Anoitece
O rio, cravado na paisagem
está imóvel como se dormisse.
E quem passa por ele diz que dorme.
Amanhece.
E lá está o rio cravado na paisagem como um cacto.
E por ser dia
quente
úmido
(vivo!)
dizem que o rio está morto.
Mas ele está vivo. Vivíssimo.
tão vivo quanto a luz do dia.
tão cravado na paisagem como a luz do sol.
O rio insone não dormiu.
Não tem dormido.
Não dorme.
Passa noites em claro; inerte.
Velando
a urbe ciliar
a urbe maxilar
ocular
tentacular
ocular dorsal glútea
sanguínea
sexual
urbe mental.
Urbe,
criança grande e doente:
difícil crer que ela é a filha; a filha que apodrece no leito,
aos cuidados do rio insone, que a vela.
Sim, é a urbe,
a filha-frágil
a sofrer no leito
no leito morto e vivo
do rio insone.
20 de abril de 2009
19 de abril de 2009
Eu ontem jantei com o amor e com o tédio
I
MANÁ
Comunhão dos pecados cometidos na sacristia,
o jantar foi servido à hora consagrada.
Havia pão
vinho
frutas
sol
trigo
areia
Havia muito e a mesa estava muito alinhada
Mas nos olhos revoltosos dos convivas
estribilhava o desejo pela chegada do sentido
II
DECORAÇÃO
Sentaram-se muito cerimoniosos
Fitaram-se; emaranharam-se
Ninguém corou. A mesa continuou tateando às cegas.
Anjos e cruzes
quadros de Lorca
e poemas de Picasso
III
ELE
-- Seu nome é Tédio? Não seria Ódio?
-- Isso de ódio é coisa de poeta autor de operetas e folhetins.
-- Então, seu nome é Tédio...
-- Não.
-- ?
-- Hoje é Tédio. Amanhã Ódio. E depois Cansaço. E depois Amor-demais. E Chuva-de-verão. E Missa. E Andorinha. E Estopim.
-- ???
-- Não sou mistério. Pelo contrário: nu. Seu michê à vossa mercê. Sou todos os nomes.
(Ela pensa em soltar um oh! de surpresa, e iniciar uma defesa cristã pela coroa exclusivamente divina.)
Ao invés disso, um oh! de prazer.
Uma sineta vinda de não-sei-pra-quê toca.
Gargalhadas de tenores estilhaçam os quadros da Via Crúcis.
IV
ELA
Ele (sarcástico):
-- Você vem sempre aqui?
Ela (esforçando-se para manter o ar angelical, apesar da saia curtíssima e das coxas intimadoras):
-- Sim. Daqui não saio. O resto é passatempo. Ilusão.
(Ela executa piruetas, esgares e ensaia posições de Vatsyayana.)
Ele aplaude.
Os dois riem. E choram.
Compartilham o pão do ridículo.
V
O PRINCÍPIO
Ela pensa em ouvir algo.
Ele pensa em pensar.
-- O que você disse? Eu achei lindo!
-- Não, nada. Nonada. Foi só o garçom se atrapalhando com a prataria.
VI
O EFEITO DO VINHO
Ela pensa em ouvir algo.
Então fala para ouvir depois.
Ele pensa em pensar.
Pensa em ouvir.
Pensa em falar.
Pensa pensa, e repensante a noite corre.
VII
O MEIO
(Continuo a servir o vinho)
-- Riso choro e grito parecem a mesma coisa?
-- Você esqueceu do gozo.
-- Ah, é vero.
(Ele coloca mais um naco de Aparência em sua boca)
VIII
AS PERNAS ABERTAS (ou A REVELAÇÃO DO INCESTO)
-- Um beijo?
-- Melhor não. Esperemos o garçom se afastar.
Precisamos manter o segredo. E a audiência.
Céus, a audiência!
Ah, se soubessem! O que fariam! O que fariam!
Ah, se soubessem!
(Por trás da porta, ouço barulho de tiro e de queda)
IX
O COCHICHAR POSSESSO (ou O COCHICHAR POSSEXO)
-- Ai, mas se soubessem...
-- Não haveria mais missa.
-- Nem televisão.
-- Nem literatura.
-- Nem A divina comédia.
-- Oh! Mas um motivo para o silêncio!
(o garçom entra sorrateiramente)
X
O QUASE-FIM
(O garçom ao entrar, depara-se com o casal unido, deitados sobre a mesa, inconscientes)
Copos e imaginações quebradas.
Cheiros de vela e família.
Bafos de vinho e serenata.
Restos de carne e poema.
Manchas de utopia e molho.
XI
O FIM ORIGINAL (ou o GARÇOM CANIBAL)
Eu, garçom
Acendi a vela
e com fúria,
comi com a febre de um ignorante, o que havia do amor e do tédio.
Subalterno com coroa de rei,
saciei-me.
