26 de maio de 2018

o amor possível



no instante mesmo em que morre a última das feras,
e em que se revistam meninos à saída da última das festas,
como se juventude pobre crime fosse,
como se caças jovens pobres feras fossem

no instante mesmo em que se violam, mais uma vez,
os direitos dos que amam
e se cortam, dedo por dedo, as mãos e pés rebeldes
de quem insiste em lavrar/dançar

no instante mesmo em que 
doidos doentes drogados
mendigos migrantes marielles
velhos violados violetas 
dormem morrem vazam

dois jovens, um homem e uma mulher,
se amam num beliche  
                                                              - e bem que eles fazem.

não o amor de amantes,
mas o amor possível:
baixinho, em vigília nas torres e trincheiras,
rápido, nos metrôs, nas boleias, nos horários apertados de almoço,
escuro, a portas cortinas fechadas,
as lâmpadas todas apagadas à força
contra os corpos de homens que amam homens
contra os corpos de mulheres que amam mulheres

no instante mesmo em que
caleidoscópica
morre a última das estrelas
e candelária
morre o últimos dos meninos ,
dois homens, duas mulheres
se amam num beliche
                                                              - e bem que eles fazem.

19 de maio de 2018

Tainhas (fragmento)



Tão logo entrou no ônibus, Mariana procurou um lugar vazio onde pudesse se sentar à janela; escolheu um na parte central do ônibus, torcendo para que ninguém mais se acomodasse a seu lado, porque desse modo poderia se folgar à vontade e não teria a obrigação de dividir um espaço tão pouco com estranhos. Foi aí que um homem, trajando calças e camiseta alaranjadas, nos pés um sapatão preto de couro, sentou-se ao seu lado, mesmo havendo tantos outros pares de assentos livres; o sujeito era forte, seus músculos salientes pareciam querer saltar fora dos braços, e trazia o cenho fechado, como se estivesse de mal com a vida e com todos. A menina observava-o de soslaio, fingindo olhar para a paisagem estática da janela, onde nada de mais havia para ver a não ser a fila de passageiros embarcando rumo à Recife. Para não transparecer incômodo, Mariana esforçava-se por pensar em outras coisas: olhava para o bagageiro, acima de sua cabeça, procurando analisar as diferentes tipos de malas e bolsas que as pessoas traziam: havia quem usasse maletas pesadas e bonitas, como as de executivos, enquanto havia também cobertores, potes e sacolas plásticas de mercado, denunciando as diferentes intenções e preparativos de viagem das pessoas. Certamente havia nesse carro gente a trabalhar, a passear, gente com pressa e gente tranquila. E gente perdida, em fuga, como ela, haveria mais alguém? Era nessas coisas que Mariana pensava quando o homem a seu lado a cutucou e, após constatar a atenção da menina, perguntou com voz e rosto sério: "Ei, quer almoçar?". Aquilo não fazia sentido algum, primeiro porque eram três horas da tarde e há muito tempo já ela almoçara; ademais, não conhecia o homem e sabia que um convite como esse não era coisa que alguém fazia a um estranho, ainda mais numa linha interestadual prestes a embarcar (almoçar onde????). E havia algo mais, que só agora a menina percebia: o homem tinha um cheiro horrível, embora ela não soubesse dizer do que, possivelmente cheiro de quem há muito não tomava banho. Em poucos segundos, enquanto a perguntava flutuava no ar, Mariana tentou em vão achar uma explicação para tudo aquilo, a começar pela roupa do homem, laranja do pescoço às pernas. "Só dois tipos de pessoas usam roupas assim: os garis e os cantores de rock", pensou a menina, e por um momento passou pela sua cabeça a imagem dum homem magrelo gritando e rebolando com um microfone na mão .  Esse era um hábito da menina: constantemente, observando as coisas, cravava algum pensamento definitivo sobre elas e as pessoas, como se o mundo, aquele mesmo mundo que mal conhecia para além das esquinas da sua casa e que só agora, com tal viagem, começaria a conhecer, fosse algo estático, imutável. Mariana não sabia, mas dali em diante, quanto mais passasse o tempo e quanto mais viajasse por aí, menos certezas teria sobre o mundo e suas coisas. Mas, pensando bem, algo lhe dizia que o homem ali não era uma coisa nem outra; esgotava-se o tempo dela e ainda assim ela não sabia o que dizer, só queria que o homem desaparecesse. Ao invés disso, o homem aproximou-se mais dela e, utilizando seu antebraço, pressionou-o contra o pescoço da menina, fazendo que suas costas afundassem na poltrona. A cena durou poucos segundos (três, cinco, sete?) e, ao cabo deles, o homem levantou-se, o rosto sempre bravo, e saiu rapidamente pelo corredor do ônibus enquanto um grupo de passageiros, percebendo a cena, corria a acudir a menina: "Você está bem?", "Tá machucada?", "Esse homem é louco!", diziam. Mariana disse a todos estar bem, e cada um foi voltando, a resmungar, a seus lugares, guardando um pouco de atenção à menina que, estranhamente, viajava sozinha. De fato, Mariana parecia bem: apesar dos cabelos desgrenhados, não havia marcas em seu pescoço, indicando que talvez a agressão fora algo mais assustador do que doloroso.  Eram todas impressões, e mesmo Mariana não sabia dizer onde e se doía; estava assustada, procurando algum significado para o que acabara de acontecer. O homem já estava longe, bem longe, sem que qualquer passageiro ou funcionário tenha manifestado a intenção de persegui-lo. Durante alguns poucos minutos, a impressão era de que, nos lugares próximos ao de Mariana, as conversações passaram a ser sobre aquele homem considerado louco; havia quem manifestasse ódio e desejo de feri-lo, e era curioso que o desejo das pessoas de machucá-lo era superior à preocupação com a menina; dali a dez minutos o ônibus partiria e cada um daquelas testemunhas do ocorrido substituiria a cena bizarra por outros pensamentos mais apropriados, porquanto mais úteis: os boletos, as mágoas, a fome, o sono, os desejos de cada um. Menos para Mariana, que dali pra frente nunca esqueceria o episódio, em busca de algum sentido. Houvesse uma forma de contabilizar o raciocínio, houvesse a profissão de contador de pensamentos, o Senhor Anselmo (chamemo-lo assim) surpreenderia-se com a dificuldade de organizar as ideias de sua cliente Mariana, e provavelmente não esconderia sua surpresa em constatar que nada havia de rancor ou ódio ali a respeito do que acontecera (certamente estaria ele, em vista de seu ofício, acostumado a lidar com mágoas e maldades provindas das cabeças de sua clientela, seja ela adulta ou infante): os pensamentos marianescos naquela hora compunham estranhas flora e fauna; antes de tudo ela pensava no porquê havia pessoas a fazer mal às outras sem motivo algum, antes de tudo ela pensava nas estrelas de rock que se contorciam no palco, cada noite uma cidade diferente do mundo cantando sempre as mesmas músicas da turnê em suas apertadas roupas multicoloridas; deus do céu, os cantores não se cansavam de cantar sempre as mesmas músicas? como não enlouqueciam?; pensava também Mariana que aquele homem era sozinho; pensava Mariana que cada pessoa tinha um cheiro diferente, mas que, no fundo, em certas horas, tinham todos, ricos e pobres, gênios e doidos varridos,  a mesma tendência a cheirar mal, nos peidos, nos suores, nas fezes, no amor e no medo. Anselmo, pobre Anselmo, encerrou o expediente daquele dia, mas levou pra casa a cisma; antes de dormir, provavelmente virou-se para para sua esposa (chamemo-la Soraia, todo mundo tem quer ter um nome, não importa se viva ou morta, rica ou pobre, real ou inventada) a dizer: "Soraia, é muito estranho, pois em nenhum momento do dia ela desejou mal a ele, não quis se vingar, não desejou que sequer se machucasse. Adolescentes são o diabo, Soraia, não entendo porquê essa daqui não é." "Vai dormir, Anselmo, e não enche o saco", disse Soraia, puxando pra si um pouco mais a coberta. Nessa hora, alta noite, Mariana provavelmente já dormisse, o assento ao seu lado vazio, a sonhar com bichos, pessoas, cheiros e estrelas da música

