4 de novembro de 2017

Esta é Tainhas, a história de uma menina chamada Mariana e de uma tainha chamada Antonieta. Poderia chamar-se Tapadas, À beira do mar, ou até mesmo Ansiedade Lanches. Mas fazer o quê? Mariana também poderia ser feliz. E não é.


Capítulo 1 

Onde o leitor conhece Mariana e esta, por sua vez, um macete para calcular potenciação que de fácil não tem nada


Quanto mais a professora falava sobre a imensidão das camadas atmosféricas, mais Mariana afundava-se em sua cadeira, muito longe do céu e da necessidade de manter-se atenta. Ela sempre fazia um uso inadequado das informações que a escola lhe transmitia: por exemplo, embora fantasiasse constantemente a respeito das placas tectônicas (pegava-se pensando em mergulhos terrestres, placa sobre placa, ela própria uma mergulhadora litosférica catando conchas em busca do núcleo da Terra), tomou bomba na prova de Geo: nota 3. E Biologia, então? Esta matéria era seu terror: confundia as girafas de Lamarck com as ervilhas de Mendel. Na sua cabeça eram todos amigos: Lutero, após pregar as 95 teses na catedral de Wittemberg, convidou Darwin para uma corrida montada nas tartarugas de Galápagos, mas este não podia: foi mal Lutero, hoje vou dar rolê com Marie Curie, a rainha do rádio.

-- Mas Darw, ela não tem namorado????
-- E eu lá sei??? - E sai rapidamente galopando sua tarturuga galopeira.

A menina nem desconfia que galopar tartaruga é pura figura de linguagem; a professora não passou esse assunto e vários outros devido à greve do sindicato estadual. Mariana tem 14 anos e está no primeiro ano do Ensino Médio da Escola de Educação Básica João Baptista de Oliveira Figueiredo. Nunca leu uma obra de Julio Verne e, ao longo de sua vida, nunca lerá. Tem horror a baratas, não conhece o patrono de sua escola e mora apenas com sua mãe, numa casa alugada no bairro de Espinheiros, em Itajaí/SC. Ela nunca conheceu seu pai, morto numa noite de intensa ressaca e nenhuma estrela no céu, em Imbituba. No quarto dela, há infiltrações e goteiras, e em noites de chuva ela não dorme, a menos que consiga concentrar-se nos mergulhos litósfericos ou quem sabe no romance entre os números 17 e 29, números primos cujo amor é proibido pelos preconceitos da família, aquele bando de irracionais enrustidos. Mas quase sempre a chuva insiste, vence o drama das histórias românticas como se fosse um plantão jornalístico a furar a programação, trazendo à tona os pensamentos mais negativos de Mariana: essa água que se infiltra pelas paredes é a mesma que tomou o barco de seu pai, Anselmo; essa água vai sempre escorrer nessa casa de onde nunca provavelmente sairá; viverá em constante estado de resssaca enquanto a maioria das pessoas vivem tranquilas, em eterna marola, piscina, boias, aquários.

-- E aí, galera, fica fácil: dessa forma, a potência de vocês é convertida em uma simples multiplicação.

Geo, História, Artes, Português, e agora a de Matemática. Falta só mais uma aula de Biologia para, enfim, ela poder chegar em casa e jogar sua mochila sobre o sofá. Dentro da bolsa, dois cadernos, dezenas de papeis de bala, uma banana, dois reais em moedas e um peixe cinza de pelúcia. A menina abre a última bala enquanto Zulmira e Thiago, os docentes, trocam cumprimentos na porta da sala. Faz um calor infernal em Itajaí, batalha sempre perdida pelos ventiladores das escolas públicas.

-- Bom dia, amiguinhos! Hoje é dia de sortearmos a classe que cada equipe vai pesquisar no trabalho sobre o Reino Animalia, hein.

Até o final da aula, Mariana se dará conta de que os peixes integram algumas classes do tal Reino; será tarde demais, sua equipe, na verdade uma dupla formada com o Yago, receberá a classe das aves, mais uma frustração para a conta do dia (e ainda nem são 12 horas). Ambos deverão pesquisar características anatômicas, reprodutivas, alimentares, entre outros aspectos sonolentos. Se ganhasse a classe dos peixes... os peixes ósseos, ah, aí acharia o trabalho muito legal. Se ganhasse essa classe, poderia falar das coisas que sabe acerca dos peixes, coisas que sua mãe lhe contou sobre o trabalho do pai: que há tempos em que não se pode pescar nada, a época do defeso, a fim de proteger os peixes e deixá-los namorar um pouco em paz. Explicaria também que há os peixes de água doce, que há até peixes criados em cativeiro, infelizmente. Se ganhasse do professor Thiago essa classe, pesquisaria tudo sobre eles, até mesmo o que os peixes curtem fazer no final de semana, quando as praias estão cheias de banhistas e eles têm que obrigatoriamente sair de casa. Quem sabe até poderia usar a Antonieta para ilustrar algo na explicação!!!!!! Não, melhor não. Todo mundo implica com o fato dela andar por aí com ela e ainda dormir abraçada com Antonieta, afinal adolescência não é mais idade para se ter pelúcias; inventar isso seria só mais um motivo para que seus colegas fizessem chacota com ela e Yago, os dois alunos mais excluídos do 1ºB. Mariana, ao final da aula, enquanto arruma o material, dá uma última olhada em seu bicho: entre dois cadernos, com a cauda melecada de banana, Antonieta está lá, silenciosa e inexpressiva como sempre. Você é um bicho, Antonieta. Queria que você falasse, que me ouvisse. Mas você é um bicho, Antonieta, uma vassala, e não pode pertencer ao Reino Animalia.

