22 de maio de 2021

Senhora dos Cânticos

 

    No texto 3# sobre livros publicados recentemente em território catarinense, uma leitura de "Pedra, poro, pele" (Ed. Micronotas, 2019), de Maria Cecília Takayama Koerich, uma celebração da liberdade e desejo sob a ótica feminina, e portanto obra oportuna para se pensar alguns caminhos e descaminhos trilhados por parte das autoras do estado nas últimas décadas.

Em 1971, ainda sob vigência do Estado Novo português, criado pela ditadura salazarista, o PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), órgão de censura de Portugal, impedia a circulação de uma série de obras consideradas subversivas, marxistas, comunistas ou ainda "imorais". Foi esse último termo que o PIDE usou para qualificar a obra "Minha Senhora de Mim" (Publicações Dom Quixote , 1971) - a obra apresentava 59 poemas, em evidente diálogo - paródico - com a tradição medieval como sugere o título, que focalizavam a experiência feminina de se estar no mundo, concentrando-se tematicamente nas experiências do desejo e do sexo. A obra foi considerada imoral e um "ataque à nação portuguesa", que naqueles dias estava já há décadas mergulhada em governos ditatoriais e, por extensão, fálicos. A esse cenário medíocre, no qual não se estava assegurada a liberdade de expressão, muito menos para o diálogo sobre as experiências de prazer feminino, Horta contrapôs uma poética desabusada, livre e formalmente transgressora ao atacar tabus erigidos desde a fundação de Portugal e que se encontram formalizados nos versos das cantigas medievais, por ela parodiados:

MINHA SENHORA DE MIM

Comigo me desavim

minha senhora

de mim


sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço


Comigo me desavim

minha senhora

de mim


nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços


Comigo me desavim

minha senhora

de mim


recusando o que é desfeito

no interior do meu peito

 

    Superada a maré autoritária no país, Maria Teresa Horta firmou-se como uma das principais vozes da poesia portuguesa contemporânea, tornando-se seu livro amoroso um clássico e um dos mais belos livros eróticos da tradição lusa. Em proposta tematicamente similar, ainda que em outro contexto bem mais recente, o Brasil de 2019, porcamente administrado por Jair Bolsonaro, pequeno e ridículo como os outros ditadores com que se parece, destaca-se o livro "Pedra, pele e poro", de Maria Cecília, autora nascida em São Paulo e radicada em Joinville/SC, uma coleção de pequenos poemas de amor e gozo, escritos em linguagem ao mesmo tempo livre (formalmente, por vezes recorrendo à prosa poética) e densa, marcada por associações sonoras simples, que sustentam, por vezes, metáforas fortes ligadas à compreensão e expressão da sexualidade feminina. Sem título, os textos parecem por vezes compor um longo poema em fragmentos, no qual se impõe uma perspectiva livre de entrega e busca do amor, do sexo, por vezes entrelaçados na trama do poema,  regida pelo exame dos componentes materiais (a pedra, o poro, a pele) e psicológicos da experiência de ser mulher e de ser corpo a serviço de Eros - o que pressupõe não apenas a pesquisa livre e radical de novas formas de se obter prazer como também o cuidado com o corpo - os olhos nesse livro não apontam tanto para o objeto amado - o olhar da donzela - como se firmou tantas vezes nas epopeias e canções, quanto apontam para si mesma, onde às vezes há conflito e noutras plenitude, mas sempre descoberta. Não que lhe faltem armas para o jogo,  posto que a devoração do outro se inicia pelas mãos, pela boca, ou mesmo por instrumentos (de garfo e faca vou ao seu encontro), em constante renovação das infinitas coreografias possíveis entre corpos, corpo assumidamente erótico, que se acentue aqui o pleonasmo, como nesse livro se destaca o uso de alguns clichês recorrentes na tradição erótica - prática assumida por um eu-lírico que reconhece, nos gestos de si e de outrem, conquanto a busca pelo novo, a repetição de alguns gestos fundamentais do jogo amoroso:

Observo essas curvas:

contorno 

imagino Coisas tantas

e sinto o rosto queimar

será que pensas como eu?

que desejas escondida na timidez

o kama sutra, a janela indiscreta,

o beijo da mulher aranha

um clichê- seu michê

sua dama de companhia

amante

tudo e nada

mais e além

já passei do ponto

de revelar o que sinto

prefiro, anonimamente,

arder

    Ao buscar registrar um ato de escrevivência (aqui centrado na experiência de ser mulher nesse ponto da História), como explica no posfácio, Maria Cecília Takayama Koerich dialoga com as mulheres suas leitoras, como também com uma tradição das letras catarinenses, uma senda trilhada por mulheres de outras gerações, como Antonieta de Barros, Eglê Malheiros, Maura de Sena, cuja obra vem sendo recuperada por projetos de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Santa Catarina e muitas outras autoras que compõem o instável conceito literatura catarinense aqui também tensionado pelo termo literatura feminina (que para Nélida Piñon deve ser chamada de escrita por mulheres*, e para outres sequer existe). Assim, o livro de Maria Cecília dialoga especialmente com as autoras dos anos 70 e 80 (o recorte aqui se restringirá à região Norte do estado), como Mila Ramos, Lucy Assumpção, Rita de Cássia Alves e Dúnia de Freitas, que celebram em sua poesia, entre tantas outras temáticas, as dores e delícias de ser mulher; ainda que, ao adotar uma perspectiva erótica sobre as escolhas anteriores, como fez Maria Teresa Horta em 71, Maria Cecília se diferencie das outras propostas cujas lentes transitam entre o sentimental, as investigações filosóficas e psicológicas, o misticismo, o retrato autobiográfico e o registro cotidiano na esteira dos marginais, em obras entre as quais se pode destacar "Danada" (Edições Ipê, 1990), de Dúnia de Freitas, cujo projeto gráfico de capa (que exibe o rosto sorridente e belo da autora, com seus cabelos curtos e óculos) e o título sugerem o registro livre da feminilidade e o confronto com a moralidade imposta por sociedade - ainda hoje - bastante patriarcal, que desagua, entre outros pontos, na formação de um sistema literário predominantemente masculino no sentido de que, embora haja inúmeras vozes femininas, à poucas são dadas o lume e as leituras merecidas. Ler Maria Cecília (este é o seu segundo livro de poemas), tal como ler Mila, Lucy, Patrícia, Rita, Maura, Antonieta, Urda, Elizabeth, Ryana, Ana, Bruna, Edla, Katherine e tantas outras, além de colaborar para o fim do questionamento cíclico em torno de conceitos atrelados a um certo sistema literário, que precisa superar seus déficits e contradições justamente por meio da recepção privilegiada da escrita feita por mulheres catarinenses, alimenta um raro prazer - de autocuidado e encontro com o Outro:

Irão constranger

pelas coisas que não fez

irão julgar

pelas coisas que fez

nada é superfície quando

se é mulher

as regras são rígidas

gaiolas pequenas

limite escasso - apertado espaço

sobreviver é desafiar o jogo

              sub

                          ver

                                     são

                         resistência


*Conforme SHARPE, Peggy. Entre Resistir e Identificar-se: para um teoria da prática da narrativa brasileira de autoria feminina. Florianópolis: Editora Mulheres; Goiânia: Editora da UFG. 2007.

12 de maio de 2021

Verde, Amarelo, Azul e Ódio



Lançado em janeiro de 2021, ano II da pandemia do
coronavírus, em Florianópolis, "Verde, Amarelo, Azul e Branco", editado de modo independente pelo autor, espelha a ignorância e ausência de empatia dos catarinenses no momento mais grave de sua história.

Na capa do livro, um pássaro morto sugere as cores de uma certa bandeira esquecida. O peito esmagado, ele mesmo bandeira, previne o seu expectador acerca da crueza que lhe aguarda. A profunda humanidade da prosa de Marco se materializa na construção de narrativas, aqui, muito próximas dos leitores. Se em seus livros anteriores já se observava o constante entrelaçamento dos gêneros conto e crônica (do qual se destacam textos como "Agarrar os silêncios" e "O estupro de Madhyamgram", de "Carnaval de cinzas", 2016, Editora Redoma) aqui essa mescla é forjada por meio de narrativas curtas, marcadas por períodos curtos e tensos - é a tentativa de ligação direta com o coração anônimo daqueles que, pelas timelines e caixas de comentários das redes sociais, exibem com orgulho um órgão de lata destituído de empatia pelos sofrimentos dos outros seres vivos. O permanente estado de angústia e estresse ocasionado pela pandemia que assola o começo deste século aproxima ainda mais o leitor dessas ficções-realidade - intenção para a qual colabora o vocabulário enxuto. Uma economia, aliás, importante em tempos de exaustão, pois, como Marco afirma em recente crônica para o Desacato, portal no qual mantém uma coluna, há um esgotamento de notícias. Há um esgotamento de pronúncia, pois estamos, há mais de um ano, numa nota infeliz e numa tarefa hercúlea de conscientizar as pessoas da necessidade urgente de haver muito cuidado uns com os outros. Diante desse estado de crise, o artista, já de antemão em conflito com os leitores, busca dialogar com aqueles que sofrem pelo luto e ainda mantêm firme o pacto coletivo de cuidado mútuo (supostamente um dever de todos), rebela-se contra a horda anticiência e lança luz sobre aspectos sociológicos da pandemia - em "OS HOMENS DETESTAM EUNICE", "A SAGA DE GILMARA" e "NÃO CHOVE NOS OLHOS DE MIRNA", três belos contos trágicos desse livro, evidencia-se a onipresente misoginia nas mais variadas camadas das vidas das protagonistas, que precisam por vezes travar também luta contra a miséria. Esses contos parecem a face inversa daqueles que exibem protagonistas homens propagando vírus e opressões às pessoas a sua volta, sejam crianças, adultas ou idosas - mas com explícita preferência por vítimas femininas. Conforme recente reportagem do portal Catarinas, SC é um dos estados mais feminicidas durante a pandemia. Estamos, pois, diante de um livro de ficções-realidade.

