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1 de outubro de 2020

Tainha Antonieta faz ligação para a Terra

Meu nome é tainha antonieta
Falo aqui do coração do antropoceno
Hoje é o ano 1, sempre é o ano 1

O jornal lembra que há 10 anos Caetano 

Estacionou o carro no Leblon

O Facebook lembra que há 10 anos
Você deu aquele passeio de carro pela praia
Com seu tio embriagado
Meus olhos são costurados e por isso passo as noites
Pensando naquele fudido do henri castelli pescando meros
Me gustam los meros, me gustam los peixes-boi
*Já beijei na bocona de alguns caso haja essa dúvida*
Os peixes grandes tem seus motivos para habitar as profundezas
O mesmo para as baleias serem os mais tristes mamíferos
Ah, e os golfinhos? Pergunta-se o distraído enquanto atualiza sua rede social
Para de ler e mexer nessa tarrafa elétrica ao mesmo tempo seu cu de bagre
Onde o homem não chega vivem os mais sombrios e felizes peixões da terra

Se você gosta de mim...
                                                       ... problema seu!!!

24 de janeiro de 2018

Onde a Tainha Antonieta descreve seu cotidiano e revela segredos e sabores de bolacha marianescos

Mariana é a menina mais interessante do mundo da terra e das águas. Mesmo que me oferecessem um luxuoso coral nas Bahamas, ainda sim preferiria morar aqui em Itajaí com ela. Nas profundezas do Caribe, não posso ouvir Guns N' Roses na caixinha de som falsificada dela, muito menos assistir às brigas diárias entre mãe e filha. Não sou sádica; o que eu gosto é de observar as pessoas, e não acho que há lugar melhor do que essa casa apertada onde vivo e onde - parece - só aos gritos se é ouvido. Porque, quanto mais aperto passa uma pessoa, mais ela aprende. Algo parecido se dá com os peixes: se um pexuxo é fisgado e consegue escapar, volta como mestre dos demais. Conheço uma tanhota de Laguna que afirma ter escapado de 54 tarrafas e 200 varas de pescar. E as tanhotas não costumam mentir. Quem mente mais no mundo marinho são os bagres e os namorados.

Gosto da espontaneidade da Mariana, de sua displicência: ela tem um jeito torto de viver a vida que torna impossível prever seus movimentos. Quer dizer, eu sei que ela acorda ali pelas sete, se arruma rapidamente e vai a pé pra escola. eu sei que ela almoça perto da uma hora. Que, à tarde, toma banho, faz tarefa, fica olhando que nem uma boba fotos de modelos no Instagram até as quatro, quando parte com a mãe montar o trailer. Mas isso diz pouco ou quase nada de quem Mariana é: nas dobras e falhas da rotina dela é que se enxerga o que ela é. Por exemplo, entre uma aula e outra, Mariana nunca conversa ou mexe no celular, até porque ela não tem um. Ela fica fantasiando coisas: um mundo no qual as pessoas voam,  ou um mundo no qual ela pode ser invisível e chutar a canela dos clientes rudes que são grosseiros com sua mãe no carrinho lanche.  Um mundo no qual barcos não afundam e peixes de pelúcia falam. Uma vez, numa rara tarde de folga, ela simulou uma fala minha enquanto me segurava diante de si e foi bizarro

-- Oi meu nome é Antonieta e eu adoro nadar com minhas amigas baleias e golfinhas...
-- BITCH ME RESPEITA E EU LÁ GOSTO DE GOLFINHOS
-- eu gosto da Mariana e acompanho ela em todas as suas aventuras...
-- OWN, isso é verdade.
-- ... mas agora o que mais quero é um bom banho
-- AH NÃO. Mano, eu fui feita na China, você não leu a etiqueta? MARIANA APARECIDA DA SILVA EU NAO GOSTO DE BANHO, ME DESBOTA DESGRAÇA

Queria muito poder me comunicar com ela.

Mariana também se dá o luxo de guardar segredos. Luxo porque não há ninguém interessado em seus pensamentos íntimos, mas mesmo assim, ela os guarda com cuidado. Se tudo sobre ela é desconhecido e ignorado pelo mundo, há uma parte ainda mais desconhecida, que ela chama de segredo. Antes de dormir, todo dia, confere se nenhuma luz foi lançada sobre os desejos que ela não sabe muito bem nomear. E que desejos são esses? Ah...

