28 de junho de 2014

essa cidade anda cada vez mais violenta:
há noites de sexta em que vc sai sozinho
anda por um ou dois bares e
volta pra casa 
sem ter conversado com ninguém

24 de junho de 2014

Coisas que aprendi em figuras de chiclete

Eu tava aqui pensando
vc não sente vontade às vezes de sentar o cu
num ninho de mafagafos
cheio de mafagafinhos?

Toda receita q se preze deveria
ter entre as instruções:
faça isso e mais isso, acrescente isso e mais isso
E ENTÃO VEJA O QUE ACONTECE
são meio nojentos esses livros de receitas
que negam o acaso
cê não acha?

Há por aí
em lugares livres
gente que
considera o acidente
como uma importante possibilidade
e que faz deliciosos pratos
a partir de massas que desandam

Non sen se vc sabe
mas há
por aí
um lugar que nos protege
não só das desgraças de sempre
mas também das notícias bonitas
- das terríveis notícias bonitas -
e nos protege dos amigos
sugeridos pelo facebook
e dos exemplos de solidariedade
que o jornal nos enfia
pela garganta.

Em algum lugar
sem placas e aviso
existe esse lugar.
Fiquemos desatentos:
hora dessas
a gente se perde
e chega lá.

Você Sabia?
a praia de nudismo
- tão livre -
é o menos livre
dos lugares

Você Sabia?
o ponto mais baixo da Terra a que podemos chegar é
no sofá da sala, ali pelo fim de tarde.

Você Sabia?
ecoa
por aí
como um soluço
uma voz que
não responde a nada.

Você Sabia?
a cabeça cheia de decibéis
é que nos enriquece
Somos rádio
e as bobagens que dizemos são os
nossos comerciais.

Há por aí
uns pássaros controversos
que bebem
sim
daquela água
e gostam muito.

As promoções e amores
são eternos
ou enquanto duram os estoques.

A roleta não taí
pra divertir ninguém.

Gestos em falso
são coisas
naturais.

Em algum lugar desse mundo
há um país e sua moeda
em cuja nota de cem
é possível ler
"deus abençoe
o aleatório".


8 de junho de 2014

um poema de Matilde Campilho

           Brincando com os Dentes do Tubarão

You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom

tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters

My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.

*

do livro "Jóquei", Edições Tinta da China, Portugal, 2014.

17 de maio de 2014

um poema de Lawrence Ferlinghetti

O MUNDO É UM ÓTIMO LUGAR


           O mundo é um ótimo lugar
                                                            pra se nascer
se não te importa que a felicidade
                                                             nem sempre tenha
                                                                                               muita graça
              se não te importa um quê de inferno
                                                                de quando em quando
                                      justo quando tudo vai bem
                                                      pois nem mesmo nos céus
                                          se canta o
                                                                   tempo todo

            O mundo é um ótimo lugar
                                                             pra se nascer
se não te importa que alguns morram
                                                                 o tempo todo
                      ou sofram só de fome
                                                             parte do tempo
                o que não é tão mau assim
                                                               se não é com você

Ah o mundo é um ótimo lugar
                                                        pra se nascer
        se não te importam
                                                     algumas mentes mortas
                   nos postos mais altos
                                                            ou uma bomba ou duas
                          de quando em quando
                                                                     nas suas caras pasmas
ou tais outras inconveniências
                                                       que vitimam a nossa
                            sociedade Marca Registrada
                                                               com a distinção de seus homens
        e seus homens de extinção
                                                          e seus padres
                  e outros patrulheiros

                                                           e suas várias segregações
e investigações parlamentares
                                                           e outras prisões
                   de ventre que nosso torpe
                                                          corpo herda

Sim o mundo é o melhor dos lugares
                                                         para tantas coisas como
                encenar diversão
                                                  e encenar amor
e encenar tristeza
                         e cantar baixarias e se inspirar
             e dar umas voltas
                                             olhando de tudo
                                                                        e cheirando flores
       e cutucando estátuas
                                               e até pensando
                                                                           e beijando as pessoas e
               fazendo filhos e usando calças
                                                                            e acenando chapéus e
                                                            dançando
                               e nadando nos rios durante
                                             piqueniques
                                                      no meio do verão
                       e no sentido amplo
                                                        "vivendo até o fundo"
Sim
     mas bem no meio disso chega
                                                             então sorrindo o

agente funerário


*****

de Lawrence Ferlinghetti.
 Tradução de Nelson Ascher.
 In: "Vida sem fim - as minhas melhores poesias", Editora Brasiliense, 1981.