O sinal é estridente e nervoso, mas gera felicidade em todos os alunos e funcionários. Mariana está morrendo de fome, até porque preferiu não comer a fruta que levara para o lanche. Provavelmente, esqueceu de tirar da mochila; além de distraída, é esquecida. Após dez minutos de caminhada, está diante do portão de ferro e da pequena casa onde mora com sua mãe, Dona Mariza. Antes de entrar, como boa filha que é, limpa os pés no tapete barato. Antes de entrar, infeliz que é, suspira longamente, e então sente, antês de vê-lo, o sabor do almoço: hoje há ovo frito, feijão, arroz e batata doce. Mariana dá um beijo na mãe, uma senhora baixa e gorda de 40 anos, mesma altura da filha, e corre lavar as mãos. As mãos de sua mãe são envelhecidas, gastas pelo trabalho duplo, na casa e no carrinho lanche que Mariza administra e hoje, particularmente, cheiram a alho.  Elas não são lavadas antes do almoço; o pano de louça cumpre a função. Enquanto mãe e filha colocam a mesa, Mariana ouve, mais uma vez, uma série de reclamações da mãe: o preço do feijão vermelho, a falta de sol para estender as roupas, a necessidade de Mari conservar seu uniforme limpo, retirando-o antes de comer. Ai, mãe, que saco.

Por um momento, enquanto procurava um garfo e uma faca no gaveteiro (as cores nunca combinavam naquele misto de jogos de talheres e suas tantas peças faltantes), alheia à fala reclamatória da mãe, Mariana desejou que também houvesse para a vida dela um defeso: ah se, de janeiro a fevereiro, ou quem sabe de sexta a domingo, das três às seis da tarde de cada dia, ah se houvesse um intervalo da vida no qual, obrigatoriamente, ninguém pudesse pescá-la de seus pensamentos, seja para passar pano na sala ou estudar Química ou sorrir e arrumar-se para prostrar-se diante de visitas. Mariana era distraída e, como toda pessoa perdida, ofendia-se com interrupções utilitárias: vá tirar o lixo, Mariana, vá até o quadro e resolva o problema, pisque de volta pra ele , Mari, responda minha mensagem logo, eu sei que você a visualizou, Mariana.

-- Ow, Mariana, eu tô falando contigo, tapada. Me passa a batata doce.

Um defeso. Um defeso para a proteção da espécie das tapadas.


2 de novembro de 2017

Onde a tainha Antonieta tenta explica ao leitor quem é, o que curte fazer no final de semana e a que veio

eu nasci numa esteira velha & enferrujada duma confecção chinesa, há muitos anos, e logo vim para o Brasil, mais especificamente São Paulo, e numa loja da Rua 25 de Março permaneci durante alguns meses (o primeiro deles embaixo do balcão - o depósito improvisado do Box 37) até ser vendida à Dona Luzinete.

não, a Luzinete não é a minha mãe. muito menos os chinas que me costuraram e estufaram. Tia Luzi me comprou (era o ano de 2009) a fim de me revender, junto com outros bichos pelucianos, em sua cidade, Fortaleza. foi uma viagem tranquila, embora eu não tenha curtido brisa nenhuma dentro de uma caixa de papelão, exceto por um único aperto: ali pela altura de Itaobim, a polícia parou a caminhonete onde viajávamos e quis conferir a carga; houve um momento de aflição pois, devido a nossa experiência na 25, conhecíamos histórias terríveis de baleias, tartarugas e emojis que foram rasgados ao meio em fiscalizações, sob a suspeita de esconderem drogas. mas deu tudo certo: rapidamente fizemos amizade com Lúcio, o cãozito farejador, que por alguns segundos quase abandonou o profissionalismo e puxou uma de nós pra brincar, sendo, no entanto, rapidamente contido pela coleira.

