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7 de setembro de 2021

"Coliseu Tropical" e os poemas de acordar




Em sua coluna poética para o Jornal do Brasil, Mário Faustino selecionou e observou diversas correntes da poesia brasileira e de outras nações. Ao comentar a poesia social, a partir do panorama norte-americano, falou sobre poetas competentes que "documentam e celebram uma época (...) poetas que 'promovem' a poesia, poetas cujos poemas podem ser lidos, declamados ou cantados". Um comentário tímido, quase a defender do esquecimento¹, no vasto mar das vanguardas, àqueles que se propõe a cantar os dilemas das cidades com viés participativo, buscando mobilizar o leitor-cidadão, sem perder de vista as graças do canto. O poeta social brasileiro remonta a antigas linhagens de nossa poesia, especialmente a satírica, de Gregório, Gonzaga, até os arroubos românticos contra a injustiça social, observada em Castro Alves e outros companheiros de sua geração. Tome-se, por exemplo, esse trecho extraído de Maria Firmina dos Reis, contemporânea de Alves, em poema condoreiro no qual o eu-lírico se dirige a um jovem poeta:

"(...)
Canta, poeta, a liberdade, ─ canta.
Que fora o mundo sem fanal tão grato…
Anjo baixado da celeste altura,
Que espanca as trevas deste mundo ingrato.
Oh! sim, poeta, liberdade, e glória
Toma por timbre, e viverás na história.
Eu não te ordeno, te peço,

Não é querer, é desejo;
São estes meus votos ─ sim.
Nem outra coisa eu almejo.
E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,
Ver-te poeta ─ e morrer."

A defesa insistente pela liberdade dos poetas românticos deve ser lida à luz do contexto escravista, sustentado pelo liberalismo em voga; e aqui  Alfredo Bosi nos lembra que comércio livre, dentro da ideologia reinante no final do século XIX, não significava necessariamente trabalho livre.  Isso posto, a superação do falso paradoxo liberalismo-escravismo e o estudo da evolução dessas ideias até o presente são condições para se ler a poesia que hoje encara os mil faces neoliberais, todas elas nem um pouco encabuladas com a história de manutenção da exploração servil que se arrasta no Brasil, dada sob a forma, hoje ainda!, do trabalho escravo, das (cada vez mais) múltiplas formas de subemprego, da tentativa insistente de afastar mulheres do mercado, bem como perseguição violenta às populações negras e indígenas e o ataque aos movimentos sociais, todos atos que organicamente fazem parte desse mesmo sistema econômico a ser combatido. O poeta social do século XXI, então, está saturado de história, compondo canções de acordar, já que é impossível para este dormir, em um país cuja educação, precarizada e sabotada, faz questão de propagar narrativas colonialistas para manter as máquinas girando. Entre outros atordoantes poemas de "Coliseu Tropical", quinto livro de Viegas Fernandes da Costa, destaca-se este "A MÁQUINA", que sonoramente envolve o leitor em uma armadilha mecânica:

A máquina mói a gente
A gente cansa da máquina.
Mas a máquina, que não tem nervo nem músculo,
que põe a gente minúsculo,
esta não cansa da gente.
E seu ranger de cerrados dentes e azeitadas engrenagens,
e seu torcer persistente,
primeiro põe a gente doente,
depois desistente 
como um velho cuco sem vida.


O ano é 2021 e ainda, outra vez mais, cabe-se fazer uma poesia do prosaico e circunstancial; a despeito de leituras que contestam a possibilidade de se atrelar o discurso poético a qualquer territorialização, impõe-se ao poeta a necessidade de construção de um contradiscurso ao feixe discursivo, via publicidade, artes espetaculares, telejornais, redes sociais, escolas, etc, que moldam as massas ao gosto fascista no Brasil dos anos Bolsonaro (2018-2022?). Para resistir, a memória histórica e a individual convergem nesse livro, frequentemente pelo recurso da crônica e da narrativa, dado o objetivo do autor de relembrar a quem o lê acerca de outras formas de vida e relação com Gaia. Aliás, a palavra "terra" (terra como pertencimento, terra a ser ambientalmente protegida, como territórios imaginários da infância, como objeto da luta de classes, terra como solo) tem seus sentidos vários amplificados nessa obra, não só porque "o campo é nosso coliseu tropical", como o autor comprova a partir de diferentes olhares - sempre meticulosos, ancorado na leitura e anotação - para a história de SC (O nome Desterro aqui ganha força ao invés de Florianópolis) e do BR, mas também pela consciência de que, a despeito da incessante evolução tecnológica, cuja estetização e espetacularização são tão caras ao Estado necropolítico², nunca deixamos de ser barro, em contínuas trocas com a natureza:

VII MIGRAÇÃO

hoje sonhei contigo
estávamos sentados sobre as dunas
pescando o mar
duas baleias descansavam serenas
com seus filhotes
e a brisa nos devolvia os corpos
(...)

Logo, ao invés de celulares, o livro de Viegas contrapõe experiências lúdicas/corporais ("Eu que chutei latas de azeite na rua"[...]): são muitos os caminhadas/encontros (como as visitas do Ornitorrinco) nas imagens desse livro,  assim como as referências à transmissão oral de saberes, ou ainda os bilhetes como pontes de contato, como ocorre em "BILHETES QUE ERNESTO ENVIOU PELOS CORREIOS EM ENVELOPES COM ENDEREÇO DO REMETENTE DESCONHECIDO; os poemas-personagens, aliás, cumprem um papel importante em um livro que frequentemente se mostra referencial/denotativo, desaliviando o efeito cumulativo por meio do aforismo, do humor e da fábula.  Essa intenção circunstancial, transparecida  nas contínuas alusões nos poemas, e guiada por meio das "Explicações desnecessárias", ao final do livro, onde se referenciam alguns pontos de partida, parte deles extraídos do noticiário nacional, mas também outras da observação da natureza, bem como estudo da história e literatura de Santa Catarina, ou ainda extratos da memória, uma das forças motoras desse livro - essa intenção é o contraponto natural ao desejo de fazer da poesia um instrumento de intervenção no real. Esse processo pode ser percebido em diferentes momentos da poesia catarinense, mesmo antes da década de 60, quando o termo poesia social passa a concorrer (por mais discutível que o seja) com outros movimentos poéticos localizados naquele momento, ainda que não tenha contornos precisos quanto à forma. Afinal, não se trata de aderir a alguma moda, mas alçar a palavra à condição de discurso/debate, entendido como ação, algo percebido em parte da poesia significativa do simbolista Cruz e Sousa ou nas poéticas de Trajano Miranda e Ildefonso Juvenal no começo do século XX. A partir dos anos 60, as referências dessa poesia multiplicam-se³ pelo estado, inclusive na Blumenau, cidade natal de Viegas, com a poesia atuante de Lindolf Bell (poeta maior, Bell é uma referência declarada pelo autor de "Coliseu Tropical"), não apenas pelo conteúdo/forma dos textos mas também pelas iniciativas, junto com Alcides Buss, de divulgação da palavra poética - ação, enfim. Dessa forma, um sentimento de urgência/obrigação leva, por vezes, o poeta a abrir mão de outras poéticas, desinteressadas na missão de intervir diretamente no real por meio do registro crítico do que se passa em determinados datas/locais, para tentar acertar/acordar os habitantes desse aqui-e-agora:

"Tem este lugar onde o dia nasce poesia e clichê. Onde o dia nasce promessa. Onde o dia veste um pote de margarina. O diabo é que sempre há, na padaria da esquina em que tomo meu café, um televisor ligado no telejornal."

