24 de novembro de 2013

é bem verdade que a partir das tuas dores
vc constrói uns quadros até que bem bonitos
e que tanto desencanto fez de você
um ótimo frasista
das mesas de bar
mas vc só conta a parte boa da história né biscate

com o sorriso malandro vc diz
que Ele foi um trampolim
pra vc entender melhor as coisas e o mundo
vc diz que

ELE (PFF) FOI UM TRAMPOLIM
PRUMAS COISAS MUITO MELHORES...

como quem diz
"ele não faz falta"

E SABE A MINHA VIDA DEU UM SALTO...

como quem diz

"foi até bom ele ter me abandonado"

mas pq então omite detalhes importantes
como as notas 4 e 5
que o júri atribuiu
aos teus atos ornamentais
e o que é inda mais relevante
por que vc omite
o fato de que a piscina
para a qual salta
está sempre vazia?

23 de novembro de 2013

faz parte da gente
não ter controle
sobre coisas
que nos são caras e muito nossas
e os controladores de voo não se entendem
sobre a natureza de vários objetos que nos passam
- atirados por alguém ou a passeio -
por sobre a cabeça, todo dia.

pra amenizar isso criamos lendas
de amores e culpas extraterrestres
teorias sobre a ilusão de ver e as falhas
do olho humano
mas das mãos ninguém duvida
o que me parece muito
muito insensato:

gestos em falso são coisas naturais
e é por isso que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa:

um copo que escapa do pano de louça
a previsão de sol que insiste em dar chuva
um tapa que era pra ser brincadeira
e magoa a carne por toda uma vida:

é tão grande a vontade e o perigo de ultrapassar
que acidentes não podem
nos causar verdadeira surpresa.

um lance de dardos
já
mais
acertará o balão de hélio do acaso
que sobe, sobe, rumo ao léu azul
enquanto a gente olha pra cima querendo prever alguma coisa
por mera coisa que seja.

e para o que não tem jeito
vamos criando novas loterias
bingos, frases d'efeito
poemas, piadas
falsas crenças
ditados populares.

10 de novembro de 2013

I

eu sou o homem-bomba no coração da espera.
meu dizer é tudo que tenho e posso gastar.
mas usá-lo é matar a mim e a muitos:
falar sobre o que desejo
é afastar o objeto
um pouco mais
de mim.

II

até o instante em que explode na terra
e instala o horror e a raiva no público
o kamikaze é o artista mais lindo & encantador
que o povo já viu.

III

no ar na cama
no mar na lama
no domingo
na tabela do campeonato
no esquecimento na cova
o prazer de submergir
às pressas
de quem sabe
não conseguir.

IV

o sol é uma estrela bonita
que nasce e se põe todo dia
e posa para fotos e é o marido da lua
e um dia vai explodir e matar a tudo que existe.

8 de novembro de 2013


De repente é sábado de novo
e mais uma vez entre as traves me sinto obrigado a pegar todos os coices sem dar rebote
o coração virado em bichos
uma casa revirada por ladrões que nada roubam
e intrigam a polícia do acaso
novamente é sábado de noite
e deixo algo importante
por debaixo das pernas passar.
as coisas por dizer, pobrezinhas,
se deprimem e se jogam
uma a uma
da ponta da língua
as coisas por dizer
que a torcida tanto ensaiou
viram vaias
e os aplausos virados pelo avesso
se tornam tapas atirados para dentro do campo
enquanto lá vem o atacante cocô
ele que nada fez o jogo todo vem a galope
para enfiar a bola na rede
pra me enfiar no inferno me empalar na trave
me afundar nas trevas do estádio pós-jogo
me entochar um microfone pela garganta
e então pelo cu eu falo que mais uma vez não conseguimos
o resultado esperado para o sábado
e que lamento por mais uma noite de fogos e cantos em vão

1 de novembro de 2013

PAIXÃO É QUANDO VC SENTE BORBOLETAS NO ESTÔMAGO
sente o voo obstruído pelas paredes do estômago
a invenção de partos
feitos somente de dores
o delírio de quem se descobre
dentro de um aquário de carne

e, então, a chuva
de sucos gástricos
a despedaçar as borboletas
digeridas & empacotadas
para, enfim,
virarem merda
colorida
voadora
romântica
merda

26 de outubro de 2013

súbito no meio da tarde
enquanto jogas xadrez
fodes
ou ensinas teu pequeno a andar
sentes o cheiro terrível
e espiando discretamente o teu pé descobres:
pisastes na merda da vida.

descobres
não sem antes disfarçar o cheiro podre
não sem antes dissimular
e creditar o ar denso de carniça àqueles que te cercam

(e nem o teu amor escapa à acusação
pois antes de descobrir-te culpado
culparás teu amor
e é essa uma verdade que os filmes sempre nos ocultaram:
o último pedido dos condenados à forca é sempre
tirem-me daqui
ponham outro em meu lugar
e se apenas houver meu amor
tirem-me daqui
ponham meu amor em meu lugar).

sim, sim!
é injusto que isso te aconteça e justo contigo e justo agora
mas pisastes na merda
cagada e semeada por esse bicho que nos vai por dentro
e a que muitos chamam: vida.

e não há remédio: larga teus sapatos, arrasta os pés pela calçada,
lamenta e chora pitangas e mágoas e desinfetantes
que o cheiro da merda na vida não sai:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

podes, é bem verdade, arrancar o pé pela raiz
mas ainda assim, creia-me, a merda estará contigo
graças à traição dos sentidos:
entre o gosto que tinha a mais feliz época da tua vida
e as cores dos teus piores pensamentos
lá está a música da merda
girando e girando dentro da tua cabeça.

ai, a merda.
não há muita escolha senão amá-la
e domesticá-la como fizestes com os outros mil bichos que antes te apareceram
e descobrir nela algum prazer ou importância
como fizestes com cada um dos teus peidos
e mijos e axilas e
 - convenhamos -
nenhum perfume é mais especial
que o de tuas próprias axilas
estas flores que fedem a todos menos a ti mesmo
assim pode ser também esta merda
que carregas no coração do teu pé
no coração preto dos peidos do teu pé de pedra
essa paz haverá, se quiseres.
mas não te apresses que haverá tempo para pensar e repensar nisso:
não há um cu na cabeça e este é o nosso inferno.

18 de outubro de 2013

Deixa eu ver se explico o porquê dessa festa num dia que as pessoas se esforçam pra que seja triste. Conheci a tua mãe numa aula de lambaeróbica. Na verdade, mal nos falamos durante as aulas. Fui conversar e conhecer e me apaixonar depois do dia em que fomos ao cinema. Tua mãe era muito estranha: ora dizia umas coisas muito lindas e ora falava umas merdas, de modo que fiquei em dúvida se a convidava para ver um filme de hollywood ou algum filme b, daqueles mais franceses, sabe. Na dúvida, chamei ela pra ver um filme c, num cinema pornô que ficava ali no centro e que há um tempo fechou pra dar lugar a uma igreja evangélica. Ela achou o enredo do filme ruim, mas elogiou a trilha sonora e a fotografia. Daí em diante fomos a muitos lugares e muitas coisas por lá fizemos: cinemas, missas, terreiros, açougues, museus, convenções de microempresários, terapias em grupo, reuniões de associações de moradores, vernissages, casa de massagens, hospitais e bem, em algum desses lugares fizemos você. Ai, ai, fazer você. Isso me lembra de quando vc tinha quatro anos e tua mãe contou pra vc como vc nasceu: disse que um quero-quero havia trazido vc numa trouxinha e explicou que, se nos estados fudidos os bebês eram trazidos pela cegonha, que era muito simpática e bondosa, no brazil os babys eram entregues por quero-queros chatíssimos que não aceitavam reclamações ou pedido de troca. ai de vc se reclamasse ou dissesse que não queria menina, e sim menino: o quero-quero metia-lhe uns rasantes e aí era ferroada na bunda da mãe e do pai sem dó. É claro que não reclamamos de vc, e por isso o quero-quero até que nos atendeu muito bem. Tanto que sua mãe pensou em te chamar de Kevin Kevin. Tipo uma homenagem, saca? Convenci ela de que as pessoas não pegariam a poesia e aí ficou só Kevin mesmo. O que vc prefere? Bom, agora é tarde, nem responda. E me deixa falar mais dela, pois disso nunca canso. Ai, a gente se divertia muito. E brigava às vezes, é verdade. Mas não duravam muito os conflitos, pois no meio das brigas eu descobria alguma coisa amável nela e dava um jeito de acabar com aquele folhetim. Como aquela vez em que, depois de muito chorar, ela tirou a meia do pé para assoar o nariz. Ai, como era sensível tua mãe. Quando a lokura do amore baixava, e eu sentia a necessidade de me reapaixonar por ela, ia com ela ao mercado. Numa dessas vezes saímos para comprar mostarda e ketchup pruma pizza que assaríamos. Sua mãe olhou e reolhou pros condimentos e disse: "Que horror essas embalagens de mostardas. São todas, todas, todas mesmo, amarelas! E os ketchups...., cristo, são todos vermelhos! Quando vão criar uma embalagem rosa ou azul? Credo!" Ela ficou tão chateada com os fabricantes que decidiu que não compraríamos mais nada. Detesto pizza a seco e aí tive a brilhante ideia de sugerir aquela variante holandesa, observando a ela que, bem, existia uma mostarda marrom. Ela comprou-a, mas meio ressabiada. Tua mamis detestava as coisas que eram muito iguais, ou facilmente adivinháveis, previsíveis. Por isso odiava shows de mágica, entrevistas e poetas, e por isso gostava tanto de acompanhar a previsão do tempo, a bolsa de valores e os resultados da loteria. Sua mãe gostava das coisas pelo avesso, sabe. E é por essas e por outras que sempre nesse dia compramos um bolo gostoso e velas pra soprar em vez da gente ir no cemitério levar flores pro túmulo dela, entende?