27 de abril de 2014

um poema de Roberto piva

ANTINOUS 

                                     (movimento de árvores)




são questões

                    terça-feira eu prefiro você bem

                                                                   louco

minha palavra & nada que você acredita

poderá acontecer: ostras olhos injetados Hegel

durma com suas violetas do subúrbio

                        a cidade tosse como

                        um índio com febre

São Paulo acorda em suas coxas

                 docemente

       banho quente com vapor

           em espiral flocos de

           samambaias eróticas

assim que você espreguiçar eu estarei

                                                         sangrando


*

Roberto Piva. In: Antologia Poética. Editora L&PM, 1985.

21 de abril de 2014

a farpa nasce
e é sua própria morte

vem de onde
não se espera
de madeiras
e braços
insuspeitos
como horizontes.

vem de onde
não se espera
desconhecida
por sua própria
superfície.

não é espinho.
sem função
senão ferir e morrer
ou ser
para sempre
ignorada parte
da porta.

você mesmo
possui farpas no olho
e não sabe.
aperta aperta
a lata
e nada.

se pêssegos ou sardinhas
o rótulo diz
o que ali se guarda.

até que se abra
e se revele
encerrará
antiga
uterina angústia

ao primeiro rasgo,
surge uma réstia
um respiro.

14 de abril de 2014

Esta égua que pasta a geografia
de meu túmulo
deu-me
o leite dos infernos.
Na emboscada do cio
seu fogo
fustigou-me o fígado
e fê-lo
estigma, lama. E a sina,
do verbo corrompido fez o signo-fruto
corroído
que ela enterrou e canta.
SEU COICE FOI INFINITO.

*

Max Martins
Extraído de "Não para consolar", Edições CEDUP, 1992.

8 de abril de 2014

são cinco horas ainda
sob o teu nariz
meridiano
a cortar
o mundo que é
seu rosto

sopro sobre
seus
cabelos
e faço girar
milhões de
castanhos
cataventos

mas você
não se move
nem mil trompetes
poderiam te acordar
se ainda não é a hora

o teu corpo
como todo e qualquer mundo
nunca será bagunça
por mais bagunçado pareça

cinco e meia.
um pouco de remela
ao leste avisa:
mais um dia nasce
no mundo que é
seu rosto

**

isso aí vem de uma brincadeira do daniel , que consiste em montar poemas que tenham determinadas palavras. nesse caso, era preciso fazer um poema com as palavras meridiano, remela, cata-vento e trompete.
tem mais uns, mas não acho que ficaram muito bons, por isso só mostro esse :^
não faço a menor ideia de como resolver o caso daquela página que pede um poema com  "almôndegas", "guilhotina" e "ouriço".

8 de março de 2014

as causas pelas quais lutamos
têm causas

(as causas das causas
é por onde devemos começar)

é burra toda luta
que não para pra pensar

não há delícia
em milícias

não há charme
em marchas
de coturnos

a beleza e o prazer
estão em lutar
ao nosso bel-prazer

lutar e defender
o que nos dá na telha

contra os trilhos
que insistem em
atravessar nosso caminho

lutar por uma nova escrita da história
ou então assumir de uma vez
que o que temos até então
é uma história de ficção
um romance do mundo
um grande artigo da wikipedia
que pode e deve
ser alterado

(uma história com menos adornos
e mais Adornos
é o que queremos)

64 é 1500
é 1888
e todas as datas são hoje
o bingo da história
começa muito antes
de livros, mapas, calendários

a história começa sempre antes
do que sabemos
perderam-se no ar os gestos iniciais

mas o gesto ainda é
nossa única e verdadeira arma
muito antes de tacapes e bombas
os gestos

lutar e defender
o que nos toca
mas não só:
lutar e defender
o que nos chega pelos olhos nariz pele bocas pensamento
nosso coração vai sentir
sim
o que os olhos não viram
mas ouviram dizer
meteremos
sim
a colher onde não fomos chamados

se minha luta é a tua luta
a gente comemora:
somos irmãos
e não figura repetida
no álbum da História

sem saber o que é pior:
se arte pela arte
se luta pela luta
seguimos

contra isso
a arte pelarte
a luta peluta
a luta a favor do luto
contra isso
também temos de lutar

dia e noite
até que a estrela exploda
haveremos de militar

militar
sem limites

abaixo a ditadura limitar

4 de março de 2014

são isto, afinal, as mágoas:
águas que
não passam.

represadas
dentro dos olhos
são fundas, sempre fundas
as mágoas
e guardam alto
potencial de energia

uma mágoa
bem represada
poderia iluminar nova iorque
por todo um dia

28 de fevereiro de 2014

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

quantos dias faltam para chegar o
quando-der-a-gente-se-vê?

quem é que sabe
de todos esses quem-sabes
que a gente lança todo dia?

quem paga a conta
por todas as vezes
em que apostamos no acaso
e perdemos?

e as coisas que deixamos pra lá
quem é que,
lá,
as junta e organiza?

como em lixões,
existem gentes que passam os dias lá
a revirar o que deixamos
em busca de pequenos tesouros?

quantas palavras a gente tem que dizer até que os outros enfim compreendam
que naquele momento
não estamos a fim de falar?