Chama a atenção o papel central que as leituras da história exercem no livro de Viegas. São frequentes na obra, por exemplo, as alusões a Canudos e Contestado, episódios em geral mal compreendidos pela população brasileira, cuja instrução formal, controlada pelo Estado-algoz, esforçou-se por ocultar ou adulterar a compreensão de duas das maiores tragédias do país. Para Rosa e Trevisan⁴, "discutir a Guerra do Contestado enquanto biopolítica é uma tarefa desafiante, já que não houve uma valorização consequente do acontecimento, porque o sofrimento e as barbáries não foram suficientemente elaborados e transformados em um valor cultural.". É, então, num campo marcado pela alienação histórica, circunscrito em um estado construído sobre violências recobertas por narrativas fantasiosas colonialistas, que Viegas - professor e historiador- joga, sempre buscando mostrar ao leitor quão integrados estão (não se tratam, como pode parecer, de "pontas") fatos históricos de um certo passado e um certo presente, que não pode ser lido de forma anacrônica - a criança morta à praia, como peixe, não está distante, sob uma arbitrária construção histórica, dos homens e mulheres mortos no Congo em nome da expansão colonial, posto que o mesmo sistema econômico as produziu, este mesmo que segue aí lançando celulares cada vez mais leves e mais funcionais:

"Presidente que manda atirar em cidadãos brasileiros é coronel", está escrito na ficção de Donaldo Schüler. O império caboclo de João e Zé Maria, Teodora e Maria Rosa, de Adeotado o flagelo de Deus. Dez mil mortos nas contas dos generais brasileiros que - e pandemia do século vinte nos mostrou - não sabem contar. Dez mil mortos apagados da biografia do Brasil escrita pelas historiadoras Lilia Schwarz e Heloisa Starling. Era o ano de mil novecentos e doze nas terras do Contestado. O dragão de ferro arrebentando a mata e ferindo a terra, o gafanhoto de aço semeando a morte. Pela primeira vez na história botaram gafanhotos de aço para semear a morte no céu. Na conta dos olhos que viram a terra calcinada, nove mil foram as casas queimadas, vinte mil as vidas humanas destruídas pelo Estado nacional.  

E assim, pensando o agora a partir do olhar para o passado, Viegas Fernandes da Costa "prevê" o futuro também, afinal é sabido, por quem ainda guarda algum senso, o esgotamento de recursos que fatalmente marca a continuidade da expansão da doutrina neoliberal pelo país. Esse poema, por exemplo, foi publicado antes do início do alargamento da faixa litoral de Balneário Camboriú e, mesmo não retratando diretamente esse fato, bem que o poderia ser. "Coliseu Tropical" é, pois, um retrato em movimento de um país, com seus estados e cidades tropicais, e um convite ao acordar para a tarefa de se repensar seu destino, partícipes que somos dessa história:

Tudo deságua nesse mar
o sol, os barcos, a lama
Também nossa infâmia
é alimento dos teus peixes
Nossa tristeza diluída nos rios
capilares de tua existência
Nossa insônia, gula, falta 
esparramada em tuas praias
no profundo dos teus abismos
onde brilham coloridas
assustadas aberrações.


¹ Não faltam exemplos de olhares preconceituosos da crítica literária a textos com viés participativo/social; vide, por exemplo, o modo como Antonio Hohlfeldt analisa as obras de Alcides Buss e Carlos Damião em "A literatura catarinense em busca de identidade", associando "madureza" de estilo ao desenvolvimento de outros temas que não o social.

² Para usar termo extraído dos versos do autor, cujos poemas estão repletos de referências da Literatura, História, Filosofia, etc.

³ Muitos nomes devem ser lembrados por algum estudo amplo que mapeie essas poéticas. Alguns ainda pouco lidos e pouco estudados como, por exemplo, Maura Senna Pereira e Ildefonso Juvenal.

 ⁴ROSA, Geraldo Antonio da Rosa; TREVISAN, Amarildo Luiz. BIOPOLÍTICA NA CATÁSTROFE DO CONTESTADO: CONTRIBUIÇÕES PARA REPENSAR A FORMAÇÃO DE PROFESSORES. Disponível em: http://www.anpedsul2016.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2015/11/eixo12_GERALDO-ANTONIO-DA-ROSA-AMARILDO-LUIZ-TREVISAN.pdf

6 de junho de 2021

Os muitos mergulhos de "poço certo"

                                                             


    No texto 4# sobre obras da literatura catarinense publicadas nos últimos anos, um mergulho breve em "poço certo", primeiro livro de poemas do historiador e curador Fernando Boppré. Um bom livro começa por um bom título: ambíguo e sonoro, "poço certo" remete o leitor de imediato a uma série de referências e possibilidades interpretativas, desde aquelas ligadas ao senso comum e à cultura de massa, como a ideia de se estar no fundo do poço, que representa o estado degradante de tantas instituições brasileiras neste momento de nossa história, e que também se estende à percepção de muitas pessoas em face das doenças mentais, sobretudo nesses dois anos de pandemia da covid-19, até um diálogo possível com obras e conceitos da tradição filosófica e literária: Poe, Nietzsche, Irmãos Grimm, etc, por se tratar de uma metáfora ligada à profundidade e ao desconhecido e, no caso particular do título de Boppré, acrescida também de uma certa inevitabilidade também, o que acentua a ambiguidade: o destino a um tempo desconhecido e certo de quem nele se aventura. O poço, contudo, por mais fundo e certo, nem sempre é fatal, como se lê em Neruda

Si cada día cae
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad está encerrada.


Hay que sentarse a la orilla
del pozo de la sombra
y pescar luz caída
con paciencia.  


(Pablo Neruda - Últimos Poemas)

    No lançamento da obra, realizado em 2020, promovido pela Caiaponte Edições, a partir de poemas escritos pelo autor anos antes, o autor destacou a história de composição dos poemas, atrelando às leituras possíveis a tematização da experiência com a depressão, e identificando a origem do título no nome de uma localidade situada nos limites de Alfredo Wagner, cidade no interior de SC. A explicação do título ready-made, tomado de empréstimo de uma gruta, naturalmente, não limita a potência desse nome, que aponta para alguns saltos e mergulhos dados no livro: quer seja para dentro de episódios históricos de Santa Catarina, ou para dentro de um quadro, ou para dentro de si mesmo, nos poemas em que o eu-lírico se revela explicitamente. Aliás, esse pode ser um dos percursos a se tomar na leitura desses textos: o confronto entre uma perspectiva íntima e particular da realidade e a análise meticulosa desta, às vezes mais sob uma ótica fisiológica do que racional, como se evidencia na primeira das 4 partes do livro, "Evidência e Extensão". Nesse primeiro quarto, prevalece a descrição e observação de elementos concretos, em diálogo direto com a poética cabralina, assinalado sobretudo no poema "Rock", no qual Homem (barro) e Rocha são confrontados por meio de sintaxe concisa e dura, forjada na escola das facas do poeta pernambucano. Em outros poemas desse segmento, cede o poeta às metáforas como no belo poema "Oceano":


A vasta e única extensão a que chamam
Mar não passa de Pasto afundado em
Sal e Água, corcunda que no Horizonte
se abaixa; desaparece e faz lembrar que
Lá longe se erguerá
E passará a se chamar
Continente

    Os recursos utilizados nessa primeira parte são bem variados, entre eles a composição de haikais com observações entomológicas no par "A infame cigarra"/"Achado", e também textos no qual se sobressai o olhar do historiador de Arte, novamente comprometido com o ready-made/colagem, ao apresentar, em "Pierre Prins', um fragmento em prosa com análise da técnica utilizada pelo pintor (parágrafo 1) e do entrelaçamento do conteúdo e forma, via técnica, e que surpreende o leitor em um novos mergulhos: dentro da luz do quadro/poço e do conceito de Representação. A presença do Eu se afirma explicitamente em outros poemas, como no par "Balneário I - só" e "Balneário II - grupo", às vezes de modo quase abrupto, como em "Gralha", que celebra as falastronas aves que compõem a geografia sulista, ameaçadas pelo desaparecimento das araucárias de nossa paisagem. "Crime  de desejo", "Cracas & Naves" e "Entrada" (em que a forma do poema sustenta, escora da linguagem melódica, o confronto entre as forças do peso e da gravidade) são alguns exemplos de como as mais elaboradas construções desse primeiro segmento (e do livro) afastam-se do discurso subjetivo, ainda que haja ali um olhar e, por vezes, uma fala, nos trechos em que, por meio do aforismo, o eu-lírico historiador/crítico/observador curioso da natureza insinua-se,  contribuindo para a leitura que, até então, então se fazia da realidade sob um ponto de vista objetivo/meramente óptico. Na segunda parte da obra, "Gente", o Eu tem espaço para se multiplicar em autorretratos e também em gestos de aproximação com pessoas próximas, como em "A partida"/"Arquivo", ou desconhecidas/afastadas em "Alto da costa", parceria com Giba Duarte, que impõe uma reflexão sobre algumas consequências desastrosas da modernidade - especificamente, nesse caso, da paisagem catarinense, o que enriquece a experiência de leitura desse livro em nosso estado. Aqui nesse segundo quarto está "Crime de desejo", uma bonita leitura/elogio à obra densa, poço profundo, composta pelo romancista Lúcio Cardoso, que nos remete à superioridade de algumas composições mais impessoais dentro do conjunto de poemas do livro. No caso desse poema, há novamente o exercício da colagem (mas sempre com materiais e estilos diversificados, o que engrandece o saldo final), ao justapor um comentário crítico sobre o autor a um trecho de sua obra. Não é o único poema que recorre com simplicidade e precisão à citação; podemos destacar aqui também a bela metáfora transcrita em "A história é o gesto com que passamos a manteiga no pão" - presente na terceira seção do livro "Vicissitudes"; poemas que remetem o estilo do autor a outro bardo-crítico conhecido pela versatilidade, Sebastião Uchoa Leite, que, entre outros procedimentos intertextuais, copiou e colou obras visuais em seus poemas. 

