27 de setembro de 2020

Temporada

um telescópio urgente

um telescópio urgente adentra a noite dos meus olhos

já não há mais onde se esconder 

sobre cada uma das pessoas do passado

há um documentário netflix

a senha da minha conta

é a mesma do meu banco:

um nome um lugar uma flor

orides fontela helianto 

a situação do marxismo? deixa eu te contar

a quantas andas o marxismo do meu domingo:

o estômago contra o coração

as mãos ansiosas escondidas atrás da nuca

os pés sob as cobertas

o rosto, imenso, colorido, sorri nas redes sociais

morte declarada a todos os órgãos internos

acomodados, privilegiados,

enquanto pernas e braços estão na rua

dando-se à tapa

cada parte do meu corpo tem a sua luta

alheia a história dos meus dias e enganos

assim como cada animal tem a sua luta

alheia às mil lutas dos homens

precisamos, por exemplo,

falar da situação das teias de aranha

você vai trabalhar, sair com os amigos, jogar, cantar,

ninar filhos, aplainar solos, comprar títulos

e não falar sobre o que se passa no seu banheiro?

os padrões dos azulejos furtados todos das aranhas

seu lençol trançado seu casaco caro

tudo roubado descaradamente das aranhas

tarde da noite você chega bêbado

arrastando cadeiras à procura do chinelo

achei, está aqui, mata mata mata mata

esmaga o inseto do dia depois tira a roupa

e trata de conversar sua espécie sobre a extinção de outra

a senha do meu gozo é: alegria

a senha da minha alegria é a mesma dos dias:

agonia bressane vigilante

um telescópio urgente adentra os bueiros da cidade

a poeira acumulada nos cantos do banheiro

aranhas cabelos os pelos todos do corpo

com as demandas todas de homens e bichos

façamos um canto urgente

para que o refrão nessas canções todas?

o passado está sempre conosco

depositado num banco do qual 

o trabalhador não pode sair

para que o refrão nessas canções todas?

é que transformo em canto

tudo aquilo que eu não sei guardar


17 de maio de 2020

Vila Aparecida

oceanos nos atravessam
não te vejo nem perfumo
sei-te ilha e aceno para o ar
de minha janela em vão

tenho muita fé
e sei brilhar algures um gesto
farol aleatório
possamos ou não
queiramos ou não
só nós podemos fazer

aquele dia em floripa
uma placa/piscina se engraçava à janela
letras coloridas e um telefone
saído de filme norte-
americano, água nenhuma,
 1-800-6740-algo assim
brasileiros que somos
sabemos fontes doutro jeito
jorro e nada, jorro de nada na cara
você lá mais não mora
não mais nos ligamos
mas daquela janela ainda brilham
em miniatura os barracos no morro
a sintaxe segue dura e burra
- a aula de dança fica sempre para
semana que vem

milicianos nos atravessam
não te piscina a vida sequer sofá
penso números que não atendem
sonho feio e mergulho para o ar
de minha ilha em vão



13 de maio de 2020

variação II - Itaú

Era no tempo dos animais:
eu me jogava de prédios
para poder elogiar-lhes a forma
naquele tempo ainda podíamos
ir à praia com nossas bicicletas
imaginárias e sonhar o fim da distância
não havia oriente ou ocidente
só um sol violento
que nascia e se punha
cada dia em diferentes olhos
agora está tarde, mas ainda arde o dia
e, por trás dos prédios, a mesma linha 
do horizonte lembra:
continua necessário fundar
novas formas de fazer
o afeto o trabalho a revolta
nada de fato mudou - se assim prefere
já não temos mais a lanterna de Millôr Fernandes
mas ainda cisma a ferramenta linguagem
peça de todo máquinário 
mãe de todos os dedos, credos e sistemas 
o nosso Que-dá-nome-às-quedas-&-partos da Silva Nhe’eng Dimatekenu 
pela linguagem renascemos e do futuro a vós falamos

28 de abril de 2020

Sonhário

cada de um nós aqui
sabe mais do teu rosto
do que você mesmo
mas não se preocupe
com saberes alheios
ocupado que está em
saber um pouco mais
do rosto de cada um 
de nós por sua vez
/////////////////////////////o trabalho dos sonhos se cumpre por toda parte, uma legião de continuistas, camareiras office boys passadores de pano advogados de porta de cadeia editores de vídeo corretores de texto coloristas gandulas e ex amores se reveza assim que se corta a última luz: tarde da noite, passada já a hora do descanso recomendada ao trabalhador assalariado, nabucodonosor liga para daniel: mas não há como contar o sonho, nabu está bloqueado, a central de telemágoas está lotada e não quem nos desvende os símbolos - que fiz eu para daniel? questiona-se nabu, posto que o magoante também se magoa.
/////////////////////////////
amar, sonhar, isso são
coisas para rainhas e zangões
operárias, jovens ou velhas, trabalham;
fora da colônia, (e somente fora dela, conforme resolução ISO 4545)
as rainhas usam um perfume extraído dos sonhos como atração olfativa 
à qual os zangões, por mais maduros e (d)escolados que sejam, não resistem ////// é a ansiedade um sonho sem símbolos - duro e repetido trabalho que não rende qualquer mel - não há qualquer terra prometida que renda leite e mel sem trabalho duro de cativos - não entre os homens ao menos
///// há, porém, um planeta não tão distante de onde criaturas nos observam - reverencia-se o abelhocentrismo e toda espécie pacífica de superorganismo - a humanidade é estudada como praga abelhuda. 

a matemática das abelhas, a engenharia das abelhas, a linguagens sensorial das abelhas.
sylvia plath tinha uma caixa de abelhas no lugar do coração,
pesada demais para se carregar (seu pai a colocou lá um dia e depois sumiu)
o poema o sonho e a memória se amigam na confusão - de minha parte sonho em escrever muitos livros para dispersar xingamentos contra Ted Hughes e todos os homens horríveis mas com um lado delicado que conheço.


20 de abril de 2020

Soneto Desmatado

o fim das árvores é o fim das abelhas:
o homem que corria por trás dos arbustos
nos sonhos agora em nós se espelha
e por isso XXmos cinzas, sem sustos

o fim das abelhas é o fim das árvores
X  ritmo  X   X   X   X   X   do  própolis
mas nem tudo se perderá com os hectares:
insetos virtuais zunirão nas metrópoles;

haverá ainda bancos e herbicidas
mil &uma vilezas empresariais
não mais fé, pinhões, discos de Emicida

haverá ainda X redes sociais
resistirá no pós-pólen alguma vida
meu corpo sob o teu, contudo, nunca X


19 de abril de 2020

Soneto Terrasamba

Tem coisa que não se nega a ninguém:
mão, sorriso e um real para o pagode
é bom saber dizer não, veja bem
mas negar um realzim não se pode

Passam-se anos e planos do Mercado
Passa-se a vida toda na manteiga
Só não passa a vontade de um trocado:
dançá alienado até dizer chega

Veja bem, mano, me dá um real
esqueça a inflação por um minuto
esqueça o grave quadro social

esse axé tem um pedido amoral:
para ser feliz só te peço um puto,
um real pro pagode, aí, namoral







Retrato de Maria E. Ibarrola / Ekphrasis¹


Tinha as mãos atravessadas por cruzes
e jogava o jogo possível² para sua época:
à mão já tão ferida por facas e pedras
quis acrescentar os calos de pintora
Olhos escuros e fundos, a parecer desanimados
era importante manter o lume por dentro
havendo tantos exemplos de mulheres apagadas
por quererem olhar, pintar, trabalhar, estudar, partir sem rumo
Não se sabe se era rica ou pobre, se aprendeu a desenhar sozinha
ou recebia classes, sendo então abastada, ou se aprendeu a desenhar
no convento desenhado em seu único quadro disponível
O que se sabe é que não pintou muito, sua pobreza,
e que gostava de olhar as coisas, daí os olhos bonitos, sua riqueza, e o cabelo
sempre bem amarrado ou o mais curto possível
Não, certamente ela não fez seus estudos nesse convento, embora transpareça
imensa simpatia pelo que pinta: seu interior, cujo pátio está ocupado por outras
três pessoas: um religioso, com um balde no braço e as mãos em posição de semeadura, como quem cuida das plantas e diz: esse convento, de algum modo, ainda vive, apesar de ocupado pelo mato - inclusive heras que descem pelas janelas, abrindo possibilidade de que o convento esteja em um momento de abandono e decadência
mas não desuso: esse padre que semeia anuncia à outra pessoa adulta na tela - uma mulher jovem, sentada na beira da fonte e próxima ao padre, com a cabeça coberta pelas vestes, uma espécie de xale entre cinza e azul modestos - que a vida resiste, desafiadora, como a obra e o olhar de Ibarrola, mesmo feita de tinta invisível - o apagado ainda existe
Há também uma criança, que brinca despreocupadamente na fonte (mais sinais de abandono, quiçá extinção do convento, desafiando a semeadura do velho padre): pode ser filho ou irmão da jovem, embora esta esteja tranquilamente de costas para as traquinagens. pode ser uma criança da vizinha como qualquer outra que gosta, como pintores, de se infiltrar em espaços há tempo desabitados para encher-lhes de vida. O menino colocou o chapéu na beira da fonte e, na ponta dos pés, tenta tocar a água da fonte, que, contrária à estrutura depredada do prédio, parece em pleno funcionamento a julgar pelo jato alegremente para cima: o menino e a fonte, o velho padre e a hera. e há a jovem de rosto encolhido a observar parte da cena, como a jovem Ibarrola encolhida na própria existência de mulher, de mulher artista de cor: mulher, negra, indígena, pobre ou rica, de qualquer forma vivendo a danação na Cidade do México do século XIX. Maria tinha olhos bonitos que mesmo apagados ainda resistem e mãos machucadas atravessadas por cruzes.