Ela está sempre entrando, do jeito dela, dentro das outras pessoas. Se vê, da janela do ônibus, uma senhora bater o carro e dele sair apavorada para conversar com o outro motorista envolvido, Mariana se põe a pensar o que estaria sentindo a mulher. O ônibus faz uma curva mas Mariana segue com a senhora lá na avenida a sentir-se atarantada e insegura. Mariana se pergunta se o carro é da mulher, se ele tem seguro, se ela estava atrasada para o trabalho ou para buscar os filhos na creche. E se for uma víbora, uma pessoa com modos de bagre? Mariana parte sempre da ideia de que as pessoas são boas. Há um tempo atrás, o professor de Filosofia dela, Maurílio, deu uma aula rápida sobre Rousseau e a tese do Bom Selvagem mas ela faltou nesse dia porque estava com diarreia. Mesmo assim, por ver muitas pessoas o tempo todo no carrinho lanche, sobretudo por conta da imagem que faz de seu pai, Mariana acredita que as pessoas são boas; outra coisa é que as estraga. E o que são essas coisas? Ah...

Para entender que coisas são essas, seria preciso contar a história de amor e desamor entre Anselmo e Mariza, os pais da Mariana. Eu tô aqui nessa casa desde que ela tinha sete anos. Foi no sétimo aniversário que ela ganhou do pai esse presente maravilhoso que sou depois de uma viagem dele a trabalho. Desde então, assisto a uma série de ausências: a casa esteve vazia em quase todo o tempo: o pai de Mariana mal parava em casa, pois quando não estava no mar, estava no bar, caindo pelos cantos. A menina está sempre na escola, ou trabalhando, e no pouco tempo livre que sobra, ouve música e assiste séries abraçada comigo. Dona Mariza se resume a trabalho e é uma pena que não haja um narrador para contar quem é ela e de onde veio. As histórias mudam quando nascemos onde dói e porque dói em cada personagem. E, se não mudam, é porque tem água viva nessa praia, ou seja, tem coisa errada aí. Afinal, os narradores em geral são preguiçosos ou parciais e mostram sempre o querem mostrar, que nem o telejornal ou as fotos das pessoas em redes sociais. Não posso contar aqui a história dos pais de Mariana porque o narrador não permitiria, mas digamos que não era feliz, que havia briga e um pouco de violência. Digamos que eu deveria amar Seu Anselmo porque ele é o pai da Mariana e, além disso, ele que me trouxe para essa casa, mas eu não amo, por tudo que ele fez... ou não conseguiu fazer. Mariana, sim. Apesar de tudo que já ouviu sobre ele, as queixas e críticas da sua mãe e das irmãs dela, Mariana gosta muito dele e sente sua falta todos os dias e eu sei que ela me aperta às vezes pensando nele. Eu sei que, se ela me leva pra todo canto, é por isso - mas digo aos meus amigos que é por sou demais, porque sou uma estrela. É, minha gente, até mesmo peixes de pelúcia célebres como eu têm problemas de autoestima às vezes. E olha que eu nem posso comer chocolate, a minha boca é costurada num eterno sorriso. Nessas horas de estresse, fantasio com bagres trancafiados em tanques de pesque-pague ou então ouço música para ficar feliz. Meu artista preferido é o Slash, guitarrista do Guns. Mariana gosta muito de música pop e prefere Rihanna a Beyonce. É tão bom quando ela se esquece dos problemas e, no quarto a portas fechadas, dança ao som do rádio enquanto me joga pra lá e pra cá, abusando da minha espinha dorsal de pelúcia 

quando estou com ela tenho pensamentos selvagens
                                                                                      wha wha wha.

Mariana odeia biscoito recheado  de Morango, ainda mais daquela marca barata que sua mãe insiste em comprar. Entre os biscoitos baratos, gosta do de maizena, ainda mais se tiver doce de leite na geladeira. Ui.