Mas nada. Um grande nada.
Olho em volta: leio.
Nada. Só um dicionário embaralhado
e a mesa revirada.
Trabalho para mais trabalho.
Zero.
O gosto é bom, não nego.
Mas sabê-lo dói.
Dói.
Demais.
(As cortinas se fecham. A platéia que ainda resistia, revolta-se insandecida contra tudo)
Tudo!
Todos!
Nada!
(Mais vaias. Bananas. Danem-se. Acabou-se.)
XII
O FINAL ALTERNATIVO (Proposta Alencariana. Escolhida pelo voto popular)
Ele (amoroso):
-- Oh, eu não sou o Tédio. Sou eu! o Ted! Eu: seu complemento!
-- Oh, eu sabia. Eu sabia. As convenções... não é... mentiras necessárias, justas. Trabalhamos pra isso. Justo.
(o garçom figurante mudo-cego-surdo-tuberculoso-analfabeto recolhe a mesa e sai sorrindo de forma cortês)
As cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o riso das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.
(Aplausos insandencidos. Entram os vendedores de guloseimas.)
Reticências e Reticências e Reticências
19.04.2009
MANÁ
Comunhão dos pecados cometidos na sacristia,
o jantar foi servido à hora consagrada.
Havia pão
vinho
frutas
sol
trigo
areia
Havia muito e a mesa estava muito alinhada
Mas nos olhos revoltosos dos convivas
estribilhava o desejo pela chegada do sentido
II
DECORAÇÃO
Sentaram-se muito cerimoniosos
Fitaram-se; emaranharam-se
Ninguém corou. A mesa continuou tateando às cegas.
Anjos e cruzes
quadros de Lorca
e poemas de Picasso
III
ELE
-- Seu nome é Tédio? Não seria Ódio?
-- Isso de ódio é coisa de poeta autor de operetas e folhetins.
-- Então, seu nome é Tédio...
-- Não.
-- ?
-- Hoje é Tédio. Amanhã Ódio. E depois Cansaço. E depois Amor-demais. E Chuva-de-verão. E Missa. E Andorinha. E Estopim.
-- ???
-- Não sou mistério. Pelo contrário: nu. Seu michê à vossa mercê. Sou todos os nomes.
(Ela pensa em soltar um oh! de surpresa, e iniciar uma defesa cristã pela coroa exclusivamente divina.)
Ao invés disso, um oh! de prazer.
Uma sineta vinda de não-sei-pra-quê toca.
Gargalhadas de tenores estilhaçam os quadros da Via Crúcis.
IV
ELA
Ele (sarcástico):
-- Você vem sempre aqui?
Ela (esforçando-se para manter o ar angelical, apesar da saia curtíssima e das coxas intimadoras):
-- Sim. Daqui não saio. O resto é passatempo. Ilusão.
(Ela executa piruetas, esgares e ensaia posições de Vatsyayana.)
Ele aplaude.
Os dois riem. E choram.
Compartilham o pão do ridículo.
V
O PRINCÍPIO
Ela pensa em ouvir algo.
Ele pensa em pensar.
-- O que você disse? Eu achei lindo!
-- Não, nada. Nonada. Foi só o garçom se atrapalhando com a prataria.
VI
O EFEITO DO VINHO
Ela pensa em ouvir algo.
Então fala para ouvir depois.
Ele pensa em pensar.
Pensa em ouvir.
Pensa em falar.
Pensa pensa, e repensante a noite corre.
VII
O MEIO
(Continuo a servir o vinho)
-- Riso choro e grito parecem a mesma coisa?
-- Você esqueceu do gozo.
-- Ah, é vero.
(Ele coloca mais um naco de Aparência em sua boca)
VIII
AS PERNAS ABERTAS (ou A REVELAÇÃO DO INCESTO)
-- Um beijo?
-- Melhor não. Esperemos o garçom se afastar.
Precisamos manter o segredo. E a audiência.
Céus, a audiência!
Ah, se soubessem! O que fariam! O que fariam!
Ah, se soubessem!
(Por trás da porta, ouço barulho de tiro e de queda)
IX
O COCHICHAR POSSESSO (ou O COCHICHAR POSSEXO)
-- Ai, mas se soubessem...
-- Não haveria mais missa.
-- Nem televisão.
-- Nem literatura.
-- Nem A divina comédia.
-- Oh! Mas um motivo para o silêncio!
(o garçom entra sorrateiramente)
X
O QUASE-FIM
(O garçom ao entrar, depara-se com o casal unido, deitados sobre a mesa, inconscientes)
Copos e imaginações quebradas.
Cheiros de vela e família.
Bafos de vinho e serenata.
Restos de carne e poema.
Manchas de utopia e molho.
XI
O FIM ORIGINAL (ou o GARÇOM CANIBAL)
Eu, garçom
Acendi a vela
e com fúria,
comi com a febre de um ignorante, o que havia do amor e do tédio.