    No terceiro quarto do livro, repetem-se temas e recursos do anterior, e aqui novamente um Eu que ora se oculta em prol de perspectivas inesperadas, como a viagem por dentro de uma história da filofofia e das religiões em "Era Axial", ora se assume, muitas vezes pelo viés da autoironia, como no interessante texto que fecha o segmento, "A experiência de L-F. Céline", a partir de uma alusão ao gênio controverso. O tom confessional atinge aqui sua plenitude ao se conectar ao último quarto do livro, "Epílogo", que traz apenas uma página contendo dois fragmentos parafraseados da obra de Robert Walser e Walt Whitman, chaves que indicam o sofrimento que acompanhou o autor na construção da obra e da reflexão do artista, experimentada nos três primeiros quartos do livro, sobre a relação tensa entre Subjetividade, Captação/Apreensão da realidade e os caminhos da Representação na criação poética. Podemos ver isso em poemas distribuídos nas 3 partes primeiras em vários textos, como na bela construção visual de "Doze eixos", em novas críticas à realidade social e a um certo (certos?) conceito de História, e também neste a seguir (de "Vicissitudes), em que a narrativa breve humorística simula um salto rápido e profundo no poço certo da Criação, e que por isso bem poderia integrar-se à família dos textos galeanescos em "O Livro dos Abraços":

Carlos Ap

Alguns partes do pouco,

do quase nada.

Carlos Asp é um deles.

Artista, diz, inconformado, 

não ser preciso voltar

ao gênero da Paisagem

na pintura:

"Mas se eu já estou Nela?"

Em seus desenhos ele fala

Do céu, do azul, do mar verde,

Das pedras negras na areia grossa.

Tem vez lembra dos black holes,

Que conhece com a profundidade

De astrólogo, poeta e pecador.


12 de maio de 2021

Verde, Amarelo, Azul e Ódio



Lançado em janeiro de 2021, ano II da pandemia do
coronavírus, em Florianópolis, "Verde, Amarelo, Azul e Branco", editado de modo independente pelo autor, espelha a ignorância e ausência de empatia dos catarinenses no momento mais grave de sua história.

Na capa do livro, um pássaro morto sugere as cores de uma certa bandeira esquecida. O peito esmagado, ele mesmo bandeira, previne o seu expectador acerca da crueza que lhe aguarda. A profunda humanidade da prosa de Marco se materializa na construção de narrativas, aqui, muito próximas dos leitores. Se em seus livros anteriores já se observava o constante entrelaçamento dos gêneros conto e crônica (do qual se destacam textos como "Agarrar os silêncios" e "O estupro de Madhyamgram", de "Carnaval de cinzas", 2016, Editora Redoma) aqui essa mescla é forjada por meio de narrativas curtas, marcadas por períodos curtos e tensos - é a tentativa de ligação direta com o coração anônimo daqueles que, pelas timelines e caixas de comentários das redes sociais, exibem com orgulho um órgão de lata destituído de empatia pelos sofrimentos dos outros seres vivos. O permanente estado de angústia e estresse ocasionado pela pandemia que assola o começo deste século aproxima ainda mais o leitor dessas ficções-realidade - intenção para a qual colabora o vocabulário enxuto. Uma economia, aliás, importante em tempos de exaustão, pois, como Marco afirma em recente crônica para o Desacato, portal no qual mantém uma coluna, há um esgotamento de notícias. Há um esgotamento de pronúncia, pois estamos, há mais de um ano, numa nota infeliz e numa tarefa hercúlea de conscientizar as pessoas da necessidade urgente de haver muito cuidado uns com os outros. Diante desse estado de crise, o artista, já de antemão em conflito com os leitores, busca dialogar com aqueles que sofrem pelo luto e ainda mantêm firme o pacto coletivo de cuidado mútuo (supostamente um dever de todos), rebela-se contra a horda anticiência e lança luz sobre aspectos sociológicos da pandemia - em "OS HOMENS DETESTAM EUNICE", "A SAGA DE GILMARA" e "NÃO CHOVE NOS OLHOS DE MIRNA", três belos contos trágicos desse livro, evidencia-se a onipresente misoginia nas mais variadas camadas das vidas das protagonistas, que precisam por vezes travar também luta contra a miséria. Esses contos parecem a face inversa daqueles que exibem protagonistas homens propagando vírus e opressões às pessoas a sua volta, sejam crianças, adultas ou idosas - mas com explícita preferência por vítimas femininas. Conforme recente reportagem do portal Catarinas, SC é um dos estados mais feminicidas durante a pandemia. Estamos, pois, diante de um livro de ficções-realidade.

O cuidado com a linguagem no livro também se mostra no verso de Augusto dos Anjos (poeta moderníssimo) escolhido como epígrafe, extraído do belo soneto "Vandalismo" - meu coração tem catedrais imensas; ao passo que acena para a obra de Augusto, um apaixonado pela ciência que conectou Biologia , Filosofia e Arte sob ritmos alucinantes, a referência a Augusto também nos leva a todo um grupo de escritoras e escritores brasileiros, toda a classe artística enfim, que foram pouco lidos e celebrados, silenciados à margem de um sistema literário financiado pelo capital branco e patriarcal, como hoje, de modo análogo, silenciam-se especialistas/pesquisadores em um debate que deveria ser científico, mas é carnavalescamente tocado por apresentadores de tv, prefeitos, governadores, parlamentares e influencers digitais. O belo verso, também, parece nos lembrar que o desassossego  e rebeldia de Augusto dos Anjos dialoga com o estado espírito exaurido em que se encontram aqueles que lutam contra a maré de desinformação, mentiras e ataques sistemáticos a direitos básicos garantidos, fragilmente, por nossa Constituição - em especial a classe artística, que tem, no estado de Santa Catarina, o autor como um de seus principais representantes dada à contribuição de Marco como escritor, diretor, ativista cultural, pesquisador e professor. O livro conecta-se, assim, a "Harmonias do Inferno", que se abre com um verso de Baudelaire, outro rebelde maldito, ao apresentar uma resposta iconoclasta a uma sociedade caótica marcada pela ascensão de políticas neoliberais e desprezo pela vida humana nas mais variadas esferas sociais- e agora, desde 2016, administrada pelos guardiões imbecis de infames projetos de Estado.