¹Para conhecer a tela "Interior de convento na Cidade do México" (1896), único trabalho conhecido de Ibarrola, ver texto de Luana Fontes disponível em: https://www.select.art.br/ainda-e-sempre-contra-a-invisibilidade/ Acesso em 15/04/2020
² "É muito difícil para qualquer um de nós não jogar esse jogo, até porque ele muitas vezes parece ser o único jogo possível. Mas, de fato, isso não é verdade." - PIPER, Adrien. A Tríplice Negação de Artistas Mulheres de Cor. Zazie edições, 2020. Tradução de Larissa Lery. Disponível gratuitamente em: http://www.zazie.com.br/pequena-biblioteca-de-ensaios

12 de abril de 2020

5 limeriques moralistas

Havia uma estranha prostituta em Vacaria
Que nenhum cliente na esquina conseguia
Perguntavam: Cê faz programa?
“Não! Só boto o cliente na cama”
Aquela maternal prostituta de Vacaria

*

Havia um crítico de cozinha em Viçosa
que anunciou de forma escandalosa:
Chega de analisar chucrute,
Gosto não se discute!
E nunca mais resenhou nos jornais de Viçosa

*

Certa vez um jovem chamado Diego
Participou de uma sessão do Descarrego
Lá fez um amigo perneta
Que se disse filho do capeta
O que muito impressionou o jovem Diego

*

Havia uma idosa peculiar em Santa Maria
que repudiava a prática da monogamia
quando via um jovem casal
corria a repudiar o tal:
não fuder geral é uma porcaria!

*
Havia um grupo de jovens tuiteiros em Pelotas
que problematiza cada ação alheia à sua volta
quando um deles morreu sem aviso
puxaram logo uma tag de improviso:
#nãosejarude, avise antes de bater as botas!




11 de abril de 2020

Era no tempo dos animais:
eu me jogava de prédios
para poder elogiar-lhes a forma
naquele tempo ainda podíamos
ir à praia com nossas bicicletas
imaginárias e sonhar que o Capital não existia
não havia oriente ou ocidente
só um sol violento
que nascia e se punha
cada dia em diferentes olhos
agora está tarde ainda que dia
ainda que ardam lá fora os entregadores e motoristas
está tarde, entendamos de uma vez

Alguém, sei lá quem, não te ama
foda-se! que importa isso 
num mundo destruído?

continua necessário fundar
novas formas de fazer a linguagem
o amor o trabalho a revolta
nada de fato mudou - se prefere pensar assim
só baratas e banqueiros brasileiros sairão felizes desse século
e já não temos mais a lanterna de Millôr Fernandes 
de resto, ficará tudo bem.

Era no tempo dos animais:
as lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos



1 de abril de 2020

Diário da Quarentena

Gostamos de contos de fada porque neles os personagens estão todos integralmente ligados por afeto, as pessoas estão próximas, os vendedores de determinado produto não costumam ter concorrentes e se existem, são amigos e poucos
as vilas habitam a terra que sequer sonha que exista um dia algo chamado cidade
quiçá sua explosão muitos e muitos anos depois

Um conto de fadas (qual?) vai entrecruzar a história de Mariana e Antonieta. Acho até que, Antonieta, usando uma terceira pessoa, pode ser a narradora da história, deixando marcas disso nos capítulos em que é personagem narradora da história principal do livro.

Ideia para um personagem I
Sinceramente acho que deverias ler o Auto de Fé de Canetti e todos os outros livros que dele tu tens. Principalmente aquele sobre composição de personagens.

Ideia para um personagem fabular II: um jovem nobre do vilarejo. Seu nome é Anastasia Homero de Bolinhos. No dia em que chegou à vila, escapou de falar a todas as pessoas, inclusive a dona do pensionato que o abrigou; por meio de sinais e acrobacias com os olhos, combinou pagamento e o período de estadia. Não deixou que perguntasse seu nome; interrompia sintaticamente antes que elas pessoas chegassem ao ponto em que revelavam não saber o seu nome. Isso era um completo absurdo para ele, como alguém poderia não saber quem era ele, como alguém poderia desconhecer seu nome completo e, conhecenxobseu nome completo, não o chamasse pelo seu nome todo belo pleno todo? Ai, era muita agonia. [CONTINUAR A HISTORIA ATE QUE SE CHEGA A OUTRO PERIODO DE TEMPO, ALGUMAS DECADAS A FRENTE. AGORA ELE JA INTEGRA A NOBREZA DO VILAREJO NOME VAGO INVENTE UM, E POR ISSO todos hoje o reverenciam, cumprimentando-o respeitosamente, incluindo sempre a menção a seu nome:
-- Boa tarde, senhor Anastasia Homero se Bolinhos
-- Bom dia, nobre Anastasia Homero de Bolinhos!
-- Bons dias, camarada Anastasia Homero de Bolinhos!

28 de março de 2020

confissões II

meu primo uma vez
caiu de moto fazendo uma curva
numa estrada de terra em Joaçaba
Neil Armstrong já pisou na Lua
mas Armstrong
nunca derrapou de moto e caiu numa valeta
que nem meu primo de Joaçaba
dê-me logo essa folha seca de teu herbário acidental;
tudo já aconteceu para ela, e isso é o seu bonito
o que vem depois do depois chamaremos de mistério;
a lua está gigante especificamente nessa noite
grávida de um eclipse que só pode ser visto
em dois ou três estados norte-americanos e
em dois ou três bares da Zona Sul da cidade
a depender dos equipamentos de que as pessoas dispõem
e também da marca da cerveja que vocês pedirem;
o próprio acaso trata de ser desigual e injusto em quase tudo
porque esperaria eu que algum sistema econômico, qualquer um, assim o seja!
sabe quem mais nasceu em Joaçaba?
Rogério Sganzerla!
na minha cidade só nasce boçal;
que pena nunca poder abraçá-lo
tudo já aconteceu para ele, e isso é o mais fudido;
seus filmes agora são puro mistério;
me lembro ainda dos dias em que marcamos de ver um filme
e ao fim ou durante transamos;
mas ou só lembro do filme
ou só lembra da foda
e isso é o mais comprido:
não obedece a memória à ordem que lhe desejamos impor
olha bem essa folha inesperada que te apareceu no meio de um livro no meio da tarde qualquer
qualquer a tarde, claro
pois o livro é especial:
dentro dessa relíquia achado no sebo
há um João e uma Dora
há um motivo e uma data
para aquilo que, antes do impresso,
vai manuscrito a caneta azul:
meu amor, com amor, para que etc etc te dedico
tudo isso é muito valioso para alguém em algum canto
não faz sentido para nós, mas podemos curtir esse espanto:
ainda há quem seja feliz além do muro que somos
espera um pouco
escuta esse barulho
há um homem pousando na lua dentro de meu dedo mindinho
ora que diabos, logo dentro do dedo mindinho! que disparate
escuta, espera, escuta esse barulho na nossa lua
não sei se de escape de moto ou foguete espacial
parece mais como um carro ou charrete
um caminhão, há um caminhão que passa aqui na nossa rua
é o caminhão que traz o lixo para casa
ou será o que leva?
conheço bem esse cheiro, e isso, dessa tristeza toda, é o único barato:
é o caminhão que traz o lixo passando por dentro do meu quarto

9 de março de 2020

confissões



podes ir, tranquilo
não restou um
único grão de ti comigo
nunca te contive nem
fui contido porque
isso de amor como moeda é heresia
o que se passa é que viajamos muito
roçamo-nos sempre
que foi possível
sem nunca se afanar
pois impossível
sequer pensável;
aquilo que viola omite e fere
não perturba o que se é
matéria que não se monta
remove nem desfragmenta
caminha certeira ao
ponto de ônibus mais próximo
e que vá até mais longe
no caminho as culpas
servem de passatempo
é bom jogar palavras cruzadas
& tudo que é bagunçado
onde se aprende a se equilibrar melhor
na matéria das memórias, toda ela
invenção e lacunas e areia
cada culpa uma árvore suspensa
e cada fruto a esconder uma palavra
que apodrece e emana
essa imensa sensação de que algo
foi aprendido em certo onde e quando;
nada, não fiquei com absolutamente nada
nem acho que levastes alguma coisa
é difícil alhear-se dessa ideia de que o corpo
e o que fizemos dele são feitos da mesma coisa
não são; e sequer o oposto (praias distantes, estrelas que não se reconhecem)!
o que fiz e o que fizemos não têm cheiro, não saem em fotografias
não afundam nem boiam no mar
fique tranquilo e não temas as folhas
e crisálidas e papeis de bala nem vibrações no celular
nada perturba, nada se alterou
há algo que segue, por mais que negue ainda
seu próprio nome, peso e história e só se deixe entrever
por vezes em oração, em confusa memória,
em sonho ou aleatória sensação,
que uma árvore ou palavra
- num dia estressado e vazio -
rememora






imagem: "A conversão de Santo Agostinho", de Fra Angelico.