20 de abril de 2018

Kudriavka



Laika, a primeira mulher,
contempla a Terra do planeta SemNome
enquanto rói, preguiçosa,
o osso do último homem

nem a primeira nem a última
a ser mandada pro espaço
ontem mesmo, em qualquer rua,
partiu mais uma num esputinique

Laika, minha mãe,
a procurar calor
pelas ruas de Moscou,
Laika Franco,
a morrer todo dia
pelas ruas do Rio,

Laika Frank,
Laika Freak,
Laika Frio

Laika, a primeira cachorra,
contempla a dança de infinitos satélites
que o homem lançou, desperado
a qualquer marte que servisse de apoio,
enquanto coça, prazerosa, sua pulga de estimação

Amaram mal os homens, como um serviço
amaram mal os planetas
como mal amaram suas mulheres e mães

Mas Kudriavka, a primeira anja,
não pensa nessas coisas 
no planeta SemNome,
seu reino particular

Laika, lá, em pleno estado Laiko,
corre e ladra e brinca, livre, o dia todo
e à noite adormece
dando patadas no ar

15 de abril de 2018

tô só
por ti
téo

sapoti

30 de março de 2018

Antes

I

até tarde da noite
antes de dormir
kauan faz um stencil
e pensa no devir

nada concreto:
um barco atravessa um traço
leve, negro traço
eis tudo que restou
das noites de antes

como ele
muito dantes, há três mil grécias
poetas distantes
homeros virgílios e dantes
em vigília, ergueram taças
umedeceram penas e,
anacreontes de ontem,
criaram invisível trilha
entre o sentido e o escrito

o coração virado sempre pra parede
contempla o branco demoradamente
(nele o barco em sua negra marola)
a procurar,
antes do porvir, sua ruína
antes do papel, os pensamentos

noite contra noite, kauan e o ofício de levar a cabo a espera
  - designer de anteriores -
a reconstruir, toda noite, o passado
em busca de novos versos
versões felizes para o doído
e nunca olvidado

II

muito antes do corpo sobre a cama,
o prazer da linguagem

bem antes do caminho pra casa,
sem rosto amigo e estrela-guia,
bem antes dos estranhos corredores,
de alheias casas,
os acordos da linguagem

dois dias por dia,
a saldar e contrair
linguísticas dívidas
de deliciosa mora

correm as pessoas para cá e lá
a trabalhar, dentro do corpo,
vestidos para os desejos
e em cada palavra só o vestígio
do que querem realmente

quando se cansam do verdadeiro prazer
de repente
(para se descansar a língua da linguagem)
deitam-se à cama os homens
e põem-se como gatos
a se lamberem os corpos

III

o que vai ser desse agora
trabalho, aposta ou feitiço
depende do que foi o antes
com seus atropelos e prejuízos

há muitos anos,
onde hoje é o corpo dessa mulher
havia um lote de terra
susserania hereditária
onde lá mil outras morreram
para que esta
decididamente
atravesse a rua apesar do movimento dos carros

há muitos anos, todos os dias
duas mãos se apertam no escuro
em busca de um novo antes
distinto daqueles outros
com seus acertos, vacilos, rompantes

sem recalque, sem saudade:
um antes para ter de onde se ir
e para se ter a quem contar

casca com que se possa
sair à noite para a festa
roupa que se possa
trajar no dia de seu mais novo nascimento

24 de janeiro de 2018

Onde a Tainha Antonieta descreve seu cotidiano e revela segredos e sabores de bolacha marianescos

Mariana é a menina mais interessante do mundo da terra e das águas. Mesmo que me oferecessem um luxuoso coral nas Bahamas, ainda sim preferiria morar aqui em Itajaí com ela. Nas profundezas do Caribe, não posso ouvir Guns N' Roses na caixinha de som falsificada dela, muito menos assistir às brigas diárias entre mãe e filha. Não sou sádica; o que eu gosto é de observar as pessoas, e não acho que há lugar melhor do que essa casa apertada onde vivo e onde - parece - só aos gritos se é ouvido. Porque, quanto mais aperto passa uma pessoa, mais ela aprende. Algo parecido se dá com os peixes: se um pexuxo é fisgado e consegue escapar, volta como mestre dos demais. Conheço uma tanhota de Laguna que afirma ter escapado de 54 tarrafas e 200 varas de pescar. E as tanhotas não costumam mentir. Quem mente mais no mundo marinho são os bagres e os namorados.

Gosto da espontaneidade da Mariana, de sua displicência: ela tem um jeito torto de viver a vida que torna impossível prever seus movimentos. Quer dizer, eu sei que ela acorda ali pelas sete, se arruma rapidamente e vai a pé pra escola. eu sei que ela almoça perto da uma hora. Que, à tarde, toma banho, faz tarefa, fica olhando que nem uma boba fotos de modelos no Instagram até as quatro, quando parte com a mãe montar o trailer. Mas isso diz pouco ou quase nada de quem Mariana é: nas dobras e falhas da rotina dela é que se enxerga o que ela é. Por exemplo, entre uma aula e outra, Mariana nunca conversa ou mexe no celular, até porque ela não tem um. Ela fica fantasiando coisas: um mundo no qual as pessoas voam,  ou um mundo no qual ela pode ser invisível e chutar a canela dos clientes rudes que são grosseiros com sua mãe no carrinho lanche.  Um mundo no qual barcos não afundam e peixes de pelúcia falam. Uma vez, numa rara tarde de folga, ela simulou uma fala minha enquanto me segurava diante de si e foi bizarro

-- Oi meu nome é Antonieta e eu adoro nadar com minhas amigas baleias e golfinhas...
-- BITCH ME RESPEITA E EU LÁ GOSTO DE GOLFINHOS
-- eu gosto da Mariana e acompanho ela em todas as suas aventuras...
-- OWN, isso é verdade.
-- ... mas agora o que mais quero é um bom banho
-- AH NÃO. Mano, eu fui feita na China, você não leu a etiqueta? MARIANA APARECIDA DA SILVA EU NAO GOSTO DE BANHO, ME DESBOTA DESGRAÇA

Queria muito poder me comunicar com ela.