25 de setembro de 2013

sim, tia marlene
eu realmente acredito
que você não tenha nascido
para estacionar carro em vaga de prédio
duvido mesmo
que alguém nasça com uma missão assim
tão pouco bíblica.

ai, tia marlene
eu a compreendo,
eu mesmo quando me ponho a pensar na vida
por mais que tome cuidado
acabo sempre tirando-lhe umas lascas

tá bom, tia, ok, passou,
eu sei, eu sei que vais gastar um bocado, mas paciência
isso, tia, coma mais biscoitos
são de araruta
eu também passo apertos, sabe
quase todo dia tem batida e aí já viu, né
gasto várias tardes de domingo
meia hora, todo dia, antes de dormir
consertando parafusando desmontando
cena por cena
dos motores
perna por perna
dos pensamentos
ai, não, não é fácil
a gente não nasceu pra isso né, tia
pra que então



23 de setembro de 2013

menstruam as borboletas?
morrer é sempre ao vivo ou algumas mortes são gravadas
e posteriormente dubladas????
quantas melancias uma girafa carentíssima por atenção pode sustentar em seu pescoço???
morrem os peixes de velho um dia
ou zanzam ao léu no mar até que um dia alguém os pesquem
posso ou não posso amarrar meu bode onde bem quiser
é ou não é verdade que se eu me masturbar a noite inteira
acordarei virado
no próprio
doctor
sigmund
fufffru
 freud?
????

22 de setembro de 2013

que tipo de enchente é o desamor que sempre pega a gente desprevenido? é sempre assim: a Defesa Civil vem e avisa e tudo mais, a gente vê os barracos caindo e sonha: mas o meu não cairá, agora é amor, eu sei, a gente vai ser muito feliz junto e, sabe, eu tô cansado de participar de final de campeonato e não levar, o calor por causa da camisa extra por baixo, OBRIGADO JESUS POR ESSA CONQUISTA, e no final não levar, e no final olhar os cara do outro time tirando o uniforme e exibindo camisas muito parecidas com a minha, enquanto a minha mensagem pra deus apodrece de suor, por que a gente ainda faz essas coisas, por que ainda aposta tudo que tem no outro? e de repente o objeto amado vai embora e a gente passa a odiá-lo porque é o jeito mais fácil de esquecer. Poxa vida, eu odeio o jeito da torcida que finge nos amar e canta o jogo todo mas se a gente escorrega uma vez só ah não não tem perdão somos vagabundos filhos da puta.  E sabe o pior? Sempre tem um filho da puta. Sempre tem a porra dum comentarista pra explicar nossa derrota, um cuzinho de um governadorzinho que aparece abalado na tv declarando estado de calamidadezinha, a bosta dum amigo que nos dá um tapinha leve nas costas e diz ah, mas isso vai passar, cara. Sim, é verdade que uma hora a água desce, e o barro seca, e se enterram os mortos, e um novo campeonato se inicia, e me apaixono de novo, depois da chuvarada vem o arco-íris né? ha-ha-ha, seus pau no cu do caralho. Como isso me cansa. Esses treinos de condicionamento físico me cansam. Pendurar e recolher a rouparada da casa inteira. Esses ciclos me cansam e me cansa a loucura de abandonar o ciclo, me cansa pensar em outro lugar pra morar, porque não há dinheiro e as crianças precisam comer a cada três horas, a cada três horas tão chorando, me cansa treinar treinar treinar e ficar no banco. eu fiz um gol no treino, dei vários passes, o treinador não viu? o que esse filho da puta quer? que eu faça milagre? que eu pare essa chuvarada que já dura uma semana? que eu dê uma paulada nos corno da mulher pra que enfim perceba o quanto eu a amo? porque o treinador ainda escala aquela poita gorda que no treino só faz firula e chuta bola na trave? porque ela decidiu namorar aquele bosta? por que deus faz chover tanto aqui e nada nos deserto? que ódio que eu tenho dessa gente que na falta do que dizer diz merda. Porque não se calam? Vocês já viram o mundo da marca do pênalti? Vocês já perderam um grande amor? Aliás, vocês atribuem ao amor o mesmo valor que eu? Vocês já perdero um parente pra enxurrada? Não né. Só quem passou por isso é que sabe.

21 de setembro de 2013

Para né !  !
Não sei se vc sabe mas
numa remota vila do Azerbaijão mora
uma pessoa que, se te conhecesse,
tuas dores e defeitos entenderia,
amaria e riria de quase tudo que vc diz,
Que besteira se sentir sozinha! Deixa disso, menina !  !
Vc já devia saber que
para cada pessoa que se pensa sozinha e incompreendida
existe uma espécie de peixe bizarro
com cabeça quadrada ou guelras espinhosas
a morar nas altas profundezas do oceano
e que a entende, sim,
e responde a ela por meio de ininterruptos borbulhos.
Coisas que não quis e depois me arrependi:
Viraram todas estátuas de sal.

Aquelas tardes em que líamos
lado a lado
livros de criança
Viraram tardes de sal
E o esforço de lembrá-las
Faz de nós doidas e suicidas abelhas
A produzir cada vez mais
sal em vez
de mel.

Aquele livro de sebo que deixei para comprar no outro dia
no outro dia, que maravilha!, lá estava.
Mas era um livro de sal
que entre os dedos se desmanchava
ilegível.

Não, ele não mata.
O arrependimento salga
as horas e as pessoas e as coisas deixadas pra trás.
Que deveriam ir lá para o reino das coisas que não são
e ficam pelo caminho: os mortos, as poeiras, as placas, as cascas
mas não.

As horas e as pessoas e as coisas deixadas pra trás
ficam com a gente
charques embalados eternamente para viagem
estátuas de sal no jardim de nossas novas escolhas
sombras que se agarram à pontinha dos pés
âncoras nas asas
que resistem
mínimas e desafiadoras
como agulhas em palheiros.

Se o arrependimento matasse
eu nem saberia o que iria matar:
se a mim mesmo, por meus erros
se as coisas deixadas e sua insistência em ficar.