Nos contos do livro, os narradores não poupam juízos morais às escolhas e crenças dos protagonistas. No terceiro conto, A MÁSCARA DE TEOBALDO, o personagem principal, um homem de 75 anos, arrogante como seu xará shakespeariano (lembre-se aqui que é entre brancos e idosos que o capitão cloroquina tem mais aprovação mesmo diante dos mil insultos à democracia e à ciência), acaba internado em virtude da contaminação pelo coronavírus. Recuperado após dura internação, continua a propalar discursos negacionistas, chegando ao ponto de ofender familiares que o corrigiam quanto às verdadeiras causas de sua contaminação e doença. A máscara do personagem é retirada ao longo de toda a narrativa, em sua escolha, tal como nas demais histórias do livro, de enfatizar comportamentos irracionais em face da pandemia - e da perspectiva da morte. Não contente com esse caminho discursivo que acentua para o leitor, frase a frase, dos descaminhos estúpidos dos cidadãos-personagens, o narrador emite, ao fim, um juízo de valor definitivo, que cai sobre o leitor como pena - "Teobaldo perdeu o único pingo da razão que o conectava à realidade". No conto anterior, situado no bairro do Itacorubi, a "pena" é ainda mais severa - Vinicius perde os avós, para cuja contaminação contribuiu diretamente ao ignorar o distanciamento social e visitar os parentes idosos. Compreende-se tal escolha estilística - nada desnecessária em uma sociedade surda à verdade científica - com o artista precisando gritar por sobre elaboradas algazarras -, mas notemos que, aqui, em "Verde, Amarelo, Azul e Branco" o julgamento moral explícito de boa parte dos contos contrasta com a composição das narrativas de "Harmonias do Inferno" (Editora Letra D'água, 2010), obra menos condescendente, que resistem como passeios (não guiados, ou melhor, não explicitamente guiados) pelos diversos círculos infernais que se escondem no interior das instituições (em crise) e das pessoas (doentes). Guardadas as diferenças, resta o saldo urgente dessas narrativas que são também cartas, crônicas, manifestos e urros contra um estado de coisas promovido não por vírus, mas por homens - com cor, saldo bancário e endereço. 


11 de março de 2012

Celacanto, peixe jovem


Celacanto, animal emblemático de nome melodioso. Explica Vânia de Campos no texto de apresentação que celacanto seria um peixe que viveu há 200 milhões de anos, com ossos e um peso semelhante a de um homem adulto. “No início deste século, na década de 20, foram encontrados alguns exemplares vivos deste peixe nas profundezas de algum mar do planeta. Estranho – ele não evoluiu. Apresentava as mesmas características que estão impressas nas enciclopédias”.
Resultado da parceria de Antônio Carlos Floriano e Bento Nascimento, ambos de Itajaí (a história desse livro pode ser conhecida aqui), Celacanto é livro de dois poetas jovens, livro de quem dá um passo a mais e atira ao mundo o que sente. Por mais ousados sejam os versos, aqui e ali despontam a insegurança e o anseio de quem vaga à procura de um lugar no mundo. Diz Floriano:

“(...)
Mesmo que saibamos
inventar palavras,
histórias trágicas
mágica paixão.
Temos o medo que não se acaba.
Somos meninos na escuridão.”

A procura é dupla: enquanto busca seu lugar no mundo, também busca um modo de cantar sua odisséia particular. Assim, bons poemas de Floriano (geralmente os curtos) convivem lado a lado com versos  dispensáveis (Não se chora por pouco/Não se pensa em brigar/Quem tanto lutou pela vida/Outra vida melhor vai achar). Falemos dos bons, dos poemas-pistas que carregam dentro de si o poeta que hoje Antonio Carlos Floriano é. 

“Não procure um sentido completo
uma verdade que exprima
a essência da vida
Você com seu jeito de colar cartazes
Nas paredes desta nossa convivência
na certa está contribuindo
para o complemento da história"

Aqui, a insegurança dá lugar a uma voz experimentada, que se dirige a um interlocutor preocupado com a essência da vida. O poema reflete uma inquietude tipicamente jovem: ser e estar no mundo é participar da História, uma inquietação ainda maior para estes cuja adolescência aconteceu na turbulenta década de 70. Mas não há guerras nem revoluções para tantos rebeldes (e isso leva, às vezes, a jovens que inventam revoluções desesperadas para ter ao que responder). Nem todos entram para a história dos grandes feitos. Cabe então, aos que ficam, manter vivo esse jeito de colar cartazes no cotidiano, nas paredes da nossa convivência.

*****

A outra metade desse peixe, Bento, também compartilha com Floriano certas angústias inerentes à juventude. Mas é menos ideológico e menos melancólico do que o parceiro. Com mais humor e sarcasmo. Pouco apegado à ideia de História, Bento versa sobre dois temas principais: as relações amorosas e a solidão. A solidão de Bento é a solidão natural, inerente, animalesca, de quem não consegue dialogar com as pessoas vazias que o cercam.

"eu sempre fui só
mesmo quando a sala estava cheia
e existiam mais verdades
na fumaça de tantos cigarros
que naquilo que então ouvia"

E mesmo quando canta o amor e a busca amorosa, Bento não deixa de emanar solidão. O amor que não deu certo, o amor que ainda não veio, o amor que ele busca, o amor que ameça se perder: o amor em Bento está sempre em outro lugar.

"Preciso de sua companhia
e às vezes passo a mão no pêlo
de um gato
como se aliviasse essa dor"

//

"Apesar de entender aquele
olhar de soslaio
não me atrevi
e mofei
com a pomba no balaio"

-----

Bento é todo passional. É difícil falar tanto de amor sem escorregar em versos vazios e essa tarefa se torna quase impossível se o poeta é jovem. Mas um ou outro deslize é compensado por versos fortes e inusitados, que inauguram um jeito de ver a já tão cantada busca amorosa.

"Quando caio dentro de mim
e me ligo que só saí do porto
na sua procura
isso me dói.
Me dói tanto a imaginação adoece
e choro e meu choro acorda os últimos celacantos.
E dentro de minha lágrima marinha
na derradeira
que sinto algo de continuar."

*****

Celacanto é livro de começos, de ensaio. Celacanto, bicho estranho, primitivo, que contraria o esperado e absurda a natureza. Celacanto, bicho sem-lugar, perdido no fundo de algum mar, como estes dois, Bento e Floriano, jovens peixes nas profundezas de Itajaí.

"Quem me dera
prender a tarde pelas asas
e conservá-la
profundamente em éter
ou n'álcool
dentro de um copo.

Guardá-la sempre
e proteger o azul, fundo das antenas cristalizadas.

Olhas de repente
e lá na estante
uma tarde inteira
guardada"

5 de fevereiro de 2012

Isso não é uma resenha, tá. É só uma conversa de msn.

kawa, bata.
deixa eu colar um pedaço aqui pra ficar claro o que vou dizer.
é uma leitura muito diferente, este kawabata
por ser oriental, japones, ele meio que me pega com olhos habituados a livros ocidentais
daí estranho esse livro, o jeito como ele narra, as coisas as quais o narrador da valor, enfim.
a verdade é que acho sem graça.
te entendo muitíssimo
Mishima é o cara
baby
Eu acabo comparando com o livro que li do mishima
e ele, mishima, apesar de tbem promover esse "choque" de cultura
pq esses japoneses adoram falar de templos e costumes deles, nunca vi
vc nao leu o melhor do Mishima
eu insisto
EU SEI
só um.
O MARINHEIRO QUE PERDEU AS GRAÇAS DO MAR
ok.
nunca esqueça diss
o
ok
eu ia dizendo que o mishima ainda desce bem
apesar das peculiaridades, se aproxima do jeito ocidental de contar histórias
é
ele me lembra Lispector
pq ele faz analise psicologica dos personagens
ISSO
mas o kawabata não.
é como se ele não conhecesse por dentro os personagens
e ficasse descrevendo seus movimentos e intuindo, aqui e ali, os sentimentos deles.
não é nada introspectivo.
esse livro é todo de imagens.
ligadas à natureza, sobre tudo. ele é minucioso.,
e totalmente afeito a descrever coisas, costumes, festas, pratos
daí eu choro.
OLHA