Já em Fortaleza, fui jogada de loja em loja até cair numa loja de 1,99
Eu custava 25 reais e, até ser comprada, algumas vezes a dona da loja, a Bruxa Jerusa, teve que explicar a clientes interessados na minha fofura que, não, eu não custava 1,99, que havia outros produtos mais caros, e que eu custava 25 reais


sinceramente, não entendo muito bem as pessoas e, por mais que muitos anos tenham se passado, ainda aqui, em Itajaí, ainda agora, em 2017, ainda hoje, dentro da mochila da Mariana fedendo a banana (ela levou a fruta como lanche pra escola mas teve vergonha de comê-la e aí a desgraçada amassou na bolsa e se colou em mim e aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa) penso que entendo algumas coisas, sobretudo de meninas e meninos, mas ignoro as motivações de grande parte das ações humanas. o índice beira 100% quanto se trata de adultos.

isso me lembra que uma vez uma tia da Mariana olhou pra mim e disse: larga esse bagre feio, menina. tanto brinquedo bonito e você aí a arrastar no chão essa coisa suja. por sorte, a Mari é marivilhosa e disse ELA É UMA TAINHA  e saiu pisando muito bem pisado. como posso ser um bagre se não tenho bigodes e não sou fofoqueira? Eu não aguento gente que não entende sobre peixe, que não curte maresia.  tainhas são peixes simpáticos que divertem a galera; bagres são peixes desagradáveis que tratam mal as pessoas a sua volta mas postam mensagem positivas nas redes sociais. como podem os humanos confundir isso? que diabo as crianças estão aprendendo na escola, que quando crescem se tornam fãs de golfinhos e carros rebaixados? isso que nem vou entrar na questão musical e culinária, argh. E ELA TEM NOME, O NOME DELA É ANTONIETA - ok a Mari não disse isso pra tia, mas seria legal se tivesse. e se batesse a porta, então? ai, eu deveria ser diretora de cinema.

no mais, sou, assim, uma tainha delicada demais.
meu líquen preferido é o rosa 

já te ligo de volta, guria, agora não dá pé





20 de junho de 2017

3 poemas

I

tirar o dia de folga e dizer ao corpo:

só anote os recados urgentes.
para que ele não esqueça
deixar na geladeira o lembrete:
estou fora não sendo
cama, comida ou vento.

hibernar por dias e deixar
o tempo fazer e lidar com toda a porra
que constitui seu trabalho:
responder a todas

as ligações 
da infância aos amores
dos e-mails aos precipícios

não mais voltar até esquecer como se volta

e, se, por acaso...

não se erguer até ouvir,
vindo do corpo, de pé, ao telefone
apenas uivos
grunhidos
rumorejo

II

cansa-se o cansaço 
de falar de si

(parece que anoitece

mais rápido se ele
não se ensimesmar)


assusta-se o cansaço se alguém oferece ajuda

(parece que respira
melhor se não divide a sala
e o trabalho com outrem)

confunde-se o cansaço

ao resgatar seu antigo estado

(parece que de silêncios
impassíveis e covardes

se faz seu passado)

cansa-se o cansaço

de fazer sentido


(resiste e insiste
no mesmo fim
até que, num instante,
grita muito alto
e some)

III

quando vc chegava em casa, cansada, à noite, contávamos, um a um, todos os mortos do dia

pedíamos uma pizza a cada dia mais longe e por isso mais fria
ora em recife ora guiana ou hungria
ou então,
preparávamos nós mesmos a comida
contando e polindo cada grão antes de por na panela
no banho, juntos, caía ao chão,
por vezes, o sabonete e - rindo - 
você partia a fim de apanhá-lo
voltando com ele na manhã seguinte
e aí cobertas,

longas estradas de cobertas nas quais sempre falta uma milha para cobrir o pé
e aí um café feito às pressas
a invadir a cozinha e
em meio à enxurrada
um último lance de mãos a dizer
tenha um bom dia

28 de junho de 2014

essa cidade anda cada vez mais violenta:
há noites de sexta em que vc sai sozinho
anda por um ou dois bares e
volta pra casa 
sem ter conversado com ninguém

24 de junho de 2014

Coisas que aprendi em figuras de chiclete

Eu tava aqui pensando
vc não sente vontade às vezes de sentar o cu
num ninho de mafagafos
cheio de mafagafinhos?

Toda receita q se preze deveria
ter entre as instruções:
faça isso e mais isso, acrescente isso e mais isso
E ENTÃO VEJA O QUE ACONTECE
são meio nojentos esses livros de receitas
que negam o acaso
cê não acha?

Há por aí
em lugares livres
gente que
considera o acidente
como uma importante possibilidade
e que faz deliciosos pratos
a partir de massas que desandam

Non sen se vc sabe
mas há
por aí
um lugar que nos protege
não só das desgraças de sempre
mas também das notícias bonitas
- das terríveis notícias bonitas -
e nos protege dos amigos
sugeridos pelo facebook
e dos exemplos de solidariedade
que o jornal nos enfia
pela garganta.

Em algum lugar
sem placas e aviso
existe esse lugar.
Fiquemos desatentos:
hora dessas
a gente se perde
e chega lá.

Você Sabia?
a praia de nudismo
- tão livre -
é o menos livre
dos lugares

Você Sabia?
o ponto mais baixo da Terra a que podemos chegar é
no sofá da sala, ali pelo fim de tarde.

Você Sabia?
ecoa
por aí
como um soluço
uma voz que
não responde a nada.

Você Sabia?
a cabeça cheia de decibéis
é que nos enriquece
Somos rádio
e as bobagens que dizemos são os
nossos comerciais.