19 de setembro de 2013

A CATEQUESE DO CU

desde muito cedo fui iniciado nos mistérios gozosos da vida e quase tudo se deve a meu tio jarbas que amava panos de louça e amava as coisas às quais se davam muitos nomes. mamãe não gostava nada dos modos e dizeres do seu irmão e vivia brigando com ele, dizendo você não fale bobagens perto do meu filho porque se você é um porco que seja, mas não faça meu filho se tornar um. Nessas horas de xingamento meu tio sempre fingia que era um porco e fazia um barulho tipo ROINC ROINC que deixava minha mãe louca e me fazia rir, e isso resume muito aqueles anos em que convivemos sob o mesmo teto: tio jarbas deixando minha mãe louca e me fazendo rir. Minha mãe e meu tio brigavam constantemente, mas na verdade não eram brigas de dois lados, porque sempre era minha mãe que reclamava e xingava diante de meu tio, que respondia sempre, mas sempre parecia falar de outra coisa, como se estivesse em outra conversa. Se minha mãe dizia que meu tio era vagabundo e que devia ajudar mais nos afazeres de casa e cozinhar mais, ele respondia EU JÁ TE DISSE QUE NÃO FUI EU QUE PEGUEI ESSA MERDA. Se minha mãe gritava que meu tio era um porco que não abaixava a tampa do vaso sanitário e que assim dava mal exemplo para mim, tio jarbas gritava ainda mais alto, com sua voz grossa e velha CLARO QUE NÃO, SE EU SOU A PESSOA QUE MAIS SECA LOUÇA E VARRE TETO DESSA CASA ! ! !  Minha mãe ficava confusa com a fala torta do meu tio e quase sempre dava a discussão por encerrada chamando-o de louco, de doido varrido, de insuportável, meliante, vagabundo, sem-noção, e uma série de outras palavras feias, mas sempre limpas, porque mamãe não falava palavrões como meu tio. Às vezes de tão nervosa mamãe não achava que palavra dizer e aí inventava uns palavrões-interjeição, arrematando coisas como “Seu, seu... seu Uixii de uma figa!!!”. Só muito tempo depois descobri a intrincada lógica das discussões entre mamãe e tio jarbas. Se na segunda-feira mamãe o acusava de ter dado sumiço no controle remoto da tv e tio jarbas respondia SE VC QUER TANTO, VÁ COMPRAR VC MESMA era  porque estava dando a resposta atrasada para uma crítica feita por mamãe no domingo, dia em que ela reclamou da demora de tio jarbas para ir à padaria buscar o pão e o leite. Mamãe nunca percebeu isso e sempre achava que meu tio estava debochando dela naqueles momentos em que dava respostas tortas. Até hoje não sei dizer se ele fazia de propósito ou se realmente respondia torto por pensar de forma muito atrasada e diferente de minha mãe. De fato, pensavam de formas muito diferentes, até porque ninguém pensava de forma parecida como a de meu tio. Certo dia observei a meu tio que mamãe sempre o xingava de algo diferente, e foi nesse dia que ele me explicou um de seus estranhos amores, dizendo: ISSO É BOM ! ! !  AI COMO AMO AS COISAS PRAS QUAIS DAMOS MUITOS NOMES, É ÓTIMO QUE EU SEJA UMA COISA ASSIM. É TIPO DIABO, OLHA O DIABO, TEM MUITOS NOMES: CAPETA, CAPIROTO, COISA-RUIM, CRUZ-CREDO, CHIFRUDO E MIL NOMES MAIS. PRESTENÇÃO: SE A GENTE DÁ MUITOS NOMES PRA UMA COISA, É PORQUE ESSA COISA É MUITO GRANDE, MUITO LINDA, E DIFÍCIL DE DEFINIR. SÃO COISAS GRANDES QUE NOS ESCAPAM, E POR ISSO NOS MARAVILHAM. VAI VER EU SOU UMA COISA MARAVILHOSA, TIPO O CAPETA! Pensei-pensei no que ele disse e não entendi muita coisa. Daí perguntei: “tipo Deus?” ao que ele respondeu SIM TIPO DEUS... DEUS É SENHOR É JEOVÁ E JERICÓ E JESUS E SALVADOR E MANÁ E LORD E HOSANA ACHO QUE É HOSANA TAMBÉM E ALAH BUDA ALAN KARDEC ENFIM DEUS TEM MTOS NOMES, COMO DIABO. E COMO PINTO TAMBÉM. Eu estava cada vez mais confuso e não ousava mais perguntar, até porque não conseguia organizar qualquer idéia que contivesse palavras tão distantes como deus, diabo e pinto, então me calava e olhava com a cara que eu tinha nos meus dez anos, que certamente era de tacho. Esse olhar entre curioso e estupefato já bastava para incentivar meu tio a continuar aquelas sessões de falação, que eu poderia chamar de serões, ou mesmo sermões, ou monólogos, ou lições, se ele mesmo não tivesse dado nome ao conjunto de seus ensinamentos: a catequese do cu. E continuava, impávido e colosso: SIM, COMO PINTO TAMBÉM. PORQUE OLHA O PINTO, OLHA A PALAVRA PINTO: ELA É PÊNIS TAMBÉM, E PICA E VARA E PAU E PINGUELO E PICA AH PICA EU JÁ FALEI E ENFIM VÁRIOS NOMES, ASSIM COMO VÁRIOS NOMES A BUCETA TEM. Geralmente essas longas e animadas falas de meu tio aconteciam de tarde, quando eu já tinha voltado da escola e mamãe ainda estava no trabalho, momento em que eu e meu tio dividíamos a tarefa de achar o que fazer naquele apartamento apertado e sem-graça. Meu tio era velho, devia ter seus 50 anos, mas mesmo assim eu me identificava muito com ele, sobretudo por esse tédio: tio jarbas sempre queria fazer alguma coisa que não fosse ficar naquele apartamento vendo tv. E eu pensava exatamente a mesma coisa. Mas, ao mesmo tempo que se entediava com a perspectiva de ficar parado diante da tv a tarde inteira, tampouco tio jarbas tinha vontade de sair. Se eu o chamava para um passeio, ele sempre dizia: PRA QUE??? PRA VER GENTE? DEUS QUE ME LIVRE. Tinha horror aos seres humanos e eu me perguntava às vezes se tinha horror à mamãe, a mim, e a ele mesmo. Acho que sim, porque às vezes respondia a falas nossas com caretas estranhas de dor ou nojo, mas apesar disso sempre se mostrou muito carinhoso e generoso. Meu tio sempre estava pronto para falar sobre qualquer assunto e era isso que preenchia as minhas tardes: meu tio discorrendo sobre milhões de assuntos com sua voz rouca e cinquentona enquanto eu fazia o dever de casa ou desenhava alguma coisa: DEIXA EU TE FALAR DOS PANOS DE LOUÇA. JÁ REPAROU COMO TUA MÃE TEM UNS PANOS DE LOUÇA MARAVILHOSOS???? É ÚNICA COISA DE BOM GOSTO NESSA CASA MULAMBENTA. OLHA ISSO – e ia até a cozinha buscar um dos panos para