Mariana tem vergonha do seu corpo. Uma tarde, enquanto voltava a pé pra escola, duas colegas a perseguiram até prensá-la num portão de ferro vizinho. Empurram-na, chamaram-se de gorda, feia, balofa. Por quê? Ah... as pessoas são estranhas. Naquele dia, ao me tirar da mochila, ela me encharcou com suas mãos suadas e chorosas. Eu nunca deixo de sorrir, mas quando me entristeço, um dos pontos meus descostura. Naquele dia, abriu-se um rombo no meu pobre rabo, revelando um pouco do meu algodoado recheio. Desde então, sigo sendo uma tainha bonita charmosa alegre cintilante porém levemente arrombada. Alô, Dona Mariza e suas agulhas, por favor me notem. Mas onde eu estava?

Ah, acho que esse segredo é importante pra história: há cinco dias, Mariana, calmamente, planeja sua fuga de casa. ela quer ir pro mar.

1 de janeiro de 2018

Capítulo 2

onde milhares de hambúrgueres são fritos, e motoboys são hospitalizados

Uma folha amarela com diversos campos para preencher e - lá embaixo - uma linha para a assinatura do cliente. O que significa atacado e varejo? atacado parece algo violento, rápido. varejo lembra mosca varejeira... não, nada a ver.

-- Mariana, assina logo e devolve pro homem essa nota fiscal, menina!

O vendedor, que já havia descarregado da caminhonete as caixas com hambúrgueres e apenas aguardava a liberação da nota, parecia tranquilo; era a mãe de Mariana que a apressava, pois havia muitos lanches por fazer e só as duas trabalhavam no carrinho. Ele ficava instalado à frente de uma igreja, e como havia missa às cinco, e às cinco e meia diversos alunos saíam de uma escola estadual ali próxima, Mariana e Mariza costumavam abri-lo às quatro da tarde. Atendiam até meia-noite - havia ainda a limpeza da chapa e a volta pra casa, que faziam as duas dormirem quase todos os dias de madrugada. Segunda era o único dia de folga das duas, rotina cumprida por elas há dois anos, quando elas chegaram em Itajaí.

-- Moço, o que é varejo?
-- Ah. É o tipo de compra simples, por unidade. Já o atacado é quando você adquire as coisas em caixa, em maior quantidade. E aí fica mais barato, entende?
-- Entendi. Obrigado.

O vendedor sorriu, despediu-se das duas e foi embora. Dona Mariza quase não sorria; aos clientes e fornecedores, por exemplo, reservava uma expressão fechada e estranha, uma tentativa de ser serena e receptiva mas que não funcionava devido às inúmeras preocupações de mulher, de mulher mãe, de mulher mãe pobre, de mulher mãe pobre negra, de mulher mãe pobre negra trabalhadora e AH MEU DEUS

-- nossa sinhora, outro motoqueiro!!!! - Dona Mariza saiu do carrinho e aproximou-se da calçada. Mariana, assustada, continuou onde estava, atrás do balcão, ainda com a cópia da nota fiscal na mão. no, ar o cheiro dos hambúrgueres na chapa e os gritos da multidão que se aglomerava em torno da rua.

-- ele tá se levantando, ajuda ele, povo! - gritou uma senhora que saíra da igreja ao ouvir o estrondo. Ninguém sabia explicar o que houvera: alguém viu o motoqueiro derrapar e rolar pelo chão, enquanto sua moto deslizava na outra direção até acertar os paralelepípedos da calçada aposta àquela onde se encontrava o carrinho de lanches Maresia. O homem ferido conseguira levantar-se, mas parecia atordoado e, já na calçada, tinha dificuldade de responder às perguntas dos curiosos. Alguém chamou a ambulância. Outro alguém, que por sinal era o único cliente do carrinho no momento, sentiu cheiro de queimado AH MEU DEUS 

-- os hambúrgueres, Mariana!!!!

A menina acordou de seus devaneios e virou-se pra chapa: nela havia dois hambúrgueres completamente tostados, o queijo por cima havia secado devido ao superaquecimento; a fumaça aumentara e irritava os olhos. Em movimentos rápidos, ela desligou a chapa e jogou um pouco de água sobre os hambúrgueres, TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

-- LEPT LEPT - foi assim que soou o barulho dos dois tapas em sequência que ela levou no braço. Sua mãe voltara correndo para o carrinho e, antes de assumir o controle das coisas e da chapa, punira a menina por mais um desastramento.