Mariana também se dá o luxo de guardar segredos. Luxo porque não há ninguém interessado em seus pensamentos íntimos, mas mesmo assim, ela os guarda com cuidado. Se tudo sobre ela é desconhecido e ignorado pelo mundo, há uma parte ainda mais desconhecida, que ela chama de segredo. Antes de dormir, todo dia, confere se nenhuma luz foi lançada sobre os desejos que ela não sabe muito bem nomear. E que desejos são esses? Ah...

Ela está sempre entrando, do jeito dela, dentro das outras pessoas. Se vê, da janela do ônibus, uma senhora bater o carro e dele sair apavorada para conversar com o outro motorista envolvido, Mariana se põe a pensar o que estaria sentindo a mulher. O ônibus faz uma curva mas Mariana segue com a senhora lá na avenida a sentir-se atarantada e insegura. Mariana se pergunta se o carro é da mulher, se ele tem seguro, se ela estava atrasada para o trabalho ou para buscar os filhos na creche. E se for uma víbora, uma pessoa com modos de bagre? Mariana parte sempre da ideia de que as pessoas são boas. Há um tempo atrás, o professor de Filosofia dela, Maurílio, deu uma aula rápida sobre Rousseau e a tese do Bom Selvagem mas ela faltou nesse dia porque estava com diarreia. Mesmo assim, por ver muitas pessoas o tempo todo no carrinho lanche, sobretudo por conta da imagem que faz de seu pai, Mariana acredita que as pessoas são boas; outra coisa é que as estraga. E o que são essas coisas? Ah...

Para entender que coisas são essas, seria preciso contar a história de amor e desamor entre Anselmo e Mariza, os pais da Mariana. Eu tô aqui nessa casa desde que ela tinha sete anos. Foi no sétimo aniversário que ela ganhou do pai esse presente maravilhoso que sou depois de uma viagem dele a trabalho. Desde então, assisto a uma série de ausências: a casa esteve vazia em quase todo o tempo: o pai de Mariana mal parava em casa, pois quando não estava no mar, estava no bar, caindo pelos cantos. A menina está sempre na escola, ou trabalhando, e no pouco tempo livre que sobra, ouve música e assiste séries abraçada comigo. Dona Mariza se resume a trabalho e é uma pena que não haja um narrador para contar quem é ela e de onde veio. As histórias mudam quando nascemos onde dói e porque dói em cada personagem. E, se não mudam, é porque tem água viva nessa praia, ou seja, tem coisa errada aí. Afinal, os narradores em geral são preguiçosos ou parciais e mostram sempre o querem mostrar, que nem o telejornal ou as fotos das pessoas em redes sociais. Não posso contar aqui a história dos pais de Mariana porque o narrador não permitiria, mas digamos que não era feliz, que havia briga e um pouco de violência. Digamos que eu deveria amar Seu Anselmo porque ele é o pai da Mariana e, além disso, ele que me trouxe para essa casa, mas eu não amo, por tudo que ele fez... ou não conseguiu fazer. Mariana, sim. Apesar de tudo que já ouviu sobre ele, as queixas e críticas da sua mãe e das irmãs dela, Mariana gosta muito dele e sente sua falta todos os dias e eu sei que ela me aperta às vezes pensando nele. Eu sei que, se ela me leva pra todo canto, é por isso - mas digo aos meus amigos que é por sou demais, porque sou uma estrela. É, minha gente, até mesmo peixes de pelúcia célebres como eu têm problemas de autoestima às vezes. E olha que eu nem posso comer chocolate, a minha boca é costurada num eterno sorriso. Nessas horas de estresse, fantasio com bagres trancafiados em tanques de pesque-pague ou então ouço música para ficar feliz. Meu artista preferido é o Slash, guitarrista do Guns. Mariana gosta muito de música pop e prefere Rihanna a Beyonce. É tão bom quando ela se esquece dos problemas e, no quarto a portas fechadas, dança ao som do rádio enquanto me joga pra lá e pra cá, abusando da minha espinha dorsal de pelúcia 

quando estou com ela tenho pensamentos selvagens
                                                                                      wha wha wha.

Mariana odeia biscoito recheado  de Morango, ainda mais daquela marca barata que sua mãe insiste em comprar. Entre os biscoitos baratos, gosta do de maizena, ainda mais se tiver doce de leite na geladeira. Ui.

Mariana tem vergonha do seu corpo. Uma tarde, enquanto voltava a pé pra escola, duas colegas a perseguiram até prensá-la num portão de ferro vizinho. Empurram-na, chamaram-se de gorda, feia, balofa. Por quê? Ah... as pessoas são estranhas. Naquele dia, ao me tirar da mochila, ela me encharcou com suas mãos suadas e chorosas. Eu nunca deixo de sorrir, mas quando me entristeço, um dos pontos meus descostura. Naquele dia, abriu-se um rombo no meu pobre rabo, revelando um pouco do meu algodoado recheio. Desde então, sigo sendo uma tainha bonita charmosa alegre cintilante porém levemente arrombada. Alô, Dona Mariza e suas agulhas, por favor me notem. Mas onde eu estava?

Ah, acho que esse segredo é importante pra história: há cinco dias, Mariana, calmamente, planeja sua fuga de casa. ela quer ir pro mar.

13 de janeiro de 2018

há por aí uma pessoa para quem não posso ligar. a qualquer hora e qualquer dia, não dá linha. se me passo por outra ou por outro, se ligo pela internet ou telepatia, não dá linha. se volto no tempo e chego à época em que havia orelhões ou telefonistas, ainda sim para ela não posso ligar. as fichas emperram, uma a uma, as telefonistas começam a rir, dente por dente, e desligam o telefone à primeira palavra. pombos correios não conseguem chegar à calçada sem ser abatidos e nem a maior garrafa do mundo resistiria à missão de entregar uma carta sem rachar-se. se mando um sinal de fumaça, o vento o apaga. às vezes ela me liga e marcamos um café ali naquela lanchonete do lado do Terminal. 

*

há, em determinada parte do Oceano, um ponto irrastreável. nenhum satélite ou radar o alcança. nenhum instrumento de orientação utilizado pelos marinheiros aponta a existência: um pequeno quadrado negro aponta o puro nada. os barcos passam por perto sem se dar conta. trata-se do único ponto possível para se esconder no pega-pega que se joga aos 11 anos num final de tarde dominical sem ser descoberto pelos amigos. não sendo mar e tão pequeno (tem menos de um metro quadrado), poderia alocar um banco, desses para onde brasileiros enviam dinheiro ilegal. de vez em quando, sem que nenhum pesqueiro ou náufrago perceba, salta nesse ponto um peixe de ouro.