exibi-lo diante de mim – QUE DOÇURA.... REPARE, ESSE AQUI É A TERÇA-FEIRA DA SEMANINHA....A MENINA COM O CACHORRINHO VERMELHO NO COLO, O VERSO BIBLÍCO..... A TEXTURA.... TUDO SE ENCAIXA, VOCÊ SENTE? E olhava esperançoso para mim esperando que eu visse algo mágico naqueles panos de louça mas eu só via panos de louça e desenhos banais. Eu só via desenhos de frutas e animais e frases sem-graça, mas evitava deixar claro o que pensava com medo de magoá-lo. E foi evitando contrariá-lo que passei alguns anos de minha infância ouvindo a catequese do cu, que nada mais era do que a série de falas de meu tio sobre as coisas da vida em geral, mas sobretudo o cu, do qual tanto meu tio gostava de falar. Quase toda conversa, não importava o tema, uma hora caía nas suas teorias sobre deus e sobre o cu. CU É DEUS, MEU FILHO, ele sempre dizia. Eu me esforçava para compreender tão curta e forte frase, mas não conseguia. Ouvi ela muitas vezes, de forma descontextualizada, e nunca a entendia, só me limitava a olhar para ele e pensar que tio jarbas não tinha o medo das palavras que a maioria das pessoas, como mamãe, parecia ter. Até que numa tarde daquelas meu tio anunciou: HOJE VOU TE FALAR SOBRE O CU. O CU É DEUS, VOCÊ SABE NÉ? E como eu provavelmente exibi novamente minha melhor cara de tacho, sem-reação nenhuma àquela já famosa mas ainda incompreensível frase, meu tio pôs-se enfim a explicá-la: BOM, CÚ É DEUS. O CU E DEUS SÃO DUAS DAS MAIORES CRIAÇÕES DA NATUREZA. SÃO ENTIDADES QUE NUNCA SÃO EXPOSTAS À LUZ, COMO SE NÃO EXISTISSEM, MAS TODOS SABEMOS: ESTÃO ENTRE NÓS. DEUS É ADORADO EM LUGARES ESPECÍFICOS CHAMADOS IGREJAS, MAS VOCÊ PODE ORAR SEMPRE E ONDE QUISER. O MESMO SE DÁ COM O CU, QUE PODE SER ADORADO EM TUDO QUE É HORA E CANTO, MAS GERALMENTE É NO QUARTO, E DE NOITE. O MOMENTO EM QUE OS HOMENS COMEM O CORPO DE DEUS, A HÓSTIA, É CHAMADO DE COMUNHÃO. O ATO DE COMER O CU TEM VÁRIOS NOMES, E VOCE JÁ SABE QUE SE TEM MUITOS NOMES É PORQUE É ALGO MARAVILHOSO. E AQUI ENTRA UM QUÊ OPINATIVO NA MINHA TEORIA: PARTICULARMENTE, PREFIRO O CU A DEUS, MAS ISSO É SEGREDO E NÃO DEVE TE INFLUENCIAR, POIS LOGO VOCE SERÁ UM ADOLESCENTE E PROVARÁ DOS DOIS POR SI PRÓPRIO. A HÓSTIA.....QUE VOCÊ LOGO EXPERIMENTARÁ.... TEM UM GOSTO BOM SÓ NA PRIMEIRA VEZ QUE A COMEMOS. A PRIMEIRA HÓSTIA É EQUIPARADA À PRIMEIRA LAMBIDA NO CU QUE DAMOS. OUTRA COISA IMPORTANTE: ALGUMAS PESSOAS NEGAM A EXISTÊNCIA DO CU – SÃO OS ATEUS. ALGUMAS PESSOAS SE PERGUNTAM QUEM VEIO PRIMEIRO, O CU OU DEUS, E PARA SER SINCERO NÃO SEI QUEM PARIU QUEM. O FATO É QUE, PARA OS HOMENS, CU E DEUS SÃO REGIDOS PELAS MESMAS LEIS. NÃO É DE BOM TOM FALAR A PALAVRA CU EM VÃO, E O MESMO SE DIZ DOS NOMES DO SENHOR, O QUE ACHO UMA GRANDE BOBAGEM, MAS TÁ. OUTRA COISA: DEUS E CU ESTÃO EM TODOS OS LUGARES, NO CORAÇÃO DAS PESSOAS, NAS IDEIAS DELAS... ONDE QUER QUE ELAS ESTEJAM. E OUTRA NÉ: EMBORA DEUS E CU SEJAM LARGAS FONTES DE PRAZERES E ALEGRIAS, TAMBÉM TRAZEM COISAS RUINS PARA AS PESSOAS. O CU É MUITO CRITICADO PELA FRAGRÂNCIA E CONSTÂNCIA DAS FEZES QUE PRODUZ, E ALGO MUITO PARECIDO SE DIZ DAS MERDAS QUE DEUS MANDA PARA A VIDA DAS PESSOAS, COMO OS MAREMOTOS, AS PRAGAS NOS CAMPOS OU A MORTE DE UM FILHO, MAS OS HOMENS SÃO SERES ESTRANHÍSSIMOS E TRATAM DE AMENIZAR O LADO RUIM DE DEUS E DO CU. DIZEM QUE CAGAR É MARAVILHOSO PARA O FUNCIONAMENTO DO CORPO E SOBRE AS MERDAS MANDADAS POR DEUS DIZEM QUE HÁ MALES QUE VEM PARA BEM E QUE DEUS TEM UMA RAZÃO PARA FAZER TUDO AQUILO. NÓS DOIS SABEMOS QUE ESSAS COISAS NÃO FAZEM O MENOR SENTIDO, MAS QUE SE HÁ DE FAZER? NADA A FAZER !  !! DEIXEMOS AS PESSOAS ACREDITAREM E REJEITARAM O QUE BEM QUISEREM. ATÉ PORQUE, PRA COMEÇAR, TODAS REJEITAM A RELAÇÃO ENTRE ESSAS DUAS ENTIDADES E EU NUNCA ME PONHO A DISCUTIR ISSO COM ELAS, GUARDO APENAS PARA MIM A CATEQUESE DO CU E AGORA REPASSO ELA A VOCÊ.... PARA AS PESSOAS, É ABSURDO ASSOCIAR DEUS AO CU, COMO SE NÃO FOSSEM A MESMA COISA!!! TÁ NA CARA. É SÓ OLHAR PRA NOSSA FALA: QUANDO ALGO DÁ ERRADO O QUE A GENTE FALA??? A GENTE FALA MEUUUU PAUUU OU ENTÃO MEUUUU CUUU OU ENTÃO MEUU DEUSSSS. MAS É BOM DEIXAR CLARO QUE PAU NÃO É DEUS, POIS É COISA MASCULINA. CU E DEUS SÃO ETERNOS E ONIPRESENTES, TODOS TEM CU E DEUS NO CORAÇÃO, MESMO AS CRIANÇAS COMO VOCÊ. Eu já tinha ouvido falar muitas daquelas coisas acerca de deus, mas era difícil compreender a relação que havia entre ele e o buraco que eu tinha na bunda, de modo que o tema dessa palestra teve de ser retomado em muitas tardes daqueles três anos da minha infância. Três anos. Foi esse o tempo em que meu tio jarbas morou conosco até o dia em que desapareceu misteriosamente. Na verdade, não foi uma total surpresa, pois meu tio às vezes anunciava seu plano de partida dizendo UM DIA EU VOU SUMIR... E VOU SUMIR COMPLETAMENTE. OU ENTÃO VOU DESAPARECER, PORÉM NESTE CASO VOU DESAPARECER MISTERIOSAMENTE. Nunca entendi bem a diferença entre esses dois planos e sempre quando vou contar a história de tio jarbas pra alguém tenho que escolher um deles. O fato é que há uns dez anos ele foi embora no meio da madrugada, não sem antes deixar uma carta embaixo do meu travesseiro onde se pode até hoje ler: SE ESTA CARTA FOSSE UM DENTE SEU CERTAMENTE SERIA TRANSFORMADO EM MOEDA PELA FADA DOS DENTES MAS É APENAS UMA CARTA E POR ISSO CERTAMENTE ESTARÁ INTACTA QUANDO VOCÊ ACORDAR. ALIÁS CONHECES A HISTÓRIA DA PRINCESA E A ERVILHA, AQUELA EM QUE A PRINCESA SENTE DOR NAS COSTAS POR CAUSA DE UMA ERVILHA ENFIADA DEBAIXO DO COLCHÃO??? DEUS QUE ME LIVRE QUE HISTÓRIA MAL-FEITA. SEMPRE PENSO NA DOR QUE A PRINCESA SENTIU NO DIA EM QUE ENFIM CASOU CO PRÍNCIPE E LEVOU UMA PINTADA DELE. MAS ISSO É TUDO FICÇÃO E A PROVA DISSO É ESSA CARTA: APOSTO QUE VOCÊ NÃO SENTIU INCÔMODO NENHUM DURANTE O SONO E SÓ ACHOU A CARTA PORQUE TEM QUE ARRUMAR A CAMA ALIÁS ARRUME SEMPRE SUA CAMA E AME SUA MÃE E REZE MUITO SEMPRE. TIO JARBAS.