-- No que você está pensando, Mariana? Meu deus do céu, você quer me enlouquecer desse jeito.

Ela não soube o que responder. Sabia que sua mãe não tinha paciência para os relatos de sua imaginação, considerada por ela tão inútil. Diante de uma coisa, Mariana estava sempre pensando em outra coisa, como se vivesse noutro tempo, dessincronizada. Dessa vez, Mariana pensava que seu pai havia um dia também sofrido um acidente. Mas não como esse, em frente ao carrinho. Não foi de moto, seu pai não rolou pela rua, nem contou com ajuda de pessoas que por lá passavam. E o mais importante: ela não estava lá na hora. Mas foi um acidente. Pelo menos foi essa a notícia que Mariza recebeu há cerca de dois anos atrás, quando os três viviam em Garopaba, numa comunidade localizada na Praia da Silveira. Foi de barco que Anselmo morreu, afundando na água, sem contar com a ajuda de ninguém, pois seus companheiros também faleceram. A Marinha informou que antes de partir-se ao meio e afundar, o barco pegara fogo após falhas mecânicas. Mas pouco daquilo importava diante do sentimento de perda e vazio. Era nisso que Mariana pensava, mas não dessa forma: vislumbres desorganizados, imagem sobrepondo-se a outra imagem, o mar agitado, pedaços de madeira com fogo sobre o mar, resistindo por minutos até que as ondas o apagassem, possíveis pensamento e frases ditas pelo pai, era nisso e muito mais que Mariana pensava.  Mariana estava sempre pensando em outra coisa e em muito mais do que era preciso. O resultado eram frequentes hambúrgueres queimados na chapa, clientes irritados com os pedidos que teriam de ser refeitos, e LEPT LEPT, TSS TSS, LEPT LEPT, TSS TSS.

O motoboy já estava sentado na ambulância, parecendo tranquilo e inteiro, e uma parcela dos curiosos ainda permanecia ali, de pé, a cochichar e contar e recontar suas versões para o ocorrido. Alguns, mais exaltados, clamavam por medidas de segurança na via, mas a revolta logo se apagava e  eles vvoltavam a seus afazeres calmos de sempre. Já recuperada dos tapas e broncas, Mariana voltara ao trabalho, a chapa novamente ligada e limpa, embalando dois hambúrgueres para viagem. Mas ainda pensava em acidentes. Um pouco no motoboy desconhecido (era um rapaz jovem, de uns vinte anos) e um pouco no seu pai pescador (era um homem jovem, tinha 34 anos quando o náufrágio ocorreu; Mariana tinha 12). Na sua cabeça, sucediam-se imagens de água e asfalto, bem como o desejo de conter todos os acidentes do mundo e defender as pessoas e suas famílias. Nesse momento, quantos motoqueiros estão caindo nessa cidade, no estado, no Brasil? E no mundo (Mariana não sabia dizer se havia motos  e motoboys em todos os países, mas certamente havia em vários)? E motogirls? Mariana nunca vira alguma. Tomara que não existessem; deus que a livrasse de uma jovem motogirl derrapando no asfalto, deve doer demais, pensava Mariana. Enquanto dava um nó na sacola, sentindo outro nó na garganta, Mariana pensava que centenas (ou milhares?) de motoboys caíam, tendo culpa ou não, todos os dias pelo mundo. Era como se os motoboys, reunidos em um único ser, nunca deixassem de cair na infinita rua do mundo, como se fosse uma imagem GIF, dessas que as pessoas compartilham nas redes sociais (Mariana particularmente amava GIFs de cachorro e de bebês sorrindo). A menina também pensava em naufrágios e na sua frágil ocorrência: o mar era tão imenso... talvez mais imenso que todas as ruas juntas, mas ela quase não ouvia falar de navios afundando. Parecia que só seu pai tivera esse azar. Seu pai e aquele casal do Titanic, filme que assistira uma vez de madrugada escondida da mãe.