Há por aí
uns pássaros controversos
que bebem
sim
daquela água
e gostam muito.

As promoções e amores
são eternos
ou enquanto duram os estoques.

A roleta não taí
pra divertir ninguém.

Gestos em falso
são coisas
naturais.

Em algum lugar desse mundo
há um país e sua moeda
em cuja nota de cem
é possível ler
"deus abençoe
o aleatório".


8 de junho de 2014

um poema de Matilde Campilho

           Brincando com os Dentes do Tubarão

You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom

tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters

My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.

*

do livro "Jóquei", Edições Tinta da China, Portugal, 2014.

17 de maio de 2014

um poema de Lawrence Ferlinghetti

O MUNDO É UM ÓTIMO LUGAR


           O mundo é um ótimo lugar
                                                            pra se nascer
se não te importa que a felicidade
                                                             nem sempre tenha
                                                                                               muita graça
              se não te importa um quê de inferno
                                                                de quando em quando
                                      justo quando tudo vai bem
                                                      pois nem mesmo nos céus
                                          se canta o
                                                                   tempo todo

            O mundo é um ótimo lugar
                                                             pra se nascer
se não te importa que alguns morram
                                                                 o tempo todo
                      ou sofram só de fome
                                                             parte do tempo
                o que não é tão mau assim
                                                               se não é com você

Ah o mundo é um ótimo lugar
                                                        pra se nascer
        se não te importam
                                                     algumas mentes mortas
                   nos postos mais altos
                                                            ou uma bomba ou duas
                          de quando em quando
                                                                     nas suas caras pasmas
ou tais outras inconveniências
                                                       que vitimam a nossa
                            sociedade Marca Registrada
                                                               com a distinção de seus homens
        e seus homens de extinção
                                                          e seus padres
                  e outros patrulheiros

                                                           e suas várias segregações
e investigações parlamentares
                                                           e outras prisões
                   de ventre que nosso torpe
                                                          corpo herda

Sim o mundo é o melhor dos lugares
                                                         para tantas coisas como
                encenar diversão
                                                  e encenar amor
e encenar tristeza
                         e cantar baixarias e se inspirar
             e dar umas voltas
                                             olhando de tudo
                                                                        e cheirando flores
       e cutucando estátuas
                                               e até pensando
                                                                           e beijando as pessoas e
               fazendo filhos e usando calças
                                                                            e acenando chapéus e
                                                            dançando
                               e nadando nos rios durante
                                             piqueniques
                                                      no meio do verão
                       e no sentido amplo
                                                        "vivendo até o fundo"
Sim
     mas bem no meio disso chega
                                                             então sorrindo o

agente funerário


*****

de Lawrence Ferlinghetti.
 Tradução de Nelson Ascher.
 In: "Vida sem fim - as minhas melhores poesias", Editora Brasiliense, 1981.

27 de abril de 2014

um poema de Roberto piva

ANTINOUS 

                                     (movimento de árvores)




são questões

                    terça-feira eu prefiro você bem

                                                                   louco

minha palavra & nada que você acredita

poderá acontecer: ostras olhos injetados Hegel

durma com suas violetas do subúrbio

                        a cidade tosse como

                        um índio com febre

São Paulo acorda em suas coxas

                 docemente

       banho quente com vapor

           em espiral flocos de

           samambaias eróticas

assim que você espreguiçar eu estarei

                                                         sangrando


*

Roberto Piva. In: Antologia Poética. Editora L&PM, 1985.

21 de abril de 2014

a farpa nasce
e é sua própria morte

vem de onde
não se espera
de madeiras
e braços
insuspeitos
como horizontes.

vem de onde
não se espera
desconhecida
por sua própria
superfície.

não é espinho.
sem função
senão ferir e morrer
ou ser
para sempre
ignorada parte
da porta.

você mesmo
possui farpas no olho
e não sabe.
aperta aperta
a lata
e nada.

se pêssegos ou sardinhas
o rótulo diz
o que ali se guarda.

até que se abra
e se revele
encerrará
antiga
uterina angústia

ao primeiro rasgo,
surge uma réstia
um respiro.

14 de abril de 2014

Esta égua que pasta a geografia
de meu túmulo
deu-me
o leite dos infernos.
Na emboscada do cio
seu fogo
fustigou-me o fígado
e fê-lo
estigma, lama. E a sina,
do verbo corrompido fez o signo-fruto
corroído
que ela enterrou e canta.
SEU COICE FOI INFINITO.

*

Max Martins
Extraído de "Não para consolar", Edições CEDUP, 1992.

8 de abril de 2014

são cinco horas ainda
sob o teu nariz
meridiano
a cortar
o mundo que é
seu rosto

sopro sobre
seus
cabelos
e faço girar
milhões de
castanhos
cataventos

mas você
não se move
nem mil trompetes
poderiam te acordar
se ainda não é a hora

o teu corpo
como todo e qualquer mundo
nunca será bagunça
por mais bagunçado pareça

cinco e meia.
um pouco de remela
ao leste avisa:
mais um dia nasce
no mundo que é
seu rosto

**

isso aí vem de uma brincadeira do daniel , que consiste em montar poemas que tenham determinadas palavras. nesse caso, era preciso fazer um poema com as palavras meridiano, remela, cata-vento e trompete.
tem mais uns, mas não acho que ficaram muito bons, por isso só mostro esse :^
não faço a menor ideia de como resolver o caso daquela página que pede um poema com  "almôndegas", "guilhotina" e "ouriço".