3 de março de 2020

É difícil amar alguém e voar
ao mesmo tempo
e é por isso que as abelhas
quando copulam
caem por vezes ao chão
de asas amassadas
se esfregam na relva
do jeito que dá

(gentes às vezes se amam
em horas erradas
pois eram as horas
que havia pra se achar)

As abelhas às vezes se ligam
e marcam de se encontrar
não no bar da esquina
preferem a lata de refri
no fundo do saco à beira da praia
onde bêbadas de sacarose
transam com raiva

o abdômen do macho
se explode em seguida
e por isso ninguém
acha absurdo e nem fica triste
ninguém guarda memória
nem chora pensando em dias passados
vai a vida assim feita só dessa matéria
toda mel e morte, amor e antenas




18 de fevereiro de 2020

SONETO BOOMER

no meu tempo era assim: elis, cartola, tom jobim;
mamãe provia tudo, exceto papai no retrato
vivia-se feliz sem rap, funk, todo esse festim
enquanto o pão se cortava sozinho no prato

era tempo de muito mimo e pouco mimimi
divas usavam a voz e não a bunda nua
maysa y nana ninavam meu dormir
enquanto o lixo se levava sozinho à rua

a memória das pessoas e erros é difusa
só lembro com gosto erasmo, cauby, belchior...
se não lembro, não houve... para que escusas?

se me explodi em ódio e agulhas, não lembro
a vida e o rádio apagaram, tanto melhor,
sobraram só privilégios, chacretes, dezembros.

11 de janeiro de 2020

CANAL 2020

Boa noite, Brasil
brada Willian Bonde
para o espanto de sua
colega de bancada
Todo mundo já está
sabendo por suas redes
que o jovem Carlos Eduardo
desapareceu após uma abordagem
policial em um
bar em Jundiaí
informa Willian Bonde
enquanto balança
para cima os braços
com o que resta de
profissional em sua
humana esperança
O jornal não vai pra frente
enquanto ele não voltar pra casa
já vou logo avisando
diz informalmente
Willian Bode enquanto
Raquel Chegamais,
sua colega de bancada,
avisa aos telespectadores:
A novela não vai começar;
a CBF já foi avisada:
talvez a rodada do brasileiro
atrase um bocado
nos estádios o telão
exibe a reportagem ao vivo
e o povo - apreensivo -
lamenta a pausa no jogo e balança as bandeiras do time preferido
enquanto cantam em coro
Onde está
Onde está
Onde está
O torcedor?
Como eu
Como eu
Como nós
Onde está
O garoto?
o canto maior
se atravessa
por outros dois
desordenados
Onde está?
Onde está?
Negro como eu
Negro como não sou
Onde está (por favor!)
Quem o levou?
Ôoooo Oooooô
corta-se a imagem novamente
para o estúdio, onde
Rachel rói as unhas e Bonde
descansa um braço no queixo
Não sairemos daqui enquanto a mãe
desse menino não nos ligar
Alô Polícia Militar
Alô Jundiaí
Alô você aí que
de qualquer canto nos
vê e ouve
Nos importa saber o que houve
mais do que qualquer cena
mais do que qualquer talkshow
Eu não estou com sono, diz Bonde,
Eu não estou!
enquanto puxa por debaixo da bancada
Uma térmica de café
Onde é
Onde é
Onde é
Que Cadu está?
Ao que parece, querido público,
Ainda estamos confirmando
a informação, diz Rachel Chegamais,
Que, para além da busca por Carlos,
Uma menina - sim! - uma menina foi morta
no sofá de casa por uma bala pública
Isso atrasa um pouco mais a programação
Mas vamos que vamos:
perdida é minha vida amorosa
perdida é a lateral direita da seleção
essa bala é autografada pelo governador
pelo prefeito pelo vice prefeito
pelos vereadores eleitores torcedores
por todo Bonde parado
por todas as Chegamais lamuriosas
lamentos não servem pra nada
quer mudar pro canal pago?
muda, então, campeão,
nessa emissora não tem beijo técnico
nem gol de placa
enquanto Carlos Eduardo
não manda um sinal analógico pra casa
Esperem um instante
estamos com o governador na linha,
querido público,
talvez haja novela hoje
se ele começar sua fala
pedindo perdão
e a encerre algemado
antes das 22h
tenhamos fé
eu mesmo estou louco
para saber se vai acontecer
ou não o casamento
de Muriel e Muriçoca
se Muriel vai assumir
os filhos que fez
se Muriçoca vai enfim
pagar a porra da pensão
diz, dando à câmera uma piscadela,
Willian Blonde
Talvez haja jogo hoje
diz Rachel Churumela,
se cair o depósito
aos pais dos meninos do Ninho
até umas 23h quiçá
eu não vejo a hora
disso acontecer
diz ela
enquanto o Brasil afunda-se
um pouco mais no sofá


9 de janeiro de 2020

pesei bem as coisas
o que vivemos
quem somos
dois elefantes
3 caminhões
recheados de
eletrodomésticos
descarregados
pelo próprio
luciano huck
uma jubarte
os quilos todos
que a ansiedade
me trouxe
os dois caminhos opostos
para onde vamos ausentes
e, sim, vale a pena
pagar para ver
o que vai ser da gente

*
um quilo de pena
pesa muito mais
que um quilo de fé
meio quilo de pena
& culpa já serve
para soterrar uma vida
um quilo de pena
pelos quilos de ferro
e resíduos no fundo
do Rio Doce
um quilo de culpa
pelas pessoas que ferro
com meus quilos de erros
desculpas não adiantam
de nada. desculpas são leves
e flutam no ar
como pólen podre
as penas, as culpas, essas
afundam barcos na chuva
e paixões no mar







6 de janeiro de 2020

Soneto das sete

Ligamos a tevê e na novela
Passava nossa história zuada
Os figurantes no fundo da tela
Fingiam todos não saber de nada

A cena do beijo saiu bonita
Porém, o diretor da obra, pirado,
Entra no set, dá cambalhota e grita
Refaçam o esquema, tá tudo errado!

Roteiro de amar é nunca saber,
Ah! A gente podia - se preciso
Chamar pras cenas tristes dois dublês

Roubar banco, ser zumbi, amar você
Levar a vida em doido improviso
E ainda por cima ganharmos cachês

22 de dezembro de 2019

leituras afetivas

tomar um café da manhã na casa
da infância de Adélia prado

(o olho de esguelha
no pai de Adélia
a ver se era mau)

voltar aos anos vinte
pra almoçar com Fernando pessoa
em algum restaurante barato e discreto
perguntar mais do que as cartas
sobre Ofélia
perguntar se amava-lhe mais
a robustez dos braços
ou o nome afogado

tentar chegar a Ítaca
montado numa bicicleta
furtada de algum filme
de jacques tatit
e se não for lá isso tudo
voltar e declarar
o enfraquecimento do mito

tarde da noite ligar para ana cristina César
mijar de cima de um poste
observar os garotos alados na noite
de São Paulo
cerveja na mão como se chama?
eu me chamo roberto piva

rodar o Rio até se deparar
com a beira da praia
ou com rubem braga

alta noite, piscar para
a lua leminskiana
sem lume e sem namorado
& já bêbado e moribundo
bater cansado à porta de Adília lopes
em busca de amorosos conselhos

9 de dezembro de 2019

os pássaros ultimamente
têm acordado mais cedo
como nós - exaustos
ainda bonitos
ainda intensos
ainda cantam
              cantam
cantam
derrubando frutos das árvores
e postes de luz
ainda cumprem a noite por toda parte
só não inventam
como dantes

31 de outubro de 2019

preciso ser breve, essa página aqui foi tudo que consegui. o meio de um livro de poemas não é o melhor jeito de isso chegar a você mas é só o que pude fazer. agora que já não podemos nos encontrar nos antigos espaços
& falamos aqui desse pós-mundo

apesar do teu nome, da sua etnia, do seu local de origem, apesar de sua conta bancária e arcada dentária e programas de tv preferidos e práticas íntimas e posições ideológicas e formas de retirar o cheiro que o corpo suado exala sobretudo em quentes sábados de esperas infundadas
                                    gosto de ti
há os crimes e toda sorte de deslize moral.
tanto tanto que gosto de ti
há a padronização programada de tudo
do botão da roupa ao desejo de fuga
acima e abaixo disso gosto muito de ti
há a linguagem e tudo que ela não pode abarcar e que mesmo assim existe
a despeito das questões biológicas
do vírus que, sem célula, consegue rir em nós
pelos teus ossos me sinto atravessado
respiro mal à noite
faleço às vezes pra ser carregado por ti por muitos meses depois quando acordo não agradeço


*IMPORTANTE*da próxima vez voltarei no verso do rótulo do requeijão que você sempre compra desculpe o trabalho foi o único plano que consegui pagar na agência existisse amor diria que a amo muito

18 de outubro de 2019

bilhete

contente por estarmos no mesmo século
poder gostar e desgostar-se
ser estranho e ridículo um ao outro
cruzar numa esquina e surpreender no passante um bocejo
mais nada
ou talvez também o desejo de bocejar e dormir
não mais que cruzar a esquina
que seja duas
cruzar duas esquinas cruzar três cinco esquinas juntos sendo isso admissível
que seja se conhecer e se amar e julgar e servir
que sejam
ver-te muito moça ou muito idosa na arquibancada do seaworld
aplaudindo um belo salto ou acionando os explosivos para demoli-lo
em algum documentário a favor ou contra a execução de animais
ser figurante na novela das 9 numa cena que vc vê de relance
na padaria numa cidade em que você está de passagem
poder compor uma memória
contente por estarmos no mesmo século
pois isso sim é raro
viver o mesmo tempo de tantos nomes que poderíamos ter sonhado
mas nem sequer chegamos perto
pergunte aos mamutes