A ambulância já partira, assim como o cliente cujo pedido foi refeito devido ao acidente na chapa. Sua mãe parecia mais calma, mas ainda mantinha sua expressão carregada, como se houvesse algum tipo de peso sobre suas sobrancelhas e fosse preciso sustentá-lo. Mariana passava pano umedecido com álcool sobre as mesas, tentando não pensar em náufrágios e derrapagens. Mas, se conseguia abstrair-se e deixar de pensar em algo, era porque outro pensamento, às vezes até mais insistente e triste, se aproximava. Dessa vez, Mariana pensava na dupla Atacado e Varejo. A garota concluía que seus pensamentos ruins vinham sempre em atacado, em caixas, aos montes. Enquanto isso, as alegrias vinham no varejo, varejeiras, uma aqui e outra ali. Poucas unidades.

-- Se você passar mais um pouco de pano nessa mesa, vai abrir um buraco nela, Mari. Venha cá, venha.

Era sua mãe chamando, enquanto limpava as mãos no avental já encardido. Trazia sua expressão mais leve possível (ainda sim era séria) e um abraço apertado para aquela filha tão atrapalhada, mas tão amada. Abraços assim eram raros. Mariana aproveitou esse momento de varejo e agarrou as costas da mãe com força, enquanto o sol naufragava por detrás dos prédios.

4 de novembro de 2017

Esta é Tainhas, a história de uma menina chamada Mariana e de uma tainha chamada Antonieta. Poderia chamar-se Tapadas, À beira do mar, ou até mesmo Ansiedade Lanches. Mas fazer o quê? Mariana também poderia ser feliz. E não é.


Capítulo 1 

Onde o leitor conhece Mariana e esta, por sua vez, um macete para calcular potenciação que de fácil não tem nada


Quanto mais a professora falava sobre a imensidão das camadas atmosféricas, mais Mariana afundava-se em sua cadeira, muito longe do céu e da necessidade de manter-se atenta. Ela sempre fazia um uso inadequado das informações que a escola lhe transmitia: por exemplo, embora fantasiasse constantemente a respeito das placas tectônicas (pegava-se pensando em mergulhos terrestres, placa sobre placa, ela própria uma mergulhadora litosférica catando conchas em busca do núcleo da Terra), tomou bomba na prova de Geo: nota 3. E Biologia, então? Esta matéria era seu terror: confundia as girafas de Lamarck com as ervilhas de Mendel. Na sua cabeça eram todos amigos: Lutero, após pregar as 95 teses na catedral de Wittemberg, convidou Darwin para uma corrida montada nas tartarugas de Galápagos, mas este não podia: foi mal Lutero, hoje vou dar rolê com Marie Curie, a rainha do rádio.

-- Mas Darw, ela não tem namorado????
-- E eu lá sei??? - E sai rapidamente galopando sua tartaruga galopeira.

A menina nem desconfia que galopar tartaruga é pura figura de linguagem; a professora não passou esse assunto e vários outros devido à greve do sindicato estadual. Mariana tem 14 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio da Escola de Educação Básica João Baptista de Oliveira Figueiredo. Nunca leu uma obra de Julio Verne e, ao longo de sua vida, nunca lerá. Tem horror a baratas, não conhece o patrono de sua escola e mora apenas com sua mãe, numa casa alugada no bairro de Espinheiros, em Itajaí/SC. Ela nunca conheceu seu pai, morto numa noite de intensa ressaca e nenhuma estrela no céu, em Imbituba. No quarto dela, há infiltrações e goteiras, e em noites de chuva ela não dorme, a menos que consiga concentrar-se nos mergulhos litósfericos ou quem sabe no romance entre os números 17 e 29, números primos cujo amor é proibido pelos preconceitos da família, bando de irracionais enrustidos. Mas quase sempre a chuva insiste, vence o drama das histórias românticas como se fosse um plantão jornalístico a furar a programação, trazendo à tona os pensamentos mais negativos de Mariana: essa água que se infiltra pelas paredes é a mesma que tomou o barco de seu pai, Anselmo; essa água vai sempre escorrer nessa casa de onde nunca provavelmente sairá; viverá em constante estado de ressaca enquanto a maioria das pessoas vivem tranquilas, em eterna marola, uma vida segura feita de piscinas, boias, aquários.

-- E aí, galera, fica fácil: dessa forma, a potência de vocês é convertida em uma simples multiplicação.