23 de julho de 2013

aprende bibliófilo:
as folhas do livro uma hora se soltam
e caem os cabelos e dentes
em outonos que ninguém celebra.

deixe as coisas caírem em paz
os livros da estante, as xícaras duralex
e tome a reorganização como hábito, e não castigo
já pensou se cada gota de chuva
fizesse muito barulho ao cair?

14 de julho de 2013

Que desconsolo me dá olhar para minha espera, tão fiel e humilde, mas tão ausente de provocação. Não aos modernos produtos inquebráveis e de prática limpeza e esquecimento. Antes chicletes baratos cujo açúcar não passa das primeiras mascadas. A cada dia minha criança prodígio ganha mais medalhas e fica mais limpa para a hora do atropelamento que, sei, não tardará. O banditismo sonhado me é proibido, então discretamente saboto meus próprios projetos. As esperas, em suspenso, sustentam apenas a si mesmo. Essa espera, essa postergação, de tão calma, de tão nada, é falsa. Nem tudo que é leve faz bem. Um sono leve que se perturba com insetos e inúteis fragmentos de sonhos. Um amor leve que se torna bobo diante do êxtase e força dos travestis. Que merda.

30 de junho de 2013

eu não aguento mais esse safety car que há anos está na minha pista a incrível história do atacante que está há cinco anos em posição de impedimento meu coração incediado por tantas largadas queimadas e bebo e me dopo e choro mas nego tudo e sorridente aceno para as câmeras de tv para vc do outro lado da rua

8 de junho de 2013

Há símbolos demais no mundo
e a tua fala é gorda de crenças como uma árvore de natal.

Tudo significa e leva a outras coisas e outros tempos
tudo é tanto que
às vezes não vejo a hora de entrar no museu do google
e olhar para alguma natureza morta.

Que quer tua mão para mim estendida?
talvez queira ajuda
talvez queira que lhe passe a margarina.

Em tudo eles veem falos
em tudo eles veem traumas da infância
e até hoje querem saber como estava o humor da monalisa no dia em que a estupraram.

Há símbolos demais no mundo.
Na cama, fumamos dois pintos marlboro e então apago o abajur.
Poucas coisas significam tanto quanto o preto o escuro a noite
e quando apago a luz não sei como dormimos.
Pela manhã acordarei cedo e prepararei para nós
uma deliciosa vitamina de banana com pecado .
novela das sete

ontem capotei meu carro
no corredor da sala
e enquanto eu e as coisas
perdíamos os sentidos
vi minha vida inteira
passar em um minuto

e eu não sei se vc vai acreditar mas
quase todo o filme
era feito de acidentes
de outros acidentes
de acidentes.

1 de junho de 2013

Posto aqui porque li há um bom tempo, mas sempre tô relembrando esse trecho.
(De uma carta do Flaubert a não sei quem. tá naquele Cartas Exemplares, da Imago.)

"Procuro passar o tempo da maneira menos tediosa, e achei como. Faça como eu: rompa com o exterior, viva como um urso - um urso branco - deixe que tudo se dane, tudo e você junto, mas não sua inteligência. Existe agora um intervalo tão nítido entre o que sou e o resto do mundo, que me espanto às vezes de ouvir dizer as coisas mais naturais e mais simples. A palavra mais banal me deixa às vezes em singular admiração. Há gestos, sons de vozes dos quais não me recupero, e tolices que me dão vertigens. Você já escutou alguma vez atentamente as pessoas falando numa língua estrangeira que você não entendia? Comigo é assim. à força de querer compreender tudo, tudo me faz sonhar. Parece-me no entanto que essa estupefação não é estupidez. O burguês, por exemplo, é para mim qualquer coisa de infinito. Você não pode imaginar o que o apavorante desastre de Monville me causou. Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo."

12 de maio de 2013

Old Song

Take off your clothes, love,
And come to me.

Soon will the sun be breaking
Over yon sea.

And all of our hairs be white, love,
For aught we do

And all our nights be one, love,
For all we knew.

---

Robert Creeley.

(O collected poems dele tá integral no google books!)

11 de abril de 2013

um poema de Maria Ângela Alvim

Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.



do livro "Poemas", de 1980, Editora Fontana. Pág. 108

31 de março de 2013

um poema de alejandra pizarnik


[El olvido]
en la otra orilla de la noche
el amor es posible

23 de março de 2013

fb

A voz, a imagem, as ideias e o humor,
a tua risada
hahaha
entra sempre na hora exata
mas nunca faz eco.

Porque apertam um botão e colocam uma senha,
já podem dizer: cheguei, fui embora, este agora não é mais.
a presença está fora do corpo?

Ontem mesmo a moça postou
boa noite!
e ninguém curtiu.

11 de março de 2013

três pais

1

Eu nunca morri, claro, mas vou te contar como é quando se morre. Não tem essa de muito novo, não. Esperar pra quê, acontece com todo mundo e você já fica sabendo desde já, guri. É assim: primeira coisa é a saliva doce. De repente você sente que de algum lugar da boca, algum caninho fino, muito fino, vem açúcar. É um doce distante. Um doce bom, mas que você não fica pedindo mais. Esse é o primeiro passo de morrer. Depois o corpo vai se preparando para a morte desde cedo. Teu corpo sabe quando vai se finar. Não tô falando de desastre, claro, tô falando de doença, de piripaque. O corpo vai se preparando, deixa de sentir de fome... mantém apenas o básico para, justamente, poder morrer. Ninguém dá arroto no dia em que morre, nem fica peidando. Cê não cuspe, num fica tarado. Nesse dia o corpo já sabe que essas coisas são desnecessárias e se prepara pra morrer. Só não sei como é o último suspiro, aí é querer demais. Há quem diga que você vê um túnel, que vê a vida num filme, mas eu não acredito nessa gente que foi até o meio da coisa e voltou. É assim, um dia você vai sentir. Você é um guri esperto. Só não comenta com teu tio esse ensinamento. Se comentar ele vai ficar desfiando o que falei, ele desmerece tudo que falo, vai vir com uma história aí dum cara que morreu do nada enquanto fazia cocô e vai dizer que o lance do corpo se preparar é roubada. Olha, cocô tem é na cabeça dele. Mas enfim. Agora vá lá ajudar tua mãe ou sei lá quem.

2

Na fila do caixa eletrônico, por algum motivo que poucos entenderam, uma confusão se instalou. Um homem gordo e forte, vestido todo de preto e com um capacete na mão, berrava e gesticulava em direção à fila, à maquina e às pessoas. De mão dada ao pai, o menino entendia ainda menos do que ele. O pai, um pouco à frente do homem irritado, tentava ignorar as imprecações do outro, parte porque não queria se irritar e parte porque ignorar a presença dele seria como torná-lo inexistente ao filho, fazendo desaparecer do mundo dele o estresse, a raiva. Todavia o problema, que não estava claro ao pai, e talvez fosse a demora dos usuários da máquina, não se resolvia. Percebia-se pela voz do motoqueiro cada vez mais alterada, acompanhada pelos gestos do braço livre e pelo giros do capacete no outro antebraço. De repente, ouviu-se um caralho, e depois um porra, e tais palavras soaram invasivas para o pai. Não para seu mundo, tão habituada a elas. Mas para o mundo do filho, e diante desse ataque barato a anos de cuidadoso escolher de palavras diante do filho, o pai virou-se e disse: escute aqui, o senhor faça o favor de ficar quieto aí em seu lugar e respeitar os outros. O outro, encolerizado, aproximou-se e disse com sua voz grossa e potente: você que fique bem na sua seu merda, fique bem na sua. O pai assustou-se, baixou a guarda e sem perceber apertou a mão do filho. Sempre o fazia, antes de atravessaram uma rua perigosa ou quando ambos precisavam apressar o passo. Mas desta vez o ato de apertar a mão não era de controle, era um pedido de ajuda,  e por alguns segundos recaiu sobre o menino o papel de saber o que fazer diante de uma mão a lhe apertar. O menino sentia que seu pai havia encolhido naquele momento e tinha vontade de chorar. O homem irritado voltou para seu lugar, desistiu da fila e de ameaçar aquele que o criticara, não sem antes proferir mais um palavrão em direção às pessoas da fila. O menino ficou a olhar o motoqueiro partindo com pressa e raiva, e quando ele sumiu de sua vista, voltou a olhar seu pai. Estavam diante do caixa e ainda o segurava pela mão. Reparou que a mão do pai voltara a ter o peso de sempre. Era ele que novamente apertava a mão do pai, a mão do pai voltava a ser uma casa. Mas era uma casa um pouco menor.