O cuidado com a linguagem no livro também se mostra no verso de Augusto dos Anjos (poeta moderníssimo) escolhido como epígrafe, extraído do belo soneto "Vandalismo" - meu coração tem catedrais imensas; ao passo que acena para a obra de Augusto, um apaixonado pela ciência que conectou Biologia , Filosofia e Arte sob ritmos alucinantes, a referência a Augusto também nos leva a todo um grupo de escritoras e escritores brasileiros, toda a classe artística enfim, que foram pouco lidos e celebrados, silenciados à margem de um sistema literário financiado pelo capital branco e patriarcal, como hoje, de modo análogo, silenciam-se especialistas/pesquisadores em um debate que deveria ser científico, mas é carnavalescamente tocado por apresentadores de tv, prefeitos, governadores, parlamentares e influencers digitais. O belo verso, também, parece nos lembrar que o desassossego  e rebeldia de Augusto dos Anjos dialoga com o estado espírito exaurido em que se encontram aqueles que lutam contra a maré de desinformação, mentiras e ataques sistemáticos a direitos básicos garantidos, fragilmente, por nossa Constituição - em especial a classe artística, que tem, no estado de Santa Catarina, o autor como um de seus principais representantes dada à contribuição de Marco como escritor, diretor, ativista cultural, pesquisador e professor. O livro conecta-se, assim, a "Harmonias do Inferno", que se abre com um verso de Baudelaire, outro rebelde maldito, ao apresentar uma resposta iconoclasta a uma sociedade caótica marcada pela ascensão de políticas neoliberais e desprezo pela vida humana nas mais variadas esferas sociais- e agora, desde 2016, administrada pelos guardiões imbecis de infames projetos de Estado.

Nos contos do livro, os narradores não poupam juízos morais às escolhas e crenças dos protagonistas. No terceiro conto, A MÁSCARA DE TEOBALDO, o personagem principal, um homem de 75 anos, arrogante como seu xará shakespeariano (lembre-se aqui que é entre brancos e idosos que o capitão cloroquina tem mais aprovação mesmo diante dos mil insultos à democracia e à ciência), acaba internado em virtude da contaminação pelo coronavírus. Recuperado após dura internação, continua a propalar discursos negacionistas, chegando ao ponto de ofender familiares que o corrigiam quanto às verdadeiras causas de sua contaminação e doença. A máscara do personagem é retirada ao longo de toda a narrativa, em sua escolha, tal como nas demais histórias do livro, de enfatizar comportamentos irracionais em face da pandemia - e da perspectiva da morte. Não contente com esse caminho discursivo que acentua para o leitor, frase a frase, dos descaminhos estúpidos dos cidadãos-personagens, o narrador emite, ao fim, um juízo de valor definitivo, que cai sobre o leitor como pena - "Teobaldo perdeu o único pingo da razão que o conectava à realidade". No conto anterior, situado no bairro do Itacorubi, a "pena" é ainda mais severa - Vinicius perde os avós, para cuja contaminação contribuiu diretamente ao ignorar o distanciamento social e visitar os parentes idosos. Compreende-se tal escolha estilística - nada desnecessária em uma sociedade surda à verdade científica - com o artista precisando gritar por sobre elaboradas algazarras -, mas notemos que, aqui, em "Verde, Amarelo, Azul e Branco" o julgamento moral explícito de boa parte dos contos contrasta com a composição das narrativas de "Harmonias do Inferno" (Editora Letra D'água, 2010), obra menos condescendente, que resistem como passeios (não guiados, ou melhor, não explicitamente guiados) pelos diversos círculos infernais que se escondem no interior das instituições (em crise) e das pessoas (doentes). Guardadas as diferenças, resta o saldo urgente dessas narrativas que são também cartas, crônicas, manifestos e urros contra um estado de coisas promovido não por vírus, mas por homens - com cor, saldo bancário e endereço. 


25 de março de 2021

Cinemateca Brasileira (1993, Ozualdo Candeias)

para cada segundo de filme, 24 fotogramas

é urgente que se digitalizam as nossas memórias todas

atirá-las numa grande e esquecida nuvem

aqui um dia já foi um matadouro

tombada a infância,

restam rolos e rolos

de adolescência em loop;

um vira lata fade out

e nem um pouco fedido

inaugura a obra ainda

em construção

quem sabe assim

governo e iniciativa privada

façam alguma coisa

algumas coisas precisam

ser celebradas assim

no improviso no depósito 

embebidos em nitrato e desejo:

o futuro, o cinema, a juventude

por exemplo


obs: sobre o mesmo tema, consultar também "Nitrato", curta também assistido.




7 de março de 2021

Rubens da Cunha, guardador de paisagens

Publicado em 2020 pela Andarilha Edições, editora artesanal da poeta e artista visual Deisiane Barbosa, o livro "a guardadora da ponta e outras biografias inventadas", de Rubens da Cunha, fortalece e renova uma poética fundada na geografia de paisagens, sejam elas naturais, afetivas ou místicas.

O termo "guardador" de imediato remete ao epíteto do guardador de rebanhos atribuído a Alberto Caeiro, face pessoana, mas atrelar a poesia de Rubens a uma outra obra ou autor constituiria equívoco; desde "Campo Avesso", lançado em 2001, o poeta catarinense/baiano constrói uma obra singular, marcada pela introspecção psicológica, meditação geográfica e precisão vocabular, ressoando, mas nunca a repetir, uma gama de autores para muito além do célebre português, de modo que o livro de Caeiro está para sua obra como também estão os livros de Manoel de Barros e João Cabral (entre uma gama de outros autores com os quais sua poética dialoga) que, a despeito de suas diferenças formais, irmanam-se ao sobrepor ao viés antropocêntrico/subjetivista a percepção e apreensão sensorial da natureza brasileira enquanto elemento fundamental de suas poéticas. No caso de Rubens, a experiência de migrar das paisagens catarinenses para o Recôncavo, com sua peculiar geografia de encontro de águas marítimas e fluviais, de matas e rochedos, renova um espírito atento à natureza desde os primeiros livros produzidos em Santa Catarina, que frequentemente evocam o vocabulário natural: "Campo Avesso" (2001, Editora Letradágua)"Casa de Paragens" (2006, Edufsc), "Curral" (2015, Editora da UFSC).  Como revelado em entrevista a Cláudio B. Carlos, em 2008, a infância e a adolescência do autor ocorreram no espaço natural do interior catarinense, o que ajuda a explicar o laço que há entre "a guardadora de pontes" e outros livros recém surgidos na literatura brasileira com inquietantes força e beleza, como "Torto Arado" (2019, Editora Todavia), de Itamar Vieira Junior, e "Batendo pasto" (2020, Relicário), de Maria Lúcia Alvim, cuja essência ressoa o universo rural brasileiro, marcado pela fabulação enquanto ato de resistência e de conexão profunda com os outros, com a terra e, por extensão, com as metáforas pastoris, aqui devidamente tropicalizadas pelo poeta baiano:

I

ao lado de cada rio
há derrames
rosas
bombas
e agressivos encontros nas margens

ao lado de cada rio
há tropeços
caminhos
trocas
e um fraco amor entupindo os bueiros

talvez haja até
dedos tripas cus

talvez haja até
baobás imersos
imensos alguidares

um e outro medo
e toda a solidão

Nesse contexto, o imaginário poético brasileiro está povoado de imagens sobre a Bahia construídas pelo olhar sentimental e exterior do poeta-turista-cantor - são inúmeras as canções sobre o desejo de voltar ou conhecer o estado, por exemplo. O livro de Rubens passa à margem dessa tradição ao propor um estudo imaginário por dentro desse espaço: é sobre o cotidiano da cidade, mas também o cotidiano das árvores, das garças, dos rios, que esse livro fala, enquanto desvela uma coleção de personagens, seja na condição de trabalhadores ou passantes - se a poesia moderna francesa nos relegou o ideal dândi, respondemos com o jovem João, esfinge brasileira na porta do bar:

"II

João é jovem.
Fica durante horas sentado nos batentes das portas
de bares e mercadinhos.

As pessoas já se acostumaram
É o João atrasado, dizem.

A todos nós, ele vê passar
A todo nós, ele olha como que filtrando-nos

Não é fácil enfrentar a mirada silenciosa de João Atrasado.

Mais do que nos filtrar
ele nos frita
e nos devora em seu atraso.