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

15 de fevereiro de 2014

coração caixa preta
forte
registradora
coração caixa de pandora
repleta de coisas e bichos maus e
lá no meio
um pandeiro
um coração pandeiro
onde se bate bate
bate até dizer chega
onde quanto mais se bate
melhor fica
de se ouvir
e nunca chora
não
o coração de pandora
nunca chora na hora
tem vergonha
e guarda e chora
noutro espaço
e hora
tarde da noite batem no teu coração
e vc nem se levanta
é trote
e vc chora
mas não agora
é ali que batem mas
não é ali que se chora
como o pandeiro
que apanha e apanha
e não chora
o choro sai
lá do outro da banda
pela cuíca
assim como
pelo olho
noutra rua
do corpo
desagua o que
dói no peito
coração olho
registradeiro
que vê sim
como vê o cego
a seu modo
coração olho cego
a tudo vê
e por isso tudo sente
registradeiro
aleatório
coração de pandorga
que só voa
em que dia em que não chove
(chora)
lá fora

gravidade


Aqui estamos
a contrariar as leis da física
soltando
         perguntas muito pesadas
que insistem em ficar
                no ar

14 de fevereiro de 2014


a intimidade e a solidão:
ela chega, tira um dos fones do ouvido
ele também tira um de seus fones
e ficam os dois meio conversando, meio ouvindo música.

30 de janeiro de 2014

um poema de Eileen Myles

Uppity

Roads around mountains
cause we can't drive
through.

That's Poetry
to Me.    

28 de janeiro de 2014

                                                                                                                                        para a ale

I

alguns turistas tolos da vida dizem
ih
na bahia
o ano
só começa
depois do Carnaval.

mas de que bahia se fala
quando se fala da bahia?
no pelô
o ano não começa
num termina
tem seu próprio tempo
como ocorre
nos lugares mto mágicos
(ou mto devastados)

II

pelô
amor
de
deus
lourinho

ih,
na bahia?

ai de ti,
haiti.

III

capoeira violenta
no meio da tarde
sem mto motivo
sem qualquer berimbau

IV

se tivesse
partido numa barca
ou mesmo se finado em tempestade
inda dava uma canção bonita
mas ele se foi numa linha
salvador-são paulo
numa tarde quente
sem nenhum adeus
e mais ladeiras
que o habitual

V

Dois cotovelos no meio do peito
os seios da prostituta
são qualquer coisa
sem surpresa e erotismo
vara de condão há mto
sem mágica
sóis de toda hora
guizos
boias
brinquedos

VI

é assim
meto onde e quando
todos ri
ninguém se mete

VII

viero
tombaram as ladeiras tudo
falaram em patrimônio
maravilha
riqueza
e aí me despejaro?
num entendo

VIII

mordida no ventre
caco de vidro no peito
raspa de bala na bunda
pelo corpo eu trago marcas
que não guiam a tesouro algum.
farol sem história
e razão de ser
a cicatriz é um bicho estranho
que às vezes acaricio
por mais não ter o que fazer.
não devia estar ali
não tem serventia
mas ali está e
até o fim vai estar.
sou cicatriz do mundo?
se sou, quem lhe feriu?

IX

é sempre tempo de
carnavais fora de hora
de chorar pitangas
e depois comê-las
de dores e dorivais

X

- Axé, meu rei.
- Axé mais.

26 de janeiro de 2014


estamos todos condenados a significar
eis o jogo
dois velhos dádás
um em frente 
ao outro
a falar
quem
fizer
sentido
primeiro
perde

23 de janeiro de 2014

PARIPENSE ! !! : que investidas insanas poderíamos fazer se comprássemos essa empresa que acabou de entrar em concordata ! ou dito de outro desenho: isto é um convite. vamos amanhã sem falta ao hipódromo apostar tudo que eu e vc temos no cavalo de só três pernas. bom claro é bem provável (mas nunca se sabe!!) que ao final do páreo sejamos os mais fudidos dos apostadores mas tbém seremos os mais doidos e debochados e esse maravilhoso estrume de ouro ninguém vai poder tirar de nós.
pelamorde deus até os avós da gente sabem q tem altos ditado bucha ditado não é roubado !!!! vamos logo ser aqueles dois passarinho voando que valem menos do q aquele na mão mas que se foda à milanesa o passarinho na mão ! ! ! ! nesse mundo consumista de merda a lógica girou tanto nos três contrários que agora bom mesmo é valer menos. vamo trocar o certo pelo duvidoso até pq é isso que tem sustentado toda a filosofia a troca da roda certa pela duvidosa venha é cavalo de três pernas na cabeça não na cabeça dele na cabeça do nosso pódio por
favor
venha
três deboches pra minhamiga