Subalterno com coroa de rei,
saciei-me.
Mas nada. Um grande nada.
Olho em volta: leio.
Nada. Só um dicionário embaralhado
e a mesa revirada.
Trabalho para mais trabalho.
Zero.
O gosto é bom, não nego.
Mas sabê-lo dói.
Dói.
Demais.
(As cortinas se fecham. A platéia que ainda resistia, revolta-se insandecida contra tudo)
Tudo!
Todos!
Nada!
(Mais vaias. Bananas. Danem-se. Acabou-se.)
XII
O FINAL ALTERNATIVO (Proposta Alencariana. Escolhida pelo voto popular)
Ele (amoroso):
-- Oh, eu não sou o Tédio. Sou eu! o Ted! Eu: seu complemento!
-- Oh, eu sabia. Eu sabia. As convenções... não é... mentiras necessárias, justas. Trabalhamos pra isso. Justo.
(o garçom figurante mudo-cego-surdo-tuberculoso-analfabeto recolhe a mesa e sai sorrindo de forma cortês)
As cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o riso das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.
(Aplausos insandencidos. Entram os vendedores de guloseimas.)
Reticências e Reticências e Reticências
19.04.2009
18 de abril de 2009
Penúltimo poema sobre a morte
A vida é, desde seu início,
Ultimato.
Assim, a morte, grande pedaço da vida, não deveria surpreender.
E a vida é também, desde o início,
Estopim.
Mas a morte,
mesmo na corda bamba,
entre vivas e tiros,
vem sempre,
calma e risonha.
E assim, nos surpreende, a morte.
Ultimato.
Assim, a morte, grande pedaço da vida, não deveria surpreender.
E a vida é também, desde o início,
Estopim.
Mas a morte,
mesmo na corda bamba,
entre vivas e tiros,
vem sempre,
calma e risonha.
E assim, nos surpreende, a morte.
11 de abril de 2009
Meu retrato na parede
Linda criança, rosto de anjo!
Como eu queria ser você novamente...
Doçura me falta, rudeza eu esbanjo
Enquanto você ri, chora, não mente.
Talvez eu ainda seja você, meu arcanjo
Talvez você não tenha sumido, somente
Saiu para colher flores para o arranjo
Que daremos à nossa mãe, docemente...
Somos o mesmo ser, mas somos irmãos
Peço que retorne; brinquemos juntos!
Desça dessa parede; dá-me tuas mãos!
Peteca, bola, pipa, carrinho-de-mão
Há tantas brincadeiras, tantos assuntos
Que esqueci! Relembre-me! Dá-me tuas mãos!
(Início de 2008)
Como eu queria ser você novamente...
Doçura me falta, rudeza eu esbanjo
Enquanto você ri, chora, não mente.
Talvez eu ainda seja você, meu arcanjo
Talvez você não tenha sumido, somente
Saiu para colher flores para o arranjo
Que daremos à nossa mãe, docemente...
Somos o mesmo ser, mas somos irmãos
Peço que retorne; brinquemos juntos!
Desça dessa parede; dá-me tuas mãos!
Peteca, bola, pipa, carrinho-de-mão
Há tantas brincadeiras, tantos assuntos
Que esqueci! Relembre-me! Dá-me tuas mãos!
(Início de 2008)
Velhas novas
Acordou, como sempre fazia, às oito horas da manhã. Calçou os chinelos, lavou o rosto na pia, foi à porta principal buscar o jornal. Na capa do jornal, viu uma foto que lhe remeteu a algum lugar que já estivera. Pensava nisso quando o telefone tocou. Era um colega de trabalho. Hora extra hoje? Não, tudo bem. Contem comigo. Foi à cozinha, preparou um café. Sentou-se. Em que pensava mesmo? Não lembrou. Foi folheando as páginas do jornal, sem se deter em nenhum texto ou imagem. Chegou ao fim dos cadernos, sem ter achado nada de útil. Esportes, cultura, política, economia: nada lhe despertara o interesse, por que nada daquilo era novo. Mataram uma mulher com um furadeira. O papa pediu paz. O povo pediu justiça. Dois homens encapuzados entraram na loja, anunciaram o assalto e pediram que toda a paz e justiça fossem postas em sacolas. O dólar recuou muito nessa última semana, ao contrário da equipe do Flamengo, que desde que o técnico Zezinho assumiu, tem avançado muito na tabela do campeonato. No capítulo da novela de hoje, Irã dará um beijo e fará as pazes com os EUA. Chuva e vento assinaram um cessar-fogo, e darão uma trégua nesse fim-de-semana. O papa pediu trégua. Aconteceu na noite de Domingo: o namorado pediu trégua à namorada, e ante a recusa dela, o jovem matou-a com uma furadeira. O técnico Zezinho disse que isso acontece. Vitórias vêm e vão. Como vento, como a chuva. Como a paz, a justiça ou uma furadeira penetrando a parede. Não perca a folhetim, hoje, às nove horas, logo após a emocionante partida entre Dow Jones e Nasdaq.