>
"O enrolado do yuba assemelha-se ao enrolado de enguia - que inclusive leva o mesmo nome -, mas o dessa casa consiste em bardana enrolada no yuba. o yuba-de-peonia traz sementes de ginkbo envolvidas em laminas de yuba e tem um aspecto que lembra o hirousu"
pqp
só faltou dar o tempo de preparo e quantas porções rende.
tem mto disso no livro
essas descrições de costumes e habitos japoneses, des festas, hierarquias, enfim.
isso é horrível nao?
(assim como achei excessivas os comentarios sobre templos e hierarquias religiosas no livro do mishima. Mas isso é japao, acho que aqui eu que estou errando)
SIM
e enfim
nada acontece nessa porra
E TEM MAIS CRITICAS
eu sei
japoneses são contidos
é uma cultura totalmente diferente
a forma como eles demonstram as emoções
mas mesmo sabendo
não consigo deixar de estranhar, né.
o livro conta a historia de Chieko
que foi abandonada na casa de dois comerciantes burgueses
que criaram ela com mto amor etc
um dia
ela descobre que tem uma irma gemea, meio pobrezinha
AGORA VEJA A CENA.
a chieko andava desconfiada
ja tinha vista a moça uma vez e tal
e um dia encontra ela de novo e se aproxima dela
veja como kawabata narra
duas irmas gemeas
se reencontrando pela primeira vez
[chieko se aproxima da moça. elas nunca se falaram nem se olharam de frente antes disso]
"A jovem encarava chieko como se quisesse devorá-la com o olhar. --Porque orava tanto? Perguntou Chieko. / -- Estava me observando? -a voz da garota tremia- É que queria saber o paradeiro da minha irmã mais velha... Oh!... Mas... Mas é minha irmã! Foi a graça dos deuses que nos ajudou - As lágrimas transbordavam dos olhos dela.
Não havia dúvida, tratava-se daquela jovem da aldeia dos cedros de Kytayama
"
meus olhos ocidentais acharam isso tão cafona.
extremaly!
fuck
mas enfim
devo terminar
preciso ler mais japoneses. me habituar.

21 de janeiro de 2012

Flaubert, Bierce e Oswald de Andrade: dicionários de ideias e gentes



Em muitas de suas cartas a amigos e a L. Colet, seu principal affair, o francês Gustave Flaubert menciona a ideia de criar um Dicionário de Ideias Feitas, uma enciclopédia que reunisse uma série de clichês apregoados em massa pela sociedade de seu tempo. O Dicionário foi publicado pela primeira vez em 1911, muitos anos após a morte do autor, em 1880. Foi um dos últimos trabalhos a serem concluídos por Flaubert, no entanto sua concepção é anterior a muitas de suas outras obras. A ideia de um dicionário com essa forma é mencionada pela primeira vez na Correspondência* do autor em 1850 (nessa época, por exemplo, a senhorita Bovary ainda não existia).
Em Carta de 17 de Dezembro de 1952, Flaubert apresenta alguns verbetes do futuro dicionário para Louise Colet:

"ARTISTAS: são todos desinteressados.
GALINHA: fêmea do galo
FRANÇA: precisa de mão de ferro para ser governada
(...)
NEGRAS: são mais quentes que as brancas"

Na edição que saiu em Portugal, tem-se esse divertido dístico:

MORENAS: são mais quentes que as loiras (ver loiras)
LOIRAS: são mais quentes que as morenas (ver morenas)
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Aparentemente, Flaubert limita-se a reproduzir chavões recorrentes nas conversas em sociedade. A intenção do dicionário era fazer com que as pessoas se dessem conta do vazio que tais expressões criam ao serem ditas. "Seria preciso que, no livro todo, não houvesse uma palavra de minha autoria, e que uma vez  lido ninguém mais ousasse falar, de medo de dizer naturalmente umas das frases lá encontradas." Mas Flaubert foi além dessa catalogação fria (frieza que é demonstração de grande sarcasmo, obviamente), ampliando alguns verbetes, a ponto de transformá-los em conceitos, incluindo às vezes uma certa opinião (o que contraria a ideia inicial de não incluir nenhuma palavra de autoria sua).
Por exemplo, no verbete ALGODÃO, tem-se: "é sobretudo útil para os ouvidos"

Dessa forma, podemos associar tal obra com outro famoso dicionário, o de Ambrose Bierce que, veja só, também foi publicado (em livro) em 1911, embora a ideia também tenha nascido vários anos antes, com o aparecimento de alguns verbetes em colunas para as quais Bierce escrevia. "O dicionário do diabo" (em inglês saiu como The Cynic's Word Book") é um livro totalmente satírico, com uma proposta diferente do livro de Flaubert. Nesse caso, a intenção única é fazer chacota de costumes, tipos de pessoas, empregos, qualquer coisa. 


Uns exemplos:


ALONE: In bad company
BRUTE: See HUSBAND
HISTORY: An account mostly false, of events mostly unimportant, whice are bought about by rules mostly knaves, and soldiers mostly fools.


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A literatura brasileira também tem o seu dicionário satírico, que é fruto de um dos mais polêmicos autores: Oswald de Andrade. "Dicionário de Bolso", obra do espólio, foi composto provavelmente na década de 30, mas apenas saiu em 1990, com a reedição das obras completas do autor. Nele, toda a mordacidade de Oswald está concentrada em pequenos verbetes nos quais apresenta descrições/definições de inúmeras personagens históricas/ficcionais. Como era de se esperar, sobram trocadilhos e piadas de humor negro.


ADÃO: Primeiro marido de Eva
JOB: Judeu sem dinheiro.
LUTERO: Papão dos papas.
EINSTEN: passa-tempo perdido no espaço-tempo
MARX: Esquina da História


É um dicionário original, que dialoga com aqueles dois (e mais Voltaire e Strindberg, também autores de famosos "dicionários"), mas apresenta características muito particulares, que dão à obra um lugar assegurado entre os mais interessantes dicionários literários. Costumo dizer que o pior e o melhor de Oswald estãonesse livro. Se por um lado, é exemplo da brilhante mordacidade e ironia que Oswald imprimia em suas obras, sempre contestando os costumes de sua época e, mais do que isso, promovendo uma revisitação crítica da história do país e do mundo; de outro, o livro possui algumas partes, alguns verbetes, que envelheceram. E a boa literatura não envelhece. Lógico, a partir do momento que trabalha com personagens e fatos históricos,  o autor corre o risco de ver sua obra envelhecer com rapidez. Ao mesmo tempo que criou verbetes para fíguras bíblicas, grandes estadistas ou famosos escritores, Oswald também destilou verbetes sobre pequenas figuras da sociedade paulistana. Estes verbetes, sim, envelheceram, e se tornam quase ilegíveis aos leitores atuais. Outro problema dessa edição são as críticas aos escritores Mário de Andrade e Guilherme de Almeida. Oswald viveu com ambos relações conflituosas, de amor e ódio. Na época da produção dessas notas, tais relações não andavam muito boas, pois os dois verbetes tem conotação negativa. O leitor não pode, entretanto, esquecer que tais verbetes são reflexos do momento que Oswald vivia então, de forma que eles não podem ser considerados como "palavra final" acerca dos dois amigos. 
Outro problema na obra, que também está ligada à sua data de produção (pelo menos ao momento principal de sua produção, já que, sabe-se, os verbetes foram sendo editados ao longo de alguns anos), são os verbetes pró-Luis Carlos Prestes e pró-Partido Comunista. Nessa época, Oswald militava arduamente no Partido Comunista e isso refletiu-se nas suas obras (especialmente nas peças, como O homem e o Cavalo, ou nos textos saídos no jornal O homem do Povo). Mais tarde, decepcionado, Oswald abandonaria todo esse furor comunista, mas a marca desse tempo ficou impressa em algumas dessas obras. Uma marca envelhecida, diga-se. Suas melhores obras, as que ficaram, são aquelas produzidas quando Oswald estava livre do engajamento político. A verdade é que todos os verbetes estão ligados à situação política de Oswald, pois todos representam seu ódio pela classe burguesa (embora ele tenha sido um burguês, teoricamente, à medida que viveu por muito tempo da herança de terrenos e títulos vindos do pai). No entanto, alguns verbetes são "exageradamente engajados", e O Oswald mordaz e irônico, que é o melhor Oswald, dá lugar a outro falastrão e socialmente engajado:


PROLETÁRIO: É quem aluga diariamente os seus braços para poder comer mal e dormir pior. (...) É quem se revolta afinal e desencadeia no mundo a revolução que o fará coveiro e herdeiro da burguesia.

