22 de dezembro de 2009

segunda carta aberta do poeta trágico

amigo,

acordei hoje pela manhã,
e os móveis continuavam em seus devidos lugares
(eles devem isso à ordem, bem como eu devo a minha loucura à minha humanidade)

o olhar pela janela buscou a paisagem,
a transparência do vidro nada tem de bela
pássaros bem sabem disso
(o caixilho da janela é um oráculo sedento
que pede devoração todos os dias)

passo os dedos
pelos móveis rústicos
lambo a camada fina de poeira sobre eles

manhã fria e calma dentro desse cubo donde lhe escrevo
lá fora, uma neblina vaga, sem qualquer mistério ou ilusão,
fácil divisar todas as árvores e pedras
(uma poeira fina que cai de um céu antigo)

bobagem minha, escrever a ti
(és uma caverna funda, vazia, na qual entro para soltar um urro animal e sair fugido)
inútil contar-te o gosto da poeira que cobre a exata geometria entre meu corpo, minha mesa, a cama a e as venezianas

afinal
lambo essa poeira para sentir novamente
aquela sede que ninguém pode saciar

com meu apreço e desespero,
teu amigo

3 comentários:

Jumbriano disse...

O que seria da gente sem a amargura e a tristeza... dos outros?
Um brinde à loucura!

Eduardo Silveira disse...

wooow. :P

Eduardo Silveira disse...

gostaria de assinalar que não me lembro de ter escrito coisa pior do que essa. horrível. aos 15 anos, talvez, disse algo assim.