22 de agosto de 2019

Louvre

afundar           
        a mancheia
   n o   e s p a ç o   f i n i t  o  &   i n f i n i t o
                                                      d e  u m   s a c o   d e   f e i j ã o
memória daqueles dias
                      que sequer deixaram marca
                                                        a não ser esta:
                                                        cravada por vós 
                                                        com máximas unhas
                                                        sobre a carne

                       lá onde só os sóis espalmados de tuas mãos batem

& assim conheço 
em silêncio, via vós
o pelo de aguerridos animais
prestes a desaparecer
viva voz
que nunca ouvi e nunca ouvirei

                                       pela boca suas mãos meu focinho
                                       seus cabelos entre os dentes
                                       sempre esse eterno retorno de tudo à boca
                                       com sabor de apocalipse

& assim aprendo:
há um saber do corpo
a custo e cuspe aprendido
& então sei por que
bailarinas enlouquecem cedo
e médicos bonachões chegam aos 90
abrindo corpos, costurando tecidos
a fornecer dicas das melhores formas
de sugarmos a si e ao mundo por nossos tantos orifícios

                                        memórias do que não tive
                                        porque estava, me lembro, me aprazi
                                        mas na ocasião não pude nomear
& assim lembro
que ontem estive no Louvre
cuja fila infernal nunca peguei nem pegarei
estar contigo:
furar a fila enquanto se carregam
os celulares máquinas dentes todos
& naquele instante preciso em que todo mundo pisca
levantar o saiote de monalisa e surpreender-lhe as coxas

11 de agosto de 2019

eu ontem vi um filme muito louco: um velho homem e sua filha a habitar o deserto norte-americano, vivendo às custas de um posto de gasolina fodido de tão vazio. por um par de dias ele faz grana sendo papai noel na cidade grande e, nos outros todos dias do ano, não faz porra nenhuma e oprime sua filha - adulta -, cuja única alegria é ver televisão - daquelas pequenas, umas 10 polegadas, e cuja tela é esverdeada - o pai se nega a comprar outra - o dinheiro, sempre o dinheiro. ali pelos 15 minutos a filha decide fugir na carona de um maluco qualquer que passa pelo posto e o pai, puto, papai noel vadio, vai atrás dela na cidade grande. acho que é aí que a história começa em si, não sei, não vi, larguei tudo pra te contar que ontem quase vi um filme aparentemente bem loco & que você deveria ver e se possível não largar como eu, que largo quase tudo ali pelos 15 minuto

larga-se uma semana
um dia um prato uma carreira
a recuperação de um sonho talvez mais complexo que a vida fora dele
uma tarde e um casamento
ali pelos quinze minutos
pra mais tarde assistir no youtube o resumo dos melhores momentos (só as mortes e os nascimentos) a despeito
do mais importante - o recheio

não beleza: complexidade, morrer de ficar perplexo
você rimbaud arrombado
sentado no colo da perplexidade
viver contigo a hora mais medíocre - o recreio

amanhã mesmo vamos à avenida
em horário de pico
com uma bola de volei
atravessando-a até formar um time

parece que estamos no segundo país em que os computadores mais passam tempo nas pessoas
um país em desenvolvimento precisa de doces, de likes
e o presidente é o biscoiteiro mor
um afago de microssegundos
timing perfeito para essa vida de 15 minutos
quando morrer, quererei um bilhão de curtidas sobre minhas cinzas

eu me lembro quando era pequeno e perplexo diante do anúncio da marca de colchões:
"o ser humano passa um terço de sua vida sobre um colchão"
que louca fantasia!
que assunto mais batido, o tempo!
mais que as palavras de amor e trabalho
de 15 em 15 minutos sondando
o que não tem matéria, nem forma, nem fundo
é de um jeito ou outro investigado até que fechamos os olhos e abrimos noutro século

8 horas de sono só para os mortos
isto se não houver obrigações no pós-morte
(alguém precisa desligar as coisas e
limpar tudo antes do vento varrer)

li numa reportagem que em países desenvolvidos é grande a porcentagem de pessoas que creem ter findado o poema e que chegam a julgá-lo perfeito ou odiento até perceber que há uma outra página e talvez mais outra - não há espaço no mundo para doenças reincidentes
dá-me logo o melhor dos teus ataques fulminantes
não li até o fim, não sei, sei por cima
gostava do tempo em que os animais falavam e nos amávamos como bichos
sem filmes, sem celulares, com o sol como referência das coisas


26 de maio de 2019

pérola negra

tente entender por que como tijolos
- não é difícil -
acordar cedo
e sem metáforas e dinheiro
pro almoço
por-se a caminho da olaria
fazer os tijolos pelos quais
nas horas de folga
pago - e como.

saber pelo rádio que há nações distantes
nas quais se lançam tijolos
sobre tudo que se move,
afeminado e ingênuo,
rebelde e lamacento,
sobretudo contra oleiros que se movem.
tente entender por que como tijolos
apesar de tudo isso
- não é difícil -
comer a pedra angulosa desses dias
porque já nasci assim, no barro.

ouvir dizer que há sites distantes
nos quais se paga
para se debochar uns dos outros, encastelados.
sei que, a princípio, parece difícil
aceitar que se comam
as pedras encontradas pelo caminho
sem construir coisa alguma de valor.
tente entender por que como tijolos.
não é difícil.

22 de maio de 2019

julieta de juliet, romeu no home studio

os capuleto tão puto:
julieta tá de juliet
dando rolê sem avisar quando

coitados dos montecchio:
há muito não veem romeu,
trancando no home studio

julieta trabalha de manhã
e à noite estuda
faz design, faz letras
depois muda
um semestre de medicina
dois de engenharia
atura só as primeiras matérias
cálculo 1 história da loucura anatomia
com o saber básico de fundações
constrói uma microcasa
que cai todo dia
quando acorda pela manhã
julieta mora lá onde os amigos não chegam
e acorda sempre na mesma hora
esta em que nenhuma música combina
e por isso muda e muda e muda
até surgir uma mais ou menos de que gosta
e então printa, edita e posta

renascentista pós-moderno
romeu faz de tudo um pouco
mas tudo que faz
fica meio merda
estuda pinta e borda
cozinha xadrez
compõe beat trap
faz música erudita
trancado no studio conta as estrelas
fantasia a teoria de uma terra plana
elabora um possível domo, mede a borda
lê os beats e compra bitcoins
faz fotografia edita e posta
e a despeito de tantas recompensas
ele acha - sem ofensas -
os likes as coisas que diz os beats que faz
uma bosta

julieta de juliet, romeu no home studio
eles até se conhecem
curtem fotos um do outro
mas nunca saem juntos
quando julieta tá viva, romeu tá morto
quanto romeu tá a fim, julieta tá morta
ela então põe a juliet
& se joga pra rua pulando a sacada
ele então tranca a porta
& compõe pra seu gato uma serenata

os capuleto tão puto:
julieta tá de juliet
bebendo veneno e fudendo sem avisar onde

coitados dos montecchio:
há muito não veem romeu,
fumando e fudendo teobaldo no home studio

20 de abril de 2019

febre amorosa

malditos mosquitos
como é que explico
a quem amo
o medo que tenho
de todo tipo de malária
sem me complicar
sem me assumir
sem dizer que morro
romantizo e me deprimo
e o amor no meio disso tudo
arde entre outros sintomas
em confuso amortecimento
e quanto mais minguado fico
mais minto
mais morro
mais sofro
de males e dores diversas
padeço somatizo definho
ao meio me divido
num amor de plástico que
quebrado em mil pedacinhos
volta à forma só após 3 dias
       de atestado
sádico
ai a misteriosa marola de passagem pelos dias
pudesse eu me declarar honestamente diria
te amo com toda a minha hipocondria

7 de abril de 2019

rascunho acaze nº boom

eu sou poeta
encaro sem enfado
a página em branco
e digo: hoje não tenho nada a dizer

amo o silêncio
e aceito a falta de imaginação
como parte do fado.

escolha a palavra com cuidado
com peso redobrado
uma por mim
outro por cada polícia
que não a utiliza
antes de no pobre atirar

eu sou poeta
leio os gregos do jeito que posso
com todas as crises e limites
e toda minha ignorância
imagino os africanos
os poemas somente cantados
para sempre presos
na borra do café

sou muito amigo daqueles que
por aqui nunca serão traduzidos
dos que pensam em versos de pé no ônibus
e esquecem ao primeiro beliscão do patrão

acredito sobretudo nos que se movem por paixão;
antes de qualquer ofício, nome ou diploma
o afinco e amor pela forma
do bolo, dos pães, dos poemas, dos raps,
das vendas, plantações e matemáticos sistemas
sou amigo do Michelangelo dos portões eletrônicos
e amo a obra completa do X-salada
(aquele ali ao lado da danceteria)

o bardo vaidoso talvez dissesse,
"eu trabalho com a linguagem,
e como poucos outros
posso conter o mundo em mim"

o bardo vaidoso é o fura greve da arte;
alguém precisa contar a ele
que foda mesmo só arquimedes
e sua alavanca
o resto é literatura...