8 de março de 2014

as causas pelas quais lutamos
têm causas

(as causas das causas
é por onde devemos começar)

é burra toda luta
que não para pra pensar

não há delícia
em milícias

não há charme
em marchas
de coturnos

a beleza e o prazer
estão em lutar
ao nosso bel-prazer

lutar e defender
o que nos dá na telha

contra os trilhos
que insistem em
atravessar nosso caminho

lutar por uma nova escrita da história
ou então assumir de uma vez
que o que temos até então
é uma história de ficção
um romance do mundo
um grande artigo da wikipedia
que pode e deve
ser alterado

(uma história com menos adornos
e mais Adornos
é o que queremos)

64 é 1500
é 1888
e todas as datas são hoje
o bingo da história
começa muito antes
de livros, mapas, calendários

a história começa sempre antes
do que sabemos
perderam-se no ar os gestos iniciais

mas o gesto ainda é
nossa única e verdadeira arma
muito antes de tacapes e bombas
os gestos

lutar e defender
o que nos toca
mas não só:
lutar e defender
o que nos chega pelos olhos nariz pele bocas pensamento
nosso coração vai sentir
sim
o que os olhos não viram
mas ouviram dizer
meteremos
sim
a colher onde não fomos chamados

se minha luta é a tua luta
a gente comemora:
somos irmãos
e não figura repetida
no álbum da História

sem saber o que é pior:
se arte pela arte
se luta pela luta
seguimos

contra isso
a arte pelarte
a luta peluta
a luta a favor do luto
contra isso
também temos de lutar

dia e noite
até que a estrela exploda
haveremos de militar

militar
sem limites

abaixo a ditadura limitar

4 de março de 2014

são isto, afinal, as mágoas:
águas que
não passam.

represadas
dentro dos olhos
são fundas, sempre fundas
as mágoas
e guardam alto
potencial de energia

uma mágoa
bem represada
poderia iluminar nova iorque
por todo um dia

28 de fevereiro de 2014

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

quantos dias faltam para chegar o
quando-der-a-gente-se-vê?

quem é que sabe
de todos esses quem-sabes
que a gente lança todo dia?

quem paga a conta
por todas as vezes
em que apostamos no acaso
e perdemos?

e as coisas que deixamos pra lá
quem é que,
lá,
as junta e organiza?

como em lixões,
existem gentes que passam os dias lá
a revirar o que deixamos
em busca de pequenos tesouros?

quantas palavras a gente tem que dizer até que os outros enfim compreendam
que naquele momento
não estamos a fim de falar?

quanto tempo falta
para eu não esperar mais nada?

15 de fevereiro de 2014

coração caixa preta
forte
registradora
coração caixa de pandora
repleta de coisas e bichos maus e
lá no meio
um pandeiro
um coração pandeiro
onde se bate bate
bate até dizer chega
onde quanto mais se bate
melhor fica
de se ouvir
e nunca chora
não
o coração de pandora
nunca chora na hora
tem vergonha
e guarda e chora
noutro espaço
e hora
tarde da noite batem no teu coração
e vc nem se levanta
é trote
e vc chora
mas não agora
é ali que batem mas
não é ali que se chora
como o pandeiro
que apanha e apanha
e não chora
o choro sai
lá do outro da banda
pela cuíca
assim como
pelo olho
noutra rua
do corpo
desagua o que
dói no peito
coração olho
registradeiro
que vê sim
como vê o cego
a seu modo
coração olho cego
a tudo vê
e por isso tudo sente
registradeiro
aleatório
coração de pandorga
que só voa
em que dia em que não chove
(chora)
lá fora

gravidade


Aqui estamos
a contrariar as leis da física
soltando
         perguntas muito pesadas
que insistem em ficar
                no ar

14 de fevereiro de 2014


a intimidade e a solidão:
ela chega, tira um dos fones do ouvido
ele também tira um de seus fones
e ficam os dois meio conversando, meio ouvindo música.

30 de janeiro de 2014

um poema de Eileen Myles

Uppity

Roads around mountains
cause we can't drive
through.

That's Poetry
to Me.    

28 de janeiro de 2014

                                                                                                                                        para a ale

I

alguns turistas tolos da vida dizem
ih
na bahia
o ano
só começa
depois do Carnaval.

mas de que bahia se fala
quando se fala da bahia?
no pelô
o ano não começa
num termina
tem seu próprio tempo
como ocorre
nos lugares mto mágicos
(ou mto devastados)

II

pelô
amor
de
deus
lourinho

ih,
na bahia?

ai de ti,
haiti.