3

Com uma das mãos segurava a mão do menino e com a outra o empurrava levemente nas costas, bem perto da cintura. As plataformas estavam cheias de gentes, cada uma a olhar distraída para um ponto fixo e era tanto o calor e tantas as pessoas que não era possível entender como ainda sobravam pontos ao redor para pousar os olhos de forma tranquila. O olhar do homem pulava de pessoa para pessoa, não se demorando mais do que alguns segundos em cada, até que voltava para o menino, ao ônibus, à distância do menino para o ônibus. O olhar do menino parecia perdido e tentava se acostumar ao ambiente, como se cada pessoa fosse um raio de sol a incomodar seus olhos.

- Quando o ônibus abrir a porta, disse ele ao pequeno, trate de pegar um bom lugar. O segredo é não vacilar. Entrou, não fica se decidindo, não: escolhe um e pá, senta. ok?

O menino assentiu e, ao abrir da porta, soltou a mão do homem e esgueirou-se nervosamente entre todos aqueles peixes. Sentou num banco duplo e o pai logo apareceu ao seu lado. O menino reparou que todas as pessoas conseguiram achar um lugar e ainda sobravam dois ou três lugares vagos e que os conselhos do pai foram desnecessários. Pensou em observar isso ao pai, e ia o fazer, quando foi interrompido pela voz livre do homem:

- Se o ônibus encher, quero nem saber, não me levanto nem cedo meu lugar. Sabe o porquê? Eu sei que nesse ônibus ninguém tem mais direito do que eu. Esse ali, esse aqui - falava baixo, mas apontando para as pessoas, o homem - tenho certeza que não se matam todo dia carregando tijolo. Se vier um velho muito velho, até vai. Ou uma grávida bem grávida mesmo. Agora mulher só por ser mulher com sacola na mão, agora grisalho cheio de saúde nas pernas, não, esses não. Não vem que não tem, da nossa vida só a gente é que sabe. Cê tá entendendo? O negócio é ser assim.

24 de fevereiro de 2013

essa casa não é minha,
doei toda a minha herança aos calmos.

não é minha essa casa
repleta de portas, cada uma a esconder um desejo
a porta da geladeira, calma, branca, fresca, convidativa
a porta principal ocultando todas as outras.

nego esses muros,
a calha vizinha como um horizonte torto
ao alcance das mãos

nego a falta de lógica dessa casa
o conteúdo das gavetas a anular o das estantes
até que reste apenas a branca porta da geladeira
abençoando a todos.

as ruas e estradas e mesmo as informações erradas que recebemos de estranhos
nos levam sempre para o canto do nosso quarto
e é difícíl conceber a ideia de um lugar estático, casado, graduado:

lá dentro,
debaixo do piso e da lista de compras,
a terra não para um minuto de se revolver.

eu moro aqui, mas essa casa não é minha
o meu lugar no mundo há de estar no guinness
um apartamento feito de sacadas e varandas
uma rua com mil e tantos
andares.

17 de fevereiro de 2013

diálogo reau

- Pois é, vc não apareceu ontem. mas é natural... coisas acontecem, coisas surgem...
- Tava em casa coçando a bunda e depois dormi.

11 de fevereiro de 2013

A rotina e o feriado:
famílias olham vitrines
no shopping center fechado

9 de fevereiro de 2013

Também

estou de volta ao nonsense lá no blog dos limeriques
veja que ironia
o auge da minha alegria
é vc dizendo
que não existo

15 de novembro de 2012

ETERNIDADES, já falecidas
bem longe de ti,
uma carta atinge
os teus raros dedos ainda
não feridos,
o brilhante crânio
vai fazendo os seus atléticos exercícios
e acaba se aninhando em
sons, odores e boatos

- Paul Celan
tradução de Flávio R. Kothe.

25 de outubro de 2012

COMO EU ENTENDO A LIBERDADE

Você me dá a liberdade
que me liga a você
mas a nossa ligação
não tem amarras

- Isso nos amarra

(Almut Adler)

16 de outubro de 2012

nem mesmo a paz de não ter nada

6 de outubro de 2012

"(...) se faz de louco varrido
 só pra passear de ambulância"

----

Nei Lisboa, "Zarpar pro futuro".

4 de outubro de 2012

Atenção consumidora: este Outubro pode conter traços de Agosto.

3 de outubro de 2012

Ansiedade lanches


talvez eu esteja esperando uma desgraça insuspeita acontecer para daí então surtar com propriedade.
como bom nonsenser adoro a palavra gente como vocativo, especialmente quando se fala pra uma, duas ou nenhumas pessoas, chegar em casa de noite, toda vazia, e dizer pra si mesmo gente que cansaço
gente eu to surtadinho surtadinho pena que é tarde e to cansado hoje seria uma noite boa pra escrever umas coisas simpáticas.

2 de outubro de 2012

meu plano B é pegar um biplano
pra sumir assim
bem devagarinho.
mme mp3,
te lembras quando a gente punha os discos pra tocar?
destacava do mundo das coisas coloridas aquele prato preto
onde a gente comia com a mão,
enquanto teus pés marcavam o ritmo
e a pista de pouso das coisas.

agora estas coisas são auto
são matemáticas
com um garfo acessas teu macarrão instantâneo
e para cada verão tens uma pasta no computador

te lembras quando a gente punha os braços pra tocar?
agora vc se toca sozinha, mme. mp3,
e acha vitrola e carinho
palavras super engraçadas.

música deixa a gente mais bonito?

1 de outubro de 2012

que linda a tua saia
daqui agora

29 de setembro de 2012

Quando a merda do pombo começa a cair
é que me vem a certeza:
outra vez a carta que te enviei
não conseguiu sair
desse quarto
Escuta: todas as coisas,
mesmo as intrigas minúsculas
e os acontecimentos roliços,
são pontes de tensão

tenho doze pares de olhos
e com horror constato que todas as coisas sobre esta mesa são protagonistas do mundo:
nada é menor detalhe figurante cochilo

olha pra mim
esquece as pessoas desse bar
as ordens os pedidos o teu uniforme:
só não deixe todas essas taças tombarem

vais aprender a rápido a se virar sozinho:
breve já estarás vestido
e virado antes mesmo que te chamem

terás então a mesma idade de todos os ansiosos
e a graça de inventar a roda e descobrir a pólvora todos os dias

escuta: vais trabalhar, segundo a segundo,
em coisas sem serventia
e tudo que fizeres vai ser refeito muitas vezes depois
mas tenha calma, não é tão mau assim:
aos domingos irá ao cinema de tua própria cabeça
e de vez em quando vais achar paz
em esquecidos campos de concentração

22 de agosto de 2012


olha como a gente
brinca do jeito errado,
tudo mui bem descrito,
dou-te o nome de todos os bichos
e diante de tudo claro e arrumado
te pergunto,
o que é, o que é?

este quarto colorido e confeitado
este quarto afilhado
o que é, o que é?
(a certeza de que esta sequóia não estava
na planta do imóvel)

e esta hora
ali entre as três, treze e meias
repousa na página 19,5 do nosso livro
quando acordas num soco de sonho e me olha assustado
o que é, o que é?

como se não tivesse nascido em nossa cama
está claro que nasceu
inda me lembro vc aos sete anos
dizendo amá, amá, aham, aham
você não lembra
eras bem pequeno
eu te pegava no colo, dava de mamar
enquanto opinavas sobre o financiamento
do nosso paraíso

19 de agosto de 2012

olha como a gente brinca errado,
 descreve tudo mui bem descritinho,
 e quando estiver tudo aparentemente arrumado
 e claro o que é, o que é?

13 de agosto de 2012

um poema de Bento Nascimento

OS ÚLTIMOS CIGANOS

Se eu explicasse
como que cheguei aqui
acabaria com toda magia que foi vir

Importa agora
o abraço da chegada
a alegria do encontro
o fato de estarmos juntos

Se eu tiver de explicar
o motivo de ter que partir
vai quebrar o encanto
de estarmos aqui
 
---
 
do livro "Aos Vivos", Editora MariadoCais. 