eu sou poeta
acaze é poeta
jesus cristo era poeta
e amava o silêncio
      - não mais que o vinho o pão os peixes & maria madalena
mas amava

9 de março de 2019


e no fim ainda me disse
que só ferindo ou sendo ferido
sentia-se vivo
mas aí já era tarde
duas da tarde
e por isso eu já tinha morrido
sob o sol violento que cortava a praça
em duas
duas facadas tardes
e eu sob os raios de sol
ultraviolentada em duas
e mais duas
e mais duas
mulheres que ele não dissera que tinha
e no fim ainda me deu
uma rara violeta
que só às duas horas da tarde
ferina ou fudida
floresceria
mas aí já era tarde
e por isso
não não há por isso
e por ele
por violência dele
eu morri e ainda morro

22 de fevereiro de 2019

primeira poética

alguém fala, neste momento, o que aqui vai escrito 
e por isso apanha e por isso morre
e por isso outro alguém é condecorado e invejado
cuspido e escarrado

alguém fala, neste momento, a uma legião desinformada
o que você rabiscou na parede quando era pequena
você não lembra
mas o povo sim, e se exalta
e no fim o esfaqueia por trás
e aceita uma nova promessa

alguém sugere, neste momento, a um idoso
o que não te disseram quando criança
e por isso morrestes a pontapés 

alguém mastiga sua boca 
por dentro para não dizer
o que aqui vai escrito
o que disse a um amigo
encontrado na rua
o que você e eu podemos dizer e tanta gente não pode

alguém devia estar falando em nosso lugar

alguém falha,
sabes muito bem quem,
ao falar.

21 de fevereiro de 2019

aquilo que foi dito no ar permanece
e já há nações preocupadas
com a questão do descarte

gente dentro de casa
soterrada nos próprios pensamentos
torneira aberta fechadura travada
eu vou gritar até esvaziar esse lugar
& o corredor de casa deixar de ser
essa pista de dança apertada

aquilo que foi dito no ar permanece
casas mal assombradas
são aquelas vendidas
pelos filhos

os mais ricos possuem hoje em dia
luxuosos cômodos onde
(diz-se)
nunca ninguém disse nada

aquilo que foi dito no ar permanece
e não raro na boca se toma o discurso de outrem
que as pessoas escondem
como arrotos ou peidos
não raros

alheio a essa e todas as outras leis humanas
o sagrado paira, pluma, plana
de galho em galho
de planeta em planeta
e sem plano
pousa no cerne do que for
carne ou não

12 de fevereiro de 2019

querido chico,
o ministro do meio ambiente acabou de dizer na tevê que você é irrelevante ai se o mundo se tomasse de seringueiras um mundo sem cidades e ministros onde o ambiente pudesse enfim, num enleio, tornar-se inteiro. quem sabe aí poderíamos apagar o sol e jogar as chaves do céu fora uma seringueira vive por mais de 200 anos que jovens elas são! os seringueiros só morrem no fim do mundo eu tenho certeza o ministro dorme de sapatos, chico mande o abraço mais apertado para dorothy & todos

é tempo de versos de circunstância
parece que estamos a nascer e morrer
várias vezes por dia todo dia
uns lamentando, na tevê, a morte dos outros
outros lamentando, no sofá, a destruição
                                       de alheias casas

4 de fevereiro de 2019

ninguém disse que o moderno seria novo
nem que o novo seria novo
(ninguém disse mas noticiaram de novo)

todo dia a gente faz tudo sempre igual
e de novo e de novo e de novo
morte às galinhas eles querem o ovo apenas
apenas o ovo a custo de tantas forem as penas

ninguém disse a real lição de todo ovo
que no meio de toda pedra e de cada sapato
                                                                      há um ovo
todos ouviram a sujeira dita das tribunas
mas na transmissão omitiu-se a letra P
de política partido e povo
de novo

13.467 - mixtape trabalhista

horas-vagas
a custo de nosso trabalho
o mar descansa
/
quando eu teço, eu teço
não penso, não amo & nem ligo                                                                                                           
pro apito da fábrica de tecidos
\
& se a gente de repente
por acidente
se aposentasse junto?
/
e que tal? nunca faltaria assunto
se fôssemos desligados juntos
do quadro funcional
\
é tempo de atualizar a lei trabalhista
operários cegos retiraram na calada da noite
os pingos de todos os Is
/
o fazendeiro não contratará espantalhos
conta naturalmente
com o trabalho informal dos passaralhos
/

27 de janeiro de 2019


mil milênios num só nesse agora
das bocas apenas
a linguagem de passatempos
sem posses e saber
mesmo assim todo segredos
só a linguagem
toda ela epi & anagramas
a gente segue sendo contrassenha

será que veremos um dia 
                            a história resumida a gifs
só com você eu aceito dançar naquelas                                                                     boates
onde os seguranças de boates
nos seus dias de folga
saem para dançar

sim
olhar é uma arte bonita
parece natural que haja concursos premiando os melhores colocados
e que os melhores não olhem


*imagem: "truth fiction"(1990), de leonílson


I

você é muito distraída, Couve-Flor
não vê o mal chegando a prestações
aposto que se um homem 
num cumprimento casual
te afanasse os dedos de uma mão
você nem notaria

você é muito distraída, Couve-Flor
por sorte nessa
terra de leis em conserva
faz-se valer a lei de talinho
tira-se um dedo do homem
que afana uma mão feminina
como se come a sua


imagem: "O grande rio" (1990), de leonílson

16 de janeiro de 2019

conto de amor









não vais acreditar: ontem sonhei que eu & tu
nos amávamos na fila do Seguro Social
cruzamos olhares e humores
e percebi na hora que a tua invalidez era a minha

quis te ofertar flores e vinhos
mas não há sequer água nos bebedouros das repartições
de modo que te jurei no desespero
um amor tão crescente quanto o fator previdenciário
e no teu dedo mais machucado
apertei-te uma aliança partidária
de última hora

fodemos ali mesmo nas cadeiras
estofadas da caixa foderal
por sorte não havia crianças no recinto
apenas velhos
há anos na mesma fila mofada
apenas homens e mulheres
jovens e idosos
mas todos igualmente velhos para o governo
apenas velhos fudidos

a euforia foi grande entre os segurados
que mal se seguravam a urrar
casamento! casamento! pensão! pensão!
enquanto vestíamos nossos trajes sociais
(eu, de jaleco, tu, de gravata & sapatos saltantes)
um perito oficial atestou-nos amor eterno
e nos garantiu que
apesar de todas as lesões concussões traumas defeitos físicos e sentimentais
apesar de todos os acidentes e traições de trabalho
ainda sim tínhamos condições de nos amar sim
e mandou-nos imediatamente à lua de mel
na linha de produção de nossas
guloseimas preferidas

um soldado de reserva que passava
na hora pra sacar seu soldo
fez às vezes de padre
(é tão incrível, amor, como os militares
estão sempre habilitados
para militar em todos os milistérios!)
& foi assim num sonho lindo
sob os desígnios da Divina Previdência
e curiosos olhares proletários
que casamos ali mesmo
com laudos e nenhuma prece
todo dia um novo sonho se sobrepõe
e esfarela os outros mas este não se esquece:
nos amávamos morrendo, eu & tu, na fila do INSS

Imagem: tirinha de Pagu, Patrícia Galvão, para o Jornal do Povo

8 de dezembro de 2018


o meu amor por ti não tem bandeira
só um hino
que canto baixo, pelos cantos,
antes que alguém o censure

o meu amor por ti não tem fronteira
            linhas imaginárias crescem, desaparecem, voltam
 todo dia um novo tratado um novo golpe dá a ele uma outra forma
               (enquanto isso surgem no facebook grupos de conspiradores anticiência anticoração
a sugerir que o desejo é tão falso quanto a gravidade)

às vezes você se rebela
contra o amor
e os reveses de toda ordem e todo progresso
e vai embora pra outros continentes
enquanto me fecho feito pangeia
a ouvir nos fones só os cantos
dos pássaros mais canoros e extintos
do mundo

às vezes eu me rebelo
contra o amor
e os reveses de toda ordem e todo progresso
e largo a tarde e trabalho
pelo meio
pego um avião direto
para a Faixa de Gaza
de onde desço direto pra rua
atrás do primeiro orelhão
oi tô no coração palestino
tá uma loucura aqui
tô muito bem
& vc como vai???

e aí são revoluções
golpes de estado
massacres e waterlus
fugas de última hora
e pedidos de asilo
em camas frias de embaixada

o meu amor por ti não tem bandeira
só arma e escudo
que eu e vc revezamos
um contra a carne do outro
a faca alienada
ri debochada
quanto mais se encrava
mas lá no fundo, em seu cabo,
enquanto fere
um torce pelo outro

o outro & o outro
esse casal presidencial
que paira sobre nós
e nos humilha

26 de novembro de 2018

bolsonaro sonha





















militarmente cansado
como se não descansasse mais do que duas horas
                                                                                   desde 1964
bolsonaro entra no quarto, banha-se, janta &
             antes de fechar os olhos
em algum quarto de hotel brasiliense
dedica à família um último pensamento:

será possível se criar
no calendário nacional
um dia só para a laura?