E assim, enquanto estuda personagens, Rubens se mostra um deles, ainda que os poemas, exceto o final, não lhe apontem as sombras, afinal tratam-se de biografias imaginárias; o poeta mostra-se no olhar, visto que aquele que olha é olhado/refletido também, sempre, como se percebe em uma das biografias do livro, na qual as aspas sugerem outras imagens para além das projetadas no poema e aí se tem, entre o real e o imaginado, dois artistas a conversar:

"III

Luiz vende frutas
Elas são cuidadosamente colocadas no carrinho de mão.
"É meu jeito de fazer esculturas"
e chora porque o cliente pediu a manga que se avizinhava das uvas,
destruindo a combinação entre melancias e seriguelas.

[...]"

João, Sandra, Luiz, e também Graça, a mulher que carrega garças brancas & invisíveis nos ombros; eis alguns personagens fantásticos desse livro cuja vida interior é retratada com amorosidade e familiaridade pelo poeta/paisagista, emigrante-morador. Não raro, em poemas divididos em seções, a primeira apresenta e descreve o rio personagem, a natureza-protagonista, para então surgir, na seguinte seção, uma biografia humana, como a da mulher à beira do rio-personagem a xingar os turistas. A poesia de Rubens da Cunha tende à interiorização afetiva-existencial desde os primeiro livros, como se constata no poema na leitura de "Campo Avesso" ou "Casa de Paragens". Como ensina Marco Vasques, em crônica/leitura do livro de Rubens, a palavra 'recôncavo' "significa cavidade funda, enseada, gruta, antro, cavidades entre rochedos, ou seja, ao recôncavo são dadas as matérias dos dentros, dos interiores, das pulsões visíveis apenas àqueles que se dispuserem à observação permanente dos silêncios dos abissados." Assim, nos poemas de "a guardadora de pontes", em paralelo à narração das biografias, por vezes completamente entrelaçadas, Rubens apresenta paisagens naturais e interiores, como quem diz que há uma força de rio e uma amplidão de campos gerais no interior de cada um dos moradores daquela terra; como quem aponta uma continuação/extensão do movimento das águas e dos pássaros nos movimentos da memória, crença e desejo no inconsciente. Tal relação já se percebia, com outras tintas e outros ares, nos livros escritos em Santa Catarina:

DA NASCENTE AO ESTUÁRIO

(Fragmento/penúltimo poema)

É sempre noite quando se finda um poema
(o rio concedeu suas águas para o mar)

O poeta enclausura-se outra vez vazio
e adormece ausente de qualquer palavra.

http://casadeparagens.blogspot.com/2011/03/el-perro.html

Chama atenção na construção dos versos de "a guardadora da ponte" a precisão rítmica dos poemas sustentada por uma série de aliterações, um recurso utilizado pelo poeta desde os primeiros livros, mas que encontra aqui novas cores e melodias, dada a incorporação das palavras, ritmos, entidades e imagens que só se encontram no Recôncavo: 

"O corpo de Sandra nada pesa sobre a terra. 39 quilos, 60 anos.

[...]

Santa e sibilina
passa os dias assim,
sem deixar os passos na terra.

Apenas o Subaé é capaz
de senti-la ancestre,
de sabê-la
a Nanã pesada e lodosa que ela é."

Aproveite-se esse poema para se ressaltar o caráter feminino do livro, apontado na escolha do título, ainda que entre os personagens desfilem homens e mulheres feitas das mesmas carne e dor humanas . Um feminino que reconhece nas águas dos rios um elemento atávico de conexão com outro tempo, muito distante do Brasil milico-patriarcal de 2020. No poema final, que fecha este texto como um convite à leitura de "a guardadora de pontes e outras biografias inventadas", mas também da obra completa desse autor entre o Sul e o Norte, o autor cede à primeira pessoa, remetendo-nos a seu trabalho de cronista (do qual emergiu "Aço e Nada", coletânea publicada em 2007 pela Design Editora), em um texto pessoal, em que o fabulador de biografias revela um pouco de sua própria história no Recôncavo, ainda em curso/escritura:





16 de fevereiro de 2021

A sala da febre


aqui é a sala da febre

não se aceita outro estado senão a sezão

não se aceitam outros corpos sequer os febris

se aqui queres estar, venha ardendo

do contrário, mandamos todos para casa

não nos interessa o atropelamento

o edema o trauma o miocárdio apodrecido

salvo esteja o coração envolto em chamas

salvo seja a febre a esquina o motor o choque e a sepse

há mesas cadeiras paredes mas não energia

é preciso que a pessoas a tragam de casa

essa é a sala da febre

um conjunto de salas compõe um parque febril

aquilo que faz a febre é o corpo

as pessoas apenas a trazem e por isso não interessam

essa é a sala da febre

favor deixar apenas a febre entrar

as pessoas são acompanhantes

e devem aguardar lá fora



Arte: "A Clínica Agnew" (1889), de Thomas Eakins.

7 de fevereiro de 2021

J. R. R. Tolkien fala sobre os contos de fada

 Por ora só direi isto: um "conto de fadas" é aquele que toca ou usa o Reino Encantado, qualquer que seja seu propósito principal, sátira, aventura, moralidade, fantasia." (p. 10)

"Há uma ressalva; se houver alguma sátira presente no conto, há uma coisa da qual não se deve zombar: a própria magia. Naquela história ela deve ser levada a sério, sem escárnio nem explicações que a invalidem. Dessa seriedade o conto medieval Sir Gawain e o Cavaleiro Verde é um exemplo admirável."(p.12)

"A magia do Reino encantado não é um fim em si, sua virtude reside nas suas operações, entre elas a satistação de certos desejos humanos primordiais. Um desses desejos (como veremos) é entrar em comunhão com outros seres vivos. Assim, uma história não poderá tratar da satisfação desses desejos, com ou sem operação de máquina ou magia, e na medida em que tiver êxito aproximar-se-á da qualidade e do sabor do conto de fadas." (p. 13)

Perguntar qual a origem das histórias (não importa como estejam qualificadas) é  perguntar qual é a origem da linguagem e da mente." (p. 17)


Em "Árvore e Folha", de J. R. R Tolkien, 2013, Editora Martins Fontes.

Tradução de Ronald Eduard Kyrmse



11 de janeiro de 2021

a natureza joga sem choro

a perda e metamorfose

Não há mais rinocerontes negros ocidentais

Nem rinocerontes brancos do Norte

Mas há em compensação

abelhas coloridas com fipronil

ideais para se misturar

aos cereais diarreicos matinais

Não há mais ursos polares

posto que não há mais polos

o gelo que por acaso resta

é mera quimera de pinguins 

embriagados de tiacloprido

Não há mais meros, 

e com eles a noção de medo e perigo

perdeu o mar a sensualidade e as festas que só

em águas profundas se podiam forjar

dia triste cheios de ais

para poetas e vendedores de picolé

que veem minguar os encontros, as imagens e as tatuíras 

a lira está em promoção 

só hoje!

enquanto durarem os cardumes

Não há mais imensos tigres

mas cada vez mais

eletroinsetos peixetilenos dinotefurões

tomando corações de assalto

contra o céu paraquático  

plana o belo glifosato

com suas asas cancerígenas

abençoando a chuvachumbo e as sulfoxaflores

a natureza toma em silêncio

a saída discreta pelos fundos

ciente de que sumir 

também é se transformar.

8 de outubro de 2020

Quando

 Mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende.

                                                                                 João Guimarães Rosa

Quando é que eu me tornei um professor?

penso, penso, penso e não dizer sei quando. 

Foi quando peguei o diploma nas mãos?

ou foi quando entrei pela primeira vez na frente de uma sala 

com a voz gaguejante e as mãos suando?


Quando estava no fim do meu ensino médio, 

perguntei à minha professora de inglês

se era uma boa ideia me tornar professor

-- Deus te livre, nem pensar, que desgraça, que horror!

  O salário é de fome, fora o estresse, fora a falta de respeito!

Eu entendi o que ela dizia, pois o mesmo alerta meus pais já tinham feito:

que a vida de professor era furada, que bom mesmo era cursar Direito.

Quem sabe tenha sido ali, na contramão de todos, que tudo começou!


No meu primeiro ano de docência, eu era todo ansiedade e impaciência

Queria transformar o mundo, contagiar a todos, formar leitores

Na Secretaria de Educação, uma atendente aborrecida, com cara de sapo

chamava nomes de uma fila infinita, era uma algazarra, e senti um deja vu

Onde será que já vi?

Onde será que já vi algo assim? essa confusão, essas caras de sapo...

Rá, Foi na escola!  Com a bagunça nos recreios e os inspetores brabos, já havia visto isso tudo, tin tin por tin...

Eu não sei se foi nesse dia que tudo começou,

mas foi nesse dia que percebi o quanto em comum 

há entre aluno e professor


O primeiro ano ensinando foi  um misto de alegria e desalento

Fui enviado para uma escola num bairro pobre, afastado do centro

Era muito legal ler para os pequenos da sexta série e sentir toda sua energia

mas era difícil trabalhar a autoridade e ao mesmo tempo inspirar-lhes autonomia

eu me sentia inseguro, e em meio à algazarra pensava: teria errado eu meu futuro?

eram tempos difíceis que exigem de mim maturidade e evolução,

afinal as coisas não funcionariam num passe de magia


Fui aprendendo olhando os outros colegas.

Fui aprendendo errando e corrigindo em busca de algum sucesso

Parece que de algum modo meus alunos, ainda que leigos, me ajudavam nesse processo

Será possível dizer isso: que minha vida de professor

começou bem depois do crachá, do salário, do giz e do apagador?