De fato, nada de novo no país do carnaval.
De fato, nada de novo no país do carnaval.
9 de abril de 2009
Corações-de-leite
Nosso amor é instantâneo
Ao primeiro despejo de água fervente
Cozinha-se me três minutos e alimenta
uma corja de inamantes
Nosso amor é comida de microondas
Nosso amor é natureba
Não engorda e não faz crescer
Nosso amor é comida congelada
Nosso amor não é integral, não é francês, nem caseiro:
Nosso amor é dormido
Nosso amor não dá água na boca; dá no corpo inteiro.
Nossso amor é desnatado, desidratado, perecível
Nosso amor é assim, como uma guloseima:
Não sabemos do que é feito e sabemos que nos faz mal
Mas não ligamos, somos crianças:
Temos corações-de-leite.
(2007)
Ao primeiro despejo de água fervente
Cozinha-se me três minutos e alimenta
uma corja de inamantes
Nosso amor é comida de microondas
Nosso amor é natureba
Não engorda e não faz crescer
Nosso amor é comida congelada
Nosso amor não é integral, não é francês, nem caseiro:
Nosso amor é dormido
Nosso amor não dá água na boca; dá no corpo inteiro.
Nossso amor é desnatado, desidratado, perecível
Nosso amor é assim, como uma guloseima:
Não sabemos do que é feito e sabemos que nos faz mal
Mas não ligamos, somos crianças:
Temos corações-de-leite.
(2007)
O fim de um sonho
Rimas tolas, poesia explicada, poesia domingo-de-missa.
O lirismo que julgava ter, que nem havia nascido.
O médico:
-- Tente fazer um soneto.
-- Tome. Eis o soneto.
-- Argh! Agora...uns versos simples, sem rimas.
-- Tome.
-- Credo! Que é isso? Complete pra mim: batatinha quando nasce...
-- Esparrama pelo chão!
O médico joga longe o estetoscópio e limpa a garganta.
-- E então, doutor?
-- Zero.
-- Não é possível tentar uma paródia bandeiriana?
-- Não. A única coisa a fazer é assistir televisão.
(2007)
O lirismo que julgava ter, que nem havia nascido.
O médico:
-- Tente fazer um soneto.
-- Tome. Eis o soneto.
-- Argh! Agora...uns versos simples, sem rimas.
-- Tome.
-- Credo! Que é isso? Complete pra mim: batatinha quando nasce...
-- Esparrama pelo chão!
O médico joga longe o estetoscópio e limpa a garganta.
-- E então, doutor?
-- Zero.
-- Não é possível tentar uma paródia bandeiriana?
-- Não. A única coisa a fazer é assistir televisão.
(2007)
Circunlóquios
Todo poema já é ao primeiro verso
um rodeio, um amontoado de adornos
para se expôr uma verdade límpida e vesga
por isso o silêncio é tão respeitado:
na lata
na cara
na faca
no peito
(final de 2007)
um rodeio, um amontoado de adornos
para se expôr uma verdade límpida e vesga
por isso o silêncio é tão respeitado:
na lata
na cara
na faca
no peito
(final de 2007)
28 de março de 2009
O dadaísta
Batom nas paredes
Vasos chineses viram arte cubista
Cortinas de renda, arte abstrata
Na cozinha, uma curiosa instalação:
pegadas de lama no piso branco.
O artista se decompôs em arte nonsense
para expressar sua agonia.
Um grito como o de Münch, silencioso:
um grito que pede atenção.
(Dezembro de 2007)
Vasos chineses viram arte cubista
Cortinas de renda, arte abstrata
Na cozinha, uma curiosa instalação:
pegadas de lama no piso branco.
O artista se decompôs em arte nonsense
para expressar sua agonia.
Um grito como o de Münch, silencioso:
um grito que pede atenção.
(Dezembro de 2007)
21 de março de 2009
Encontro ao acaso
Encontro ao acaso
Aos pés do ocaso
Ele declama Cacaso
Ela faz pouco caso
Mesmo assim, ata-se o caso
Após um tempo sofrendo com o descaso
O coração dele pergunta ao vaso:
“Querida planta, será que ela se casa?”
“Eu caso”, dizem ambos ao padre Cássio.
A lua-de-mel para inaugurar a nova casa
É noite tórrida que tudo arrasa
(corpos entrelaçados em tela cubista de Picasso)
Ela diz, “meu corpo é tua casa”
Ele responde com um beijo, um forte amasso
E com uma declaração gostosa, porém casta
E esse baile de amor dura anos ao som de uma canção devassa
Enquanto isso, o acaso, que tudo assiste, se afasta
Vai contar as novidades para o ocaso
Contará que o amor tudo transpassa
Para poder tranquilamente afogar-se num oceano raso.
