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15 de janeiro de 2012

trecho de uma carta de Flaubert

endereçada ao amigo Alfred Le Poittevin. Carta de Maio de 1945, quando Flaubert contava 23 anos.

"Procuro passar o tempo da maneira menos tediosa, e achei como. Faça como eu: rompa com o exterior, viva como um urso - um urso branco - deixe que tudo se dane, tudo e você junto, mas não sua inteligência. Existe agora um intervalo tão nítido entre o que sou e o resto do mundo, que me espanto às vezes de ouvir dizer as coisas mais naturais e mais simples. A palavra mais banal me deixa às vezes em singular admiração. Há gestos, sons de vozes dos quais não me recupero, e tolices que me dão vertigens. Você já escutou alguma vez atentamente as pessoas falando numa língua estrangeira que você não entendia? Comigo é assim. à força de querer compreender tudo, tudo me faz sonhar. Parece-me no entanto que essa estupefação não é estupidez. O burguês, por exemplo, é para mim qualquer coisa de infinito. Você não pode imaginar o que o apavorante desastre de Monville me causou. Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo."


tradução de Duda Machado.
"Cartas Exemplares", Editora Imago.


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Morri de paixão.

4 de janeiro de 2012

uns versos de emily dickinson

The only new I know
Is bulletins all day
From Immortality.

As únicas notícias que tenho
São boletins o dia todo
Da Imortalidade


Mon Dieu. Emily vivia numa região erma (Amherst é o nome da localidade, não sei em que estado, E.U.A). Em suas cartas, refere-se sempre a seu cachorro, a seus passeios pelo campo, a uma castanheira pela qual se apaixonou. E é isso. Vivia reclusa, com poucos contatos. Daí a entrega total a seu novo amigo, o político e escritor Thomas W. Higginson, para quem a poetisa escreve a primeira carta em 16 de Abril de 1862. Manda versos e pede uma avaliação de Thomas, nome reputado na época. Dickinson gostava de seus artigos.
Essa amizade é contada de forma breve em "Algumas Cartas", livro que li com grande prazer. Porque se percebe que dickinson era poeta por inteiro. suas cartas não se dissociam de seus poemas, uma coisa só.
melhor que tentar dizer, é mostrar. o começo de uma.

"Caro Amigo - Uma carta sempre me dá a sensação de imortalidade, porque é a mente sozinha sem o amigo corpóreo"


E é engraçado (não é engraçado) você ler os versos ali acima, fechar o livro e dar de cara com milhões de boletins mortos. A saber: placas de carro, de ônibus, escritos em camisetas, outdoors, etcéteras, e toda essa tralha que infesta os olhos.

Fonte: Algumas Cartas: Cartas de Emily Dickinson a Thomas Wentworth Higginson. Editora Noa Noa, 1983. Tradução de Rosaura Eichenberg.