I

que linda tua saia
daqui agora

II

que linda tua saída de praia
adoro quando vc sai da praia

III

ele é mó gato
vai por mim
sentada,
esperando
aqui na estação
sou alguém viva
mto viva
que ama e pensa

mas no momento
em que vc passa
e acena
eu que sou viva e amo e penso
tbém sou morta
inevitavelmente morta parte
da paisagem
para a qual vc olha da janela


20 de janeiro de 2014

olha aqui pra você ver

19 de janeiro de 2014

carnavais

I

é terrível quando o tempo está fechado
no teu pátio
e eu estou alegre e
tudo o que tenho a oferecer
são pequenos carnavais
que pra nada servem.

(ou servem?)
(farei bem seu chamar quem precisa de descanso
 pra subir e descer ladeira?)
(se eu tenho presente mas não tenho a ocasião
devo mandá-lo?)
(o que a gente faz quando já disse tudo
e num acha hora de fazer?
despiroca?)

creia-me:
faço o possível
pra te ajudar
enquanto danço.

II

o coração
bate eter
namente?
é impossível prever e programar certas coisas
como se existesse mais de um tempo:
o nosso e o das coisas.

às vezes a tradicional
paradinha da bateria parece durar anos
e eu num lembro
quando foi a última vez
que choveu confete.
facebook II

essa mina tem uma boca
que num é dela.

8 de janeiro de 2014

eu e vc a catar conchas
e estrelas do mar perdidas na areia
é uma cena bonita.

eu e vc a catar conchas
e estrelas do mar perdidas na areia
- descobrindo que há coisas bonitas
que só nos aparecem depois de mortas -
é uma cena terrível.

24 de dezembro de 2013

acontece há muitos séculos, no fim de cada dia:
eles entram e se instalam
quase sempre no fundo do ônibus
onde cantam, dão cambalhotas
riem e ouvem música alta em seus celulares.

o ônibus é um grande burro amarelo
que aos trancos leva muitos outros burrinhos cansados
e mais as três ou quatro hienas
muito vivas e coloridas.

embora o ônibus leve todos os bichos para a mesma direção
as jovens hienas, rindo, vão no sentido contrário
do sono e tédio dos animais mais velhos
e riem tão alto
e vão com tanta energia para o lado oposto da vida
que é difícil entender como o carro
não se parte ao meio.

partisse o ônibus ao meio
certamente perderia-se
a maior parte dos burros n'água
e as hienas ririam
ririam inda mais alto
a ver no incidente
a primeira aventura da noite.

as metáforas

a fala é sempre imperfeita
e quase nunca dá conta do recado.

lá, no ponto em que não há palavras pra continuar
e a fala trava como travam os pés ante um precipício,
tenta-se construir uma ponte:
a metáfora que estende um pouco mais a ideia
e tenta ser a imagem do que se quer dizer.

impossível:
as palavras não se deixam fotografar ou filmar
e a metáfora acaba sendo porta-voz de uma verdade, sim,
mas um menino dos recados doido
que leva adiante uma mensagem diversa
da que foi encomendada.
 
num tem jeito:
para sempre essas traduções mal-feitas
do que nos vai por dentro do peito.

é difícil identificar onde as falhas na fronteira
entre o que se sente e o que se diz sobre o sentir
(um telhado que pinga e não se sabe onde)

mas parece absurdo se voltar contra as metáforas
ainda que insuficientes.
"vamos destruir a máquina das metáforas?"
propõe sebastião uchoa leite
em algum lugar dos seus poemas

mas pq diabos iria eu abdicar das metáforas
se às vezes o time reserva vai pro campo
e faz melhor que o titular?

se há gatos que caçam
melhor do que muitos cães?

hm?

15 de dezembro de 2013

É possível ser feliz num empate.