*
há no coração da floresta uma tribo sem nome. ao acordar, seus moradores saltam das redes apressados e atentos ao último dia de sua comunidade. mas nem por isso descumprem a rotina; para se desaparecer por completo do mapa é preciso muita organização e método. em seu último dia, cantam, dançam, louvam aos deuses e pedem clemência, na esperança de que mais um dia seja concedido. às pressas desfazem-se de suas atuais relações e organizam novos casamentos que formam uma noite furiosa de amor a fazer até mesmo a Lua descer por um fio direto à cama. as crianças dormem abraçadas e com medo enquanto os velhos cantam pela última vez. quando despertam, saltam das redes apressados e atentos a mais um último dia de sua comunidade.

*

há uma rede de linhas emergenciais a tocar durante toda a madrugada. um bombeiro alto de rosto cansado e barba por fazer procura atender a mais de um ao mesmo tempo e ouvir os interlocutores atentamente. cada voz, desesperada a sua maneira, tenta convencê-lo da importância do reparo e material de que dispõe. o bombeiro se angustia e chega a disparar um jato de água acidentalmente enquanto maneja os telefones. não há viaturas suficientes e o bombeiro está velho e cansado. para ganhar atenção, as vozes são criativas nos pedidos e dão detalhes mirabolantes. alguns, desavisados, usam estratégias inadequadas para a idade do bombeiro. este se deleita com alguns dos casos e tenta memorizá-los para um dia publicar no jornal e ser famoso. enquanto isso a cidade queima.

*
há uma mosquita musculosa chamada Roberta. sua história não agradou à editoria da seção de literatura infantil e por isso seu autor, Carlos Camilo, jogou a história fora como se a pobre Roberta fosse desprezível como um Babadook. embora carregue uma história de superação e fortalecimento das pernas, Roberta sofre mesmo hoje, a voar baixo e cansada, desviando dos pés de Soraia e Carlos Camilo, na quitinete por eles alugada. Roberta é uma Culex qualquer sem perspectiva de vida, sem um dengo ou dengue qualquer. Carlos Camilo e Soraia não se dão conta das semelhanças entre todos e preferem dar atenção a webamigos pouco empáticos.

1 de janeiro de 2018

Capítulo 2

onde milhares de hambúrgueres são fritos, e motoboys são hospitalizados

Uma folha amarela com diversos campos para preencher e - lá embaixo - uma linha para a assinatura do cliente. O que significa atacado e varejo? atacado parece algo violento, rápido. varejo lembra mosca varejeira... não, nada a ver.

-- Mariana, assina logo e devolve pro homem essa nota fiscal, menina!

O vendedor, que já havia descarregado da caminhonete as caixas com hambúrgueres e apenas aguardava a liberação da nota, parecia tranquilo; era a mãe de Mariana que a apressava, pois havia muitos lanches por fazer e só as duas trabalhavam no carrinho. Ele ficava instalado à frente de uma igreja, e como havia missa às cinco, e às cinco e meia diversos alunos saíam de uma escola estadual ali próxima, Mariana e Mariza costumavam abri-lo às quatro da tarde. Atendiam até meia-noite - havia ainda a limpeza da chapa e a volta pra casa, que faziam as duas dormirem quase todos os dias de madrugada. Segunda era o único dia de folga das duas, rotina cumprida por elas há dois anos, quando elas chegaram em Itajaí.

-- Moço, o que é varejo?
-- Ah. É o tipo de compra simples, por unidade. Já o atacado é quando você adquire as coisas em caixa, em maior quantidade. E aí fica mais barato, entende?
-- Entendi. Obrigado.

O vendedor sorriu, despediu-se das duas e foi embora. Dona Mariza quase não sorria; aos clientes e fornecedores, por exemplo, reservava uma expressão fechada e estranha, uma tentativa de ser serena e receptiva mas que não funcionava devido às inúmeras preocupações de mulher, de mulher mãe, de mulher mãe pobre, de mulher mãe pobre negra, de mulher mãe pobre negra trabalhadora e AH MEU DEUS

-- nossa sinhora, outro motoqueiro!!!! - Dona Mariza saiu do carrinho e aproximou-se da calçada. Mariana, assustada, continuou onde estava, atrás do balcão, ainda com a cópia da nota fiscal na mão. no, ar o cheiro dos hambúrgueres na chapa e os gritos da multidão que se aglomerava em torno da rua.

-- ele tá se levantando, ajuda ele, povo! - gritou uma senhora que saíra da igreja ao ouvir o estrondo. Ninguém sabia explicar o que houvera: alguém viu o motoqueiro derrapar e rolar pelo chão, enquanto sua moto deslizava na outra direção até acertar os paralelepípedos da calçada aposta àquela onde se encontrava o carrinho de lanches Maresia. O homem ferido conseguira levantar-se, mas parecia atordoado e, já na calçada, tinha dificuldade de responder às perguntas dos curiosos. Alguém chamou a ambulância. Outro alguém, que por sinal era o único cliente do carrinho no momento, sentiu cheiro de queimado AH MEU DEUS 

-- os hambúrgueres, Mariana!!!!

A menina acordou de seus devaneios e virou-se pra chapa: nela havia dois hambúrgueres completamente tostados, o queijo por cima havia secado devido ao superaquecimento; a fumaça aumentara e irritava os olhos. Em movimentos rápidos, ela desligou a chapa e jogou um pouco de água sobre os hambúrgueres, TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

-- LEPT LEPT - foi assim que soou o barulho dos dois tapas em sequência que ela levou no braço. Sua mãe voltara correndo para o carrinho e, antes de assumir o controle das coisas e da chapa, punira a menina por mais um desastramento.

-- No que você está pensando, Mariana? Meu deus do céu, você quer me enlouquecer desse jeito.

Ela não soube o que responder. Sabia que sua mãe não tinha paciência para os relatos de sua imaginação, considerada por ela tão inútil. Diante de uma coisa, Mariana estava sempre pensando em outra coisa, como se vivesse noutro tempo, dessincronizada. Dessa vez, Mariana pensava que seu pai havia um dia também sofrido um acidente. Mas não como esse, em frente ao carrinho. Não foi de moto, seu pai não rolou pela rua, nem contou com ajuda de pessoas que por lá passavam. E o mais importante: ela não estava lá na hora. Mas foi um acidente. Pelo menos foi essa a notícia que Mariza recebeu há cerca de dois anos atrás, quando os três viviam em Garopaba, numa comunidade localizada na Praia da Silveira. Foi de barco que Anselmo morreu, afundando na água, sem contar com a ajuda de ninguém, pois seus companheiros também faleceram. A Marinha informou que antes de partir-se ao meio e afundar, o barco pegara fogo após falhas mecânicas. Mas pouco daquilo importava diante do sentimento de perda e vazio. Era nisso que Mariana pensava, mas não dessa forma: vislumbres desorganizados, imagem sobrepondo-se a outra imagem, o mar agitado, pedaços de madeira com fogo sobre o mar, resistindo por minutos até que as ondas o apagassem, possíveis pensamento e frases ditas pelo pai, era nisso e muito mais que Mariana pensava.  Mariana estava sempre pensando em outra coisa e em muito mais do que era preciso. O resultado eram frequentes hambúrgueres queimados na chapa, clientes irritados com os pedidos que teriam de ser refeitos, e LEPT LEPT, TSS TSS, LEPT LEPT, TSS TSS.