Eliminados os verbetes passadistas e a politicagem rasa, ainda sobram bastantes verbetes para serem apreciados (embora eu pense que talvez o maior prazer da obra esteja em avaliar sua estrutura, ímpar em nossa literatura, do que curtir os verbetes em si), nesse que é o dicionário do diabo brasileiro:


"CABRAL: O culpado de tudo"
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* A edição que utilizei na citação das cartas de Flaubert foi "Cartas Exemplares", organizada e traduzida por Duda Machado. Editora Imago, 1993

17 de junho de 2011

quisso, Alfaguara?



E chega às livrarias o livro "Peregrinos", antologia de contos de Elizabeth Gilbert.
Sai pela Alfaguara, que vem publicando muita gente boa.
Gilbert é autora dos livros "Comprometida" e "Comer, rezar, amar"

Pergunta: diante disso, é possível que gilbert seja uma contista de qualidade?
Meu preconceito literário não acredita nessa possibilidade.
na contracapa, trechos de resenhas elogiosas do times e outros jornais.

Mais uma vez, digo
se alguém ler, mande notícias, purfa.

11 de junho de 2011

em flannery o'connor, o céu nunca é somente o céu

(claro, na tradução de J. R. O'Shea, Editora Siciliano, 1991)


do conto "Salve sua própria vida":

"A lua gorda e amarela apareceu nos galhos da figueira, como se fosse se empoleirar ali com as galinhas."

do conto (frase final) "Um templo do Espírito Santo":

"O sol era uma imensa bola vermelha, como uma hóstia elevada, encharcada de sangue, e quando afundou, desaparecendo de vista, deixou uma linha no céu, como uma estrada de barro vermelho boiando acima das árvores" 

(essa merece que eu busque o original. Ei-lo!)

"The sun was a huge red ball like an elevated Host drenched in blood and when it sank out of sight, it left a line in the sky like a red clay road hanging over the trees."

do conto "O rio":

"Ao pé da colina, a mata se abria bruscamente em um pasto salpicado aqui e ali com vacas de pêlo preto e branco e que descia, nível por nível, até chegar a um riacho largo e alaranjado, no qual o reflexo do sol se sobrepunha como um dinamite."

do conto "O círculo no fogo":

"O sol queimava tão avidamente que parecia disposto a atear fogo em tudo que estava à vista"

novamente, o conto "O círculo no fogo":

"A menina se embrenhou pela mata, e as folhas caídas soavam ameaçadoras sob seus pés. O sol subira ligeiramente e não passava de um buraco branco em um céu escuro, como uma abertura por onde o vento podia fugir, e os topos das árvores eram negros em contraste com o clarão."


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É claro que a leitura desses trechos é bem diferente se inserida dentro do contexto dos contos...

(Aliás, é interessante como em muitos desses contos, a metáfora do céu (na verdade, o sol, a lua, as nuvens) está intimamente ligada aos enredos. Caso da metáfora de "o círculo no fogo", conto que termina com uma cena piromaníaca, ou ainda a metáfora de "um templo do espírito santo", no qual a descrição do sol feita pelo narrador, "como uma hóstia ensanguentada", dialoga com uma cena anterior, na qual a protagonista observa um padre erguer a hóstia.)

mas a intenção foi mostrar a alta carga metafórica do texto da flannery.
e que carga.

28 de maio de 2011

Uma nova editora

selo novo na área: Tordesilhas

Lançaram um livro da Pizarnik!

22 de maio de 2011

listas, listas

as famigeradas listas: sempre há quem as critique.
eu adoro. onde há uma, eis eu e minha caneta anotando sugestões.
o enzo potel fez há pouco, um top 3 para romances e contos lidos lá na coluna dele
deixo o meu:
1º Crime e Castigo, do Dostô.
2º O ajudante, de Robert Walser


3º O apanhador no campo de centeio (salinger), O grande Gatsby (Fitzgerald), Inferno (barbusse)? Breve romance de um sonho (schnitzler), O processo (kafka)?

Empate, vai. Não sei precisar qual.

Obs 1: O critério que utilizei foi o mesmo do enzo: obras que vão fundo, que mexem com a gente.
porque há várias obras, dentro dos meus "favoritos", que estão lá por outros motivos. Caso do louco "Macunaíma", ou do enfadonho "O ciúme", do Robbe-Grillet, um livro raso como uma poça que não recomendo a ninguém, mas no qual aprecio a cara de pau do autor.

Obs 2: Desculpem-me pelo primeiro lugar óbvio, mas tem que ser. Ele pôs um machado na minha mão.

Obs 3: Se fosse para considerar "A obscena senhora D", da hilst, como um romance, então ele deveria estar aqui. Mas vou contá-lo como uma narrativa curta, prosa poética. Deixo a lista para os romances mais tradicionais.

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E quanto aos contos, céus, que dificuldade. Não consigo definir 3, nem precisar qual o favorito. Alguns:

 - Bliss - katherine mansfield
 - Casa Tomada/As fases de severo de J. Cortázar
 - Nota de pé de página, de Rodolfo Walsh
- A queda da casa de Usher, Poe.
 - A prodigiosa tarde de Baltazar, de Gabriel G. Marquez

2 de abril de 2011

Enfim, mais Walser

O público brasileiro contava com apenas um livro do suiço Robert Walser: "O ajudante", editado em 2003 pela Arx, em tradução de Zé Pedro Antunes. Apaixonei-me pelo romance que acompanha os passos de Joseph, um jovem que vai morar na casa de seu patrão, o engenheiro Sr.Tobler (o enredo do livro é mínimo. a graça está no modo como o autor apresenta os dramas íntimos e as reflexões do jovem em face da realidade falida que o cerca.)

Desde então eu vinha torcendo por novas edições no brasil, já que em portugal há várias traduções de walser (esses gajos, sempre na frente...). E agora ela veio: JAKOB VON GUNTEN - Um diário, que sai pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Tellaroli.


Um viva pra Companhia! :))))))
Outro viva pro meu bolso furado!  :((((((

23 de março de 2011

poemas de kaváfis



 esperava mais dessa primeira leitura de kaváfis, poeta grego.
 há uma possível explicação, que está na pequena introdução do livro: esses "segredos" são 13 poemas sensuais que kaváfis não renegou mas que também não selecionou para publicaçao enquanto vivia. Algo como "não para publicação, mas pode ficar aqui", diz-se na introduçao. A tradução foi feita direta do grego por três tradutores, mas como se trata de uma pequena editora (edições nephelibata, de florianópolis. Lembrou-me a extinta Noa Noa, se bem que esta fazia edições bem mais sofisticadas.) fica a dúvida quanto à qualidade da tradução.
 Achei que são poemas muito simples, beirando o óbvio às vezes. Um que se pode destacar, que é mui bonito,  chama-se "E toquei e deitei em seus leitos". Posto ele aqui:


E TOQUEI E DEITEI EM SEUS LEITOS

Quando entrei na casa do prazer,
não fiquei na sala onde comemoram
com alguma ordem amores reconhecidos.

Fui aos quartos ocultos
e toquei e deitei em seus leitos.

Fui aos quartos ocultos
que os tem por vergonhosos e para os apontar.
Mas não vergonha para mim - pois então
que poeta e que artista seria?
Melhor se fosse um asceta. Estaria mais de acordo
muito mais de acordo com minha poesia;
do que me deleitar na sala tão banal.


Curioso como a ideia que passa no poema parece ser justamente contra o que eu disse: a poesia banal, muito simples, que beira o óbvio. tomara mesmo que a poesia de  kaváfis, os outros poemas, seja estes dos ocultos quartos, e não como "amores reconhecidos".

Este livreto (plaqueta, segundo a editora) é bom, mas nada fantástico. Mas continuo curioso para ler mais kaváfis, os poemas principais, especialmente se forem aqueles "poemas" com tradução do josé p. paes (acho que saiu pela ed. josé olympio)

- "Segredos". Edições Nephelibata. Tradução de M. Sulis, M. Jolkesky e A.Nicolacópulos. 2010.

