Em sua coluna poética para o Jornal do Brasil, Mário Faustino selecionou e observou diversas correntes da poesia brasileira e de outras nações. Ao comentar a poesia social, a partir do panorama norte-americano, falou sobre poetas competentes que "documentam e celebram uma época (...) poetas que 'promovem' a poesia, poetas cujos poemas podem ser lidos, declamados ou cantados". Um comentário tímido, quase a defender do esquecimento¹, no vasto mar das vanguardas, àqueles que se propõe a cantar os dilemas das cidades com viés participativo, buscando mobilizar o leitor-cidadão, sem perder de vista as graças do canto. O poeta social brasileiro remonta a antigas linhagens de nossa poesia, especialmente a satírica, de Gregório, Gonzaga, até os arroubos românticos contra a injustiça social, observada em Castro Alves e outros companheiros de sua geração. Tome-se, por exemplo, esse trecho extraído de Maria Firmina dos Reis, contemporânea de Alves, em poema condoreiro no qual o eu-lírico se dirige a um jovem poeta:
"(...)
Canta, poeta, a liberdade, ─ canta.
Que fora o mundo sem fanal tão grato…
Anjo baixado da celeste altura,
Que espanca as trevas deste mundo ingrato.
Oh! sim, poeta, liberdade, e glória
Toma por timbre, e viverás na história.
Eu não te ordeno, te peço,
Não é querer, é desejo;
São estes meus votos ─ sim.
Nem outra coisa eu almejo.
E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,
Ver-te poeta ─ e morrer."
A gente cansa da máquina.
Mas a máquina, que não tem nervo nem músculo,
depois desistente
como um velho cuco sem vida.
O ano é 2021 e ainda, outra vez mais, cabe-se fazer uma poesia do prosaico e circunstancial; a despeito de leituras que contestam a possibilidade de se atrelar o discurso poético a qualquer territorialização, impõe-se ao poeta a necessidade de construção de um contradiscurso ao feixe discursivo, via publicidade, artes espetaculares, telejornais, redes sociais, escolas, etc, que moldam as massas ao gosto fascista no Brasil dos anos Bolsonaro (2018-2022?). Para resistir, a memória histórica e a individual convergem nesse livro, frequentemente pelo recurso da crônica e da narrativa, dado o objetivo do autor de relembrar a quem o lê acerca de outras formas de vida e relação com Gaia. Aliás, a palavra "terra" (terra como pertencimento, terra a ser ambientalmente protegida, como territórios imaginários da infância, como objeto da luta de classes, terra como solo) tem seus sentidos vários amplificados nessa obra, não só porque "o campo é nosso coliseu tropical", como o autor comprova a partir de diferentes olhares - sempre meticulosos, ancorado na leitura e anotação - para a história de SC (O nome Desterro aqui ganha força ao invés de Florianópolis) e do BR, mas também pela consciência de que, a despeito da incessante evolução tecnológica, cuja estetização e espetacularização são tão caras ao Estado necropolítico², nunca deixamos de ser barro, em contínuas trocas com a natureza:
VII MIGRAÇÃO
hoje sonhei contigo
duas baleias descansavam serenas
e a brisa nos devolvia os corpos
(...)
"Tem este lugar onde o dia nasce poesia e clichê. Onde o dia nasce promessa. Onde o dia veste um pote de margarina. O diabo é que sempre há, na padaria da esquina em que tomo meu café, um televisor ligado no telejornal."
Chama a atenção o papel central que as leituras da história exercem no livro de Viegas. São frequentes na obra, por exemplo, as alusões a Canudos e Contestado, episódios em geral mal compreendidos pela população brasileira, cuja instrução formal, controlada pelo Estado-algoz, esforçou-se por ocultar ou adulterar a compreensão de duas das maiores tragédias do país. Para Rosa e Trevisan⁴, "discutir a Guerra do Contestado enquanto biopolítica é uma tarefa desafiante, já que não houve uma valorização consequente do acontecimento, porque o sofrimento e as barbáries não foram suficientemente elaborados e transformados em um valor cultural.". É, então, num campo marcado pela alienação histórica, circunscrito em um estado construído sobre violências recobertas por narrativas fantasiosas colonialistas, que Viegas - professor e historiador- joga, sempre buscando mostrar ao leitor quão integrados estão (não se tratam, como pode parecer, de "pontas") fatos históricos de um certo passado e um certo presente, que não pode ser lido de forma anacrônica - a criança morta à praia, como peixe, não está distante, sob uma arbitrária construção histórica, dos homens e mulheres mortos no Congo em nome da expansão colonial, posto que o mesmo sistema econômico as produziu, este mesmo que segue aí lançando celulares cada vez mais leves e mais funcionais:
"Presidente que manda atirar em cidadãos brasileiros é coronel", está escrito na ficção de Donaldo Schüler. O império caboclo de João e Zé Maria, Teodora e Maria Rosa, de Adeotado o flagelo de Deus. Dez mil mortos nas contas dos generais brasileiros que - e pandemia do século vinte nos mostrou - não sabem contar. Dez mil mortos apagados da biografia do Brasil escrita pelas historiadoras Lilia Schwarz e Heloisa Starling. Era o ano de mil novecentos e doze nas terras do Contestado. O dragão de ferro arrebentando a mata e ferindo a terra, o gafanhoto de aço semeando a morte. Pela primeira vez na história botaram gafanhotos de aço para semear a morte no céu. Na conta dos olhos que viram a terra calcinada, nove mil foram as casas queimadas, vinte mil as vidas humanas destruídas pelo Estado nacional.
Tudo deságua nesse mar
o sol, os barcos, a lama
Também nossa infâmia
Nossa insônia, gula, falta
no profundo dos teus abismos
onde brilham coloridas
assustadas aberrações.
¹ Não faltam exemplos de olhares preconceituosos da crítica literária a textos com viés participativo/social; vide, por exemplo, o modo como Antonio Hohlfeldt analisa as obras de Alcides Buss e Carlos Damião em "A literatura catarinense em busca de identidade", associando "madureza" de estilo ao desenvolvimento de outros temas que não o social.
² Para usar termo extraído dos versos do autor, cujos poemas estão repletos de referências da Literatura, História, Filosofia, etc.









