24 de janeiro de 2010

Mania de Janice

Dia sim, dia não, Janice encomendava um telegrama para o Manuel.
Manuel, homem forte, trabalhador e sóbrio.
Janice, moça discreta e silenciosa, apesar de inquieta.
E Manuel, no meio da tarde, recebia as letras da amada Janice:
* manu as coisa muda-muda etern por aki
Aí ele cismava: ficava emburrado. Como podia! Como podia ele entender aqueles troços!
E ligava pra Janice:
- ô, mulher! Que coisa é essa de E-T-E-R-N?
Do outro lado, Janice pensava na eternidade enquanto secava a louça e escolhia as palavras para devolver ao Manoel:
- tua voz é tão bonita. continuas tão forte como ela, manoel?
E o homem ficava com mais raiva: queria entender as letras, queria entender o porquê de Janice sempre lhe mandar os malditos telegramas, quando podia simplesmente ligar para ele.
- Mas, meu deus, Janice! Ligue pra mim. Escreva-me uma carta, que seja! Mas pare de me mandar essas palavras picadas e miúdas. Isso é loucura!
Janice, sempre serena, explicava que gostava daquilo. Manuel não entendia
- Eu não adivinho, Janice- Falava de um jeito meio chateado, fraco. Depois voltava a subir o tom da voz - E outra! pra quê repetir "muda-muda"? Ora, se é pra economizar, por que repete-se?
A isto, Janice respondia, em outras tardes quentes, com outros telegramas:
* manu mudaram nov. aprendi c vc q precisamo nos preenche
E do outro lado da tarde quente, Manuel rasgava o papel. Depois se arrependia. Ora, isso era provocação dela. Era manha. Alguma moda, só podia!
Ligou pra ela:
- Ô, Janice, amada, diga as coisas com todas as letras pra mim, Janice! Explicadas, desenhadinhas, um-mais-um, ô Janice, eu não sou adivinho pra entender essas meias-palavras!
E Janice, sossegada, ouvia Manuel ao mesmo tempo que lembrava trechos de uma música da sua infância. Era bonita, a canção. Música miúda com gosto de manhã. Coisa boa, relembrá-la, justo agora. E Janice sorria.
- Manuel, querido. É simples. Tudo está dito ali.
- Mas eu não entendo esses buraco nas frases!
- Ara, encha com alguma coisa!
Nesses momentos, Manuel julgava-a louca. Mas gostava dela, era bonita, educada, tão tranquila, tão mulher. Por isso, ainda esforçava-se para mudá-la. E sempre dizia:
- Eu não sou adivinho.
Enquanto isso, Janices, carteiros, telegramas e tardes.
* manu-manu-manu eis a tarde eis o gosto q ela tm
E o Manuel, pobre manuel, encolhia-se, afundava-se nos buracos
- Deus do céu, ela repetiu 3 vezes meu nome, ao mesmo tempo que abreviou coisas.
Aí já era demais. Começou a desconfiar da saúde mental de Janice. Ela, Janice, tão simples, com aquelas manias de ausências e inutilidades. Quanta bobagem. Largou seu trabalho (era ferreiro) e foi até a casa de Janice. Duas da tarde, com certeza, ela estaria à janela costurando. Pelo menos, era isso que Manuel imaginava, já que este era o hábito de toda moça da região. Na verdade, o que Janice sempre fazia nessa hora era ler um livro. Ou então, olhar os desenhos que a chuva e o vento faziam no quintal, após grande chuva. Ou então, olhar as pessoas passando na rua e imaginar as transformações que sofriam após virarem a esquina. Sim, menina passava por ali, sob a janela de Janice, caminhando jeitosa. Mas assim que virava a esquina, saía dançando frevo com o resto do povo. Menino sapeca passava atrás do cão. Virava a esquina e... xi! Menino virava cão, juntava-se ao amigo e saíam por aí. Casal de amigos passavam de braços dados. Vinha a esquina, e o casal se atracava com toda a força contra os postes ou então apoiados nos corpos daqueles que ficam parados ali na calçada (um policial, um mendigo, uma senhora distraída), sem nada a fazer. Janice imaginava e via tais transformações. Eram essas coisas que Janice fazia ali pelas duas horas da tarde.
Mas nessa tarde, Manuel, sempre sóbrio, chegou esbaforido e nada encontrou. Casa fechada, sem Janice na janela, sem Janice na soleira. sem Janice no jardim. dentro dele bateu uma raiva. uma mania de Janice? ficou com saudade. com raiva. com preguiça. onde estaria Janice?
Janice estava nos correios. Mas isso Manuel só ficou sabendo no dia seguinte. estava trabalhando, ferreiro, ferrando-se, ferreando, quando recebeu o telegrama. Janice, mania de Janice.
Com as mãos sujas, ansiosas, pegou imaginando mil palavras, repetições e abreviaçãoes. Mil vezes a louca Janice. A miúda e simples Janice:
*Tchau.
Só isso. Tchau. Janice tinha ido embora. Casa fechada. Não adiantou o desespero e a raiva: Janice sumiu. Manuel caiu no desconsolo. Por quê? Por quê ela fazia aquilo? Por quê fez mais isso, agora? Manuel caiu em perguntas e mais perguntas feitas de ferro.
No outro dia, o último telegrama de Janice. De muito longe, o último telegrama de Janice para completar a história. Desta vez com todas as letras:
*Desentorte-se Manuel Solde-se Manuel Adivinhe-se
Manuel sentou-se. Ficou a pensar a chorar. Todas as palavras estavam ali. Ou não.

4 comentários:

Thaís V. Manfrini disse...

"Ara, encha com alguma coisa!" Eu adorei. Toda diva Janice.

escobar disse...

ótimo conto. Acho que mostra um pouco do vicio da linguagem em ambientes de rede social. Méee (!) Gostei bastante. ^^

Eduardo Silveira disse...

HAHAHHAHAHA

obrigado pelas visitas
e escobar, errr...
volta pro seminário, escobar! méé
S2

abraços

Jumbriano disse...

tadinho do manoel
bem feito pra ele
:P