então adormece e sonha com seu pai e sua mãe
& acorda e sonha e acorda e sonha e decide
após vinte polichinelos
sua primeira ação:
a criação de um semáforo para os cães
atravessarem a rua sem danos

toma café, dá despachos, dá ordens aos outros
depois se tranca no banheiro e dá ordens a si mesmo
e almoça, dá entrevistas, recebe abraços e tapinhas
depois se tranca no banheiro de novo e chora um bocadito
e antes que se esqueça
(sua cabeça é muito ruim coitado)
rabisca num papel toalha uma novo lembrete
vai bem a ordem
vamos bem com progresso
na branca faixa da bandeira nacional daqui pra frente se lerá
                                       
                                                        ONÇA PINTADA & TAMANDUÁ

e volta ao gabinete, usa telefones, dá ordens aos outros
depois se tranca no banheiro para ver vídeos do zap zap
até a hora de ir embora
e aí janta, ouve e manda áudios aos filhos queridos &
                                                                  antes de dormir  
                   pergunta ao carlos como se manda tomar no cu em inglês 
                                        fuck you @trump talquei
                       então bloqueia o telefone, ri consigo mesmo seu melhor riso, reza
                                       & adormece e sonha e adormece   
                                & quando enfim abre os olhos resolve:
                                       é preciso criar o Ministério das do Gueto, da Fome,
o Ministério dos Pobres o Ministério Trans, o Ministério da Laura
                            é o melhor o brasil ir se acostumando a olhar pra si mesmo


Imagem: "Papa-vento" (1956), de Cândido Portinari

16 de novembro de 2018

ping pong galaxy

                                      pro loren


aceitar, por fraqueza ou força desmedida, no mito.
acreditar que há por aí algum outro espaço
onde não há armários
e só a terra
nada de homens nada de homens
eu repito nada de homens nada de homens
onde só a terra se pisa e repisa
enrolada ao vento

acreditar que
além do horizonte
embaixo da ponte
existe um lugar

um lugar do caralho
pra se gente se amar

acreditar que
depois do arco-íris
existe a cidade X
onde fawcett 
corre e dança nu
todas as tardes

aceitar a imaginação como parte do mundo
em eterna guerra contra a ciência e o certo
pasárgadas, atlântidas, shangrilás, eu sei lá
porque a paixão cega pelo inverso
canaãs, wonderlandes, paraísos, e é por isso
que na cabeça eu carrego
meus próprios mapas 

somos alienígenas, meu amor
o verdadeiro mundo se chama ping pong galaxy
ping pong galaxy!
ping pong galaxy!
ping pong galaxy!


23 de setembro de 2018

bandeira II (colagem)

adão atravessa a rua, numa tarde qualquer de 2018,
vestindo a camisa de um poeta negro,
isso em 1887, à espera da primeira caravela
isso em Baltimore, 1940,
isso no Carandiru, 1992
isso sempre uma ventura

manuel levanta-se da cama, ainda de pijamas,
e mostra à janela, a quem quiser ver,
seu corpo magro,
seu pênis tímido
sua tosse amarela,
suas melhores bandeiras

florbela lambe, com máxima delicadeza,
o sexo de sua amiga
cujo nome desconhece
e pelo qual não se interessará
até que ela vá embora.
horas depois, moderna que é,
escreve um poema sobre a rosa mais rosada
vai ao orelhão mais próximo,
liga pra seu primeiro e casto amor
marca um encontro de saudade
& o espanca.

gertude
cruza a avenida central
entre tiros e vírus
pra tomar uma água de coco
de mãos dadas com alice-bi-tocas

(tudo isso porque os corpos se entendem
mas as bandeiras não)

bandeira I


o plano A é aceitar
que esquecemos nossas mãos
em algum ponto da História
e que não há mais o que se fazer
a não ser lançar do alto do mar de névoa
nossos votos de amor, comunhão e política

o plano B é pegar
um Biplano
e arrastar uma faixa onde se lê
vamos fugir desse lugar, beibê
por dentro de todos os asilos
por dentro de todos os presídios
por dentro de cada barraco
onde beibê faz amor com outras pessoas
& declara apoiar candidatos que desejam nossa morte

o plano C é Cair
o biplano
por falta de autoaceitação e
gasolina
na última das ilhas desertas
&
para desespero
de Crusoé
fazer-lhe cia
declarar-lhe antigo amor
dar-lhe apoio e asilo
político

19 de julho de 2018

(canção pra tocar na rádio)

cada canção de amor possui sempre outra que é seu contrário a nos recomendar exatamente o oposto e aí, se a gente seguisse o rádio à risca, ia da sarrada ao descaso da briga à putaria assim, de repente, todo dia
eles cantam cantam e não dão conta de expressar uma coisa que só você sente e nem a mim nem a ninguém comunicar poderia (o amor é a espera por esse dia) às vezes cansa receber ordens afetivas vindas das vozes, guitarras, cavacos mas os poetas não desistem de adivinhá-la e acrescentam às paradas de sucesso mais e mais nessa hora, em silêncio, sem luz e bateria, somos nossa própria rádio e as bobagens que dissemos são os nossos comerciais. 

26 de maio de 2018

o amor possível



no instante mesmo em que morre a última das feras,
e em que se revistam meninos à saída da última das festas,
como se juventude pobre crime fosse,
como se caças jovens pobres feras fossem

no instante mesmo em que se violam, mais uma vez,
os direitos dos que amam
e se cortam, dedo por dedo, as mãos e pés rebeldes
de quem insiste em lavrar/dançar

no instante mesmo em que 
doidos doentes drogados
mendigos migrantes marielles
velhos violados violetas 
dormem morrem vazam

dois jovens, um homem e uma mulher,
se amam num beliche  
                                                              - e bem que eles fazem.

não o amor de amantes,
mas o amor possível:
baixinho, em vigília nas torres e trincheiras,
rápido, nos metrôs, nas boleias, nos horários apertados de almoço,
escuro, a portas cortinas fechadas,
as lâmpadas todas apagadas à força
contra os corpos de homens que amam homens
contra os corpos de mulheres que amam mulheres

no instante mesmo em que
caleidoscópica
morre a última das estrelas
e candelária
morre o últimos dos meninos ,
dois homens, duas mulheres
se amam num beliche
                                                              - e bem que eles fazem.

19 de maio de 2018

Tainhas (fragmento)