Geo, História, Artes, Português, e agora a de Matemática. Falta só mais uma aula de Biologia para, enfim, ela poder chegar em casa e jogar sua mochila sobre o sofá. Dentro da bolsa, dois cadernos, dezenas de papeis de bala, uma banana, dois reais em moedas e um peixe cinza de pelúcia. A menina abre a última bala enquanto Zulmira e Thiago, os docentes, trocam cumprimentos na porta da sala. Faz um calor infernal em Itajaí, batalha sempre perdida pelos ventiladores das escolas públicas.

-- Bom dia, amiguinhos! Hoje é dia de sortearmos a classe que cada equipe vai pesquisar no trabalho sobre o Reino Animalia, hein.

Até o final da aula, Mariana se dará conta de que os peixes integram algumas classes do tal Reino; será tarde demais, sua equipe, na verdade uma dupla formada com o Yago, receberá a classe das aves, mais uma frustração para a conta do dia (e ainda nem são 12 horas). Ambos deverão pesquisar características anatômicas, reprodutivas, alimentares, entre outros aspectos sonolentos. Se ganhasse a classe dos peixes... os peixes ósseos, ah, aí acharia o trabalho muito legal. Se ganhasse essa classe, poderia falar das coisas que sabe acerca dos peixes, coisas que sua mãe lhe contou sobre o trabalho do pai: que há tempos em que não se pode pescar nada, a época do defeso, a fim de proteger os peixes e deixá-los namorar um pouco em paz. Explicaria também que há os peixes de água doce, que há até peixes criados em cativeiro, infelizmente. Se ganhasse do professor Thiago essa classe, pesquisaria tudo sobre eles, até mesmo o que os peixes curtem fazer no final de semana, quando as praias estão cheias de banhistas e eles têm que obrigatoriamente sair de casa. Quem sabe até poderia usar a Antonieta para ilustrar algo na explicação!!!!!! Não, melhor não. Todo mundo implica com o fato dela andar por aí com ela e ainda dormir abraçada com Antonieta, afinal adolescência não é mais idade para se ter pelúcias; inventar isso seria só mais um motivo para que seus colegas fizessem chacota com ela e Yago, os dois alunos mais excluídos do 1ºB. Mariana, ao final da aula, enquanto arruma o material, dá uma última olhada em seu bicho: entre dois cadernos, com a cauda melecada de banana, Antonieta está lá, silenciosa e inexpressiva como sempre. Você é um bicho, Antonieta. Queria que você falasse, que me ouvisse. Mas você é um bicho, Antonieta, uma vassala, e não pode pertencer ao Reino Animalia.

O sinal é estridente e nervoso, mas gera felicidade em todos os alunos e funcionários. Mariana está morrendo de fome, até porque preferiu não comer a fruta que levara para o lanche. Provavelmente, esqueceu de tirar da mochila; além de distraída, é esquecida. Após dez minutos de caminhada, está diante do portão de ferro e da pequena casa onde mora com sua mãe, Dona Mariza. Antes de entrar, como boa filha que é, limpa os pés no tapete barato. Antes de entrar, infeliz que é, suspira longamente, e então sente, antês de vê-lo, o sabor do almoço: hoje há ovo frito, feijão, arroz e batata doce. Mariana dá um beijo na mãe, uma senhora baixa e gorda de 40 anos, mesma altura da filha, e corre lavar as mãos. As mãos de sua mãe são envelhecidas, gastas pelo trabalho duplo, na casa e no carrinho lanche que Mariza administra e hoje, particularmente, cheiram a alho.  Elas não são lavadas antes do almoço; o pano de louça cumpre a função. Enquanto mãe e filha colocam a mesa, Mariana ouve, mais uma vez, uma série de reclamações da mãe: o preço do feijão vermelho, a falta de sol para estender as roupas, a necessidade de Mari conservar seu uniforme limpo, retirando-o antes de comer. Ai, mãe, que saco.

