17 de julho de 2010

dois

O homem estava caminhando pelas ruas do centro, na volta do trabalho, trazendo um pouco da porra da fábrica sob a forma de fuligem no uniforme. Decidiu entrar num sebo, cuja placa lhe chamou a atenção enquanto ele brincava de chutar pequenas pedras. Era a primeira vez que ele entrava na loja, mas não demorou a encontrar o setor onde, lado a lado, uma fileira de deliciosas putas safadas o aguardavam. Em seu desejo, atrizes, cantoras ou modelos passam a fazer parte de um mesmo grupo de mulheres cuja história e se nome se apagam, só sobrando peitos, bucetas e bundas. Selecionando alguma vagabunda para levar para casa, o homem era um dos três clientes do sebo, cuidado por aquela moça ali, de cabelos presos e óculos, atrás do balcão, lendo um livro de poemas.
Os outros dois clientes vasculhavam como ratos o setor de literatura, e foi para eles que o homem ficou olhando após definir sua compra. olhou para eles, olhou para as estantes cheias de livros, olhou pra loira safada em sua mão e, subitamente lhe ocorreu a ideia de que comprar uma revista de mulher pelada era vergonhoso. Difícil entender como um pensamento desse lhe ocorreu, logo ele que viu tanta revista desse tipo na adolescência, logo ele que assiste filme pornográfico toda sexta à noite, que é quando aquela sua coisa velha e feia sai para um encontro de amigas, logo ele que vive falando de mulher com os amigos, de comer mulher, e de como deve ser safada na cama a Erilene, a chefe do setor. Definitivamente, difícil saber como essa ideia pudica lhe ocorreu. Há coisas que nem o mais onisciente dos narradores sabem. Talvez deve ter lhe influenciado o fato de reparar na atendente - uma moça simples e bonita, com cara de educada, que provavelmente deve sentir nojo de homens como ele fedidos, barbudos e tarados. Talvez. Certo é que foi lá na estante de poesia, olhou olhou olhou, leu um monte de títulos estranhos e pegou um desses livros gays. Tentou fazer uma cara de quem gosta de ler poesia e dirigiu-se ao caixa.
- Boa tarde, disse a moça.
(Olhou pro cabelo preso, reparou que por trás dos óculos havia dois bonitos olhos castanhos e voltou a pensar sobre sua aparência baixa e nojenta e sentiu vergonha por estar diante desta)
- Boa tarde, moça
(sentiu o forte cheiro de suor e perseguiu, por alguns segundos, uma gota que saiu correndo da testa e se escondeu no meio da barba. tentou vasculhar a barba, mas chegou à conclusão que era inútil continuar a busca e por fim olhou para o que ele deixou no balcão)
- A revista é 2. O livro é 10.
(titubeou, pois não seria uma bicha do caralho filho da puta de um poeta que iria lhe fazer gastar 10 reais. não sabia que era tão caro. queria saber se só o tal do rilke era caro ou eram todas bichinhas caras, esses poetas. decidiu que iria trocar de livro, mas decidiu tarde pois)
- 10 reais??
(pensou no quão curioso é um homem que lê poesia e e revistas pornográficas. talvez iria levar o livro pra outra pessoa. ou a revista. sentiu-se atraída por seu aspecto bruto. gostava de cheiro de homem suado. e bonito, o homem. sim, bonitão.)
- Sim, este é. Mas farei um desconto. Você pode levar a revista e o livro por 10 reais.
(continuou titubeando, internamente se xingando, pois só um burro compraria algo que não iria ler de jeito nenhum só para disfarçar sua enorme vontade de ver uma buceta nova para a coleção dos seus olhos. Aquilo não fazia sentido, mas agora não podia devolver o livro, pois a moça não desgrudava seus olhos dele, provavelmente esperando o dinheiro.)
- Está bom. - tira uma nota de 10 reais do bolso.
(por um momento pequeno - como calcular? - uma imagem rápida e louca, um recorte com jeito de sonho atravessou suas ideias, e enquanto ela estendia a mão para pegar
a nota ela vislumbrou em sua cabeça a sua imagem na cama, de quatro, com o homem de uniforme azul fodendo-a ritmadamente, tão safado e bem-feito, e nessa imagem o homem se chamava gregório de matos, sim, o homem era gregório, o poeta, o caldeireiro da fábrica, e ela uma mulher qualquer da Bahia colonial, e não a sempre educada e estudiosa Ângela, ajudante do sebo pertencente ao pai doente e severo. mas essa imagem passou rapidamente, quebrada pela táctil sensação de uma nota suja e áspera nas suas mãos brancas)
- Certinho, obrigado.
E ela sorriu, sorriso mecânico, dado diariamente umas 20 vezes, mas que por dentro escondia um desejo desregrado, um relógio com um ponteiro desesperado ou uma máquina de lavar chacoalhando-se e provocando rachaduras no piso da lavanderia.E ele fez um aceno de cabeça, como quem diz obrigado, mas por dentro voltava a maldizer-se pela grande besteira. Afinal, não ia voltar mais nesse lugar e muito menos iria sentar no sofá de sua casa para ler o livro estranho. Dobrou a revista e colocou-a no bolso da calça. Chegou à calçada,retomando seu habitual trajeto, reparou no céu que logo iria chover, abriu o livro numa página qualquer e, sem refletir sobre o lido, leu que de repente é tudo apenas chama, chutou mais duas pedras e dobrou a esquina.

4 comentários:

Í.ta** disse...

dez reais na porra de um livro de poesia duma bicha?

dava pra comprar cinco revistar com umas vinte bucetas diferentes!

fosse o cara, olharia com superioridade para os viadinhos da parte da poesia lá

hahahahahahahahaha

cara, tuas narrativas tão cada vez melhores! e essa de jogar um narrador ali no meio foi ótema, adorei adorei!

abração!

Eduardo Silveira disse...

rsrss :D

Moni. disse...

Adoro essa descrição de personagens desse tipo, um tanto rudes, um tanto crus, que por mais "polidos" que sejam, escondem nas mentes a "sujeira" dos pensamentos.

Cheiro, suor... Parecem as personagens de Aluísio Azevedo... Uma delícia!

Bom demais também essa escrita rápida do conto. Apressado. Ofegante.

Mandou bem demais, Eduardo!

Beijos e ótima semana!

Aninha Kita disse...

Adorei adorei, Eduardo!
Uma narrativa viva e verdadeira! Penso eu que este é o futuro dos contos, minha professora Ana Márcia que diz para abandonarmos as personagens perfeitinhas. Acho que ela iria gostar destas duas personagens. Assim são as pessoas, cheia de faces (as que podem ser mostradas e as que são bem guardadas).
Demorei a ler, pelo tamanho não me motivou a princípio. Mas, depois de ler duas linhas não quis mais parar. Parabéns, concordo com o Ítalo: "tuas narrativas tão cada vez melhores".

Abraços!
Ana