O motoboy já estava sentado na ambulância, parecendo tranquilo e inteiro, e uma parcela dos curiosos ainda permanecia ali, de pé, a cochichar e contar e recontar suas versões para o ocorrido. Alguns, mais exaltados, clamavam por medidas de segurança na via, mas a revolta logo se apagava e  eles vvoltavam a seus afazeres calmos de sempre. Já recuperada dos tapas e broncas, Mariana voltara ao trabalho, a chapa novamente ligada e limpa, embalando dois hambúrgueres para viagem. Mas ainda pensava em acidentes. Um pouco no motoboy desconhecido (era um rapaz jovem, de uns vinte anos) e um pouco no seu pai pescador (era um homem jovem, tinha 34 anos quando o náufrágio ocorreu; Mariana tinha 12). Na sua cabeça, sucediam-se imagens de água e asfalto, bem como o desejo de conter todos os acidentes do mundo e defender as pessoas e suas famílias. Nesse momento, quantos motoqueiros estão caindo nessa cidade, no estado, no Brasil? E no mundo (Mariana não sabia dizer se havia motos  e motoboys em todos os países, mas certamente havia em vários)? E motogirls? Mariana nunca vira alguma. Tomara que não existessem; deus que a livrasse de uma jovem motogirl derrapando no asfalto, deve doer demais, pensava Mariana. Enquanto dava um nó na sacola, sentindo outro nó na garganta, Mariana pensava que centenas (ou milhares?) de motoboys caíam, tendo culpa ou não, todos os dias pelo mundo. Era como se os motoboys, reunidos em um único ser, nunca deixassem de cair na infinita rua do mundo, como se fosse uma imagem GIF, dessas que as pessoas compartilham nas redes sociais (Mariana particularmente amava GIFs de cachorro e de bebês sorrindo). A menina também pensava em naufrágios e na sua frágil ocorrência: o mar era tão imenso... talvez mais imenso que todas as ruas juntas, mas ela quase não ouvia falar de navios afundando. Parecia que só seu pai tivera esse azar. Seu pai e aquele casal do Titanic, filme que assistira uma vez de madrugada escondida da mãe.

A ambulância já partira, assim como o cliente cujo pedido foi refeito devido ao acidente na chapa. Sua mãe parecia mais calma, mas ainda mantinha sua expressão carregada, como se houvesse algum tipo de peso sobre suas sobrancelhas e fosse preciso sustentá-lo. Mariana passava pano umedecido com álcool sobre as mesas, tentando não pensar em náufrágios e derrapagens. Mas, se conseguia abstrair-se e deixar de pensar em algo, era porque outro pensamento, às vezes até mais insistente e triste, se aproximava. Dessa vez, Mariana pensava na dupla Atacado e Varejo. A garota concluía que seus pensamentos ruins vinham sempre em atacado, em caixas, aos montes. Enquanto isso, as alegrias vinham no varejo, varejeiras, uma aqui e outra ali. Poucas unidades.

-- Se você passar mais um pouco de pano nessa mesa, vai abrir um buraco nela, Mari. Venha cá, venha.

Era sua mãe chamando, enquanto limpava as mãos no avental já encardido. Trazia sua expressão mais leve possível (ainda sim era séria) e um abraço apertado para aquela filha tão atrapalhada, mas tão amada. Abraços assim eram raros. Mariana aproveitou esse momento de varejo e agarrou as costas da mãe com força, enquanto o sol naufragava por detrás dos prédios.

4 de novembro de 2017

Esta é Tainhas, a história de uma menina chamada Mariana e de uma tainha chamada Antonieta. Poderia chamar-se Tapadas, À beira do mar, ou até mesmo Ansiedade Lanches. Mas fazer o quê? Mariana também poderia ser feliz. E não é.


Capítulo 1 

Onde o leitor conhece Mariana e esta, por sua vez, um macete para calcular potenciação que de fácil não tem nada


Quanto mais a professora falava sobre a imensidão das camadas atmosféricas, mais Mariana afundava-se em sua cadeira, muito longe do céu e da necessidade de manter-se atenta. Ela sempre fazia um uso inadequado das informações que a escola lhe transmitia: por exemplo, embora fantasiasse constantemente a respeito das placas tectônicas (pegava-se pensando em mergulhos terrestres, placa sobre placa, ela própria uma mergulhadora litosférica catando conchas em busca do núcleo da Terra), tomou bomba na prova de Geo: nota 3. E Biologia, então? Esta matéria era seu terror: confundia as girafas de Lamarck com as ervilhas de Mendel. Na sua cabeça eram todos amigos: Lutero, após pregar as 95 teses na catedral de Wittemberg, convidou Darwin para uma corrida montada nas tartarugas de Galápagos, mas este não podia: foi mal Lutero, hoje vou dar rolê com Marie Curie, a rainha do rádio.

-- Mas Darw, ela não tem namorado????
-- E eu lá sei??? - E sai rapidamente galopando sua tartaruga galopeira.

A menina nem desconfia que galopar tartaruga é pura figura de linguagem; a professora não passou esse assunto e vários outros devido à greve do sindicato estadual. Mariana tem 14 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio da Escola de Educação Básica João Baptista de Oliveira Figueiredo. Nunca leu uma obra de Julio Verne e, ao longo de sua vida, nunca lerá. Tem horror a baratas, não conhece o patrono de sua escola e mora apenas com sua mãe, numa casa alugada no bairro de Espinheiros, em Itajaí/SC. Ela nunca conheceu seu pai, morto numa noite de intensa ressaca e nenhuma estrela no céu, em Imbituba. No quarto dela, há infiltrações e goteiras, e em noites de chuva ela não dorme, a menos que consiga concentrar-se nos mergulhos litósfericos ou quem sabe no romance entre os números 17 e 29, números primos cujo amor é proibido pelos preconceitos da família, bando de irracionais enrustidos. Mas quase sempre a chuva insiste, vence o drama das histórias românticas como se fosse um plantão jornalístico a furar a programação, trazendo à tona os pensamentos mais negativos de Mariana: essa água que se infiltra pelas paredes é a mesma que tomou o barco de seu pai, Anselmo; essa água vai sempre escorrer nessa casa de onde nunca provavelmente sairá; viverá em constante estado de ressaca enquanto a maioria das pessoas vivem tranquilas, em eterna marola, uma vida segura feita de piscinas, boias, aquários.

-- E aí, galera, fica fácil: dessa forma, a potência de vocês é convertida em uma simples multiplicação.