Por um momento, enquanto procurava um garfo e uma faca no gaveteiro (as cores nunca combinavam naquele misto de jogos de talheres e suas tantas peças faltantes), alheia à fala reclamatória da mãe, Mariana desejou que também houvesse para a vida dela um defeso: ah se, de janeiro a fevereiro, ou quem sabe de sexta a domingo, das três às seis da tarde de cada dia, ah se houvesse um intervalo da vida no qual, obrigatoriamente, ninguém pudesse pescá-la de seus pensamentos, seja para passar pano na sala ou estudar Química ou sorrir e arrumar-se para prostrar-se diante de visitas. Mariana era distraída e, como toda pessoa perdida, ofendia-se com interrupções utilitárias: vá tirar o lixo, Mariana, vá até o quadro e resolva o problema, pisque de volta pra ele , Mari, responda minha mensagem logo, eu sei que você a visualizou, Mariana.

-- Ow, Mariana, eu tô falando contigo, tapada. Me passa a batata doce.

Um defeso. Um defeso para a proteção da espécie das tapadas.


2 de novembro de 2017

Onde a tainha Antonieta tenta explica ao leitor quem é, o que curte fazer no final de semana e a que veio

eu nasci numa esteira velha & enferrujada duma confecção chinesa, há muitos anos, e logo vim para o Brasil, mais especificamente São Paulo, e numa loja da Rua 25 de Março permaneci durante alguns meses (o primeiro deles embaixo do balcão - o depósito improvisado do Box 37) até ser vendida à Dona Luzinete.

não, a Luzinete não é a minha mãe. muito menos os chinas que me costuraram e estufaram. Tia Luzi me comprou (era o ano de 2009) a fim de me revender, junto com outros bichos pelucianos, em sua cidade, Fortaleza. foi uma viagem tranquila, embora eu não tenha curtido brisa nenhuma dentro de uma caixa de papelão, exceto por um único aperto: ali pela altura de Itaobim, a polícia parou a caminhonete onde viajávamos e quis conferir a carga; houve um momento de aflição pois, devido a nossa experiência na 25, conhecíamos histórias terríveis de baleias, tartarugas e emojis que foram rasgados ao meio em fiscalizações, sob a suspeita de esconderem drogas. mas deu tudo certo: rapidamente fizemos amizade com Lúcio, o cãozito farejador, que por alguns segundos quase abandonou o profissionalismo e puxou uma de nós pra brincar, sendo, no entanto, rapidamente contido pela coleira.

Já em Fortaleza, fui jogada de loja em loja até cair numa loja de 1,99
Eu custava 25 reais e, até ser comprada, algumas vezes a dona da loja, a Bruxa Jerusa, teve que explicar a clientes interessados na minha fofura que, não, eu não custava 1,99, que havia outros produtos mais caros, e que eu custava 25 reais


sinceramente, não entendo muito bem as pessoas e, por mais que muitos anos tenham se passado, ainda aqui, em Itajaí, ainda agora, em 2017, ainda hoje, dentro da mochila da Mariana fedendo a banana (ela levou a fruta como lanche pra escola mas teve vergonha de comê-la e aí a desgraçada amassou na bolsa e se colou em mim e aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa) penso que entendo algumas coisas, sobretudo de meninas e meninos, mas ignoro as motivações de grande parte das ações humanas. o índice beira 100% quanto se trata de adultos.

isso me lembra que uma vez uma tia da Mariana olhou pra mim e disse: larga esse bagre feio, menina. tanto brinquedo bonito e você aí a arrastar no chão essa coisa suja. por sorte, a Mari é marivilhosa e disse ELA É UMA TAINHA  e saiu pisando muito bem pisado. como posso ser um bagre se não tenho bigodes e não sou fofoqueira? Eu não aguento gente que não entende sobre peixe, que não curte maresia.  tainhas são peixes simpáticos que divertem a galera; bagres são peixes desagradáveis que tratam mal as pessoas a sua volta mas postam mensagem positivas nas redes sociais. como podem os humanos confundir isso? que diabo as crianças estão aprendendo na escola, que quando crescem se tornam fãs de golfinhos e carros rebaixados? isso que nem vou entrar na questão musical e culinária, argh. E ELA TEM NOME, O NOME DELA É ANTONIETA - ok a Mari não disse isso pra tia, mas seria legal se tivesse. e se batesse a porta, então? ai, eu deveria ser diretora de cinema.

no mais, sou, assim, uma tainha delicada demais.
meu líquen preferido é o rosa 

já te ligo de volta, guria, agora não dá pé