Dia desses o @ita_puccini me chamou para assistir a um jogo na Arena Joinville. Jec e Ceará pelo campeonato brasileiro. Eu já nem lembro do placar. Se não me engano, o Jec perdeu ou empatou, frustrando a torcida que comparecia em bom número naquele dia. Ou pelo menos a parte da torcida que tem no anseio pela vitória do time o único objetivo para sentar a bunda na arquibancada e ali permanecer por duas horas. Pois há quem se contente com menos. Se você vai ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz, cê tá correndo riscos, meu amigo. É claro que a vitória é sempre o primeiro desejo do torcedor, mas ele bem que pode curtir a ida ao estádio por outros mil motivos. É bom pensar que as situações da vida contêm várias possibilidades de felicidade ao invés de uma só. É possível ser feliz num bingo da igreja sem sair de lá com o grande prêmio (um liquidificador ou um edredom, geralmente). É possível ser feliz na praia ainda que caia uma bruta chuva no momento em que você põe os pés na areia. Basta enxergar nas tais situações outras razões de alegria. Inventar passatempos, reprogramar a ideia inicial, prestar atenção para o que geralmente não prestamos. Certamente foi o que muita gente fez naquela tarde em que os jogadores faziam de tudo menos demonstrar habilidade com a pelota.
Eu adoro ir num estádio de futebol e acho que todo mundo deveria ir de vez em quando, ainda que não seja um grande fã desse esporte. Ainda que não torça para nenhum dos times que estão jogando (como faz o Ítalo, aliás). Dá pra se divertir e enxergar beleza em uma porção de coisas. Como é bonito o canto da torcida, a nostalgia que há no velho hábito de assistir à partida com o ouvido no rádio de pilha, a presença de pais & filhos; pais, mães & filhos sentados juntos na arquibancada. Para as crianças, a vitória é algo tão importante quanto o copo de refri gelado ou o pacote de amendoim que os pais compram dos homens que passam o jogo todo circulando e atrapalhando a visão da galera pelas arquibancadas. E assim deveria ser pra todo torcedor (por enquanto só no mundo ideal dos sonhos e das crônicas).
Outra coisa adorável num jogo de futebol é acompanhar o folclore da torcida. Mais do que cantar e incentivar o time, o torcedor mais ferrenho profere todo tipo de emoção. Xinga o jogador do seu time, xinga o jogador adversário, pega no pé do árbitro, do bandeirinha etc., e não perde uma chance de fazer graça. Ainda que marcado pela linguagem informal e por inúmeros palavrões, o repertório folclórico dos torcedores é repleto de invenção e criatividade. Velhos bordões e xingamentos clássicos convivem com brincadeiras e piadas criadas na hora, de improviso. É claro que sempre tem alguém que erra a mão, e deixa escapar um dito machista por demais aqui ou uma frase com pouco humor e muita raiva ali. Embora reprováveis, são inofensivas, pois quase nunca chegam aos destinatários. O jogador xingado (ou o juiz, ou o gandula, ou o locutor, sei lá, torcedor dá jeito de xingar todo mundo!) está quase sempre distante, e se ouve, não se dá ao trabalho de virar a cabeça, até porque tem um jogo pra dar conta. Eu diria inclusive que o verdadeiro destinatário desses ditos todos é a própria torcida: o cara está xingando alguém lá no campo, mas seu real objetivo é entreter os que estão a sua volta e a si mesmo.
E naquela tarde de Joinville X Ceará a torcida estava como sempre inspirada. Em certo momento morno do jogo, no qual eu quase cochilava e olhava pra qualquer coisa menos para o que faziam da pobre bola, a galera, que vinha exibindo seu repertório de ditos e bordões, levantou-se da torcida e deu início a uma ovação que sacudiu o estádio, sobretudo aqueles que como eu estavam distraídos. Na mesma hora, olhei para o campo a ver se algum gol havia saído. Qual o quê! A bola tava quicando lá pelo meio do campo. Virei para o lado pra ver se o Ítalo me explicava o que acontecera, mas que nada: tava com a mesma cara de perdido. Foi então que vi o bicho: a causa do auê era um quero-quero, típico pássaro das redondezas de estádios, que cismou de dar rasantes perto das cabeças dos jogadores do Ceará, provavelmente acusando-os de invasão de território. A torcida não poupou a chance: comemorou como se fosse gol cada rasante do pássaro, enquanto a zaga do Ceará se virava pra se livrar do bicho. Foi nessa hora que algum folclorista gritou perto da gente: TÁ CUM MEDO DO QUERO-QUERO, SEU FILHO DA PUTA????
Eu não sei se consigo explicar como um dito como este, aparentemente tão vulgar, e a ovação zoada da galera causam um efeito de humor e leveza na gente toda em volta. Deixa o jogo, e a vida - naquela hora - mais leve. Mais do que estar aberto às estranhas opiniões e emoções que vêm dos outros, a gente precisa estar lá, na galera, pra curtir o folclore do torcedor. Minha crônica não dá conta de falar das mil coisas boas que há numa ida ao estádio, até porque variam de gente para gente. Sugiro que o leitor vá ao estádio mais próximo uma hora dessas. Arquibancada popular, por favor. Com a galera. E o mais importante: não vá ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz.