29 de julho de 2012

“Un día descubrí en la biografía de Marcel Duchamp, cuya actitud vanguardista es lo único a lo que he permanecido fiel desde el comienzo de mi carrera, que hay un momento en el que él no tiene ideas. Y en lugar de vivirlo como un verdadero drama, decide profundizar y bucear en las ideas originales que ya tuvo. No todo tiene que ser una carrera de progreso superándote a ti mismo. Somos limitados, también hay que saber volver hacia atrás.”

uma apaziguadora fala de Enrique Vila-Matas, extraída desta entrevista que não li.

12 de julho de 2012


A tarde inteira equilibrando a bunda no paralelepípedo. Tudo o que eu sei vem dos livros, ele disse, querendo que soasse bonito, mas a mim soou extremamente vazio e ignorante, tanto que pensei em ajudar, dizer e eu nada sei de música, o que ouço de interessante descobri sem querer na trilha de velhos clássicos do cinema. Mas não disse. Fiz um oh, um ohzinho quase não-pronunciado e virei o rosto para a rua. Um ou dois carros sempre passando, depois um intervalo de silêncio, e então mais um ou dois carros em passo morno pela rua esburacada. Ruas como esta, sem asfalto, feita de lajotas, de movimento médio, um ou dois carros passando entre intervalos, e ainda com dois ou três terrenos baldios, ruas desse tipo são as mais raras e bonitas. Mas isso ele não sabe, nem vai saber, a não ser que alguém ponha num livro.

4 de julho de 2012

há muita literatura sobre nós. uma gente antiga e importante, de nome pomposo, sem rosto e sobrenome, Marçal, Catulo, sim, nesse tempo eles já estudavam você e eu. são textos e mais textos, poemas, canções, contos que discorrem sobre ser o que somos. na romênia há quem escreva sobre a gente. na islândia e em pernambuco também. Camões, Celan, Cartola, Noel Rosa, essa gente de nome engraçado escreveu sobre a gente. fora o que nos diz respeito, mas está por aí, no fundo de gavetas aguardando publicação. há muita literatura, os especialistas em você e eu não têm do que reclamar.

17 de junho de 2012

Said The Poet To The Analyst

My business is words. Words are like labels, 
or coins, or better, like swarming bees. 
I confess I am only broken by the sources of things; 
as if words were counted like dead bees in the attic, 
unbuckled from their yellow eyes and their dry wings. 
I must always forget who one words is able to pick 
out another, to manner another, until I have got 
something I might have said... 
but did not. 
 
Your business is watching my words. But I 
admit nothing. I worth with my best, for instances, 
when I can write my praise for a nickel machine, 
that one night in Nevada: telling how the magic jackpot 
came clacking three bells out, over the lucky screen. 
But if you should say this is something it is not, 
then I grow weak, remembering how my hands felt funny 
and ridiculous and crowded with all 
the believing money.
 
 
Anne Sexton
To Bedlam - And Part Way Back (1960) 

31 de março de 2012

peixaria

existem cerca de setenta e sete maneiras de ser apanhada, amor,
e todas elas consistem em abrir a boca

o peixe que comprastes tem olhos vermelhos como um coelho
mas cheira bem
vc não sabe meu bem vc não sabe?
teus olhos naquele álbum
rio de janeiro
vermelhos como coelhos
naquele álbum cheiramos bem

nadam os peixes em cubos de gelo
e nos olham e nos olham e nos apertam
se frescos estamos
não é droga
repare nas escamas, esse é fresco
parece que ainda o vejo no mar
a gente na praia

é um tempo que não volta, se arrasta,
embrulhada em jornal levamos nossa história pra casa

23 de março de 2012

tuas cartas. esses anos tudo. joguei pra cima. fiz sorteio.

11 de março de 2012

e ainda me lembro do dia em que inauguraram o mundo, era sábado e sentados na calçada apontávamos para os cachorros com formas engraçadas, como se nuvens à espera de um nome. carros eram monstros coloridos que nos ignoravam, e naquela noite a lâmpada que acendeu-se no quarto te meteu medo e por muito tempo admiramos aquele relâmpago que nunca se apagava, e tudo era novo, os grilos a primeira e mais importante música

Celacanto, peixe jovem


Celacanto, animal emblemático de nome melodioso. Explica Vânia de Campos no texto de apresentação que celacanto seria um peixe que viveu há 200 milhões de anos, com ossos e um peso semelhante a de um homem adulto. “No início deste século, na década de 20, foram encontrados alguns exemplares vivos deste peixe nas profundezas de algum mar do planeta. Estranho – ele não evoluiu. Apresentava as mesmas características que estão impressas nas enciclopédias”.
Resultado da parceria de Antônio Carlos Floriano e Bento Nascimento, ambos de Itajaí (a história desse livro pode ser conhecida aqui), Celacanto é livro de dois poetas jovens, livro de quem dá um passo a mais e atira ao mundo o que sente. Por mais ousados sejam os versos, aqui e ali despontam a insegurança e o anseio de quem vaga à procura de um lugar no mundo. Diz Floriano:

“(...)
Mesmo que saibamos
inventar palavras,
histórias trágicas
mágica paixão.
Temos o medo que não se acaba.
Somos meninos na escuridão.”

A procura é dupla: enquanto busca seu lugar no mundo, também busca um modo de cantar sua odisséia particular. Assim, bons poemas de Floriano (geralmente os curtos) convivem lado a lado com versos  dispensáveis (Não se chora por pouco/Não se pensa em brigar/Quem tanto lutou pela vida/Outra vida melhor vai achar). Falemos dos bons, dos poemas-pistas que carregam dentro de si o poeta que hoje Antonio Carlos Floriano é. 

“Não procure um sentido completo
uma verdade que exprima
a essência da vida
Você com seu jeito de colar cartazes
Nas paredes desta nossa convivência
na certa está contribuindo
para o complemento da história"

Aqui, a insegurança dá lugar a uma voz experimentada, que se dirige a um interlocutor preocupado com a essência da vida. O poema reflete uma inquietude tipicamente jovem: ser e estar no mundo é participar da História, uma inquietação ainda maior para estes cuja adolescência aconteceu na turbulenta década de 70. Mas não há guerras nem revoluções para tantos rebeldes (e isso leva, às vezes, a jovens que inventam revoluções desesperadas para ter ao que responder). Nem todos entram para a história dos grandes feitos. Cabe então, aos que ficam, manter vivo esse jeito de colar cartazes no cotidiano, nas paredes da nossa convivência.

*****

A outra metade desse peixe, Bento, também compartilha com Floriano certas angústias inerentes à juventude. Mas é menos ideológico e menos melancólico do que o parceiro. Com mais humor e sarcasmo. Pouco apegado à ideia de História, Bento versa sobre dois temas principais: as relações amorosas e a solidão. A solidão de Bento é a solidão natural, inerente, animalesca, de quem não consegue dialogar com as pessoas vazias que o cercam.

"eu sempre fui só
mesmo quando a sala estava cheia
e existiam mais verdades
na fumaça de tantos cigarros
que naquilo que então ouvia"

E mesmo quando canta o amor e a busca amorosa, Bento não deixa de emanar solidão. O amor que não deu certo, o amor que ainda não veio, o amor que ele busca, o amor que ameça se perder: o amor em Bento está sempre em outro lugar.

"Preciso de sua companhia
e às vezes passo a mão no pêlo
de um gato
como se aliviasse essa dor"

//

"Apesar de entender aquele
olhar de soslaio
não me atrevi
e mofei
com a pomba no balaio"

-----

Bento é todo passional. É difícil falar tanto de amor sem escorregar em versos vazios e essa tarefa se torna quase impossível se o poeta é jovem. Mas um ou outro deslize é compensado por versos fortes e inusitados, que inauguram um jeito de ver a já tão cantada busca amorosa.

"Quando caio dentro de mim
e me ligo que só saí do porto
na sua procura
isso me dói.
Me dói tanto a imaginação adoece
e choro e meu choro acorda os últimos celacantos.
E dentro de minha lágrima marinha
na derradeira
que sinto algo de continuar."