III

capoeira violenta
no meio da tarde
sem mto motivo
sem qualquer berimbau

IV

se tivesse
partido numa barca
ou mesmo se finado em tempestade
inda dava uma canção bonita
mas ele se foi numa linha
salvador-são paulo
numa tarde quente
sem nenhum adeus
e mais ladeiras
que o habitual

V

Dois cotovelos no meio do peito
os seios da prostituta
são qualquer coisa
sem surpresa e erotismo
vara de condão há mto
sem mágica
sóis de toda hora
guizos
boias
brinquedos

VI

é assim
meto onde e quando
todos ri
ninguém se mete

VII

viero
tombaram as ladeiras tudo
falaram em patrimônio
maravilha
riqueza
e aí me despejaro?
num entendo

VIII

mordida no ventre
caco de vidro no peito
raspa de bala na bunda
pelo corpo eu trago marcas
que não guiam a tesouro algum.
farol sem história
e razão de ser
a cicatriz é um bicho estranho
que às vezes acaricio
por mais não ter o que fazer.
não devia estar ali
não tem serventia
mas ali está e
até o fim vai estar.
sou cicatriz do mundo?
se sou, quem lhe feriu?

IX

é sempre tempo de
carnavais fora de hora
de chorar pitangas
e depois comê-las
de dores e dorivais

X

- Axé, meu rei.
- Axé mais.

26 de janeiro de 2014


estamos todos condenados a significar
eis o jogo
dois velhos dádás
um em frente 
ao outro
a falar
quem
fizer
sentido
primeiro
perde

23 de janeiro de 2014

PARIPENSE ! !! : que investidas insanas poderíamos fazer se comprássemos essa empresa que acabou de entrar em concordata ! ou dito de outro desenho: isto é um convite. vamos amanhã sem falta ao hipódromo apostar tudo que eu e vc temos no cavalo de só três pernas. bom claro é bem provável (mas nunca se sabe!!) que ao final do páreo sejamos os mais fudidos dos apostadores mas tbém seremos os mais doidos e debochados e esse maravilhoso estrume de ouro ninguém vai poder tirar de nós.
pelamorde deus até os avós da gente sabem q tem altos ditado bucha ditado não é roubado !!!! vamos logo ser aqueles dois passarinho voando que valem menos do q aquele na mão mas que se foda à milanesa o passarinho na mão ! ! ! ! nesse mundo consumista de merda a lógica girou tanto nos três contrários que agora bom mesmo é valer menos. vamo trocar o certo pelo duvidoso até pq é isso que tem sustentado toda a filosofia a troca da roda certa pela duvidosa venha é cavalo de três pernas na cabeça não na cabeça dele na cabeça do nosso pódio por
favor
venha
três deboches pra minhamiga

I

que linda tua saia
daqui agora

II

que linda tua saída de praia
adoro quando vc sai da praia

III

ele é mó gato
vai por mim
sentada,
esperando
aqui na estação
sou alguém viva
mto viva
que ama e pensa

mas no momento
em que vc passa
e acena
eu que sou viva e amo e penso
tbém sou morta
inevitavelmente morta parte
da paisagem
para a qual vc olha da janela


20 de janeiro de 2014

olha aqui pra você ver

19 de janeiro de 2014

carnavais

I

é terrível quando o tempo está fechado
no teu pátio
e eu estou alegre e
tudo o que tenho a oferecer
são pequenos carnavais
que pra nada servem.

(ou servem?)
(farei bem seu chamar quem precisa de descanso
 pra subir e descer ladeira?)
(se eu tenho presente mas não tenho a ocasião
devo mandá-lo?)
(o que a gente faz quando já disse tudo
e num acha hora de fazer?
despiroca?)

creia-me:
faço o possível
pra te ajudar
enquanto danço.

II

o coração
bate eter
namente?
é impossível prever e programar certas coisas
como se existesse mais de um tempo:
o nosso e o das coisas.

às vezes a tradicional
paradinha da bateria parece durar anos
e eu num lembro
quando foi a última vez
que choveu confete.
facebook II

essa mina tem uma boca
que num é dela.

8 de janeiro de 2014

eu e vc a catar conchas
e estrelas do mar perdidas na areia
é uma cena bonita.

eu e vc a catar conchas
e estrelas do mar perdidas na areia
- descobrindo que há coisas bonitas
que só nos aparecem depois de mortas -
é uma cena terrível.

24 de dezembro de 2013

acontece há muitos séculos, no fim de cada dia:
eles entram e se instalam
quase sempre no fundo do ônibus
onde cantam, dão cambalhotas
riem e ouvem música alta em seus celulares.

o ônibus é um grande burro amarelo
que aos trancos leva muitos outros burrinhos cansados
e mais as três ou quatro hienas
muito vivas e coloridas.

embora o ônibus leve todos os bichos para a mesma direção
as jovens hienas, rindo, vão no sentido contrário
do sono e tédio dos animais mais velhos
e riem tão alto
e vão com tanta energia para o lado oposto da vida
que é difícil entender como o carro
não se parte ao meio.

partisse o ônibus ao meio
certamente perderia-se
a maior parte dos burros n'água
e as hienas ririam
ririam inda mais alto
a ver no incidente
a primeira aventura da noite.

as metáforas

a fala é sempre imperfeita
e quase nunca dá conta do recado.

lá, no ponto em que não há palavras pra continuar
e a fala trava como travam os pés ante um precipício,
tenta-se construir uma ponte:
a metáfora que estende um pouco mais a ideia
e tenta ser a imagem do que se quer dizer.

impossível:
as palavras não se deixam fotografar ou filmar
e a metáfora acaba sendo porta-voz de uma verdade, sim,
mas um menino dos recados doido
que leva adiante uma mensagem diversa
da que foi encomendada.
 
num tem jeito:
para sempre essas traduções mal-feitas
do que nos vai por dentro do peito.