Será possível dizer que foram os alunos que me formaram professor?


Na escola, como aluno, eu era muito atrapalhado.

Perdia guarda-chuvas, e aí me encharcava, pegava resfriados

Confundia datas, perdia meus lápis, trazia os cadernos todo borrados

Havia dias em que, ao chegar à escola, lembrava da mochila

que havia esquecido na minha própria casa

Como professor, algo semelhante se passa

Confundo datas, perco canetões, sujo meu jaleco de canetinha

E a bolsa que hoje carrego de algum modo lembra a mochila que eu tinha.

Hoje é diferente, claro, porque sou responsável por diferentes aprendizados

Organizo-me na marra, me planejo, me antecipo, mas não tem jeito,

por mais que tenha amadurecido e seja consciente de meus deveres, não sou perfeito

e, de vez em quando, quando já estou instalado na sala de aula

os alunos avisam entre risadas

professor, você entrou na sala errada!


Por mais que eu pense e repense, não sei o exato momento de como tudo começou

Algo me diz que há muitos & muitas dentro do professor que sou.

Entre as lembranças de menino, há as memórias de escola

as brigas, os tombos, os dias de prova e os de jogar bola

Entre as lembranços do adulto, há as memórias dos alunos

os rostos, as brincadeiras, os dias difíceis, as histórias


dos meus antigos professores, não lembro de todes, apenas de alguns

dos meus antigos alunes, não lembro de todes, apenas de alguns

mas parece que carrego algo comigo, algo sem nome e de que preciso cuidar

e eu acho que ensinar é, entre tantas coisas outras, deixar um pouco disso com cada um

ainda que não lembrem de meu nome, como não lembro dos meus antigos mestres

levam um grão, uma história, talvez uma palavra ou gesto no ar

contudo, essa história pertence ao futuro, aos meus alunes, 

e não acho que cabe a mim contar


o que acho, depois de tanto cismar na origem de meu caminho

é que a vida de um educador é uma aula que nunca termina;

ora estamos do lado que aprende, ora estamos do lado que ensina

e mesmo quando se deixa o ofício, e o professor se põe sozinho

vive ainda dentro dele outras e outros

e também o adulto e o menino


4 de outubro de 2020

Téo com T de Tartaruga

de Tamarindo Tangerina Passarinho

Téo com T de Teerã Tocantins Tijuana Tekoa Tarumã

Não tem H, veja bem

É Téo com T de Tico Tico Trinca Ferro Tuiuiú

de Projeto Toninhas e de Tortura Nunca Mais

T de Tainha Tanhota Tilápia 

Parati Sapoti Urutu CáTia França

Tamborim Temporal Tatuagem Thiago Talíria

Téo com T de Tragédia do rio Taquari

Téo com T de Tamo Junto Te amo, meu bem

Dentro do teu nome, Téo,

outros, outras, outrem






1 de outubro de 2020

Tainha Antonieta faz ligação para a Terra

Meu nome é tainha antonieta
Falo aqui do coração do antropoceno
Hoje é o ano 1, sempre é o ano 1

O jornal lembra que há 10 anos Caetano 

Estacionou o carro no Leblon

O Facebook lembra que há 10 anos
Você deu aquele passeio de carro pela praia
Com seu tio embriagado
Meus olhos são costurados e por isso passo as noites
Pensando naquele fudido do henri castelli pescando meros
Me gustam los meros, me gustam los peixes-boi
*Já beijei na bocona de alguns caso haja essa dúvida*
Os peixes grandes tem seus motivos para habitar as profundezas
O mesmo para as baleias serem os mais tristes mamíferos
Ah, e os golfinhos? Pergunta-se o distraído enquanto atualiza sua rede social
Para de ler e mexer nessa tarrafa elétrica ao mesmo tempo seu cu de bagre
Onde o homem não chega vivem os mais sombrios e felizes peixões da terra

Se você gosta de mim...
                                                       ... problema seu!!!

27 de setembro de 2020

Temporada

um telescópio urgente

um telescópio urgente adentra a noite dos meus olhos

já não há mais onde se esconder 

sobre cada uma das pessoas do passado

há um documentário netflix

a senha da minha conta

é a mesma do meu banco:

um nome um lugar uma flor

orides fontela helianto 

a situação do marxismo? deixa eu te contar

a quantas andas o marxismo do meu domingo:

o estômago contra o coração

as mãos ansiosas escondidas atrás da nuca

os pés sob as cobertas

o rosto, imenso, colorido, sorri nas redes sociais

morte declarada a todos os órgãos internos

acomodados, privilegiados,

enquanto pernas e braços estão na rua

dando-se à tapa

cada parte do meu corpo tem a sua luta

alheia a história dos meus dias e enganos

assim como cada animal tem a sua luta

alheia às mil lutas dos homens

precisamos, por exemplo,

falar da situação das teias de aranha

você vai trabalhar, sair com os amigos, jogar, cantar,

ninar filhos, aplainar solos, comprar títulos

e não falar sobre o que se passa no seu banheiro?

os padrões dos azulejos furtados todos das aranhas

seu lençol trançado seu casaco caro

tudo roubado descaradamente das aranhas

tarde da noite você chega bêbado

arrastando cadeiras à procura do chinelo

achei, está aqui, mata mata mata mata

esmaga o inseto do dia depois tira a roupa

e trata de conversar sua espécie sobre a extinção de outra

a senha do meu gozo é: alegria

a senha da minha alegria é a mesma dos dias:

agonia bressane vigilante

um telescópio urgente adentra os bueiros da cidade

a poeira acumulada nos cantos do banheiro

aranhas cabelos os pelos todos do corpo

com as demandas todas de homens e bichos

façamos um canto urgente

para que o refrão nessas canções todas?

o passado está sempre conosco

depositado num banco do qual 

o trabalhador não pode sair

para que o refrão nessas canções todas?

é que transformo em canto

tudo aquilo que eu não sei guardar


17 de maio de 2020

Vila Aparecida

oceanos nos atravessam
não te vejo nem perfumo
sei-te ilha e aceno para o ar
de minha janela em vão

tenho muita fé
e sei brilhar algures um gesto
farol aleatório
possamos ou não
queiramos ou não
só nós podemos fazer

aquele dia em floripa
uma placa/piscina se engraçava à janela
letras coloridas e um telefone
saído de filme norte-
americano, água nenhuma,
 1-800-6740-algo assim
brasileiros que somos
sabemos fontes doutro jeito
jorro e nada, jorro de nada na cara
você lá mais não mora
não mais nos ligamos
mas daquela janela ainda brilham
em miniatura os barracos no morro
a sintaxe segue dura e burra
- a aula de dança fica sempre para
semana que vem

milicianos nos atravessam
não te piscina a vida sequer sofá
penso números que não atendem
sonho feio e mergulho para o ar
de minha ilha em vão



13 de maio de 2020

variação II - Itaú

Era no tempo dos animais:
eu me jogava de prédios
para poder elogiar-lhes a forma
naquele tempo ainda podíamos
ir à praia com nossas bicicletas
imaginárias e sonhar o fim da distância
não havia oriente ou ocidente
só um sol violento
que nascia e se punha
cada dia em diferentes olhos
agora está tarde, mas ainda arde o dia
e, por trás dos prédios, a mesma linha 
do horizonte lembra:
continua necessário fundar
novas formas de fazer
o afeto o trabalho a revolta
nada de fato mudou - se assim prefere
já não temos mais a lanterna de Millôr Fernandes
mas ainda cisma a ferramenta linguagem
peça de todo máquinário 
mãe de todos os dedos, credos e sistemas 
o nosso Que-dá-nome-às-quedas-&-partos da Silva Nhe’eng Dimatekenu 
pela linguagem renascemos e do futuro a vós falamos

28 de abril de 2020

Sonhário

cada de um nós aqui
sabe mais do teu rosto
do que você mesmo
mas não se preocupe
com saberes alheios
ocupado que está em
saber um pouco mais
do rosto de cada um 
de nós por sua vez
/////////////////////////////o trabalho dos sonhos se cumpre por toda parte, uma legião de continuistas, camareiras office boys passadores de pano advogados de porta de cadeia editores de vídeo corretores de texto coloristas gandulas e ex amores se reveza assim que se corta a última luz: tarde da noite, passada já a hora do descanso recomendada ao trabalhador assalariado, nabucodonosor liga para daniel: mas não há como contar o sonho, nabu está bloqueado, a central de telemágoas está lotada e não quem nos desvende os símbolos - que fiz eu para daniel? questiona-se nabu, posto que o magoante também se magoa.
/////////////////////////////
amar, sonhar, isso são
coisas para rainhas e zangões
operárias, jovens ou velhas, trabalham;
fora da colônia, (e somente fora dela, conforme resolução ISO 4545)
as rainhas usam um perfume extraído dos sonhos como atração olfativa 
à qual os zangões, por mais maduros e (d)escolados que sejam, não resistem ////// é a ansiedade um sonho sem símbolos - duro e repetido trabalho que não rende qualquer mel - não há qualquer terra prometida que renda leite e mel sem trabalho duro de cativos - não entre os homens ao menos
///// há, porém, um planeta não tão distante de onde criaturas nos observam - reverencia-se o abelhocentrismo e toda espécie pacífica de superorganismo - a humanidade é estudada como praga abelhuda. 

a matemática das abelhas, a engenharia das abelhas, a linguagens sensorial das abelhas.
sylvia plath tinha uma caixa de abelhas no lugar do coração,
pesada demais para se carregar (seu pai a colocou lá um dia e depois sumiu)
o poema o sonho e a memória se amigam na confusão - de minha parte sonho em escrever muitos livros para dispersar xingamentos contra Ted Hughes e todos os homens horríveis mas com um lado delicado que conheço.


