1 de maio de 2010

Felicidade

Tudo preto. Ô, meu Deus! Será que esse troço estragou? Não, não. A tela negra dura pouco. Logo surgem luzes exageradas, vindas de refletores doidos, que dançam ao som de um medonho toque de corneta - É assim que se inicia o programa "Teu Sonho agora é nosso!". Apesar da edição semanal, em todo programa o apresentador entra no palco e, equilibrando-se entre as luzes frenéticas (que param, depois de um longo sorriso plástico dele), dá a explicação - sempre o mesmo roteiro - sobre o título do programa - "A rede Felicity de produções, junto com seus honrosos parceiros, realiza mais uma vez um sonho brasileiro. Não importa em que canto do país ele esteja: A Rede Felicity vai caçar o sonho para realizá-lo. Para isso, basta enviar uma carta para a nossa produção [nessa parte, às vezes, não sei por quê, o apresentador se atrapalha, sai do roteiro e utiliza a expressão"linha de produção"] contando o seu desejo - tem que ser um desejo honesto, hein!, ele acrescenta - Além, é claro, de enviar a seguinte pergunta com sua resposta correta: Quem traz a alegria a todos os momentos do meu dia?" - Quando termina essa apresentação, começa a brilhar, ao fundo do cenário colorido, o letreiro FELICITY.
O terno do homem tá meio manchado, tá não? Não, não. Apenas a tela que deu uma leve pifada. Para voltar a imagem ao normal, um tapa no lateral do televisor basta.
- Jusué! Bate na Tv, meu filho!
E lá vai o pequeno descer do sofá para acertar o aparelho com um tapa. Feito isso, volta ao sofá onde também está Rosa, a mais nova, que não desgruda o olho da TV.
- Mas é muita carta, meu Deus!
E são mesmo. Uma pilha imensa. A própria Cleusa constata isso. Deixa, por um momento, a vítrea pilha de louça para se embriagar naquela branca pilha de papéis
-Jisuis, que seja! É hoje que meu envelope cai na mão do hômi!
E Cleusa, a mãe, dona de casa por sina e profissão, senta-se no sofá surrado ao lado das duas crianças.
Faz mais de um minuto que as moças loiras mexem e remexem naquela pilha de cartas. Jogam pra cima, e ficam olhando elas cairem com cara de besta. Qual a graça disso? O que dá é apreensão: Cleusa, Jusué e Rosa estão grudados no sofá, só aguardando.
Enquanto isso, um deles pede café. Cleusa não escuta. O outro fala alguma coisa sobre dinheiro.
Hã? Dinheiro?
- Mãe, você pediu novamente aquele valor em dinheiro? Pra quê?
- Hã?
- É, mãe, se nós ganharmos o dinheiro... vamos comprar o quê?
- Ah.. Ah.. é pra uma casa né. Chega desse pardieiro, esse barraco cheio de goteiras. Olha essa cozinha, que nojo! - e aponta para o chão encharcado.
- E uma estátua? A gente compra?
- Que é isso muleque! eu, hein. Vocês pensam em cada coisa.
Coisa, mas que coisa demorada. Ó! Atenção que o apresentador pegou, enfim, uma carta.
Sempre com seu sorriso plástico, o apresentador apanha uma das cartas flutuantes. Tambores rufam em algum lugar: em algum botão. A câmera focaliza-se no rosto do apresentador: risonho ele mostra o envelope como se fosse um troféu. Começa a abrí-lo... e..e.. e o sonho agora é...
- NOSSO! Gritam com contida exaltação, as loiras.
Coisa estranha.
- O que é estranho, muleque? - pergunta Cleusa, com o pano de prato nas mãos, sem desgrudar os olhos do televisor.
- Por que o nosso sonho é das meninas loiras? Será que elas ganham também?
Cleuza não responde. Rosa está muda. Estão concentradas, pois o apresentador, lentamente, abriu a carta e sacou uma folha com linhas
- É o meu caderno, mãe! a folha é do meu caderno, mãe! nós ganhamos! Nós ganhamos! - grita a pequena Rosa desafinada e magramente.
- Sossega, menina! Pode nem ser. Todo mundo deve mandar a resposta e o sonho em folha de caderno, não é?
Éééééé, pessoal! Minutos de apreensão. Acabei de entregar o cartão resposta pro nosso auditor e ele está avaliando. É só ele dar o ok e vou dizer quem é o felizardo!
- Que é felizardo, mãe? - diz Jusué
- Mas, peraí, felizardo é homem. Felizarda é que é mulher - diz Rosa, pensativa
- Espera, espera! - esbraveja, ansiosa, Cleusa.
E os segundos parecem minutos, minha gente! Opa! Mas peraí!
O apresentador bota a mão sobre o ouvido, a escutar seu ponto eletrônico. Logo a cena é cortada para outra, que mostra o auditor, de terno e gravata, com o dedo polegar para baixo, trazendo uma tristeza alegre para o estúdio-coliseu da rede Felicity de produções. Rapidamente, o apresentador remonta seu sorriso e pede para sa moças loiras jogarem novas cartas. Enquanto isso, avisa - Pois é, pessoal, infelizmente uma resposta errada. Mas não tem problema, sabem por quê? por que, meninas? Por que seu sonho ééééé.....
- NOSSO!
E com um gesto alegre e agitado, o apresentador pega nova carta.
- Outra carta?
- É, seu besta, a outra tava com resposta errada!
- Mãe, olha a Rosa me chamando de besta!
E a Cleusa calada. Inerte como as cartas no chão do estúdio.
- Ah, cala a boca, seu chato. Ô mãe, ô mãe, acho que nem era minha aquela folha, né? Foi só impressão. Agora que é, ó!
Carta aberta. Polegar do auditor pra cima. Palmas que pipocam nas mãos das loiras.
- Parabéns, José Geraldo do Carmo! Você, amigo, que pediu um caminhão para melhorar seu trabalho aí na sua fazenda, em Montes Claros, Minas Gerais, parabéns!
Agora um toque de cornetas. Mais luzes. Mais sorrisos loiros.
- Rá, que chato! Minas Gerais. Muito longe daqui.
- Ah – Jusué ficou triste.
Cleusa não. Levantou alegre da tv e foi pro fogão esquentar um café. Aliás, que é isso? Uma goteira caindo bem dentro do bule!
- Ô, diacho!
Cleusa do sofá olhava para os dois pequenos. Um dia a carta dela seria sorteada. Ia mudar de vida. Os dois pequenos, tão engraçados.
- A capital de Minas Gerais é Belo Horizonte, sabia?
- Grande coisa! – Jusué ficou bem chateado com o não-sorteio.
Cleusa não; tranquila. Essa manha, essa birra das crianças. Não estão acostumadas a perder. Mas um dia – ela sente – sua carta vai ser premiada. Ela vai continuar mandando, toda semana. Abriu o armário atrás de três copos. Um de vidro e dois de plástico. Pôs na mesa. Olhou de novo para os dois filhos. Na Tv, o programa já havia acabado para dar lugar à novela das 7. Ora, quem traz a alegria para todos os meus dias? Meus filhos, é claro! Uma lembrança tão simples e boba a fez sorrir.
E, sorrindo, chamou os pequenos para tomarem café.

2 comentários:

Í.ta** disse...

taí o edu contista.
tão bom quanto o poeta!

adorei, cara.
essa linguagem solta. gosto muito.

grande abraço!

Í.ta** disse...

linguagem solta = narrativa que flui, leitura quase oral, foi o que quis dizer.

:)