é difícil identificar onde as falhas na fronteira
entre o que se sente e o que se diz sobre o sentir
(um telhado que pinga e não se sabe onde)

mas parece absurdo se voltar contra as metáforas
ainda que insuficientes.
"vamos destruir a máquina das metáforas?"
propõe sebastião uchoa leite
em algum lugar dos seus poemas

mas pq diabos iria eu abdicar das metáforas
se às vezes o time reserva vai pro campo
e faz melhor que o titular?

se há gatos que caçam
melhor do que muitos cães?

hm?

15 de dezembro de 2013

É possível ser feliz num empate.

Dia desses o @ita_puccini me chamou para assistir a um jogo na Arena Joinville. Jec e Ceará pelo campeonato brasileiro. Eu já nem lembro do placar. Se não me engano, o Jec perdeu ou empatou, frustrando a torcida que comparecia em bom número naquele dia. Ou pelo menos a parte da torcida que tem no anseio pela vitória do time o único objetivo para sentar a bunda na arquibancada e ali permanecer por duas horas. Pois há quem se contente com menos. Se você vai ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz, cê tá correndo riscos, meu amigo. É claro que a vitória é sempre o primeiro desejo do torcedor, mas ele bem que pode curtir a ida ao estádio por outros mil motivos. É bom pensar que as situações da vida contêm várias possibilidades de felicidade ao invés de uma só. É possível ser feliz num bingo da igreja sem sair de lá com o grande prêmio (um liquidificador ou um edredom, geralmente). É possível ser feliz na praia ainda que caia uma bruta chuva no momento em que você põe os pés na areia. Basta enxergar nas tais situações outras razões de alegria. Inventar passatempos, reprogramar a ideia inicial, prestar atenção para o que geralmente não prestamos. Certamente foi o que muita gente fez naquela tarde em que os jogadores faziam de tudo menos demonstrar habilidade com a pelota.
Eu adoro ir num estádio de futebol e acho que todo mundo deveria ir de vez em quando, ainda que não seja um grande fã desse esporte. Ainda que não torça para nenhum dos times que estão jogando (como faz o Ítalo, aliás). Dá pra se divertir e enxergar beleza em uma porção de coisas. Como é bonito o canto da torcida, a nostalgia que há no velho hábito de assistir à partida com o ouvido no rádio de pilha, a presença de pais & filhos; pais, mães & filhos sentados juntos na arquibancada. Para as crianças, a vitória é algo tão importante quanto o copo de refri gelado ou o pacote de amendoim que os pais compram dos homens que passam o jogo todo circulando e atrapalhando a visão da galera pelas arquibancadas. E assim deveria ser pra todo torcedor (por enquanto só no mundo ideal dos sonhos e das crônicas).
Outra coisa adorável num jogo de futebol é acompanhar o folclore da torcida. Mais do que cantar e incentivar o time, o torcedor mais ferrenho profere todo tipo de emoção. Xinga o jogador do seu time, xinga o jogador adversário, pega no pé do árbitro, do bandeirinha etc., e não perde uma chance de fazer graça. Ainda que marcado pela linguagem informal e por inúmeros palavrões, o repertório folclórico dos torcedores é repleto de invenção e criatividade. Velhos bordões e xingamentos clássicos convivem com brincadeiras e piadas criadas na hora, de improviso. É claro que sempre tem alguém que erra a mão, e deixa escapar um dito machista por demais aqui ou uma frase com pouco humor e muita raiva ali. Embora reprováveis, são inofensivas, pois quase nunca chegam aos destinatários. O jogador xingado (ou o juiz, ou o gandula, ou o locutor, sei lá, torcedor dá jeito de xingar todo mundo!) está quase sempre distante, e se ouve, não se dá ao trabalho de virar a cabeça, até porque tem um jogo pra dar conta. Eu diria inclusive que o verdadeiro destinatário desses ditos todos é a própria torcida: o cara está xingando alguém lá no campo, mas seu real objetivo é entreter os que estão a sua volta e a si mesmo.
E naquela tarde de Joinville X Ceará a torcida estava como sempre inspirada. Em certo momento morno do jogo, no qual eu quase cochilava e olhava pra qualquer coisa menos para o que faziam da pobre bola, a galera, que vinha exibindo seu repertório de ditos e bordões, levantou-se da torcida e deu início a uma ovação que sacudiu o estádio, sobretudo aqueles que como eu estavam distraídos. Na mesma hora, olhei para o campo a ver se algum gol havia saído. Qual o quê! A bola tava quicando lá pelo meio do campo. Virei para o lado pra ver se o Ítalo me explicava o que acontecera, mas que nada: tava com a mesma cara de perdido. Foi então que vi o bicho: a causa do auê era um quero-quero, típico pássaro das redondezas de estádios, que cismou de dar rasantes perto das cabeças dos jogadores do Ceará, provavelmente acusando-os de invasão de território. A torcida não poupou a chance: comemorou como se fosse gol cada rasante do pássaro, enquanto a zaga do Ceará se virava pra se livrar do bicho. Foi nessa hora que algum folclorista gritou perto da gente: TÁ CUM MEDO DO QUERO-QUERO, SEU FILHO DA PUTA????
Eu não sei se consigo explicar como um dito como este, aparentemente tão vulgar, e a ovação zoada da galera causam um efeito de humor e leveza na gente toda em volta. Deixa o jogo, e a vida - naquela hora - mais leve. Mais do que estar aberto às estranhas opiniões e emoções que vêm dos outros, a gente precisa estar lá, na galera, pra curtir o folclore do torcedor. Minha crônica não dá conta de falar das mil coisas boas que há numa ida ao estádio, até porque variam de gente para gente. Sugiro que o leitor vá ao estádio mais próximo uma hora dessas. Arquibancada popular, por favor. Com a galera. E o mais importante: não vá ao estádio dependendo de uma vitória para sair de lá feliz.