(2007)
Aos pés do ocaso
Ele declama Cacaso
Ela faz pouco caso
Mesmo assim, ata-se o caso
Após um tempo sofrendo com o descaso
O coração dele pergunta ao vaso:
“Querida planta, será que ela se casa?”
“Eu caso”, dizem ambos ao padre Cássio.
A lua-de-mel para inaugurar a nova casa
É noite tórrida que tudo arrasa
(corpos entrelaçados em tela cubista de Picasso)
Ela diz, “meu corpo é tua casa”
Ele responde com um beijo, um forte amasso
E com uma declaração gostosa, porém casta
E esse baile de amor dura anos ao som de uma canção devassa
Enquanto isso, o acaso, que tudo assiste, se afasta
Vai contar as novidades para o ocaso
Contará que o amor tudo transpassa
Para poder tranquilamente afogar-se num oceano raso.
(2007)
14 de março de 2009
Eterno torpor
---Hã?
Estava deitado. Minha mente, agindo como um velho computador, revelava os detalhes do ambiente aos poucos, sistematicamente. Vi um guarda-roupa à esquerda da cama. Acima de meu corpo, giros e giros silenciosos de um ventilador. Surgiu uma cadeira. Surgiu uma mulher sobre ela. Surgiu um par de olhos fixos em mim, me interrogando com virulência. Eu não distinguia qualquer som: somente rugas dançando, e uma boca em movimentos nervosos de afogado. Essa mulher parecia ser minha esposa.
---Hã? (só conseguia dizer isso.)
Estava confuso. Nada fazia sentido. Mais alguém entrou no meu quarto. Parecia minha filha. Distingui os primeiros sons: dinheiro-fora-água. Quem disse aquelas palavras? Não sabia. Invadiu o ambiente, uma canção de rock. E a mulher ali, contorcendo sua boca, a me fitar. O que queria?
---Hã?
---Você tá bêbado? Drogado? Levante-se!
A confusão aumentava. Ergui meu corpo, e enconstei-me na cabeceira da cama. Acabara de acordar, com certeza. Entretanto, sentia uma sensação de entorpecimento no corpo muito incomum. Como se eu ainda dormisse, mesmo estando acordado. Como se eu ainda estivesse acordando. Lentamente, eu acordava de um grande sono. A canção de rock continuava. A mulher, agora, já estava de pé, movimentando-se de forma preocupada. Olhava pra mim, olhava pra menina, que é lógico, era minha filha. Sim, era ela.
Um cheiro de carne assada se misturou com o som do rock. A mulher, ou melhor, a minha mulher falava muito, mas eu só assimilava algumas palavras. Palavras com um cheiro ruim: hospital-droga-noite-falar-ouvindo, ouvindo, ouvindo...
--- Sim, eu estou te ouvindo - falei.
--- Então me diga: o que eu disse?
--- Hã?
Com rapidez, a mulher se aproximou de mim, e sentou na borda da cama. Senti que ela queria me acariciar ou me bater: um dos dois. Nada fez, e eu fiquei com a dúvida até novas sensações me distraírem. Durante alguns minutos (quantos?) várias imagens, aromas e sons dançaram sobre a minha cabeça. Com as duas (Marina, minha mulher e Duda, minha filha) ao redor da cama, adormeci.
--- Vum-Vum-Vum.
Sou péssimo com onomatopéias. Mas foi isso que ouvi logo que reabri meus olhos. As pás do ventilador giravam, giravam e giravam... e aquele som me pareceu extremamente familiar. E calmo. E tedioso. E eterno.
Não sei quando tempo fiquei ali deitado, até Marina entrar no nosso quarto. Deitou-se a meu lado. Tinha o rosto calmo. Aconchegou-se a mim, sem dizer qualquer palavra. No ambiente, nenhum sinal daquelas estranhas sensações. Sua fala era pausada e compreensível. Suas palavras soavam comuns: não tinham cheiro nem sabor. Palavras, apenas. Minha filha também entrou. Pediu dinheiro. Iria sair.
--- Onde vais? -Perguntei. Fiz isso com uma fala que soou mecânica, como soam as falas dos atores medíocres.
--- Sair. Cair fora. Mas não se preocupe. Só vou tomar água.
Marina sorriu. Duda sorriu e partiu. Eu não fiz nada. Como sempre, não fiz nada.
Marina fixou aqueles seus olhos pequenos em mim e sorriu. Falou em sairmos. Falou em ficarmos. Minha mente, velho computador, não reconhecia aquelas palavras. Eram perfeitas, fáceis de serem assimiladas. O sorriso de Marina era bonito. A música que vinha da sala era boa, agradável. Mas minha mente estranhava. Como se aquela sensação estranha, que me havia atingido há pouco, houvesse retornado. Uma sensação de estranhamento, de recusa ao ambiente que me rodeava. Agora eu entendia perfeitamente tudo o que estava à minha volta. Mas ainda me sentia estranho. Uma estranheza calma, tediosa. Eterna.