20 de abril de 2020

Soneto Desmatado

o fim das árvores é o fim das abelhas:
o homem que corria por trás dos arbustos
nos sonhos agora em nós se espelha
e por isso XXmos cinzas, sem sustos

o fim das abelhas é o fim das árvores
X  ritmo  X   X   X   X   X   do  própolis
mas nem tudo se perderá com os hectares:
insetos virtuais zunirão nas metrópoles;

haverá ainda bancos e herbicidas
mil &uma vilezas empresariais
não mais fé, pinhões, discos de Emicida

haverá ainda X redes sociais
resistirá no pós-pólen alguma vida
meu corpo sob o teu, contudo, nunca X


19 de abril de 2020

Soneto Terrasamba

Tem coisa que não se nega a ninguém:
mão, sorriso e um real para o pagode
é bom saber dizer não, veja bem
mas negar um realzim não se pode

Passam-se anos e planos do Mercado
Passa-se a vida toda na manteiga
Só não passa a vontade de um trocado:
dançá alienado até dizer chega

Veja bem, mano, me dá um real
esqueça a inflação por um minuto
esqueça o grave quadro social

esse axé tem um pedido amoral:
para ser feliz só te peço um puto,
um real pro pagode, aí, namoral







Retrato de Maria E. Ibarrola / Ekphrasis¹


Tinha as mãos atravessadas por cruzes
e jogava o jogo possível² para sua época:
à mão já tão ferida por facas e pedras
quis acrescentar os calos de pintora
Olhos escuros e fundos, a parecer desanimados
era importante manter o lume por dentro
havendo tantos exemplos de mulheres apagadas
por quererem olhar, pintar, trabalhar, estudar, partir sem rumo
Não se sabe se era rica ou pobre, se aprendeu a desenhar sozinha
ou recebia classes, sendo então abastada, ou se aprendeu a desenhar
no convento desenhado em seu único quadro disponível
O que se sabe é que não pintou muito, sua pobreza,
e que gostava de olhar as coisas, daí os olhos bonitos, sua riqueza, e o cabelo
sempre bem amarrado ou o mais curto possível
Não, certamente ela não fez seus estudos nesse convento, embora transpareça
imensa simpatia pelo que pinta: seu interior, cujo pátio está ocupado por outras
três pessoas: um religioso, com um balde no braço e as mãos em posição de semeadura, como quem cuida das plantas e diz: esse convento, de algum modo, ainda vive, apesar de ocupado pelo mato - inclusive heras que descem pelas janelas, abrindo possibilidade de que o convento esteja em um momento de abandono e decadência
mas não desuso: esse padre que semeia anuncia à outra pessoa adulta na tela - uma mulher jovem, sentada na beira da fonte e próxima ao padre, com a cabeça coberta pelas vestes, uma espécie de xale entre cinza e azul modestos - que a vida resiste, desafiadora, como a obra e o olhar de Ibarrola, mesmo feita de tinta invisível - o apagado ainda existe
Há também uma criança, que brinca despreocupadamente na fonte (mais sinais de abandono, quiçá extinção do convento, desafiando a semeadura do velho padre): pode ser filho ou irmão da jovem, embora esta esteja tranquilamente de costas para as traquinagens. pode ser uma criança da vizinha como qualquer outra que gosta, como pintores, de se infiltrar em espaços há tempo desabitados para encher-lhes de vida. O menino colocou o chapéu na beira da fonte e, na ponta dos pés, tenta tocar a água da fonte, que, contrária à estrutura depredada do prédio, parece em pleno funcionamento a julgar pelo jato alegremente para cima: o menino e a fonte, o velho padre e a hera. e há a jovem de rosto encolhido a observar parte da cena, como a jovem Ibarrola encolhida na própria existência de mulher, de mulher artista de cor: mulher, negra, indígena, pobre ou rica, de qualquer forma vivendo a danação na Cidade do México do século XIX. Maria tinha olhos bonitos que mesmo apagados ainda resistem e mãos machucadas atravessadas por cruzes.

¹Para conhecer a tela "Interior de convento na Cidade do México" (1896), único trabalho conhecido de Ibarrola, ver texto de Luana Fontes disponível em: https://www.select.art.br/ainda-e-sempre-contra-a-invisibilidade/ Acesso em 15/04/2020
² "É muito difícil para qualquer um de nós não jogar esse jogo, até porque ele muitas vezes parece ser o único jogo possível. Mas, de fato, isso não é verdade." - PIPER, Adrien. A Tríplice Negação de Artistas Mulheres de Cor. Zazie edições, 2020. Tradução de Larissa Lery. Disponível gratuitamente em: http://www.zazie.com.br/pequena-biblioteca-de-ensaios

12 de abril de 2020

5 limeriques moralistas

Havia uma estranha prostituta em Vacaria
Que nenhum cliente na esquina conseguia
Perguntavam: Cê faz programa?
“Não! Só boto o cliente na cama”
Aquela maternal prostituta de Vacaria

*

Havia um crítico de cozinha em Viçosa
que anunciou de forma escandalosa:
Chega de analisar chucrute,
Gosto não se discute!
E nunca mais resenhou nos jornais de Viçosa

*

Certa vez um jovem chamado Diego
Participou de uma sessão do Descarrego
Lá fez um amigo perneta
Que se disse filho do capeta
O que muito impressionou o jovem Diego

*

Havia uma idosa peculiar em Santa Maria
que repudiava a prática da monogamia
quando via um jovem casal
corria a repudiar o tal:
não fuder geral é uma porcaria!

*
Havia um grupo de jovens tuiteiros em Pelotas
que problematiza cada ação alheia à sua volta
quando um deles morreu sem aviso
puxaram logo uma tag de improviso:
#nãosejarude, avise antes de bater as botas!




11 de abril de 2020

Era no tempo dos animais:
eu me jogava de prédios
para poder elogiar-lhes a forma
naquele tempo ainda podíamos
ir à praia com nossas bicicletas
imaginárias e sonhar que o Capital não existia
não havia oriente ou ocidente
só um sol violento
que nascia e se punha
cada dia em diferentes olhos
agora está tarde ainda que dia
ainda que ardam lá fora os entregadores e motoristas
está tarde, entendamos de uma vez

Alguém, sei lá quem, não te ama
foda-se! que importa isso 
num mundo destruído?

continua necessário fundar
novas formas de fazer a linguagem
o amor o trabalho a revolta
nada de fato mudou - se prefere pensar assim
só baratas e banqueiros brasileiros sairão felizes desse século
e já não temos mais a lanterna de Millôr Fernandes 
de resto, ficará tudo bem.

Era no tempo dos animais:
as lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos



1 de abril de 2020

Diário da Quarentena

Gostamos de contos de fada porque neles os personagens estão todos integralmente ligados por afeto, as pessoas estão próximas, os vendedores de determinado produto não costumam ter concorrentes e se existem, são amigos e poucos
as vilas habitam a terra que sequer sonha que exista um dia algo chamado cidade
quiçá sua explosão muitos e muitos anos depois

Um conto de fadas (qual?) vai entrecruzar a história de Mariana e Antonieta. Acho até que, Antonieta, usando uma terceira pessoa, pode ser a narradora da história, deixando marcas disso nos capítulos em que é personagem narradora da história principal do livro.

Ideia para um personagem I
Sinceramente acho que deverias ler o Auto de Fé de Canetti e todos os outros livros que dele tu tens. Principalmente aquele sobre composição de personagens.

Ideia para um personagem fabular II: um jovem nobre do vilarejo. Seu nome é Anastasia Homero de Bolinhos. No dia em que chegou à vila, escapou de falar a todas as pessoas, inclusive a dona do pensionato que o abrigou; por meio de sinais e acrobacias com os olhos, combinou pagamento e o período de estadia. Não deixou que perguntasse seu nome; interrompia sintaticamente antes que elas pessoas chegassem ao ponto em que revelavam não saber o seu nome. Isso era um completo absurdo para ele, como alguém poderia não saber quem era ele, como alguém poderia desconhecer seu nome completo e, conhecenxobseu nome completo, não o chamasse pelo seu nome todo belo pleno todo? Ai, era muita agonia. [CONTINUAR A HISTORIA ATE QUE SE CHEGA A OUTRO PERIODO DE TEMPO, ALGUMAS DECADAS A FRENTE. AGORA ELE JA INTEGRA A NOBREZA DO VILAREJO NOME VAGO INVENTE UM, E POR ISSO todos hoje o reverenciam, cumprimentando-o respeitosamente, incluindo sempre a menção a seu nome:
-- Boa tarde, senhor Anastasia Homero se Bolinhos
-- Bom dia, nobre Anastasia Homero de Bolinhos!
-- Bons dias, camarada Anastasia Homero de Bolinhos!