Tão logo entrou no ônibus, Mariana procurou um lugar vazio onde pudesse se sentar à janela; escolheu um na parte central do ônibus, torcendo para que ninguém mais se acomodasse a seu lado, porque desse modo poderia se folgar à vontade e não teria a obrigação de dividir um espaço tão pouco com estranhos. Foi aí que um homem, trajando calças e camiseta alaranjadas, nos pés um sapatão preto de couro, sentou-se ao seu lado, mesmo havendo tantos outros pares de assentos livres; o sujeito era forte, seus músculos salientes pareciam querer saltar fora dos braços, e trazia o cenho fechado, como se estivesse de mal com a vida e com todos. A menina observava-o de soslaio, fingindo olhar para a paisagem estática da janela, onde nada de mais havia para ver a não ser a fila de passageiros embarcando rumo à Recife. Para não transparecer incômodo, Mariana esforçava-se por pensar em outras coisas: olhava para o bagageiro, acima de sua cabeça, procurando analisar as diferentes tipos de malas e bolsas que as pessoas traziam: havia quem usasse maletas pesadas e bonitas, como as de executivos, enquanto havia também cobertores, potes e sacolas plásticas de mercado, denunciando as diferentes intenções e preparativos de viagem das pessoas. Certamente havia nesse carro gente a trabalhar, a passear, gente com pressa e gente tranquila. E gente perdida, em fuga, como ela, haveria mais alguém? Era nessas coisas que Mariana pensava quando o homem a seu lado a cutucou e, após constatar a atenção da menina, perguntou com voz e rosto sério: "Ei, quer almoçar?". Aquilo não fazia sentido algum, primeiro porque eram três horas da tarde e há muito tempo já ela almoçara; ademais, não conhecia o homem e sabia que um convite como esse não era coisa que alguém fazia a um estranho, ainda mais numa linha interestadual prestes a embarcar (almoçar onde????). E havia algo mais, que só agora a menina percebia: o homem tinha um cheiro horrível, embora ela não soubesse dizer do que, possivelmente cheiro de quem há muito não tomava banho. Em poucos segundos, enquanto a perguntava flutuava no ar, Mariana tentou em vão achar uma explicação para tudo aquilo, a começar pela roupa do homem, laranja do pescoço às pernas. "Só dois tipos de pessoas usam roupas assim: os garis e os cantores de rock", pensou a menina, e por um momento passou pela sua cabeça a imagem dum homem magrelo gritando e rebolando com um microfone na mão .  Esse era um hábito da menina: constantemente, observando as coisas, cravava algum pensamento definitivo sobre elas e as pessoas, como se o mundo, aquele mesmo mundo que mal conhecia para além das esquinas da sua casa e que só agora, com tal viagem, começaria a conhecer, fosse algo estático, imutável. Mariana não sabia, mas dali em diante, quanto mais passasse o tempo e quanto mais viajasse por aí, menos certezas teria sobre o mundo e suas coisas. Mas, pensando bem, algo lhe dizia que o homem ali não era uma coisa nem outra; esgotava-se o tempo dela e ainda assim ela não sabia o que dizer, só queria que o homem desaparecesse. Ao invés disso, o homem aproximou-se mais dela e, utilizando seu antebraço, pressionou-o contra o pescoço da menina, fazendo que suas costas afundassem na poltrona. A cena durou poucos segundos (três, cinco, sete?) e, ao cabo deles, o homem levantou-se, o rosto sempre bravo, e saiu rapidamente pelo corredor do ônibus enquanto um grupo de passageiros, percebendo a cena, corria a acudir a menina: "Você está bem?", "Tá machucada?", "Esse homem é louco!", diziam. Mariana disse a todos estar bem, e cada um foi voltando, a resmungar, a seus lugares, guardando um pouco de atenção à menina que, estranhamente, viajava sozinha. De fato, Mariana parecia bem: apesar dos cabelos desgrenhados, não havia marcas em seu pescoço, indicando que talvez a agressão fora algo mais assustador do que doloroso.  Eram todas impressões, e mesmo Mariana não sabia dizer onde e se doía; estava assustada, procurando algum significado para o que acabara de acontecer. O homem já estava longe, bem longe, sem que qualquer passageiro ou funcionário tenha manifestado a intenção de persegui-lo. Durante alguns poucos minutos, a impressão era de que, nos lugares próximos ao de Mariana, as conversações passaram a ser sobre aquele homem considerado louco; havia quem manifestasse ódio e desejo de feri-lo, e era curioso que o desejo das pessoas de machucá-lo era superior à preocupação com a menina; dali a dez minutos o ônibus partiria e cada um daquelas testemunhas do ocorrido substituiria a cena bizarra por outros pensamentos mais apropriados, porquanto mais úteis: os boletos, as mágoas, a fome, o sono, os desejos de cada um. Menos para Mariana, que dali pra frente nunca esqueceria o episódio, em busca de algum sentido. Houvesse uma forma de contabilizar o raciocínio, houvesse a profissão de contador de pensamentos, o Senhor Anselmo (chamemo-lo assim) surpreenderia-se com a dificuldade de organizar as ideias de sua cliente Mariana, e provavelmente não esconderia sua surpresa em constatar que nada havia de rancor ou ódio ali a respeito do que acontecera (certamente estaria ele, em vista de seu ofício, acostumado a lidar com mágoas e maldades provindas das cabeças de sua clientela, seja ela adulta ou infante): os pensamentos marianescos naquela hora compunham estranhas flora e fauna; antes de tudo ela pensava no porquê havia pessoas a fazer mal às outras sem motivo algum, antes de tudo ela pensava nas estrelas de rock que se contorciam no palco, cada noite uma cidade diferente do mundo cantando sempre as mesmas músicas da turnê em suas apertadas roupas multicoloridas; deus do céu, os cantores não se cansavam de cantar sempre as mesmas músicas? como não enlouqueciam?; pensava também Mariana que aquele homem era sozinho; pensava Mariana que cada pessoa tinha um cheiro diferente, mas que, no fundo, em certas horas, tinham todos, ricos e pobres, gênios e doidos varridos,  a mesma tendência a cheirar mal, nos peidos, nos suores, nas fezes, no amor e no medo. Anselmo, pobre Anselmo, encerrou o expediente daquele dia, mas levou pra casa a cisma; antes de dormir, provavelmente virou-se para para sua esposa (chamemo-la Soraia, todo mundo tem quer ter um nome, não importa se viva ou morta, rica ou pobre, real ou inventada) a dizer: "Soraia, é muito estranho, pois em nenhum momento do dia ela desejou mal a ele, não quis se vingar, não desejou que sequer se machucasse. Adolescentes são o diabo, Soraia, não entendo porquê essa daqui não é." "Vai dormir, Anselmo, e não enche o saco", disse Soraia, puxando pra si um pouco mais a coberta. Nessa hora, alta noite, Mariana provavelmente já dormisse, o assento ao seu lado vazio, a sonhar com bichos, pessoas, cheiros e estrelas da música

20 de abril de 2018

Kudriavka



Laika, a primeira mulher,
contempla a Terra do planeta SemNome
enquanto rói, preguiçosa,
o osso do último homem

nem a primeira nem a última
a ser mandada pro espaço
ontem mesmo, em qualquer rua,
partiu mais uma num esputinique

Laika, minha mãe,
a procurar calor
pelas ruas de Moscou,
Laika Franco,
a morrer todo dia
pelas ruas do Rio,

Laika Frank,
Laika Freak,
Laika Frio

Laika, a primeira cachorra,
contempla a dança de infinitos satélites
que o homem lançou, desperado
a qualquer marte que servisse de apoio,
enquanto coça, prazerosa, sua pulga de estimação

Amaram mal os homens, como um serviço
amaram mal os planetas
como mal amaram suas mulheres e mães

Mas Kudriavka, a primeira anja,
não pensa nessas coisas 
no planeta SemNome,
seu reino particular

Laika, lá, em pleno estado Laiko,
corre e ladra e brinca, livre, o dia todo
e à noite adormece
dando patadas no ar

15 de abril de 2018

tô só
por ti
téo

sapoti

30 de março de 2018

Antes

I

até tarde da noite
antes de dormir
kauan faz um stencil
e pensa no devir

nada concreto:
um barco atravessa um traço
leve, negro traço
eis tudo que restou
das noites de antes

como ele
muito dantes, há três mil grécias
poetas distantes
homeros virgílios e dantes
em vigília, ergueram taças
umedeceram penas e,
anacreontes de ontem,
criaram invisível trilha
entre o sentido e o escrito

o coração virado sempre pra parede
contempla o branco demoradamente
(nele o barco em sua negra marola)
a procurar,
antes do porvir, sua ruína
antes do papel, os pensamentos

noite contra noite, kauan e o ofício de levar a cabo a espera
  - designer de anteriores -
a reconstruir, toda noite, o passado
em busca de novos versos
versões felizes para o doído
e nunca olvidado

II

muito antes do corpo sobre a cama,
o prazer da linguagem

bem antes do caminho pra casa,
sem rosto amigo e estrela-guia,
bem antes dos estranhos corredores,
de alheias casas,
os acordos da linguagem

dois dias por dia,
a saldar e contrair
linguísticas dívidas
de deliciosa mora

correm as pessoas para cá e lá
a trabalhar, dentro do corpo,
vestidos para os desejos
e em cada palavra só o vestígio
do que querem realmente

quando se cansam do verdadeiro prazer
de repente
(para se descansar a língua da linguagem)
deitam-se à cama os homens
e põem-se como gatos
a se lamberem os corpos

III

o que vai ser desse agora
trabalho, aposta ou feitiço
depende do que foi o antes
com seus atropelos e prejuízos

há muitos anos,
onde hoje é o corpo dessa mulher
havia um lote de terra
susserania hereditária
onde lá mil outras morreram
para que esta
decididamente
atravesse a rua apesar do movimento dos carros

há muitos anos, todos os dias
duas mãos se apertam no escuro
em busca de um novo antes
distinto daqueles outros
com seus acertos, vacilos, rompantes

sem recalque, sem saudade:
um antes para ter de onde se ir
e para se ter a quem contar

casca com que se possa
sair à noite para a festa
roupa que se possa
trajar no dia de seu mais novo nascimento

24 de janeiro de 2018

Onde a Tainha Antonieta descreve seu cotidiano e revela segredos e sabores de bolacha marianescos

Mariana é a menina mais interessante do mundo da terra e das águas. Mesmo que me oferecessem um luxuoso coral nas Bahamas, ainda sim preferiria morar aqui em Itajaí com ela. Nas profundezas do Caribe, não posso ouvir Guns N' Roses na caixinha de som falsificada dela, muito menos assistir às brigas diárias entre mãe e filha. Não sou sádica; o que eu gosto é de observar as pessoas, e não acho que há lugar melhor do que essa casa apertada onde vivo e onde - parece - só aos gritos se é ouvido. Porque, quanto mais aperto passa uma pessoa, mais ela aprende. Algo parecido se dá com os peixes: se um pexuxo é fisgado e consegue escapar, volta como mestre dos demais. Conheço uma tanhota de Laguna que afirma ter escapado de 54 tarrafas e 200 varas de pescar. E as tanhotas não costumam mentir. Quem mente mais no mundo marinho são os bagres e os namorados.

Gosto da espontaneidade da Mariana, de sua displicência: ela tem um jeito torto de viver a vida que torna impossível prever seus movimentos. Quer dizer, eu sei que ela acorda ali pelas sete, se arruma rapidamente e vai a pé pra escola. eu sei que ela almoça perto da uma hora. Que, à tarde, toma banho, faz tarefa, fica olhando que nem uma boba fotos de modelos no Instagram até as quatro, quando parte com a mãe montar o trailer. Mas isso diz pouco ou quase nada de quem Mariana é: nas dobras e falhas da rotina dela é que se enxerga o que ela é. Por exemplo, entre uma aula e outra, Mariana nunca conversa ou mexe no celular, até porque ela não tem um. Ela fica fantasiando coisas: um mundo no qual as pessoas voam,  ou um mundo no qual ela pode ser invisível e chutar a canela dos clientes rudes que são grosseiros com sua mãe no carrinho lanche.  Um mundo no qual barcos não afundam e peixes de pelúcia falam. Uma vez, numa rara tarde de folga, ela simulou uma fala minha enquanto me segurava diante de si e foi bizarro

-- Oi meu nome é Antonieta e eu adoro nadar com minhas amigas baleias e golfinhas...
-- BITCH ME RESPEITA E EU LÁ GOSTO DE GOLFINHOS
-- eu gosto da Mariana e acompanho ela em todas as suas aventuras...
-- OWN, isso é verdade.
-- ... mas agora o que mais quero é um bom banho
-- AH NÃO. Mano, eu fui feita na China, você não leu a etiqueta? MARIANA APARECIDA DA SILVA EU NAO GOSTO DE BANHO, ME DESBOTA DESGRAÇA

Queria muito poder me comunicar com ela.