27 de novembro de 2010

sobre um romance de Italo calvino



primeiro de tudo, preciso dizer que li este livro num momento ruim, uma semana de muito cansaço e stress. por vezes, sentado em algum lugar, adormeci no meio de algum trecho. dizer isso tem uma conotação de desculpa pro que vou dizer, que é que gostei do livro, achei a ideia genial, mas como leitor despreocupado, 'não foi tudo aquilo", de modo que o livro não entrou para os favoritos. (como eu achava que iria acontecer - quem sabe numa releitura?). Essa preocupação em dar desculpas é covarde e tola: eu deveria simplesmesnte dizer "gostei, mas esperava mais, o que é natural" (bom, acabo de dizer). É um romance sobre o ato de ler romances, tanto que o protoganista chama-se simplesmente Leitor. Este leitor sofre com diversos percalços para terminar a leitura de seus livros. sempre que inicia um, algo acontece, o romance é interrompido, o gozo é cortado, e logo ele é atirado a outro começo de romance - que irá ser ceifado também. E por que não gostei tanto assim? Difícil. A ideia do livro é genial, e há passagens maravilhosas (vou botar pelo menos uma aqui no blog), mas creio não ter entrado nessa busca do leitor. alguns começos de romances - todos bem diferentes entre si - não me prenderam, e o enredo rocambolesco da procura do Leitor me enfastiou em alguns momentos. Quanto ao fim do livro, fiquei com a sensação de pé quebrado, embora seja impossível terminar de ler sem um sorriso diante do gracejo com que Calvino termina ser romance sobre romances. Acho que é isso: o enredo rocambolesco enfastiou, apesar das reflexões geniais sobre a leitura e de belas passagens. Calvino é um cara muito inteligtente. Outra coisa: ao fim do livro, há um apêndice que traz a resposta de calvino às indagações de um crítico italiano sobre o livro. Assim, ficamos conhecendo as intenções do autor. sobre esse apêndice, uma coisa me ocorre no momento. é sobre esse trecho: "Será mesmo verdade que meus incipit se interrrompem? Alguns críticos (...) e alguns leitores de gosto refinado sustentam que não: eles os consideram relatos acabados, que dizem tudo que deve dizer e aos quais não há nada para acrescentar. Sobre esse ponto não me pronuncio. Posso dizer que, de início, queria fazer romances interrompidos (..)" - Aqui tenho um pitaco. Alguns começos, incipits, possuem uma estrutura perfeita de conto - o melhor exemplo pra mim é "Ao redor de uma cova vazia" que é excelente, e é em certo ponto fechado. Se Calvino quisesse continuar, teria problemas porque muito já foi dito, e falar mais tenderia a ser "chuva no molhado". Além disso, esse incipit termina tão bem, com uma bela cena digno de conto excelente. Há outros exemplos de incipit-contos, mas discordo de quem vê em todos os inícios contos acabados. Não é bem assim, parece-me. "numa rede de linhas que se entrelaçam", por exemplo, até pode ser chamado de relato completo... mas então teremos de assumí-lo como um relato ruim, em que as cenas desenham-se mal - que faltou mais organização, o que seria um absurdo já que sabemos da capacidade fodástica do Italo de conduzir uma narrativa. Bem, o pitaco fica por aqui. A leitura está recomenda. E, bem, foi o primeiro livro dele que li. Mas tenho certeza, só de ler as outras sinopses, de que vou gostar mais de outras obras dele (eduardo, é impressão minha ou ainda você está tentando desculpar-se?). Palomar e As cidades Invisíveis, são pitacos. Tenho certeza que a hora que lê-los (esse das Cidades vou ler nas férias, já tá marcado ;P) vou amar, só de saber o tema. Bom, agora vou tratar de digitar alguma daquelas passagens que achei foda. Ah, lembrando, o começo do romance é demais, te prende, porque fala justamente sobre as nossa manias de leitores. Assim, empatizar com elas é facílimo, já que todo mundo tem suas manias. Eu me vi, durante essas primeiras páginas, quando Italo descreve aquele leitor que compra um livro e começa a abrir no escritório, em meio a documentos aborrecedores, fingindo que está concentrado em algum deles, mas - qual!- tá é abrindo o livro cuidadosamente e curtindo as primeiras linhas. Só não contem isso pro meu chefe. esse lance de empatia foi brincadeira, tá?

14 de novembro de 2010

dois poetas


sexta foi dia de ler dois livros da Letradágua, editora que costuma publicar o pessoal daqui da região Norte, e também do Vale do Itajaí. E publicam, entre outros gêneros, bastante poesia. Rubens da Cunha, Caco de Oliveira e Fernando José Karl são alguns exemplos. Dessa vez, a leitura foi de "Cápsula", de Paulo César Ruiz, poeta nascido em bauru/SP (?), mas que morou em Joinville e publicou alguns livros aqui; e "livro de mercúrio", do blumenauense Dennis Radünz.


---
Ruiz faleceu cedo, em 2001, sendo "Cápsula" uma obra póstuma.Talvez seja a única reunião, em livro, de seus poemas (não sei dizer). Publicou também um trabalho no jornalismo, em conjunto de outros, e "Códice", novela experimental, na qual subverte todas as regras do gênero, além de criar vários neologismos, transformando o livro num jorro de palavras, uma viagem total¹. E eu achei uma delícia a leitura desse "Cápsula". a poesia dele é breve, rápida, e repleta de humor. daí associá-lo a leminski, alice ruiz (ó o sobrenome), nelson capucho, é um pulo. mas dizer que ruiz é "um poeta marginal" ou "muito parecido com leminski" , etc , é jogar ele num balaio, apagando o que sua poesia tem de original. Porque ruiz, assim como leminski ou qualquer um dos citados acima (exceto alice, talvez) traz pra poesia muito bom humor e deboche. Mas é um deboche, um gracejo, que só pode vir dele, do paulo césar ruiz. seus poemas falam bem melhor do que eu:

paulo césar who is
poeta de merda
o mundo sob o nariz

-
corre ambulância!
se deus não quiser
paciência

-

que chique
joguei na retranca
deu xeque


por reunir essas características, bom humor, ironia, aliadas à brevidade de seus poemas, a poesia do ruiz é ideal pra levar pra meninada, creio, a fim de despertar (preparação para emitir lugar-comum, 1, 2 3 e ...) o gosto pela poesia. falando sério, não há como não simpatizar por essa poesia. Outra característica dela é a observação do cotidiano (algo que me direciona para Caco de Oliveira, outro baita poeta atuante em Joinville). Herdada da cultura oriental, esse exercício rende poemas e tanto. às vezes, é como uma fotografia: ("deu zebra/menino de rua/à espera do penta"). Deixo um último, ideal pra exemplificar esse poeta bom pra chuchu, que observou a dor (e graça) do cotidiano como poucos. adorei o livro, entrou para os favoritos. pra fechar:

roubar a paisagem
o olhar clic rapina
turva até a neblina


---
A outra leitura é bem diferente. a poesia "despreocupada" (favor não confundir com relaxada, que o trabalho do poeta é duro sempre) dá lugar a uma poesia experimental, no qual o leitor sente que as palavras foram sendo lapidadas. opa, lapidadas não, que isso tem gosto de soneto parnasiano. ceifadas, laminadas, sei lá o que, algo assim, mais bruto. Coloco aqui dois poemas dos quais gostei muito, e daí falo um pouco da leitura.