Geo, História, Artes, Português, e agora a de Matemática. Falta só mais uma aula de Biologia para, enfim, ela poder chegar em casa e jogar sua mochila sobre o sofá. Dentro da bolsa, dois cadernos, dezenas de papeis de bala, uma banana, dois reais em moedas e um peixe cinza de pelúcia. A menina abre a última bala enquanto Zulmira e Thiago, os docentes, trocam cumprimentos na porta da sala. Faz um calor infernal em Itajaí, batalha sempre perdida pelos ventiladores das escolas públicas.

-- Bom dia, amiguinhos! Hoje é dia de sortearmos a classe que cada equipe vai pesquisar no trabalho sobre o Reino Animalia, hein.

Até o final da aula, Mariana se dará conta de que os peixes integram algumas classes do tal Reino; será tarde demais, sua equipe, na verdade uma dupla formada com o Yago, receberá a classe das aves, mais uma frustração para a conta do dia (e ainda nem são 12 horas). Ambos deverão pesquisar características anatômicas, reprodutivas, alimentares, entre outros aspectos sonolentos. Se ganhasse a classe dos peixes... os peixes ósseos, ah, aí acharia o trabalho muito legal. Se ganhasse essa classe, poderia falar das coisas que sabe acerca dos peixes, coisas que sua mãe lhe contou sobre o trabalho do pai: que há tempos em que não se pode pescar nada, a época do defeso, a fim de proteger os peixes e deixá-los namorar um pouco em paz. Explicaria também que há os peixes de água doce, que há até peixes criados em cativeiro, infelizmente. Se ganhasse do professor Thiago essa classe, pesquisaria tudo sobre eles, até mesmo o que os peixes curtem fazer no final de semana, quando as praias estão cheias de banhistas e eles têm que obrigatoriamente sair de casa. Quem sabe até poderia usar a Antonieta para ilustrar algo na explicação!!!!!! Não, melhor não. Todo mundo implica com o fato dela andar por aí com ela e ainda dormir abraçada com Antonieta, afinal adolescência não é mais idade para se ter pelúcias; inventar isso seria só mais um motivo para que seus colegas fizessem chacota com ela e Yago, os dois alunos mais excluídos do 1ºB. Mariana, ao final da aula, enquanto arruma o material, dá uma última olhada em seu bicho: entre dois cadernos, com a cauda melecada de banana, Antonieta está lá, silenciosa e inexpressiva como sempre. Você é um bicho, Antonieta. Queria que você falasse, que me ouvisse. Mas você é um bicho, Antonieta, uma vassala, e não pode pertencer ao Reino Animalia.

O sinal é estridente e nervoso, mas gera felicidade em todos os alunos e funcionários. Mariana está morrendo de fome, até porque preferiu não comer a fruta que levara para o lanche. Provavelmente, esqueceu de tirar da mochila; além de distraída, é esquecida. Após dez minutos de caminhada, está diante do portão de ferro e da pequena casa onde mora com sua mãe, Dona Mariza. Antes de entrar, como boa filha que é, limpa os pés no tapete barato. Antes de entrar, infeliz que é, suspira longamente, e então sente, antês de vê-lo, o sabor do almoço: hoje há ovo frito, feijão, arroz e batata doce. Mariana dá um beijo na mãe, uma senhora baixa e gorda de 40 anos, mesma altura da filha, e corre lavar as mãos. As mãos de sua mãe são envelhecidas, gastas pelo trabalho duplo, na casa e no carrinho lanche que Mariza administra e hoje, particularmente, cheiram a alho.  Elas não são lavadas antes do almoço; o pano de louça cumpre a função. Enquanto mãe e filha colocam a mesa, Mariana ouve, mais uma vez, uma série de reclamações da mãe: o preço do feijão vermelho, a falta de sol para estender as roupas, a necessidade de Mari conservar seu uniforme limpo, retirando-o antes de comer. Ai, mãe, que saco.

Por um momento, enquanto procurava um garfo e uma faca no gaveteiro (as cores nunca combinavam naquele misto de jogos de talheres e suas tantas peças faltantes), alheia à fala reclamatória da mãe, Mariana desejou que também houvesse para a vida dela um defeso: ah se, de janeiro a fevereiro, ou quem sabe de sexta a domingo, das três às seis da tarde de cada dia, ah se houvesse um intervalo da vida no qual, obrigatoriamente, ninguém pudesse pescá-la de seus pensamentos, seja para passar pano na sala ou estudar Química ou sorrir e arrumar-se para prostrar-se diante de visitas. Mariana era distraída e, como toda pessoa perdida, ofendia-se com interrupções utilitárias: vá tirar o lixo, Mariana, vá até o quadro e resolva o problema, pisque de volta pra ele , Mari, responda minha mensagem logo, eu sei que você a visualizou, Mariana.

-- Ow, Mariana, eu tô falando contigo, tapada. Me passa a batata doce.

Um defeso. Um defeso para a proteção da espécie das tapadas.


2 de novembro de 2017

Onde a tainha Antonieta tenta explica ao leitor quem é, o que curte fazer no final de semana e a que veio

eu nasci numa esteira velha & enferrujada duma confecção chinesa, há muitos anos, e logo vim para o Brasil, mais especificamente São Paulo, e numa loja da Rua 25 de Março permaneci durante alguns meses (o primeiro deles embaixo do balcão - o depósito improvisado do Box 37) até ser vendida à Dona Luzinete.

não, a Luzinete não é a minha mãe. muito menos os chinas que me costuraram e estufaram. Tia Luzi me comprou (era o ano de 2009) a fim de me revender, junto com outros bichos pelucianos, em sua cidade, Fortaleza. foi uma viagem tranquila, embora eu não tenha curtido brisa nenhuma dentro de uma caixa de papelão, exceto por um único aperto: ali pela altura de Itaobim, a polícia parou a caminhonete onde viajávamos e quis conferir a carga; houve um momento de aflição pois, devido a nossa experiência na 25, conhecíamos histórias terríveis de baleias, tartarugas e emojis que foram rasgados ao meio em fiscalizações, sob a suspeita de esconderem drogas. mas deu tudo certo: rapidamente fizemos amizade com Lúcio, o cãozito farejador, que por alguns segundos quase abandonou o profissionalismo e puxou uma de nós pra brincar, sendo, no entanto, rapidamente contido pela coleira.