11 de dezembro de 2013

me ponho louko!
há uma falta específica da qualpouko se sabe e para a qual se candidatam todas as palavras de modo que se me perguntam bem posso dizer que o que me falta é uma porção de tainhas um pau virulento e chumbado a varrer minha boca um pequeno gesto de adeus um evangelho que eu ainda não tenha ouvido e que encha meu coração de poeira prazerosa
ou talvez ou quem sabe,
só pode ser! que eu sinta é falta de ti abrir todos os bichos como se frutas
e bater e bater e bater nos rostos das gentes
até que se deformem e seja natural e justo lhes dar outro nome e função na Terra
falta de te ver defendendo na tribuna novíssimas técnicas de circuncisão e recheio de pombos
a chamar pra si toda a responsabilidade das partidas de várzea e todos os mísseis extraviados
nas últimas guerras numa tentativa desesperada de ir ao encontro da desgraça
pra ver se lá
cuacara no tiro
se possa escapar dele poisque chega uma hora do desespero que tudo parece tolo e só resta apostar na sequência 1,2,3,4,5 6 para o grande prêmio da loteca e por as granadas na boca para escapar da explosão ou seja eu sinto muita falta de sentar contigo sábadatarde a contar e ouvir como foi a semanumundo
e nessa hora pensar é num mesmo segundo bater e abrir e ver que não há morrer

8 de dezembro de 2013

Crítica Literária

EU SOU VANGUARDA SÓ NÃO REPARE NA MINHA CALÇA JEANS. Que coisa horrenda esses poemas que os muito imaturos dedicam aos velhos poetas RESPOSTA À NERUDA ELEGIA PARA RILKE etc. Há quem não consiga produzir duas linhas sem fazer uma citação pomposa. O que falta a essa gente é uma boa dose de Semancol 50mg. Ou quem sabe Balzac 20mg. E ainda há os terríveis poemas metalinguísticos a palavra é isso a palavra é aquilo, o poeta é aquele que faz isso e aquilo. Imagine a cena: vc entra no açougue cheio de fome coisa e tal e tudo o que o açougueiro tem para lhe vender são vídeoaulas sobre as mil e uma posições do corte do boi, isso quando o vídeo ainda não vir com extras a exaltar a maravilha que é ser açougueiro! O poema, um desesperado narciso vendendo a si mesmo. A verdade é que as palavras são desnecessárias e nada podem fazer na hora do vamovê. A poesia não é importante, não tem valor, e ainda inventam de lhe cercar e contratar guardacostas!!! Já pensastes quantas apetitosas porções de peixinhos fritos perdemos queimadas por dedicarmos sempre um olho pro gato burro, louco, saciado, vegano? É por isso que me dá nojo essa gente que se acha superior porque lê muitos livros 
ai eu gosto de poesia olha como sou culto 
vá se foder meu filho 
à distância, toda página diz a mesma coisa: 
o livro de poemas 
o manual de instruções 
o folheto publicitário 
não há salvação no mundo literário 
os leitores também vão para o inferno 
condenados a lerem eternamente sinopses dos capítulos de telenovela 
sim meus amigos 
continuem lendo mas parem de falar sobre a maravilha que é continuar a estar lendo 
a poesia o conto o romance 
essas esfinges sacanas 
que mesmo quando decifradas 
nos devoram
sim meus amigos 
a literatura
é linda
a conversa vai conversa vem mais inteligente 
o melhor dentre todos os
dá o cu que passa
a mais linda de todos os
tanto faz como tanto fez