Marina ainda sorria, fitando-me. Disse que eu estava distraído, com o pensamento em outro lugar. Quis dizer que estava totalmente em outro lugar. Eu era outro lugar. Como sempre, não disse nada.
Ela, um pouco receosa, talvez me estranhando, enlaçou meu corpo como se eu estivesse querendo fugir. Mas eu estava calmo: Lucidez; Eterno; torpor: Entorpecimento.
Como sempre, não pretendia fugir.
Ainda desconfiada, perguntou-me se eu ainda a amava.
Minha mente, velho computador, pensou e pensou e pensou. O ventilador girava, girava e girava...
Ante o meu silêncio, ela insistiu. E então, amava ou não amava?
--- Hã?
Isso saiu calma e naturalmente. Não havia mais nada a dizer. Comecei, então, a perceber que todo aquele ambiente me gritava algo. A cadeira, a respiração calma de Marina, o barulho do ventilador: tudo me dizia que eu precisava, urgentemente, fugir daquele lugar.
Estava deitado. Minha mente, agindo como um velho computador, revelava os detalhes do ambiente aos poucos, sistematicamente. Vi um guarda-roupa à esquerda da cama. Acima de meu corpo, giros e giros silenciosos de um ventilador. Surgiu uma cadeira. Surgiu uma mulher sobre ela. Surgiu um par de olhos fixos em mim, me interrogando com virulência. Eu não distinguia qualquer som: somente rugas dançando, e uma boca em movimentos nervosos de afogado. Essa mulher parecia ser minha esposa.
---Hã? (só conseguia dizer isso.)
Estava confuso. Nada fazia sentido. Mais alguém entrou no meu quarto. Parecia minha filha. Distingui os primeiros sons: dinheiro-fora-água. Quem disse aquelas palavras? Não sabia. Invadiu o ambiente, uma canção de rock. E a mulher ali, contorcendo sua boca, a me fitar. O que queria?
---Hã?
---Você tá bêbado? Drogado? Levante-se!
A confusão aumentava. Ergui meu corpo, e enconstei-me na cabeceira da cama. Acabara de acordar, com certeza. Entretanto, sentia uma sensação de entorpecimento no corpo muito incomum. Como se eu ainda dormisse, mesmo estando acordado. Como se eu ainda estivesse acordando. Lentamente, eu acordava de um grande sono. A canção de rock continuava. A mulher, agora, já estava de pé, movimentando-se de forma preocupada. Olhava pra mim, olhava pra menina, que é lógico, era minha filha. Sim, era ela.
Um cheiro de carne assada se misturou com o som do rock. A mulher, ou melhor, a minha mulher falava muito, mas eu só assimilava algumas palavras. Palavras com um cheiro ruim: hospital-droga-noite-falar-ouvindo, ouvindo, ouvindo...
--- Sim, eu estou te ouvindo - falei.
--- Então me diga: o que eu disse?
--- Hã?
Com rapidez, a mulher se aproximou de mim, e sentou na borda da cama. Senti que ela queria me acariciar ou me bater: um dos dois. Nada fez, e eu fiquei com a dúvida até novas sensações me distraírem. Durante alguns minutos (quantos?) várias imagens, aromas e sons dançaram sobre a minha cabeça. Com as duas (Marina, minha mulher e Duda, minha filha) ao redor da cama, adormeci.
--- Vum-Vum-Vum.
Sou péssimo com onomatopéias. Mas foi isso que ouvi logo que reabri meus olhos. As pás do ventilador giravam, giravam e giravam... e aquele som me pareceu extremamente familiar. E calmo. E tedioso. E eterno.
Não sei quando tempo fiquei ali deitado, até Marina entrar no nosso quarto. Deitou-se a meu lado. Tinha o rosto calmo. Aconchegou-se a mim, sem dizer qualquer palavra. No ambiente, nenhum sinal daquelas estranhas sensações. Sua fala era pausada e compreensível. Suas palavras soavam comuns: não tinham cheiro nem sabor. Palavras, apenas. Minha filha também entrou. Pediu dinheiro. Iria sair.
--- Onde vais? -Perguntei. Fiz isso com uma fala que soou mecânica, como soam as falas dos atores medíocres.
--- Sair. Cair fora. Mas não se preocupe. Só vou tomar água.
Marina sorriu. Duda sorriu e partiu. Eu não fiz nada. Como sempre, não fiz nada.