11 de dezembro de 2013

me ponho louko!
há uma falta específica da qualpouko se sabe e para a qual se candidatam todas as palavras de modo que se me perguntam bem posso dizer que o que me falta é uma porção de tainhas um pau virulento e chumbado a varrer minha boca um pequeno gesto de adeus um evangelho que eu ainda não tenha ouvido e que encha meu coração de poeira prazerosa
ou talvez ou quem sabe,
só pode ser! que eu sinta é falta de ti abrir todos os bichos como se frutas
e bater e bater e bater nos rostos das gentes
até que se deformem e seja natural e justo lhes dar outro nome e função na Terra
falta de te ver defendendo na tribuna novíssimas técnicas de circuncisão e recheio de pombos
a chamar pra si toda a responsabilidade das partidas de várzea e todos os mísseis extraviados
nas últimas guerras numa tentativa desesperada de ir ao encontro da desgraça
pra ver se lá
cuacara no tiro
se possa escapar dele poisque chega uma hora do desespero que tudo parece tolo e só resta apostar na sequência 1,2,3,4,5 6 para o grande prêmio da loteca e por as granadas na boca para escapar da explosão ou seja eu sinto muita falta de sentar contigo sábadatarde a contar e ouvir como foi a semanumundo
e nessa hora pensar é num mesmo segundo bater e abrir e ver que não há morrer

8 de dezembro de 2013

Crítica Literária

EU SOU VANGUARDA SÓ NÃO REPARE NA MINHA CALÇA JEANS. Que coisa horrenda esses poemas que os muito imaturos dedicam aos velhos poetas RESPOSTA À NERUDA ELEGIA PARA RILKE etc. Há quem não consiga produzir duas linhas sem fazer uma citação pomposa. O que falta a essa gente é uma boa dose de Semancol 50mg. Ou quem sabe Balzac 20mg. E ainda há os terríveis poemas metalinguísticos a palavra é isso a palavra é aquilo, o poeta é aquele que faz isso e aquilo. Imagine a cena: vc entra no açougue cheio de fome coisa e tal e tudo o que o açougueiro tem para lhe vender são vídeoaulas sobre as mil e uma posições do corte do boi, isso quando o vídeo ainda não vir com extras a exaltar a maravilha que é ser açougueiro! O poema, um desesperado narciso vendendo a si mesmo. A verdade é que as palavras são desnecessárias e nada podem fazer na hora do vamovê. A poesia não é importante, não tem valor, e ainda inventam de lhe cercar e contratar guardacostas!!! Já pensastes quantas apetitosas porções de peixinhos fritos perdemos queimadas por dedicarmos sempre um olho pro gato burro, louco, saciado, vegano? É por isso que me dá nojo essa gente que se acha superior porque lê muitos livros 
ai eu gosto de poesia olha como sou culto 
vá se foder meu filho 
à distância, toda página diz a mesma coisa: 
o livro de poemas 
o manual de instruções 
o folheto publicitário 
não há salvação no mundo literário 
os leitores também vão para o inferno 
condenados a lerem eternamente sinopses dos capítulos de telenovela 
sim meus amigos 
continuem lendo mas parem de falar sobre a maravilha que é continuar a estar lendo 
a poesia o conto o romance 
essas esfinges sacanas 
que mesmo quando decifradas 
nos devoram
sim meus amigos 
a literatura
é linda
a conversa vai conversa vem mais inteligente 
o melhor dentre todos os
dá o cu que passa
a mais linda de todos os
tanto faz como tanto fez

2 de dezembro de 2013

E COMO NÃO HÁ ESPAÇO PARA O QUE GERAMOS
E nenhum sábado se mostra aberto a receber nossas dores
Você faz a promessa:

Um dia
A gente vai rir
De tudo isso.

Vamos?
Chegará tal dia?
Ou haveremos de dormir no meio da vigília,
Cochilar no ônibus
Perder o ponto
e o horário?

Quando você diz:

Um dia
A gente vai rir
De tudo isso

Eu penso no calendário Maia
No dia 37 de Março
na sétima-feira
Penso em dias que não existem
Em anos trissextos e tristes
Num show de stand-up
Um sujeito bizarro contando para a vasta plateia a nossa história desencontrada
e todos rindo
eu & vc,
na mesma mesa,
rindo
Um dia
lindo
e a gente
rindo
de tudo
aquilo.

24 de novembro de 2013

é bem verdade que a partir das tuas dores
vc constrói uns quadros até que bem bonitos
e que tanto desencanto fez de você
um ótimo frasista
das mesas de bar
mas vc só conta a parte boa da história né biscate

com o sorriso malandro vc diz
que Ele foi um trampolim
pra vc entender melhor as coisas e o mundo
vc diz que

ELE (PFF) FOI UM TRAMPOLIM
PRUMAS COISAS MUITO MELHORES...

como quem diz
"ele não faz falta"

E SABE A MINHA VIDA DEU UM SALTO...

como quem diz

"foi até bom ele ter me abandonado"

mas pq então omite detalhes importantes
como as notas 4 e 5
que o júri atribuiu
aos teus atos ornamentais
e o que é inda mais relevante
por que vc omite
o fato de que a piscina
para a qual salta
está sempre vazia?

