chorar. Todas as palavras estavam ali. Ou não.
Manuel, homem forte, trabalhador e sóbrio.
Janice, moça discreta e silenciosa, apesar de inquieta.
E Manuel, no meio da tarde, recebia as letras da amada Janice:
* manu as coisa muda-muda etern por aki
Aí ele cismava: ficava emburrado. Como podia! Como podia ele entender aqueles troços!
E ligava pra Janice:
- ô, mulher! Que coisa é essa de E-T-E-R-N?
Do outro lado, Janice pensava na eternidade enquanto secava a louça e escolhia as palavras para devolver ao Manoel:
- tua voz é tão bonita. continuas tão forte como ela, manoel?
E o homem ficava com mais raiva: queria entender as letras, queria entender o porquê de Janice sempre lhe mandar os malditos telegramas, quando podia simplesmente ligar para ele.
- Mas, meu deus, Janice! Ligue pra mim. Escreva-me uma carta, que seja! Mas pare de me mandar essas palavras picadas e miúdas. Isso é loucura!
Janice, sempre serena, explicava que gostava daquilo. Manuel não entendia
- Eu não adivinho, Janice- Falava de um jeito meio chateado, fraco. Depois voltava a subir o tom da voz - E outra! pra quê repetir "muda-muda"? Ora, se é pra economizar, por que repete-se?
A isto, Janice respondia, em outras tardes quentes, com outros telegramas:
* manu mudaram nov. aprendi c vc q precisamo nos preenche
E do outro lado da tarde quente, Manuel rasgava o papel. Depois se arrependia. Ora, isso era provocação dela. Era manha. Alguma moda, só podia!
Ligou pra ela:
- Ô, Janice, amada, diga as coisas com todas as letras pra mim, Janice! Explicadas, desenhadinhas, um-mais-um, ô Janice, eu não sou adivinho pra entender essas meias-palavras!
E Janice, sossegada, ouvia Manuel ao mesmo tempo que lembrava trechos de uma música da sua infância. Era bonita, a canção. Música miúda com gosto de manhã. Coisa boa, relembrá-la, justo agora. E Janice sorria.
- Manuel, querido. É simples. Tudo está dito ali.
- Mas eu não entendo esses buraco nas frases!
- Ara, encha com alguma coisa!
Nesses momentos, Manuel julgava-a louca. Mas gostava dela, era bonita, educada, tão tranquila, tão mulher. Por isso, ainda esforçava-se para mudá-la. E sempre dizia:
- Eu não sou adivinho.
Enquanto isso, Janices, carteiros, telegramas e tardes.
* manu-manu-manu eis a tarde eis o gosto q ela tm
E o Manuel, pobre manuel, encolhia-se, afundava-se nos buracos
- Deus do céu, ela repetiu 3 vezes meu nome, ao mesmo tempo que abreviou coisas.
Aí já era demais. Começou a desconfiar da saúde mental de Janice. Ela, Janice, tão simples, com aquelas manias de ausências e inutilidades. Quanta bobagem. Largou seu trabalho (era ferreiro) e foi até a casa de Janice. Duas da tarde, com certeza, ela estaria à janela costurando. Pelo menos, era isso que Manuel imaginava, já que este era o hábito de toda moça da região. Na verdade, o que Janice sempre fazia nessa hora era ler um livro. Ou então, olhar os desenhos que a chuva e o vento faziam no quintal, após grande chuva. Ou então, olhar as pessoas passando na rua e imaginar as transformações que sofriam após virarem a esquina. Sim, menina passava por ali, sob a janela de Janice, caminhando jeitosa. Mas assim que virava a esquina, saía dançando frevo com o resto do povo. Menino sapeca passava atrás do cão. Virava a esquina e... xi! Menino virava cão, juntava-se ao amigo e saíam por aí. Casal de amigos passavam de braços dados. Vinha a esquina, e o casal se atracava com toda a força contra os postes ou então apoiados nos corpos daqueles que ficam parados ali na calçada (um policial, um mendigo, uma senhora distraída), sem nada a fazer. Janice imaginava e via tais transformações. Eram essas coisas que Janice fazia ali pelas duas horas da tarde.
Mas nessa tarde, Manuel, sempre sóbrio, chegou esbaforido e nada encontrou. Casa fechada, sem Janice na janela, sem Janice na soleira. sem Janice no jardim. dentro dele bateu uma raiva. uma mania de Janice? ficou com saudade. com raiva. com preguiça. onde estaria Janice?
Janice estava nos correios. Mas isso Manuel só ficou sabendo no dia seguinte. estava trabalhando, ferreiro, ferrando-se, ferreando, quando recebeu o telegrama. Janice, mania de Janice.
Com as mãos sujas, ansiosas, pegou imaginando mil palavras, repetições e abreviaçãoes. Mil vezes a louca Janice. A miúda e simples Janice:
*Tchau.
Só isso. Tchau. Janice tinha ido embora. Casa fechada. Não adiantou o desespero e a raiva: Janice sumiu. Manuel caiu no desconsolo. Por quê? Por quê ela fazia aquilo? Por quê fez mais isso, agora? Manuel caiu em perguntas e mais perguntas feitas de ferro.
