24 de dezembro de 2013

as metáforas

a fala é sempre imperfeita
e quase nunca dá conta do recado.

lá, no ponto em que não há palavras pra continuar
e a fala trava como travam os pés ante um precipício,
tenta-se construir uma ponte:
a metáfora que estende um pouco mais a ideia
e tenta ser a imagem do que se quer dizer.

impossível:
as palavras não se deixam fotografar ou filmar
e a metáfora acaba sendo porta-voz de uma verdade, sim,
mas um menino dos recados doido
que leva adiante uma mensagem diversa
da que foi encomendada.
 
num tem jeito:
para sempre essas traduções mal-feitas
do que nos vai por dentro do peito.

é difícil identificar onde as falhas na fronteira
entre o que se sente e o que se diz sobre o sentir
(um telhado que pinga e não se sabe onde)

mas parece absurdo se voltar contra as metáforas
ainda que insuficientes.
"vamos destruir a máquina das metáforas?"
propõe sebastião uchoa leite
em algum lugar dos seus poemas

mas pq diabos iria eu abdicar das metáforas
se às vezes o time reserva vai pro campo
e faz melhor que o titular?

se há gatos que caçam
melhor do que muitos cães?

hm?

Um comentário:

Beverley de Graustark disse...

gostamos!!!
do tema, da linguagem, da estrutura.