23 de novembro de 2013

faz parte da gente
não ter controle
sobre coisas
que nos são caras e muito nossas
e os controladores de voo não se entendem
sobre a natureza de vários objetos que nos passam
- atirados por alguém ou a passeio -
por sobre a cabeça, todo dia.

pra amenizar isso criamos lendas
de amores e culpas extraterrestres
teorias sobre a ilusão de ver e as falhas
do olho humano
mas das mãos ninguém duvida
o que me parece muito
muito insensato:

gestos em falso são coisas naturais
e é por isso que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa:

um copo que escapa do pano de louça
a previsão de sol que insiste em dar chuva
um tapa que era pra ser brincadeira
e magoa a carne por toda uma vida:

é tão grande a vontade e o perigo de ultrapassar
que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa.

um lance de dardos

mais
acertará o balão de hélio do acaso
que sobe, sobe, rumo ao léu azul
enquanto a gente olha pra cima querendo prever alguma coisa
por mera coisa que seja.

e para o que não tem jeito
vamos criando novas loterias
bingos, frases d'efeito
poemas, piadas
falsas crenças
ditados populares.

10 de novembro de 2013

I

eu sou o homem-bomba no coração da espera.
meu dizer é tudo que tenho e posso gastar.
mas usá-lo é matar a mim e a muitos:
falar sobre o que desejo
é afastar o objeto
um pouco mais
de mim.

II

até o instante em que explode na terra
e instala o horror e a raiva no público
o kamikaze é o artista mais lindo & encantador
que o povo já viu.

III

no ar na cama
no mar na lama
no domingo
na tabela do campeonato
no esquecimento na cova
o prazer de submergir
às pressas
de quem sabe
não conseguir.

IV

o sol é uma estrela bonita
que nasce e se põe todo dia
e posa para fotos e é o marido da lua
e um dia vai explodir e matar a tudo que existe.

8 de novembro de 2013


De repente é sábado de novo
e mais uma vez entre as traves me sinto obrigado a pegar todos os coices sem dar rebote
o coração virado em bichos
uma casa revirada por ladrões que nada roubam
e intrigam a polícia do acaso
novamente é sábado de noite
e deixo algo importante
por debaixo das pernas passar.
as coisas por dizer, pobrezinhas,
se deprimem e se jogam
uma a uma
da ponta da língua
as coisas por dizer
que a torcida tanto ensaiou
viram vaias
e os aplausos virados pelo avesso
se tornam tapas atirados para dentro do campo
enquanto lá vem o atacante cocô
ele que nada fez o jogo todo vem a galope
para enfiar a bola na rede
pra me enfiar no inferno me empalar na trave
me afundar nas trevas do estádio pós-jogo
me entochar um microfone pela garganta
e então pelo cu eu falo que mais uma vez não conseguimos
o resultado esperado para o sábado
e que lamento por mais uma noite de fogos e cantos em vão

1 de novembro de 2013

PAIXÃO É QUANDO VC SENTE BORBOLETAS NO ESTÔMAGO
sente o voo obstruído pelas paredes do estômago
a invenção de partos
feitos somente de dores
o delírio de quem se descobre
dentro de um aquário de carne

e, então, a chuva
de sucos gástricos
a despedaçar as borboletas
digeridas & empacotadas
para, enfim,
virarem merda
colorida
voadora
romântica
merda

26 de outubro de 2013

súbito no meio da tarde
enquanto jogas xadrez
fodes
ou ensinas teu pequeno a andar
sentes o cheiro terrível
e espiando discretamente o teu pé descobres:
pisastes na merda da vida.

descobres
não sem antes disfarçar o cheiro podre
não sem antes dissimular
e creditar o ar denso de carniça àqueles que te cercam

(e nem o teu amor escapa à acusação
pois antes de descobrir-te culpado
culparás teu amor
e é essa uma verdade que os filmes sempre nos ocultaram:
o último pedido dos condenados à forca é sempre
tirem-me daqui
ponham outro em meu lugar
e se apenas houver meu amor
tirem-me daqui
ponham meu amor em meu lugar).

sim, sim!
é injusto que isso te aconteça e justo contigo e justo agora
mas pisastes na merda
cagada e semeada por esse bicho que nos vai por dentro
e a que muitos chamam: vida.