Já em Fortaleza, fui jogada de loja em loja até cair numa loja de 1,99
Eu custava 25 reais e, até ser comprada, algumas vezes a dona da loja, a Bruxa Jerusa, teve que explicar a clientes interessados na minha fofura que, não, eu não custava 1,99, que havia outros produtos mais caros, e que eu custava 25 reais


sinceramente, não entendo muito bem as pessoas e, por mais que muitos anos tenham se passado, ainda aqui, em Itajaí, ainda agora, em 2017, ainda hoje, dentro da mochila da Mariana fedendo a banana (ela levou a fruta como lanche pra escola mas teve vergonha de comê-la e aí a desgraçada amassou na bolsa e se colou em mim e aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa) penso que entendo algumas coisas, sobretudo de meninas e meninos, mas ignoro as motivações de grande parte das ações humanas. o índice beira 100% quanto se trata de adultos.

isso me lembra que uma vez uma tia da Mariana olhou pra mim e disse: larga esse bagre feio, menina. tanto brinquedo bonito e você aí a arrastar no chão essa coisa suja. por sorte, a Mari é marivilhosa e disse ELA É UMA TAINHA  e saiu pisando muito bem pisado. como posso ser um bagre se não tenho bigodes e não sou fofoqueira? Eu não aguento gente que não entende sobre peixe, que não curte maresia.  tainhas são peixes simpáticos que divertem a galera; bagres são peixes desagradáveis que tratam mal as pessoas a sua volta mas postam mensagem positivas nas redes sociais. como podem os humanos confundir isso? que diabo as crianças estão aprendendo na escola, que quando crescem se tornam fãs de golfinhos e carros rebaixados? isso que nem vou entrar na questão musical e culinária, argh. E ELA TEM NOME, O NOME DELA É ANTONIETA - ok a Mari não disse isso pra tia, mas seria legal se tivesse. e se batesse a porta, então? ai, eu deveria ser diretora de cinema.

no mais, sou, assim, uma tainha delicada demais.
meu líquen preferido é o rosa 

já te ligo de volta, guria, agora não dá pé





20 de junho de 2017

3 poemas

I

tirar o dia de folga e dizer ao corpo:

só anote os recados urgentes.
para que ele não esqueça
deixar na geladeira o lembrete:
estou fora não sendo
cama, comida ou vento.

hibernar por dias e deixar
o tempo fazer e lidar com toda a porra
que constitui seu trabalho:
responder a todas

as ligações 
da infância aos amores
dos e-mails aos precipícios

não mais voltar até esquecer como se volta

e, se, por acaso...

não se erguer até ouvir,
vindo do corpo, de pé, ao telefone
apenas uivos
grunhidos
rumorejo

II

cansa-se o cansaço 
de falar de si

(parece que anoitece

mais rápido se ele
não se ensimesmar)


assusta-se o cansaço se alguém oferece ajuda

(parece que respira
melhor se não divide a sala
e o trabalho com outrem)

confunde-se o cansaço

ao resgatar seu antigo estado

(parece que de silêncios
impassíveis e covardes

se faz seu passado)

cansa-se o cansaço

de fazer sentido


(resiste e insiste
no mesmo fim
até que, num instante,
grita muito alto
e some)

III

quando vc chegava em casa, cansada, à noite, contávamos, um a um, todos os mortos do dia

pedíamos uma pizza a cada dia mais longe e por isso mais fria
ora em recife ora guiana ou hungria
ou então,
preparávamos nós mesmos a comida
contando e polindo cada grão antes de por na panela
no banho, juntos, caía ao chão,
por vezes, o sabonete e - rindo - 
você partia a fim de apanhá-lo
voltando com ele na manhã seguinte
e aí cobertas,

longas estradas de cobertas nas quais sempre falta uma milha para cobrir o pé
e aí um café feito às pressas
a invadir a cozinha e
em meio à enxurrada
um último lance de mãos a dizer
tenha um bom dia

28 de junho de 2014

essa cidade anda cada vez mais violenta:
há noites de sexta em que vc sai sozinho
anda por um ou dois bares e
volta pra casa 
sem ter conversado com ninguém

24 de junho de 2014

Coisas que aprendi em figuras de chiclete

Eu tava aqui pensando
vc não sente vontade às vezes de sentar o cu
num ninho de mafagafos
cheio de mafagafinhos?

Toda receita q se preze deveria
ter entre as instruções:
faça isso e mais isso, acrescente isso e mais isso
E ENTÃO VEJA O QUE ACONTECE
são meio nojentos esses livros de receitas
que negam o acaso
cê não acha?

Há por aí
em lugares livres
gente que
considera o acidente
como uma importante possibilidade
e que faz deliciosos pratos
a partir de massas que desandam

Non sen se vc sabe
mas há
por aí
um lugar que nos protege
não só das desgraças de sempre
mas também das notícias bonitas
- das terríveis notícias bonitas -
e nos protege dos amigos
sugeridos pelo facebook
e dos exemplos de solidariedade
que o jornal nos enfia
pela garganta.

Em algum lugar
sem placas e aviso
existe esse lugar.
Fiquemos desatentos:
hora dessas
a gente se perde
e chega lá.

Você Sabia?
a praia de nudismo
- tão livre -
é o menos livre
dos lugares

Você Sabia?
o ponto mais baixo da Terra a que podemos chegar é
no sofá da sala, ali pelo fim de tarde.

Você Sabia?
ecoa
por aí
como um soluço
uma voz que
não responde a nada.

Você Sabia?
a cabeça cheia de decibéis
é que nos enriquece
Somos rádio
e as bobagens que dizemos são os
nossos comerciais.

Há por aí
uns pássaros controversos
que bebem
sim
daquela água
e gostam muito.

As promoções e amores
são eternos
ou enquanto duram os estoques.

A roleta não taí
pra divertir ninguém.

Gestos em falso
são coisas
naturais.

Em algum lugar desse mundo
há um país e sua moeda
em cuja nota de cem
é possível ler
"deus abençoe
o aleatório".


8 de junho de 2014

um poema de Matilde Campilho

           Brincando com os Dentes do Tubarão

You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom

tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters

My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.

*

do livro "Jóquei", Edições Tinta da China, Portugal, 2014.

17 de maio de 2014

um poema de Lawrence Ferlinghetti

O MUNDO É UM ÓTIMO LUGAR


           O mundo é um ótimo lugar
                                                            pra se nascer
se não te importa que a felicidade
                                                             nem sempre tenha
                                                                                               muita graça
              se não te importa um quê de inferno
                                                                de quando em quando
                                      justo quando tudo vai bem
                                                      pois nem mesmo nos céus
                                          se canta o
                                                                   tempo todo

            O mundo é um ótimo lugar
                                                             pra se nascer
se não te importa que alguns morram
                                                                 o tempo todo
                      ou sofram só de fome
                                                             parte do tempo
                o que não é tão mau assim
                                                               se não é com você

Ah o mundo é um ótimo lugar
                                                        pra se nascer
        se não te importam
                                                     algumas mentes mortas
                   nos postos mais altos
                                                            ou uma bomba ou duas
                          de quando em quando
                                                                     nas suas caras pasmas
ou tais outras inconveniências
                                                       que vitimam a nossa
                            sociedade Marca Registrada
                                                               com a distinção de seus homens
        e seus homens de extinção
                                                          e seus padres
                  e outros patrulheiros

                                                           e suas várias segregações
e investigações parlamentares
                                                           e outras prisões
                   de ventre que nosso torpe
                                                          corpo herda

Sim o mundo é o melhor dos lugares
                                                         para tantas coisas como
                encenar diversão
                                                  e encenar amor
e encenar tristeza
                         e cantar baixarias e se inspirar
             e dar umas voltas
                                             olhando de tudo
                                                                        e cheirando flores
       e cutucando estátuas
                                               e até pensando
                                                                           e beijando as pessoas e
               fazendo filhos e usando calças
                                                                            e acenando chapéus e
                                                            dançando
                               e nadando nos rios durante
                                             piqueniques
                                                      no meio do verão
                       e no sentido amplo
                                                        "vivendo até o fundo"
Sim
     mas bem no meio disso chega
                                                             então sorrindo o

agente funerário


*****

de Lawrence Ferlinghetti.
 Tradução de Nelson Ascher.
 In: "Vida sem fim - as minhas melhores poesias", Editora Brasiliense, 1981.