Casas Noturnas (I)

a casa mora onde obra a noite
se nenhum rumo mais a mura
ou abre e fura a hora adentro
se a água mole a pedra aflora
e afora enfurna-se o relento

Casas Noturnas (II)
a casa acesa em cinza insone
no alheio sono dos anônimos

o cisma insano de arredores
onde os ânimos são nômades

a casa ilesa em chamas some
a ânsia: ócios: coisas: nomes

Escolhi esses dois, porque os achei do caralho. (o palavrão aqui é pra reforçar mesmo, desculpa a quem não gosta). Gostei mesmo. Do livro em geral, gostei menos. A poesia desse livro me foi muito estranha, o que é bom por um lado, já que a poesia tem que estranhar às vezes, confrontar-nos com as ideias e com a nossa língua. Mas eu sempre pendo para a poesia de ideia (retomarei essa história de poesia de ideia em futura postagem), do que esta de radünz, mais experimental, cujo cerne parece estar  na linguagem original e não tanto no mote, no tema, na ideia que se quer passar (vide poemas do ruiz, bem mais "acessíveis", digamos). Lembro-me que adorei "Exeus", livro anterior do Dennis. Mais do que este. Algumas características estão presente em ambos, como os poemas com tendência concreta, ao experimentar dispôr as palavras de forma não habitual. (na orelha, o editor e poeta j. gehlen pede para que o leitor não o veja como um poeta concretista, nem como simbolista, visto que dennis também aposta na musicalidade). Quanto à musicalidade, é nítida. vide os dois poemas acima. É um efeito muito interessante. Sinfonias noturnas, nesse caso.
Dito isso, vou-me embora que já é hora. Os dois poetas estão mais que recomendados.


PS: Eu ia falar também de "Imitação de espelho", de Ramone Abreu Amado, que tenho aqui em casa e também saiu pela mesmo editora dos 2 acima. Mas esse achei chato pra chuchu e abandonei. Quero retomar, mas fica pra outro momento. e é bom que retome mesmo, porque posso mudar de ideia quanto ao julgamento do livro, coisa que já aconteceu.

Notas inúteis:

¹ Repare que "viagem total" tem sido considerada cotidianamente, de um modo vulgar, como "besteira", "coisa tosca, sem sentido". O que é um erro. O sentido que empreguei, está claro, é o primeiro. De viagem mesmo. Viagem total de besteira não tem nada. Pelo contrário, é uma maravilha.

² "bom pra chuchu" sempre foi uma expressão brega pra mim. mas após ler "O apanhador no campo de centeio", livro de J. Salinger, cismei com a expressão-bordão do protagonista (ou pelo menos, a versão que o tradutor escolheu), o holden (adorei ele, é por isso). acho essa coisa (de as palavras entrarem e sairem de moda) algo muito legal. ainda mais porque é algo hiper-mega-ultra pessoal.

7 de agosto de 2010

sobre dois livros de Enzo Potel




Bem, eu estava devendo essa postagem há algum tempo. A primeira dívida era para com o Ítalo , que me deu esses 2 livros do Potel, presentão, e também ao Enzo, é claro, pois ele é o autor dos poemas. Ah, sim, "Cura" e "Contos de Facas" são livros de poemas. E a segunda dívida era para comigo mesmo, pro blog, pois não tenho escrito com a frequência que desejo.
E pra tentar quitar essas dívidas, eis essa postagem-agradecimento, pra falar um pouco sobre essas leituras, das quais gostei bastante, já adianto. "Cura" é o segundo livro de Enzo Potel, que é de Itajaí. "Conto de Facas" é o terceiro. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a qualidade dos projetos gráficos, ambos feitos pela editora Nova Letra (lembrei-me agora que já elogiei um projeto dessa editora - que mal conheço - numa postagem recente) Somam-se aí os desenhos de Me Fodí (em Contos de Facas) e as fotografias de A. Soares (em Cura) Bem legais.
A impressão que tive ao ler "Cura" foi a de encontrar em contato com uma poesia raivosa. De uma raiva ancorada na descrença. Uma poesia cética, sem qualquer gota de esperança, fé, resignação ou qualquer outro sentimento de acomodação ao caos mundano. O poeta, aqui, é aquele que "vê o abismo de baixo", que vai revirar as estranhas das pessoas e das coisas, para mostrar o que elas não externam naturalmente. E é bem o contrário: escondem. Em poemas como "Maria vai com as outras" (ela acha que angústia/faz parte da grife dela") ou "Mulher Hipopótamo" ("Mal sabes/as orgias internas/em que ela te come/enquanto conversa contigo/quase sem te dirigir os olhos/Séria/naquela risada que parece/cronometrada/para não levantar suspeitas/nem/escapar suspiros") o poeta ataca as falsas camadas que revestem as pessoas: modos enganosos de pensar e agir não escapam à sua raiva. Resumindo: poemas-socos.
Antes que eu comece a falar besteiras, é bom elucidar as coisas com dois trechos extraídos das contracapas. Em "Cura", um trecho do prefácio de Ryana Gabech sobre a poesia de Enzo: "[a poesia de Enzo] Revela, fere, aponta mas também beija, acalma, entristece e dorme. É a vida do caos". Sobre isso, também adianto que o leitor toma mais facadas que beijos. E no "Conto de facas", na contracapa, versos destacados que sintetizam o fazer poético de Enzo: "Assim como o objetivo da minha poesia/não é ofender, e sim registrar./Nem que seja registrar/uma ofensa". Sem outra preocupação que não seja registrar o que vê e pensa, "Cura" constrói-se:

Dos nossos uivos

Essa história de imaginar
que as coisas
poderiam ser piores
nos aproxima do Nada
Todo-Misericordioso
e nos impede de adentrar
nas noturnas florestas da Cura.


O livro é divido em três partes. Gostei muito das duas primeiras, "cenários místicos" e "a morte", e não tanto da terceira, "o reencontro". Não sei dizer porquê, creio que questão de gosto, sem outra explicação mais racional. Ou talvez a temática desses últimos poemas - mais passionais - não tenha me agradado tanto como os primeiros. Sei lá.
O que eu gostei bastante nesse "Cura" - algo que fica ainda mais forte em "Conto de Facas" - é a linguagem tensa dos poemas: os significados-óbvios são desgastados, clichês são virados do avesso. Por meio de jogos de palavras e e metáforas violentas, o leitor leva alguns tapas (ou facadas). Dois exemplos disso seguem abaixo:


SÁBADO EM SÃO PAULO

Praça da Liberdade:

comida boa
e baratas.

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CONFEITARIA


Devo esperar.

Abro a janela do sotão
na madrugada
e entendo que fugas rocambolescas
pelo telhado
irão sempre me deixar
na porta de casa

onde mamãe me espera com beijinhos
e papai com briga
deiros.

------

E eu tô falando do "Cura", e deixei o outro livro de lado. E aliás, gostei mais desse "Conto de Facas" do que de seu antecessor. Nesse livro, o que eu tanto gostei, esse trabalho com a linguagem, é ainda mais marcante, ou seja, ainda mais violenta e tensa a linguagem em que o poeta desfia seus afiados "contos". O sumário já dá uma boa ideia disso: "O gasto de botas", "Vinte mil éguas submarinas", "Des","Cinzarela" e "A falta mágica". O que Potel apresenta é bem o que o título sugere: a desconstrução dos contos de fadas cotidianos: a família de vidro, amores frágeis. Ora imagens bonitas, fotografias da infância (como esse "Conhecer"), ora um misto de simplicidade, perversidade, mediocridade e tantas outras -dades que o homem consegue revelar e revelar no decorrer de sua existência ("A falta mágica"). Curioso nesse livro também é seu prefácio, escrito pela mãe (!!) do poeta. E escrito muitíssimo bem, é preciso dizer.
Agradeço pelas leituras, e recomendo esses dois livros!
Acho que o melhor jeito de apresentar o livro é mostrar um trecho, por isso, pra fechar, eis um dos poemas de que mais gostei no "Conto de facas":

A GALINHA DOS OVOS

Eu já choquei muita coisa.
Já choquei minha mãe.
Não choquei meu pai. Olhei para minha
cloaca, abismado: ele não?
Já choquei uma professora de biologia.
Um advogado com sua pasta de dente.
Já choquei um negro bailarino homofóbico.
Choquei chefs de cozinha. Choquei até
uma prostituta.

No aposento das gafes, vontades e disparates,
não paro de chocar.
E sei de cada ovo a claridade que
desaprisionou gemidos.
E sei que os ovos arregalaram os olhos
e levantam o dedo
e engasgam com o nó da garganta.

porque o vislumbre da verdade
é também uma pena de morte.

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Irreverências Bibliográficas: Os dois livros de Potel, Cura (2007) e Conto de Facas (2010) foram publicados pela editora Nova Letra, lá de Blumenau.