28 de março de 2020

confissões II

meu primo uma vez
caiu de moto fazendo uma curva
numa estrada de terra em Joaçaba
Neil Armstrong já pisou na Lua
mas Armstrong
nunca derrapou de moto e caiu numa valeta
que nem meu primo de Joaçaba
dê-me logo essa folha seca de teu herbário acidental;
tudo já aconteceu para ela, e isso é o seu bonito
o que vem depois do depois chamaremos de mistério;
a lua está gigante especificamente nessa noite
grávida de um eclipse que só pode ser visto
em dois ou três estados norte-americanos e
em dois ou três bares da Zona Sul da cidade
a depender dos equipamentos de que as pessoas dispõem
e também da marca da cerveja que vocês pedirem;
o próprio acaso trata de ser desigual e injusto em quase tudo
porque esperaria eu que algum sistema econômico, qualquer um, assim o seja!
sabe quem mais nasceu em Joaçaba?
Rogério Sganzerla!
na minha cidade só nasce boçal;
que pena nunca poder abraçá-lo
tudo já aconteceu para ele, e isso é o mais fudido;
seus filmes agora são puro mistério;
me lembro ainda dos dias em que marcamos de ver um filme
e ao fim ou durante transamos;
mas ou só lembro do filme
ou só lembra da foda
e isso é o mais comprido:
não obedece a memória à ordem que lhe desejamos impor
olha bem essa folha inesperada que te apareceu no meio de um livro no meio da tarde qualquer
qualquer a tarde, claro
pois o livro é especial:
dentro dessa relíquia achado no sebo
há um João e uma Dora
há um motivo e uma data
para aquilo que, antes do impresso,
vai manuscrito a caneta azul:
meu amor, com amor, para que etc etc te dedico
tudo isso é muito valioso para alguém em algum canto
não faz sentido para nós, mas podemos curtir esse espanto:
ainda há quem seja feliz além do muro que somos
espera um pouco
escuta esse barulho
há um homem pousando na lua dentro de meu dedo mindinho
ora que diabos, logo dentro do dedo mindinho! que disparate
escuta, espera, escuta esse barulho na nossa lua
não sei se de escape de moto ou foguete espacial
parece mais como um carro ou charrete
um caminhão, há um caminhão que passa aqui na nossa rua
é o caminhão que traz o lixo para casa
ou será o que leva?
conheço bem esse cheiro, e isso, dessa tristeza toda, é o único barato:
é o caminhão que traz o lixo passando por dentro do meu quarto

9 de março de 2020

confissões



podes ir, tranquilo
não restou um
único grão de ti comigo
nunca te contive nem
fui contido porque
isso de amor como moeda é heresia
o que se passa é que viajamos muito
roçamo-nos sempre
que foi possível
sem nunca se afanar
pois impossível
sequer pensável;
aquilo que viola omite e fere
não perturba o que se é
matéria que não se monta
remove nem desfragmenta
caminha certeira ao
ponto de ônibus mais próximo
e que vá até mais longe
no caminho as culpas
servem de passatempo
é bom jogar palavras cruzadas
& tudo que é bagunçado
onde se aprende a se equilibrar melhor
na matéria das memórias, toda ela
invenção e lacunas e areia
cada culpa uma árvore suspensa
e cada fruto a esconder uma palavra
que apodrece e emana
essa imensa sensação de que algo
foi aprendido em certo onde e quando;
nada, não fiquei com absolutamente nada
nem acho que levastes alguma coisa
é difícil alhear-se dessa ideia de que o corpo
e o que fizemos dele são feitos da mesma coisa
não são; e sequer o oposto (praias distantes, estrelas que não se reconhecem)!
o que fiz e o que fizemos não têm cheiro, não saem em fotografias
não afundam nem boiam no mar
fique tranquilo e não temas as folhas
e crisálidas e papeis de bala nem vibrações no celular
nada perturba, nada se alterou
há algo que segue, por mais que negue ainda
seu próprio nome, peso e história e só se deixe entrever
por vezes em oração, em confusa memória,
em sonho ou aleatória sensação,
que uma árvore ou palavra
- num dia estressado e vazio -
rememora






imagem: "A conversão de Santo Agostinho", de Fra Angelico.

3 de março de 2020

É difícil amar alguém e voar
ao mesmo tempo
e é por isso que as abelhas
quando copulam
caem por vezes ao chão
de asas amassadas
se esfregam na relva
do jeito que dá

(gentes às vezes se amam
em horas erradas
pois eram as horas
que havia pra se achar)

As abelhas às vezes se ligam
e marcam de se encontrar
não no bar da esquina
preferem a lata de refri
no fundo do saco à beira da praia
onde bêbadas de sacarose
transam com raiva

o abdômen do macho
se explode em seguida
e por isso ninguém
acha absurdo e nem fica triste
ninguém guarda memória
nem chora pensando em dias passados
vai a vida assim feita só dessa matéria
toda mel e morte, amor e antenas




18 de fevereiro de 2020

SONETO BOOMER

no meu tempo era assim: elis, cartola, tom jobim;
mamãe provia tudo, exceto papai no retrato
vivia-se feliz sem rap, funk, todo esse festim
enquanto o pão se cortava sozinho no prato

era tempo de muito mimo e pouco mimimi
divas usavam a voz e não a bunda nua
maysa y nana ninavam meu dormir
enquanto o lixo se levava sozinho à rua

a memória das pessoas e erros é difusa
só lembro com gosto erasmo, cauby, belchior...
se não lembro, não houve... para que escusas?

se me explodi em ódio e agulhas, não lembro
a vida e o rádio apagaram, tanto melhor,
sobraram só privilégios, chacretes, dezembros.

11 de janeiro de 2020

CANAL 2020

Boa noite, Brasil
brada Willian Bonde
para o espanto de sua
colega de bancada
Todo mundo já está
sabendo por suas redes
que o jovem Carlos Eduardo
desapareceu após uma abordagem
policial em um
bar em Jundiaí
informa Willian Bonde
enquanto balança
para cima os braços
com o que resta de
profissional em sua
humana esperança
O jornal não vai pra frente
enquanto ele não voltar pra casa
já vou logo avisando
diz informalmente
Willian Bode enquanto
Raquel Chegamais,
sua colega de bancada,
avisa aos telespectadores:
A novela não vai começar;
a CBF já foi avisada:
talvez a rodada do brasileiro
atrase um bocado
nos estádios o telão
exibe a reportagem ao vivo
e o povo - apreensivo -
lamenta a pausa no jogo e balança as bandeiras do time preferido
enquanto cantam em coro
Onde está
Onde está
Onde está
O torcedor?
Como eu
Como eu
Como nós
Onde está
O garoto?
o canto maior
se atravessa
por outros dois
desordenados
Onde está?
Onde está?
Negro como eu
Negro como não sou
Onde está (por favor!)
Quem o levou?
Ôoooo Oooooô
corta-se a imagem novamente
para o estúdio, onde
Rachel rói as unhas e Bonde
descansa um braço no queixo
Não sairemos daqui enquanto a mãe
desse menino não nos ligar
Alô Polícia Militar
Alô Jundiaí
Alô você aí que
de qualquer canto nos
vê e ouve
Nos importa saber o que houve
mais do que qualquer cena
mais do que qualquer talkshow
Eu não estou com sono, diz Bonde,
Eu não estou!
enquanto puxa por debaixo da bancada
Uma térmica de café
Onde é
Onde é
Onde é
Que Cadu está?
Ao que parece, querido público,
Ainda estamos confirmando
a informação, diz Rachel Chegamais,
Que, para além da busca por Carlos,
Uma menina - sim! - uma menina foi morta
no sofá de casa por uma bala pública
Isso atrasa um pouco mais a programação
Mas vamos que vamos:
perdida é minha vida amorosa
perdida é a lateral direita da seleção
essa bala é autografada pelo governador
pelo prefeito pelo vice prefeito
pelos vereadores eleitores torcedores
por todo Bonde parado
por todas as Chegamais lamuriosas
lamentos não servem pra nada
quer mudar pro canal pago?
muda, então, campeão,
nessa emissora não tem beijo técnico
nem gol de placa
enquanto Carlos Eduardo
não manda um sinal analógico pra casa
Esperem um instante
estamos com o governador na linha,
querido público,
talvez haja novela hoje
se ele começar sua fala
pedindo perdão
e a encerre algemado
antes das 22h
tenhamos fé
eu mesmo estou louco
para saber se vai acontecer
ou não o casamento
de Muriel e Muriçoca
se Muriel vai assumir
os filhos que fez
se Muriçoca vai enfim
pagar a porra da pensão
diz, dando à câmera uma piscadela,
Willian Blonde
Talvez haja jogo hoje
diz Rachel Churumela,
se cair o depósito
aos pais dos meninos do Ninho
até umas 23h quiçá
eu não vejo a hora
disso acontecer
diz ela
enquanto o Brasil afunda-se
um pouco mais no sofá


9 de janeiro de 2020

pesei bem as coisas
o que vivemos
quem somos
dois elefantes
3 caminhões
recheados de
eletrodomésticos
descarregados
pelo próprio
luciano huck
uma jubarte
os quilos todos
que a ansiedade
me trouxe
os dois caminhos opostos
para onde vamos ausentes
e, sim, vale a pena
pagar para ver
o que vai ser da gente

*
um quilo de pena
pesa muito mais
que um quilo de fé
meio quilo de pena
& culpa já serve
para soterrar uma vida
um quilo de pena
pelos quilos de ferro
e resíduos no fundo
do Rio Doce
um quilo de culpa
pelas pessoas que ferro
com meus quilos de erros
desculpas não adiantam
de nada. desculpas são leves
e flutam no ar
como pólen podre
as penas, as culpas, essas
afundam barcos na chuva
e paixões no mar







6 de janeiro de 2020

Soneto das sete

Ligamos a tevê e na novela
Passava nossa história zuada
Os figurantes no fundo da tela
Fingiam todos não saber de nada

A cena do beijo saiu bonita
Porém, o diretor da obra, pirado,
Entra no set, dá cambalhota e grita
Refaçam o esquema, tá tudo errado!