Marina fixou aqueles seus olhos pequenos em mim e sorriu. Falou em sairmos. Falou em ficarmos. Minha mente, velho computador, não reconhecia aquelas palavras. Eram perfeitas, fáceis de serem assimiladas. O sorriso de Marina era bonito. A música que vinha da sala era boa, agradável. Mas minha mente estranhava. Como se aquela sensação estranha, que me havia atingido há pouco, houvesse retornado. Uma sensação de estranhamento, de recusa ao ambiente que me rodeava. Agora eu entendia perfeitamente tudo o que estava à minha volta. Mas ainda me sentia estranho. Uma estranheza calma, tediosa. Eterna.
Marina ainda sorria, fitando-me. Disse que eu estava distraído, com o pensamento em outro lugar. Quis dizer que estava totalmente em outro lugar. Eu era outro lugar. Como sempre, não disse nada.
Ela, um pouco receosa, talvez me estranhando, enlaçou meu corpo como se eu estivesse querendo fugir. Mas eu estava calmo: Lucidez; Eterno; torpor: Entorpecimento.
Como sempre, não pretendia fugir.
Ainda desconfiada, perguntou-me se eu ainda a amava.
Minha mente, velho computador, pensou e pensou e pensou. O ventilador girava, girava e girava...
Ante o meu silêncio, ela insistiu. E então, amava ou não amava?
--- Hã?
Isso saiu calma e naturalmente. Não havia mais nada a dizer. Comecei, então, a perceber que todo aquele ambiente me gritava algo. A cadeira, a respiração calma de Marina, o barulho do ventilador: tudo me dizia que eu precisava, urgentemente, fugir daquele lugar.
9 de março de 2009
A santa graça de um domingo
Em meio à mansidão pastoril,
um bebê chora, uma senhora chora,
e o mundo parece ter parado.
---Orai!Orai!O salvador logo virá!
E todos dormem na santa paz da missa.
Mas, eis que surge
correndo pelo corredor principal,
uma mulher gritando.
Ensanguentada, roupa rasgada,
os seios à mostra e o corpo em carne viva.
---Onde está Deus? Digam-me!
Então o bebê calou-se,
A senhora sorriu,
começou a chover,
o padre disse rapidamente:
---Ide em paz e que Deus vos acompanhe!
---Graças a Deus, respondeu-se em balidos.
E logo a segunda-feira se fez.
Agora, carros e sapatos tamborilam sobre o ceú negro da cidade.
Enquanto a mulher, aquela mulher invisível,
continua aos pés de Cristo,
no altar,
agora vazio.
um bebê chora, uma senhora chora,
e o mundo parece ter parado.
---Orai!Orai!O salvador logo virá!
E todos dormem na santa paz da missa.
Mas, eis que surge
correndo pelo corredor principal,
uma mulher gritando.
Ensanguentada, roupa rasgada,
os seios à mostra e o corpo em carne viva.
---Onde está Deus? Digam-me!
Então o bebê calou-se,
A senhora sorriu,
começou a chover,
o padre disse rapidamente:
---Ide em paz e que Deus vos acompanhe!
---Graças a Deus, respondeu-se em balidos.
E logo a segunda-feira se fez.
Agora, carros e sapatos tamborilam sobre o ceú negro da cidade.
Enquanto a mulher, aquela mulher invisível,
continua aos pés de Cristo,
no altar,
agora vazio.
7 de março de 2009
Advertência
Aviso a todos os que leem essas palavras,
que não há nada de empolgante aqui.
O que havia de belo você, leitor, não viu:
as aventuras, meus desejos,
meus erros e medos agora são pre-história
pré-poema
pré-parto
pré-fico
pré-estado.
o que disse e o que senti,
tudo isso jaz, a partir de agora,
em cavernas:
meus beijos, meus olhares, meus gritos:
todo o meu passado em pictografia;
rabiscos oníricos de criança.
Leia meu livro. Seja ator, e finja que me conhece ao ler as palavras que desenho,
mas saiba que este aqui não sou eu.
Você, leitor,
é um desconhecido com quem eu, eu-mesmo, esbarrei,
há um segundo atrás,
antes de pegar uma pedra lascada e escrever esse poema.
que não há nada de empolgante aqui.
O que havia de belo você, leitor, não viu:
as aventuras, meus desejos,
meus erros e medos agora são pre-história
pré-poema
pré-parto
pré-fico
pré-estado.
o que disse e o que senti,
tudo isso jaz, a partir de agora,
em cavernas:
meus beijos, meus olhares, meus gritos:
todo o meu passado em pictografia;
rabiscos oníricos de criança.
Leia meu livro. Seja ator, e finja que me conhece ao ler as palavras que desenho,
mas saiba que este aqui não sou eu.
Você, leitor,
é um desconhecido com quem eu, eu-mesmo, esbarrei,
há um segundo atrás,
antes de pegar uma pedra lascada e escrever esse poema.
