20 de junho de 2017

3 poemas

I

tirar o dia de folga e dizer ao corpo:

só anote os recados urgentes.
para que ele não esqueça
deixar na geladeira o lembrete:
estou fora não sendo
cama, comida ou vento.

hibernar por dias e deixar
o tempo fazer e lidar com toda a porra
que constitui seu trabalho:
responder a todas

as ligações 
da infância aos amores
dos e-mails aos precipícios

não mais voltar até esquecer como se volta

e, se, por acaso...

não se erguer até ouvir,
vindo do corpo, de pé, ao telefone
apenas uivos
grunhidos
rumorejo

II

cansa-se o cansaço 
de falar de si

(parece que anoitece

mais rápido se ele
não se ensimesmar)


assusta-se o cansaço se alguém oferece ajuda

(parece que respira
melhor se não divide a sala
e o trabalho com outrem)

confunde-se o cansaço

ao resgatar seu antigo estado

(parece que de silêncios
impassíveis e covardes

se faz seu passado)

cansa-se o cansaço

de fazer sentido


(resiste e insiste
no mesmo fim
até que, num instante,
grita muito alto
e some)

III

quando vc chegava em casa, cansada, à noite, contávamos, um a um, todos os mortos do dia

pedíamos uma pizza a cada dia mais longe e por isso mais fria
ora em recife ora guiana ou hungria
ou então,
preparávamos nós mesmos a comida
contando e polindo cada grão antes de por na panela
no banho, juntos, caía ao chão,
por vezes, o sabonete e - rindo - 
você partia a fim de apanhá-lo
voltando com ele na manhã seguinte
e aí cobertas,

longas estradas de cobertas nas quais sempre falta uma milha para cobrir o pé
e aí um café feito às pressas
a invadir a cozinha e
em meio à enxurrada
um último lance de mãos a dizer
tenha um bom dia

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