No outro dia, o último telegrama de Janice. De muito longe, o último telegrama de Janice para completar a história. Desta vez com todas as letras:
*Desentorte-se Manuel Solde-se Manuel Adivinhe-se
Manuel sentou-se. Ficou a pensar a chorar. Todas as palavras estavam ali. Ou não.
6 de setembro de 2009
(E) História (s) da (s) Pátria (s)
notas de rodapé para um livro grosso e amarelo, repleto de desenhos e traças.
1 É tal a pobreza da contemporaneidade, que já fazemos paródias de paródias. Já nos faltam originais para gozar.
2 Para entendermos melhor o pensamento demoderno do brasileiro, é válido consultar uma obra rara que serviu de base para a formação - ideológica, moralógica, sexualógica e ilógica - do país. Chama-se Bíblia(data, editora e autores desconhecidos). Livro raro (há variações), pode ser encontrado em alguns museus móveis e arquivos históricos (alguns recentemente construídos).
3 À guisa de prefácio: esse livro que tens em mãos, não-leitor, é útil (modéstia à parte) por ser um compêndio sem qualquer palavra. Um livro cheio de desenhos e traças. Em resumo: um livro bem-traçado.
4 O continente americano é dividido em três regiões: a televisiva, a cartográfica e a porsisó. Regiões repletas de subsubsubdivisões, exceto a última. América Porsisó: pedregulho cheio de rachaduras a rolar pelo planeta.
5 Quando tomou essa decisão máxima, consumia-o uma forte apreensão. E ele - o líder-mor - sempre sóbrio em sua ociosidade, tomou sua decisão. Dose única. Mas embriagadora.
6 O lema de D. Manuel era 500 anos em 5.
7 A ditadura refletiu a fragmentação das classe sociais do país.
A ditadura (dura para uns)
A ditadura (dita dura somente, para outros)
foi um período de redeocompressão. Nesse sentido, é interessante obervar o caráter prefixal da memória do povo brasileiro, que às vezes parece esquecer o radical dessa palavra dita tão dura.
8 Há outra variação (mais brasileira) para essa frase: futebolis et televicenses (sem panis)
9 Ibidem. Idem. demo. Nota Benne. Abissus Abissum invocat.
10 História ou Estória do Brasil?
11 Talvez quem trilhe o melhor caminho para chegar às raízes da violência que acomete o ser humano seja o romanciólogo Nelson Rodrigues.
12 Menino Brasil jogou punhados de sal sobre a lesma Paraguai e ficou se rindo.
13 Se Malthus tivesse conhecido o Brasil, revisaria (ou queimaria) seus escritos.
14 farda fardo
fado fado
estou farto, eles estão fartos
Se o povo brasileiro soubesse o mínimo de gramática, a história seria outra.
15 Um paradoxo brasileiro está na pergunta-chave:
Se há tanta violência gratuita
por que, então, há tanta pobreza?
1 É tal a pobreza da contemporaneidade, que já fazemos paródias de paródias. Já nos faltam originais para gozar.
2 Para entendermos melhor o pensamento demoderno do brasileiro, é válido consultar uma obra rara que serviu de base para a formação - ideológica, moralógica, sexualógica e ilógica - do país. Chama-se Bíblia(data, editora e autores desconhecidos). Livro raro (há variações), pode ser encontrado em alguns museus móveis e arquivos históricos (alguns recentemente construídos).
3 À guisa de prefácio: esse livro que tens em mãos, não-leitor, é útil (modéstia à parte) por ser um compêndio sem qualquer palavra. Um livro cheio de desenhos e traças. Em resumo: um livro bem-traçado.
4 O continente americano é dividido em três regiões: a televisiva, a cartográfica e a porsisó. Regiões repletas de subsubsubdivisões, exceto a última. América Porsisó: pedregulho cheio de rachaduras a rolar pelo planeta.
5 Quando tomou essa decisão máxima, consumia-o uma forte apreensão. E ele - o líder-mor - sempre sóbrio em sua ociosidade, tomou sua decisão. Dose única. Mas embriagadora.
6 O lema de D. Manuel era 500 anos em 5.
7 A ditadura refletiu a fragmentação das classe sociais do país.
A ditadura (dura para uns)
A ditadura (dita dura somente, para outros)
foi um período de redeocompressão. Nesse sentido, é interessante obervar o caráter prefixal da memória do povo brasileiro, que às vezes parece esquecer o radical dessa palavra dita tão dura.
8 Há outra variação (mais brasileira) para essa frase: futebolis et televicenses (sem panis)
9 Ibidem. Idem. demo. Nota Benne. Abissus Abissum invocat.
10 História ou Estória do Brasil?
11 Talvez quem trilhe o melhor caminho para chegar às raízes da violência que acomete o ser humano seja o romanciólogo Nelson Rodrigues.
12 Menino Brasil jogou punhados de sal sobre a lesma Paraguai e ficou se rindo.
13 Se Malthus tivesse conhecido o Brasil, revisaria (ou queimaria) seus escritos.
14 farda fardo
fado fado
estou farto, eles estão fartos
Se o povo brasileiro soubesse o mínimo de gramática, a história seria outra.
15 Um paradoxo brasileiro está na pergunta-chave:
Se há tanta violência gratuita
por que, então, há tanta pobreza?
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