*****

Celacanto é livro de começos, de ensaio. Celacanto, bicho estranho, primitivo, que contraria o esperado e absurda a natureza. Celacanto, bicho sem-lugar, perdido no fundo de algum mar, como estes dois, Bento e Floriano, jovens peixes nas profundezas de Itajaí.

"Quem me dera
prender a tarde pelas asas
e conservá-la
profundamente em éter
ou n'álcool
dentro de um copo.

Guardá-la sempre
e proteger o azul, fundo das antenas cristalizadas.

Olhas de repente
e lá na estante
uma tarde inteira
guardada"

10 de março de 2012

vamos suspeitar desse vaso,
- este que há tempos está sobre a mesa - e crer que ali é o esconderijo das chaves de uma outra casa,
e no meio do sonho vem ele, o que sussurra, ou ela, a dos chinelos ásperos, e sorrateiros colhem a chave para abrir uma terceira noite, longe desta que é tão intacta, cada coisa em seu lugar, o meu braço, a cama, o copo d'água e mesmo o teu cabelo bagunçado parece que sempre esteve à espera desse fio de vento que te derruba para fora da cama.
vamos suspeitar desse vaso,
presente de sua mãe, e entender por que diabos o escolheram para ali guardar a chave. não seria ali entre pétalas e vidro o lugar mais seguro do mundo?  Uma colmeia, um açougue, a letra K da enciclopédia.
talvez a pergunta seja: podemos culpá-los por todos os barulhos pequenos da noite? Tua apneia assustada é o velho e a velha arrastando os chinelos - arriscaria - para dentro de nosso quarto. se coragem eu tivesse de abrir os olhos quando sinto a noite mudar de lado, talvez os visse, e parece que os ouço, casal de gnomos, um velho uma velha, e sinto como ele sussurra, respirando como um cavalo, mas sei que, abertos os olhos, eles não mais estarão, é uma noite que não nos pertence.
e pela manhã trocaremos olhares entre as xícaras, o vaso em estado de espera, as flores a brincar com os pés na água, porque assim elas vivem, uma vida de três ou quatro dias distraídos, sem revolta por não haver onde. e procuraremos rastros inúteis pela casa e combinaremos vigílias que nunca serão feitas, e lado a lado na cama, mais uma vez, já lhe passou pela cabeça o que se esconde dentro desses travesseiros?

26 de fevereiro de 2012

Um brinde a uma seção desaranhada da nossa garagem

me esforço pra ser original para você,
mas tomo o mesmo café todo dia
e aperto o passo quando chove,
então, não sei.

23 de fevereiro de 2012

22 de fevereiro de 2012

faça de conta que isso é um telegrama imenso: se faltarem explicações, se palavras forem cortadas, foi para deixar mais barato. telegrama imenso, haicai de três folhas, trevo de cinco dedos e oh meu deus, nunca consigo dar as respostas que você quer, sempre te ofereço esse buquê de saídas, portas que levam a novas perguntas, e assim passam-se as horas e os dias e parece que nunca saímos daquela conversa no telefone, vc me dizendo o quanto-me-gusta-and-how-disgusting-is-it, e eu ali coçando a ponta dos meu dedos, essa arte que vc sempre ignorou, e eu ali dizendo sim, também te gosto, sim, meu nome é amália, e eu agindo como se do outro lado estivesse um atendente de telemarketing qualquer, e talvez seja um pouco disso, talvez do outro lado vc me convencesse, por meio de elogios e anedotas a comprar algo que não queria, e eu não sei meu cpf, aguarde na linha um instante, sim?
e vc aguardou, e guardou isso na testa como um troféu, veja como sou paciente, como se isso garantisse qualquer coisa: amor não é maratona, querido. e vc me pergunta na carta se sei o que é o amor: se soubesse estava longe e rica, vc sabe. não o entendo e não sei como se chama: o que sei do amor é aquilo que ele não é, e isso sempre me bastou
te deixo uma lista:




eu não sei, claro que não sei. como não sei o que me move a te escrever e procurar duas ou três respostas que acalmem essas 18 perguntas (eu contei) que vc manda na sua cartinha. gosto de vc e te quero bem, e é uma pena, eu tenho vontade é de escrever carta maldosa e sarcástica, sempre sonho com brigas homéricas, sonho com gente puxando briga comigo por carta, irmãs e amigas, só para eu poder mandar algo à altura. mas isso quase não acontece: a maioria é gentil, como vc é, um poço de gentileza, um poço seco de gentileza cravado num deserto de gentes. o mundo é gentil. falsos ou sinceros, o mundo borbulha de gente bacana, bonita e gentil. seu pária, não é disso que preciso. 
(acho que com essa última frase eu respondo 4 ou 5 das tuas perguntas).
tua carta toda é um convite a olhar pra trás e ver o "que deu errado",
embora eu não goste desse teu jeito prático de ver os erros:
amor não é carro que vc levanta o capô, mexe no motor e logo encontra
as falhas. [o amor não é tanta coisa, me lembra meu avô que saía 
de madrugada pra jogar cartas e voltava seis da manhã para uma 
chuva de imprecações de minha vó, a dizer vc não é uma formiga,
um cocozinho de barata, vc é menos que areia, seu puto, mas isso
é uma história velha e vc chegou num ponto que não quer mais ouvir
minhas histórias. vc quer saber onde tem erro, vc quer okays
e continências, ok, vamos lá], vamos à sessão espírita, pq nisso acredito: isso de olhar pra trás é ver nossas vidas passadas:
à cada dia nos reinventamos,
somos outros no dia seguinte,
então pare de olhar pra trás e me apontar: aquela não sou  eu.
é fotografia, carcaça alegre de cobra,
um casaco que larguei no banco da praça
porque o calor estava imenso
como este telegrama
Sim, houve alegria
E dias toscos, noites sem sentido e algum sexo,
E discussões mornas e dias em que a luz acabou, e tardes de chuva, piadas sem-graça que seu tio contava nas vezes em que te visitei. Houve milhares de eventos e cada um deles tem um pedaço perdido, e se unidos talvez explicassem porque estamos assim um contra o outro:
teu nome num lado da carta e o meu nome na outra
Mas não dá para montar, o tempo vai roendo, imperturbável, essa porta que um dia escancaramos naquela conversa de telefone. Nossos erros, como o amor, não tem nome, bebê. Faça de conta que a vida é um telegrama imenso, repleto de palavras e ainda assim cheio de lacunas. O que não entender, invente pt saudações

21 de fevereiro de 2012

a esfinge sempre ganha: o enigma é sempre um outro além deste que ela canta

18 de fevereiro de 2012

Um poema de Jeffrey McDaniel

The quiet world, na tradução de Mauro Faccioni Filho
Catei da Revista Babel, nº 1.

Especialmente pra Samia Schiller, que tava afim de conhecer um poema novo.
Acho que já mostrei esse poema pra Roberta Bittencourt e ela não gostou.
Então se vc passar por aqui, Roberta, ignora, queridinha.
Acho que o Hobbyson R. dos Passos iria gostar desse tbém.

ó:

O MUNDO SILENCIOSO
num esforço para que as pessoas 
olhem mais nos olhos umas das outras, 
e também para satisfazer os mudos, 
o governo decidiu determinar 
para cada pessoa exatamente cento 
e sessenta e sete palavras por dia.
quando toca o telefone, ponho-o ao ouvido 
sem dizer alô. no restaurante 
aponto para a canja de galinha.
estou me ajustando bem ao novo jeito. 
tenho estampas para todas as ocasiões. 
cada manhã invento uma nova frase 
que imprimo numa camiseta, 
como Os Seres Humanos Estão Vindo 
ou Karaokê Para Mudos.
tarde da noite, ligo para meu amor distante, 
orgulhoso digo somente gastei cinqüenta e nove hoje.
guardei o resto para você.
quando ela não responde 
sei que usou todas as suas palavras 
então sussurro lentamente eu amo você 
trinta e duas vezes e um terço. 
depois disso, ficamos junto à linha 
ouvindo um o respirar do outro.