Roteiro de amar é nunca saber,
Ah! A gente podia - se preciso
Chamar pras cenas tristes dois dublês

Roubar banco, ser zumbi, amar você
Levar a vida em doido improviso
E ainda por cima ganharmos cachês

22 de dezembro de 2019

leituras afetivas

tomar um café da manhã na casa
da infância de Adélia prado

(o olho de esguelha
no pai de Adélia
a ver se era mau)

voltar aos anos vinte
pra almoçar com Fernando pessoa
em algum restaurante barato e discreto
perguntar mais do que as cartas
sobre Ofélia
perguntar se amava-lhe mais
a robustez dos braços
ou o nome afogado

tentar chegar a Ítaca
montado numa bicicleta
furtada de algum filme
de jacques tatit
e se não for lá isso tudo
voltar e declarar
o enfraquecimento do mito

tarde da noite ligar para ana cristina César
mijar de cima de um poste
observar os garotos alados na noite
de São Paulo
cerveja na mão como se chama?
eu me chamo roberto piva

rodar o Rio até se deparar
com a beira da praia
ou com rubem braga

alta noite, piscar para
a lua leminskiana
sem lume e sem namorado
& já bêbado e moribundo
bater cansado à porta de Adília lopes
em busca de amorosos conselhos

9 de dezembro de 2019

os pássaros ultimamente
têm acordado mais cedo
como nós - exaustos
ainda bonitos
ainda intensos
ainda cantam
              cantam
cantam
derrubando frutos das árvores
e postes de luz
ainda cumprem a noite por toda parte
só não inventam
como dantes

31 de outubro de 2019

preciso ser breve, essa página aqui foi tudo que consegui. o meio de um livro de poemas não é o melhor jeito de isso chegar a você mas é só o que pude fazer. agora que já não podemos nos encontrar nos antigos espaços
& falamos aqui desse pós-mundo

apesar do teu nome, da sua etnia, do seu local de origem, apesar de sua conta bancária e arcada dentária e programas de tv preferidos e práticas íntimas e posições ideológicas e formas de retirar o cheiro que o corpo suado exala sobretudo em quentes sábados de esperas infundadas
                                    gosto de ti
há os crimes e toda sorte de deslize moral.
tanto tanto que gosto de ti
há a padronização programada de tudo
do botão da roupa ao desejo de fuga
acima e abaixo disso gosto muito de ti
há a linguagem e tudo que ela não pode abarcar e que mesmo assim existe
a despeito das questões biológicas
do vírus que, sem célula, consegue rir em nós
pelos teus ossos me sinto atravessado
respiro mal à noite
faleço às vezes pra ser carregado por ti por muitos meses depois quando acordo não agradeço


*IMPORTANTE*da próxima vez voltarei no verso do rótulo do requeijão que você sempre compra desculpe o trabalho foi o único plano que consegui pagar na agência existisse amor diria que a amo muito

18 de outubro de 2019

bilhete

contente por estarmos no mesmo século
poder gostar e desgostar-se
ser estranho e ridículo um ao outro
cruzar numa esquina e surpreender no passante um bocejo
mais nada
ou talvez também o desejo de bocejar e dormir
não mais que cruzar a esquina
que seja duas
cruzar duas esquinas cruzar três cinco esquinas juntos sendo isso admissível
que seja se conhecer e se amar e julgar e servir
que sejam
ver-te muito moça ou muito idosa na arquibancada do seaworld
aplaudindo um belo salto ou acionando os explosivos para demoli-lo
em algum documentário a favor ou contra a execução de animais
ser figurante na novela das 9 numa cena que vc vê de relance
na padaria numa cidade em que você está de passagem
poder compor uma memória
contente por estarmos no mesmo século
pois isso sim é raro
viver o mesmo tempo de tantos nomes que poderíamos ter sonhado
mas nem sequer chegamos perto
pergunte aos mamutes

22 de agosto de 2019

Louvre

afundar           
        a mancheia
   n o   e s p a ç o   f i n i t  o  &   i n f i n i t o
                                                      d e  u m   s a c o   d e   f e i j ã o
memória daqueles dias
                      que sequer deixaram marca
                                                        a não ser esta:
                                                        cravada por vós 
                                                        com máximas unhas
                                                        sobre a carne

                       lá onde só os sóis espalmados de tuas mãos batem

& assim conheço 
em silêncio, via vós
o pelo de aguerridos animais
prestes a desaparecer
viva voz
que nunca ouvi e nunca ouvirei

                                       pela boca suas mãos meu focinho
                                       seus cabelos entre os dentes
                                       sempre esse eterno retorno de tudo à boca
                                       com sabor de apocalipse

& assim aprendo:
há um saber do corpo
a custo e cuspe aprendido
& então sei por que
bailarinas enlouquecem cedo
e médicos bonachões chegam aos 90
abrindo corpos, costurando tecidos
a fornecer dicas das melhores formas
de sugarmos a si e ao mundo por nossos tantos orifícios

                                        memórias do que não tive
                                        porque estava, me lembro, me aprazi
                                        mas na ocasião não pude nomear
& assim lembro
que ontem estive no Louvre
cuja fila infernal nunca peguei nem pegarei
estar contigo:
furar a fila enquanto se carregam
os celulares máquinas dentes todos
& naquele instante preciso em que todo mundo pisca
levantar o saiote de monalisa e surpreender-lhe as coxas

11 de agosto de 2019

eu ontem vi um filme muito louco: um velho homem e sua filha a habitar o deserto norte-americano, vivendo às custas de um posto de gasolina fodido de tão vazio. por um par de dias ele faz grana sendo papai noel na cidade grande e, nos outros todos dias do ano, não faz porra nenhuma e oprime sua filha - adulta -, cuja única alegria é ver televisão - daquelas pequenas, umas 10 polegadas, e cuja tela é esverdeada - o pai se nega a comprar outra - o dinheiro, sempre o dinheiro. ali pelos 15 minutos a filha decide fugir na carona de um maluco qualquer que passa pelo posto e o pai, puto, papai noel vadio, vai atrás dela na cidade grande. acho que é aí que a história começa em si, não sei, não vi, larguei tudo pra te contar que ontem quase vi um filme aparentemente bem loco & que você deveria ver e se possível não largar como eu, que largo quase tudo ali pelos 15 minuto

larga-se uma semana
um dia um prato uma carreira
a recuperação de um sonho talvez mais complexo que a vida fora dele
uma tarde e um casamento
ali pelos quinze minutos
pra mais tarde assistir no youtube o resumo dos melhores momentos (só as mortes e os nascimentos) a despeito
do mais importante - o recheio

não beleza: complexidade, morrer de ficar perplexo
você rimbaud arrombado
sentado no colo da perplexidade
viver contigo a hora mais medíocre - o recreio

amanhã mesmo vamos à avenida
em horário de pico
com uma bola de volei
atravessando-a até formar um time

parece que estamos no segundo país em que os computadores mais passam tempo nas pessoas
um país em desenvolvimento precisa de doces, de likes
e o presidente é o biscoiteiro mor
um afago de microssegundos
timing perfeito para essa vida de 15 minutos
quando morrer, quererei um bilhão de curtidas sobre minhas cinzas

eu me lembro quando era pequeno e perplexo diante do anúncio da marca de colchões:
"o ser humano passa um terço de sua vida sobre um colchão"
que louca fantasia!
que assunto mais batido, o tempo!
mais que as palavras de amor e trabalho
de 15 em 15 minutos sondando
o que não tem matéria, nem forma, nem fundo
é de um jeito ou outro investigado até que fechamos os olhos e abrimos noutro século

8 horas de sono só para os mortos
isto se não houver obrigações no pós-morte
(alguém precisa desligar as coisas e
limpar tudo antes do vento varrer)

li numa reportagem que em países desenvolvidos é grande a porcentagem de pessoas que creem ter findado o poema e que chegam a julgá-lo perfeito ou odiento até perceber que há uma outra página e talvez mais outra - não há espaço no mundo para doenças reincidentes
dá-me logo o melhor dos teus ataques fulminantes
não li até o fim, não sei, sei por cima
gostava do tempo em que os animais falavam e nos amávamos como bichos
sem filmes, sem celulares, com o sol como referência das coisas


26 de maio de 2019

pérola negra

tente entender por que como tijolos
- não é difícil -
acordar cedo
e sem metáforas e dinheiro
pro almoço
por-se a caminho da olaria
fazer os tijolos pelos quais
nas horas de folga
pago - e como.

saber pelo rádio que há nações distantes
nas quais se lançam tijolos
sobre tudo que se move,
afeminado e ingênuo,
rebelde e lamacento,
sobretudo contra oleiros que se movem.
tente entender por que como tijolos
apesar de tudo isso
- não é difícil -
comer a pedra angulosa desses dias
porque já nasci assim, no barro.

ouvir dizer que há sites distantes
nos quais se paga
para se debochar uns dos outros, encastelados.
sei que, a princípio, parece difícil
aceitar que se comam
as pedras encontradas pelo caminho
sem construir coisa alguma de valor.
tente entender por que como tijolos.
não é difícil.