Mariana também se dá o luxo de guardar segredos. Luxo porque não há ninguém interessado em seus pensamentos íntimos, mas mesmo assim, ela os guarda com cuidado. Se tudo sobre ela é desconhecido e ignorado pelo mundo, há uma parte ainda mais desconhecida, que ela chama de segredo. Antes de dormir, todo dia, confere se nenhuma luz foi lançada sobre os desejos que ela não sabe muito bem nomear. E que desejos são esses? Ah...

Ela está sempre entrando, do jeito dela, dentro das outras pessoas. Se vê, da janela do ônibus, uma senhora bater o carro e dele sair apavorada para conversar com o outro motorista envolvido, Mariana se põe a pensar o que estaria sentindo a mulher. O ônibus faz uma curva mas Mariana segue com a senhora lá na avenida a sentir-se atarantada e insegura. Mariana se pergunta se o carro é da mulher, se ele tem seguro, se ela estava atrasada para o trabalho ou para buscar os filhos na creche. E se for uma víbora, uma pessoa com modos de bagre? Mariana parte sempre da ideia de que as pessoas são boas. Há um tempo atrás, o professor de Filosofia dela, Maurílio, deu uma aula rápida sobre Rousseau e a tese do Bom Selvagem mas ela faltou nesse dia porque estava com diarreia. Mesmo assim, por ver muitas pessoas o tempo todo no carrinho lanche, sobretudo por conta da imagem que faz de seu pai, Mariana acredita que as pessoas são boas; outra coisa é que as estraga. E o que são essas coisas? Ah...

Para entender que coisas são essas, seria preciso contar a história de amor e desamor entre Anselmo e Mariza, os pais da Mariana. Eu tô aqui nessa casa desde que ela tinha sete anos. Foi no sétimo aniversário que ela ganhou do pai esse presente maravilhoso que sou depois de uma viagem dele a trabalho. Desde então, assisto a uma série de ausências: a casa esteve vazia em quase todo o tempo: o pai de Mariana mal parava em casa, pois quando não estava no mar, estava no bar, caindo pelos cantos. A menina está sempre na escola, ou trabalhando, e no pouco tempo livre que sobra, ouve música e assiste séries abraçada comigo. Dona Mariza se resume a trabalho e é uma pena que não haja um narrador para contar quem é ela e de onde veio. As histórias mudam quando nascemos onde dói e porque dói em cada personagem. E, se não mudam, é porque tem água viva nessa praia, ou seja, tem coisa errada aí. Afinal, os narradores em geral são preguiçosos ou parciais e mostram sempre o querem mostrar, que nem o telejornal ou as fotos das pessoas em redes sociais. Não posso contar aqui a história dos pais de Mariana porque o narrador não permitiria, mas digamos que não era feliz, que havia briga e um pouco de violência. Digamos que eu deveria amar Seu Anselmo porque ele é o pai da Mariana e, além disso, ele que me trouxe para essa casa, mas eu não amo, por tudo que ele fez... ou não conseguiu fazer. Mariana, sim. Apesar de tudo que já ouviu sobre ele, as queixas e críticas da sua mãe e das irmãs dela, Mariana gosta muito dele e sente sua falta todos os dias e eu sei que ela me aperta às vezes pensando nele. Eu sei que, se ela me leva pra todo canto, é por isso - mas digo aos meus amigos que é por sou demais, porque sou uma estrela. É, minha gente, até mesmo peixes de pelúcia célebres como eu têm problemas de autoestima às vezes. E olha que eu nem posso comer chocolate, a minha boca é costurada num eterno sorriso. Nessas horas de estresse, fantasio com bagres trancafiados em tanques de pesque-pague ou então ouço música para ficar feliz. Meu artista preferido é o Slash, guitarrista do Guns. Mariana gosta muito de música pop e prefere Rihanna a Beyonce. É tão bom quando ela se esquece dos problemas e, no quarto a portas fechadas, dança ao som do rádio enquanto me joga pra lá e pra cá, abusando da minha espinha dorsal de pelúcia 

quando estou com ela tenho pensamentos selvagens
                                                                                      wha wha wha.

Mariana odeia biscoito recheado  de Morango, ainda mais daquela marca barata que sua mãe insiste em comprar. Entre os biscoitos baratos, gosta do de maizena, ainda mais se tiver doce de leite na geladeira. Ui.

Mariana tem vergonha do seu corpo. Uma tarde, enquanto voltava a pé pra escola, duas colegas a perseguiram até prensá-la num portão de ferro vizinho. Empurram-na, chamaram-se de gorda, feia, balofa. Por quê? Ah... as pessoas são estranhas. Naquele dia, ao me tirar da mochila, ela me encharcou com suas mãos suadas e chorosas. Eu nunca deixo de sorrir, mas quando me entristeço, um dos pontos meus descostura. Naquele dia, abriu-se um rombo no meu pobre rabo, revelando um pouco do meu algodoado recheio. Desde então, sigo sendo uma tainha bonita charmosa alegre cintilante porém levemente arrombada. Alô, Dona Mariza e suas agulhas, por favor me notem. Mas onde eu estava?

Ah, acho que esse segredo é importante pra história: há cinco dias, Mariana, calmamente, planeja sua fuga de casa. ela quer ir pro mar.

13 de janeiro de 2018

Há

há por aí uma pessoa para quem não posso ligar. a qualquer hora e qualquer dia, não dá linha. se me passo por outra ou por outro, se ligo pela internet ou telepatia, não dá linha. se volto no tempo e chego à época em que havia orelhões ou telefonistas, ainda sim para ela não posso ligar. as fichas emperram, uma a uma, as telefonistas começam a rir, dente por dente, e desligam o telefone à primeira palavra. pombos correios não conseguem chegar à calçada sem ser abatidos e nem a maior garrafa do mundo resistiria à missão de entregar uma carta sem rachar-se. se mando um sinal de fumaça, o vento o apaga. às vezes ela me liga e marcamos um café ali naquela lanchonete do lado do Terminal. 

*

há, em determinada parte do Oceano, um ponto irrastreável. nenhum satélite ou radar o alcança. nenhum instrumento de orientação utilizado pelos marinheiros aponta a existência: um pequeno quadrado negro aponta o puro nada. os barcos passam por perto sem se dar conta. trata-se do único ponto possível para se esconder no pega-pega que se joga aos 11 anos num final de tarde dominical sem ser descoberto pelos amigos. não sendo mar e tão pequeno (tem menos de um metro quadrado), poderia alocar um banco, desses para onde brasileiros enviam dinheiro ilegal. de vez em quando, sem que nenhum pesqueiro ou náufrago perceba, salta nesse ponto um peixe de ouro.

*
há no coração da floresta uma tribo sem nome. ao acordar, seus moradores saltam das redes apressados e atentos ao último dia de sua comunidade. mas nem por isso descumprem a rotina; para se desaparecer por completo do mapa é preciso muita organização e método. em seu último dia, cantam, dançam, louvam aos deuses e pedem clemência, na esperança de que mais um dia seja concedido. às pressas desfazem-se de suas atuais relações e organizam novos casamentos que formam uma noite furiosa de amor a fazer até mesmo a Lua descer por um fio direto à cama. as crianças dormem abraçadas e com medo enquanto os velhos cantam pela última vez. quando despertam, saltam das redes apressados e atentos a mais um último dia de sua comunidade.

*

há uma rede de linhas emergenciais a tocar durante toda a madrugada. um bombeiro alto de rosto cansado e barba por fazer procura atender a mais de um ao mesmo tempo e ouvir os interlocutores atentamente. cada voz, desesperada a sua maneira, tenta convencê-lo da importância do reparo e material de que dispõe. o bombeiro se angustia e chega a disparar um jato de água acidentalmente enquanto maneja os telefones. não há viaturas suficientes e o bombeiro está velho e cansado. para ganhar atenção, as vozes são criativas nos pedidos e dão detalhes mirabolantes. alguns, desavisados, usam estratégias inadequadas para a idade do bombeiro. este se deleita com alguns dos casos e tenta memorizá-los para um dia publicar no jornal e ser famoso. enquanto isso a cidade queima.

*
há uma mosquita musculosa chamada Roberta. sua história não agradou à editoria da seção de literatura infantil e por isso seu autor, Carlos Camilo, jogou a história fora como se a pobre Roberta fosse desprezível como um Babadook. embora carregue uma história de superação e fortalecimento das pernas, Roberta sofre mesmo hoje, a voar baixo e cansada, desviando dos pés de Soraia e Carlos Camilo, na quitinete por eles alugada. Roberta é uma Culex qualquer sem perspectiva de vida, sem um dengo ou dengue qualquer. Carlos Camilo e Soraia não se dão conta das semelhanças entre todos e preferem dar atenção a webamigos pouco empáticos.