e não há remédio: larga teus sapatos, arrasta os pés pela calçada,
lamenta e chora pitangas e mágoas e desinfetantes
que o cheiro da merda na vida não sai:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

podes, é bem verdade, arrancar o pé pela raiz
mas ainda assim, creia-me, a merda estará contigo
graças à traição dos sentidos:
entre o gosto que tinha a mais feliz época da tua vida
e as cores dos teus piores pensamentos
lá está a música da merda
girando e girando dentro da tua cabeça.

ai, a merda.
não há muita escolha senão amá-la
e domesticá-la como fizestes com os outros mil bichos que antes te apareceram
e descobrir nela algum prazer ou importância
como fizestes com cada um dos teus peidos
e mijos e axilas e
 - convenhamos -
nenhum perfume é mais especial
que o de tuas próprias axilas
estas flores que fedem a todos menos a ti mesmo
assim pode ser também esta merda
que carregas no coração do teu pé
no coração preto dos peidos do teu pé de pedra
essa paz haverá, se quiseres.
mas não te apresses que haverá tempo para pensar e repensar nisso:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

18 de outubro de 2013

Deixa eu ver se explico o porquê dessa festa num dia que as pessoas se esforçam pra que seja triste. Conheci a tua mãe numa aula de lambaeróbica. Na verdade, mal nos falamos durante as aulas. Fui conversar e conhecer e me apaixonar depois do dia em que fomos ao cinema. Tua mãe era muito estranha: ora dizia umas coisas muito lindas e ora falava umas merdas, de modo que fiquei em dúvida se a convidava para ver um filme de hollywood ou algum filme b, daqueles mais franceses, sabe. Na dúvida, chamei ela pra ver um filme c, num cinema pornô que ficava ali no centro e que há um tempo fechou pra dar lugar a uma igreja evangélica. Ela achou o enredo do filme ruim, mas elogiou a trilha sonora e a fotografia. Daí em diante fomos a muitos lugares e muitas coisas por lá fizemos: cinemas, missas, terreiros, açougues, museus, convenções de microempresários, terapias em grupo, reuniões de associações de moradores, vernissages, casa de massagens, hospitais e bem, em algum desses lugares fizemos você. Ai, ai, fazer você. Isso me lembra de quando vc tinha quatro anos e tua mãe contou pra vc como vc nasceu: disse que um quero-quero havia trazido vc numa trouxinha e explicou que, se nos estados unidos os bebês eram trazidos pela cegonha, que era muito simpática e bondosa, no brazil os babys eram entregues por quero-queros chatíssimos que não aceitavam reclamações ou pedido de troca. ai de vc se reclamasse ou dissesse que não queria menina, e sim menino: o quero-quero metia-lhe uns rasantes e aí era ferroada na bunda da mãe e do pai sem dó. É claro que não reclamamos de vc, e por isso o quero-quero até que nos atendeu muito bem. Tanto que sua mãe pensou em te chamar de Kevin Kevin. Tipo uma homenagem, saca? Convenci ela de que as pessoas não pegariam a poesia e aí ficou só Kevin mesmo. O que vc prefere? Bom, agora é tarde, nem responda. E me deixa falar mais dela, pois disso nunca canso. Ai, a gente se divertia muito. E brigava às vezes, é verdade. Mas não duravam muito os conflitos, pois no meio das brigas eu descobria alguma coisa amável nela e dava um jeito de acabar com aquele folhetim. Como aquela vez em que, depois de muito chorar, ela tirou a meia do pé para assoar o nariz. Ai, como era sensível tua mãe. Quando a lokura do amore baixava, e eu sentia a necessidade de me reapaixonar por ela, ia com ela ao mercado. Numa dessas vezes saímos para comprar mostarda e ketchup pruma pizza que assaríamos. Sua mãe olhou e reolhou pros condimentos e disse: "Que horror essas embalagens de mostardas. São todas, todas, todas mesmo, amarelas! E os ketchups...., cristo, são todos vermelhos! Quando vão criar uma embalagem rosa ou azul? Credo!" Ela ficou tão chateada com os fabricantes que decidiu que não compraríamos mais nada. Detesto pizza a seco e aí tive a brilhante ideia de sugerir aquela variante holandesa, observando a ela que, bem, existia uma mostarda marrom. Ela comprou-a, mas meio ressabiada. Tua mamis detestava as coisas que eram muito iguais, ou facilmente adivinháveis, previsíveis. Por isso odiava shows de mágica, entrevistas e poetas, e por isso gostava tanto de acompanhar a previsão do tempo, a bolsa de valores e os resultados da loteria. Sua mãe gostava das coisas pelo avesso, sabe. E é por essas e por outras que sempre nesse dia compramos bolo e velas pra soprar em vez da gente ir no cemitério, entende?