22 de maio de 2019

julieta de juliet, romeu no home studio

os capuleto tão puto:
julieta tá de juliet
dando rolê sem avisar quando

coitados dos montecchio:
há muito não veem romeu,
trancando no home studio

julieta trabalha de manhã
e à noite estuda
faz design, faz letras
depois muda
um semestre de medicina
dois de engenharia
atura só as primeiras matérias
cálculo 1 história da loucura anatomia
com o saber básico de fundações
constrói uma microcasa
que cai todo dia
quando acorda pela manhã
julieta mora lá onde os amigos não chegam
e acorda sempre na mesma hora
esta em que nenhuma música combina
e por isso muda e muda e muda
até surgir uma mais ou menos de que gosta
e então printa, edita e posta

renascentista pós-moderno
romeu faz de tudo um pouco
mas tudo que faz
fica meio merda
estuda pinta e borda
cozinha xadrez
compõe beat trap
faz música erudita
trancado no studio conta as estrelas
fantasia a teoria de uma terra plana
elabora um possível domo, mede a borda
lê os beats e compra bitcoins
faz fotografia edita e posta
e a despeito de tantas recompensas
ele acha - sem ofensas -
os likes as coisas que diz os beats que faz
uma bosta

julieta de juliet, romeu no home studio
eles até se conhecem
curtem fotos um do outro
mas nunca saem juntos
quando julieta tá viva, romeu tá morto
quanto romeu tá a fim, julieta tá morta
ela então põe a juliet
& se joga pra rua pulando a sacada
ele então tranca a porta
& compõe pra seu gato uma serenata

os capuleto tão puto:
julieta tá de juliet
bebendo veneno e fudendo sem avisar onde

coitados dos montecchio:
há muito não veem romeu,
fumando e fudendo teobaldo no home studio

20 de abril de 2019

febre amorosa

malditos mosquitos
como é que explico
a quem amo
o medo que tenho
de todo tipo de malária
sem me complicar
sem me assumir
sem dizer que morro
romantizo e me deprimo
e o amor no meio disso tudo
arde entre outros sintomas
em confuso amortecimento
e quanto mais minguado fico
mais minto
mais morro
mais sofro
de males e dores diversas
padeço somatizo definho
ao meio me divido
num amor de plástico que
quebrado em mil pedacinhos
volta à forma só após 3 dias
       de atestado
sádico
ai a misteriosa marola de passagem pelos dias
pudesse eu me declarar honestamente diria
te amo com toda a minha hipocondria

7 de abril de 2019

rascunho acaze nº boom

eu sou poeta
encaro sem enfado
a página em branco
e digo: hoje não tenho nada a dizer

amo o silêncio
e aceito a falta de imaginação
como parte do fado.

escolha a palavra com cuidado
com peso redobrado
uma por mim
outro por cada polícia
que não a utiliza
antes de no pobre atirar

eu sou poeta
leio os gregos do jeito que posso
com todas as crises e limites
e toda minha ignorância
imagino os africanos
os poemas somente cantados
para sempre presos
na borra do café

sou muito amigo daqueles que
por aqui nunca serão traduzidos
dos que pensam em versos de pé no ônibus
e esquecem ao primeiro beliscão do patrão

acredito sobretudo nos que se movem por paixão;
antes de qualquer ofício, nome ou diploma
o afinco e amor pela forma
do bolo, dos pães, dos poemas, dos raps,
das vendas, plantações e matemáticos sistemas
sou amigo do Michelangelo dos portões eletrônicos
e amo a obra completa do X-salada
(aquele ali ao lado da danceteria)

o bardo vaidoso talvez dissesse,
"eu trabalho com a linguagem,
e como poucos outros
posso conter o mundo em mim"

o bardo vaidoso é o fura greve da arte;
alguém precisa contar a ele
que foda mesmo só arquimedes
e sua alavanca
o resto é literatura...

eu sou poeta
acaze é poeta
jesus cristo era poeta
e amava o silêncio
      - não mais que o vinho o pão os peixes & maria madalena
mas amava

9 de março de 2019


e no fim ainda me disse
que só ferindo ou sendo ferido
sentia-se vivo
mas aí já era tarde
duas da tarde
e por isso eu já tinha morrido
sob o sol violento que cortava a praça
em duas
duas facadas tardes
e eu sob os raios de sol
ultraviolentada em duas
e mais duas
e mais duas
mulheres que ele não dissera que tinha
e no fim ainda me deu
uma rara violeta
que só às duas horas da tarde
ferina ou fudida
floresceria
mas aí já era tarde
e por isso
não não há por isso
e por ele
por violência dele
eu morri e ainda morro

22 de fevereiro de 2019

primeira poética

alguém fala, neste momento, o que aqui vai escrito 
e por isso apanha e por isso morre
e por isso outro alguém é condecorado e invejado
cuspido e escarrado

alguém fala, neste momento, a uma legião desinformada
o que você rabiscou na parede quando era pequena
você não lembra
mas o povo sim, e se exalta
e no fim o esfaqueia por trás
e aceita uma nova promessa

alguém sugere, neste momento, a um idoso
o que não te disseram quando criança
e por isso morrestes a pontapés 

alguém mastiga sua boca 
por dentro para não dizer
o que aqui vai escrito
o que disse a um amigo
encontrado na rua
o que você e eu podemos dizer e tanta gente não pode

alguém devia estar falando em nosso lugar

alguém falha,
sabes muito bem quem,
ao falar.

21 de fevereiro de 2019

aquilo que foi dito no ar permanece
e já há nações preocupadas
com a questão do descarte

gente dentro de casa
soterrada nos próprios pensamentos
torneira aberta fechadura travada
eu vou gritar até esvaziar esse lugar
& o corredor de casa deixar de ser
essa pista de dança apertada

aquilo que foi dito no ar permanece
casas mal assombradas
são aquelas vendidas
pelos filhos

os mais ricos possuem hoje em dia
luxuosos cômodos onde
(diz-se)
nunca ninguém disse nada

aquilo que foi dito no ar permanece
e não raro na boca se toma o discurso de outrem
que as pessoas escondem
como arrotos ou peidos
não raros

alheio a essa e todas as outras leis humanas
o sagrado paira, pluma, plana
de galho em galho
de planeta em planeta
e sem plano
pousa no cerne do que for
carne ou não

12 de fevereiro de 2019

querido chico,
o ministro do meio ambiente acabou de dizer na tevê que você é irrelevante ai se o mundo se tomasse de seringueiras um mundo sem cidades e ministros onde o ambiente pudesse enfim, num enleio, tornar-se inteiro. quem sabe aí poderíamos apagar o sol e jogar as chaves do céu fora uma seringueira vive por mais de 200 anos que jovens elas são! os seringueiros só morrem no fim do mundo eu tenho certeza o ministro dorme de sapatos, chico mande o abraço mais apertado para dorothy & todos

é tempo de versos de circunstância
parece que estamos a nascer e morrer
várias vezes por dia todo dia
uns lamentando, na tevê, a morte dos outros
outros lamentando, no sofá, a destruição
                                       de alheias casas

4 de fevereiro de 2019

ninguém disse que o moderno seria novo
nem que o novo seria novo
(ninguém disse mas noticiaram de novo)

todo dia a gente faz tudo sempre igual
e de novo e de novo e de novo
morte às galinhas eles querem o ovo apenas
apenas o ovo a custo de tantas forem as penas

ninguém disse a real lição de todo ovo
que no meio de toda pedra e de cada sapato
                                                                      há um ovo
todos ouviram a sujeira dita das tribunas
mas na transmissão omitiu-se a letra P
de política partido e povo
de novo

13.467 - mixtape trabalhista

horas-vagas
a custo de nosso trabalho
o mar descansa
/
quando eu teço, eu teço
não penso, não amo & nem ligo                                                                                                           
pro apito da fábrica de tecidos
\
& se a gente de repente
por acidente
se aposentasse junto?
/
e que tal? nunca faltaria assunto
se fôssemos desligados juntos
do quadro funcional
\
é tempo de atualizar a lei trabalhista
operários cegos retiraram na calada da noite
os pingos de todos os Is
/
o fazendeiro não contratará espantalhos
conta naturalmente
com o trabalho informal dos passaralhos
/

27 de janeiro de 2019


mil milênios num só nesse agora
das bocas apenas
a linguagem de passatempos
sem posses e saber
mesmo assim todo segredos
só a linguagem
toda ela epi & anagramas
a gente segue sendo contrassenha

será que veremos um dia 
                            a história resumida a gifs
só com você eu aceito dançar naquelas                                                                     boates
onde os seguranças de boates
nos seus dias de folga
saem para dançar

sim
olhar é uma arte bonita
parece natural que haja concursos premiando os melhores colocados
e que os melhores não olhem


*imagem: "truth fiction"(1990), de leonílson