27 de abril de 2014

um poema de Roberto piva

ANTINOUS 

                                     (movimento de árvores)




são questões

                    terça-feira eu prefiro você bem

                                                                   louco

minha palavra & nada que você acredita

poderá acontecer: ostras olhos injetados Hegel

durma com suas violetas do subúrbio

                        a cidade tosse como

                        um índio com febre

São Paulo acorda em suas coxas

                 docemente

       banho quente com vapor

           em espiral flocos de

           samambaias eróticas

assim que você espreguiçar eu estarei

                                                         sangrando


*

Roberto Piva. In: Antologia Poética. Editora L&PM, 1985.

21 de abril de 2014

a farpa nasce
e é sua própria morte

vem de onde
não se espera
de madeiras
e braços
insuspeitos
como horizontes.

vem de onde
não se espera
desconhecida
por sua própria
superfície.

não é espinho.
sem função
senão ferir e morrer
ou ser
para sempre
ignorada parte
da porta.

você mesmo
possui farpas no olho
e não sabe.
aperta aperta
a lata
e nada.

se pêssegos ou sardinhas
o rótulo diz
o que ali se guarda.

até que se abra
e se revele
encerrará
antiga
uterina angústia

ao primeiro rasgo,
surge uma réstia
um respiro.

14 de abril de 2014

Esta égua que pasta a geografia
de meu túmulo
deu-me
o leite dos infernos.
Na emboscada do cio
seu fogo
fustigou-me o fígado
e fê-lo
estigma, lama. E a sina,
do verbo corrompido fez o signo-fruto
corroído
que ela enterrou e canta.
SEU COICE FOI INFINITO.

*

Max Martins
Extraído de "Não para consolar", Edições CEDUP, 1992.

8 de abril de 2014

são cinco horas ainda
sob o teu nariz
meridiano
a cortar
o mundo que é
seu rosto

sopro sobre
seus
cabelos
e faço girar
milhões de
castanhos
cataventos

mas você
não se move
nem mil trompetes
poderiam te acordar
se ainda não é a hora

o teu corpo
como todo e qualquer mundo
nunca será bagunça
por mais bagunçado pareça

cinco e meia.
um pouco de remela
ao leste avisa:
mais um dia nasce
no mundo que é
seu rosto

**

isso aí vem de uma brincadeira do daniel , que consiste em montar poemas que tenham determinadas palavras. nesse caso, era preciso fazer um poema com as palavras meridiano, remela, cata-vento e trompete.
tem mais uns, mas não acho que ficaram muito bons, por isso só mostro esse :^
não faço a menor ideia de como resolver o caso daquela página que pede um poema com  "almôndegas", "guilhotina" e "ouriço".

8 de março de 2014

as causas pelas quais lutamos
têm causas

(as causas das causas
é por onde devemos começar)

é burra toda luta
que não para pra pensar

não há delícia
em milícias

não há charme
em marchas
de coturnos

a beleza e o prazer
estão em lutar
ao nosso bel-prazer

lutar e defender
o que nos dá na telha

contra os trilhos
que insistem em
atravessar nosso caminho

lutar por uma nova escrita da história
ou então assumir de uma vez
que o que temos até então
é uma história de ficção
um romance do mundo
um grande artigo da wikipedia
que pode e deve
ser alterado

(uma história com menos adornos
e mais Adornos
é o que queremos)

64 é 1500
é 1888
e todas as datas são hoje
o bingo da história
começa muito antes
de livros, mapas, calendários

a história começa sempre antes
do que sabemos
perderam-se no ar os gestos iniciais

mas o gesto ainda é
nossa única e verdadeira arma
muito antes de tacapes e bombas
os gestos

lutar e defender
o que nos toca
mas não só:
lutar e defender
o que nos chega pelos olhos nariz pele bocas pensamento
nosso coração vai sentir
sim
o que os olhos não viram
mas ouviram dizer
meteremos
sim
a colher onde não fomos chamados

se minha luta é a tua luta
a gente comemora:
somos irmãos
e não figura repetida
no álbum da História

sem saber o que é pior:
se arte pela arte
se luta pela luta
seguimos

contra isso
a arte pelarte
a luta peluta
a luta a favor do luto
contra isso
também temos de lutar

dia e noite
até que a estrela exploda
haveremos de militar

militar
sem limites

abaixo a ditadura limitar

4 de março de 2014

são isto, afinal, as mágoas:
águas que
não passam.

represadas
dentro dos olhos
são fundas, sempre fundas
as mágoas
e guardam alto
potencial de energia

uma mágoa
bem represada
poderia iluminar nova iorque
por todo um dia

28 de fevereiro de 2014

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

quantos dias faltam para chegar o
quando-der-a-gente-se-vê?

quem é que sabe
de todos esses quem-sabes
que a gente lança todo dia?

quem paga a conta
por todas as vezes
em que apostamos no acaso
e perdemos?

e as coisas que deixamos pra lá
quem é que,
lá,
as junta e organiza?

como em lixões,
existem gentes que passam os dias lá
a revirar o que deixamos
em busca de pequenos tesouros?

quantas palavras a gente tem que dizer até que os outros enfim compreendam
que naquele momento
não estamos a fim de falar?

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

15 de fevereiro de 2014

coração caixa preta
forte
registradora
coração caixa de pandora
repleta de coisas e bichos maus e
lá no meio
um pandeiro
um coração pandeiro
onde se bate bate
bate até dizer chega
onde quanto mais se bate
melhor fica
de se ouvir
e nunca chora
não
o coração de pandora
nunca chora na hora
tem vergonha
e guarda e chora
noutro espaço
e hora
tarde da noite batem no teu coração
e vc nem se levanta
é trote
e vc chora
mas não agora
é ali que batem mas
não é ali que se chora
como o pandeiro
que apanha e apanha
e não chora
o choro sai
lá do outro da banda
pela cuíca
assim como
pelo olho
noutra rua
do corpo
desagua o que
dói no peito
coração olho
registradeiro
que vê sim
como vê o cego
a seu modo
coração olho cego
a tudo vê
e por isso tudo sente
registradeiro
aleatório
coração de pandorga
que só voa
em que dia em que não chove
(chora)
lá fora

gravidade


Aqui estamos
a contrariar as leis da física
soltando
         perguntas muito pesadas
que insistem em ficar
                no ar