15 de fevereiro de 2009
O palhaço triste
Meio-dia. Os carros correm no asfalto em brasa. O sinal fecha. Alguns ignoram a luz vermelha, mas a maioria diminui a velocidade até parar. Os pedestres atravessam indiferentes. Os motoristas aguardam indiferentes. Da calçada eu sorrio para uma mulher muito atraente do outro lado da rua. Ela vira o rosto, indiferente. Todos parecem tão centrados em si, indiferentes, que eu me sinto um idiota pensando nos outros. Serei diferente? Não, não sou. Meu rosto é comum, meus pensamentos são comuns, meu trabalho é comum. Diferente, mesmo, é a vida desse palhaço à minha frente. Assim que os carros param, ele entra em ação: com o rosto maquiado, a roupa toda branca e preta, ele brinca com malabares. As peças descrevem no ar algumas piruetas, mas sempre no mesmo ciclo, o que faz os outros pensaram, erradamente, que aquilo não é nada demais. A simplicidade do ciclo faz as pessoas pensarem: "Com prática eu também faço isso". Mas eu garanto: eu não faço, e muitas das pessoas que supõe essa facilidade também não fariam o que ele faz. Sabe por quê? Retornemos ao início desse texto: é meio-dia. Um sol intenso nos obriga a andar cabisbaixos. Os pedestres estão com pressa. Os motoristas também estão com pressa. E o palhaço só tem alguns segundos para conquistar pessoas nitidamente indiferentes, e convencê-las da qualidade de seu trabalho. Não basta prática para ser um palhaço malabarista. É preciso muito mais. A começar por um coração forte, afinal, é difícil sorrir para pessoas que estão loucas para soltar em você todas as amarguras alimentadas até ali. Dar sorrisos por obrigação, coisa muito difícil. Mas esse palhaço que está diante de mim é muito bom. Parece feliz, acredita sinceramente que está feliz. No tempo certo, cronometrado pela mente, ele encerra a pequena apresentação e vai até o respeitável e indiferente público. Os carros mudam a cada apresentação, mais seus sentidos captam sempre as mesmas coisas: Vidros fechados, fumaças de escape, o som de moedinhas insignificantes caindo em sua mão, uma gota de suor descendo pelas suas costas, um “muito obrigado, senhor”, e como resposta, uma arrancada de pneus. Ninguém ri; ninguém aplaude; ninguém fala nada: ou dá uns trocados, ou pede desculpas, ou nem isso, simplesmente ignora completamente esse palhaço preto e branco.
Os carros passam, os pedestres passam. O sinal abre e fecha a toda hora. Novos carros, novas pessoas: no fundo, são sempre as mesmas. E assim como os malabares descrevem sempre o mesmo ciclo, o malabarista também representa sempre a mesma cena, participa do mesmo ciclo. Por mais alegre que seja, o palhaço não consegue esconder a tristeza de sua função. Sorrir, sorrir. Sorrir para olhos indiferentes.
Já é uma hora da tarde. Depois de muitas apresentações, o palhaço triste acumula certa quantia, que não consigo contabilizar daqui, mas sei que não é muito. Ele pára pra descansar na calçada oposta a onde eu me encontro. Está bem suado, mas a maquiagem é bem pesada e resiste. Por um momento, ele volve os olhos para o outro lado da rua e encontra os meus. Ou o palhaço tem os olhos tristes, ou então reflete em seus olhos a tristeza que esse cronista carrega nos seus. Talvez sejamos dois olhares tristes. Talvez. Reparo que ele se encontra no mesmo lugar que aquela bela mulher estava. Ela me ignorou com indiferença. Enquanto nossos olhos se refletem, eu arrisco um sorriso para o palhaço, como fiz para aquela mulher.
Aguardo. Agora ele não está trabalhando, então verei se seu riso é, naturalmente, triste ou alegre.
Vejo que seu rosto se contrai. Ele irá sorrir. Enfim, a revelação. O sinal, até então fechado, abre. Carros altos impedem que eu veja sua resposta. Ônibus e caminhões, carros em alta velocidade. Não diviso o jovem palhaço. O sinal fica amarelo. Os carros se acalmam. E os motoristas, estacam com suas indiferenças amarelas. O palhaço já saiu da calçada. Ágil, já está sobre a faixa de pedestres, brincando com seus malabares. Espero, como uma criança que vai ao circo pela primeira vez, o olhar do palhaço. Nada. Segue em sua loucura, na sua alegria demasiado racional para ser sincera. Palhaço triste e mentiroso. Criança que sou, saio desapontado. Vou caminhado pelas calçadas, com o sol ainda quente sob minha cabeça. Sem olhar pra trás, vou pensando no que teria acontecido durante aquele espaço de tempo. Aquela lacuna entre poucos segundos. O que haveria entre o meu sorriso e o esverdear do semáforo?
Tristeza ou alegria? Minha intuição apontava a tristeza. Mas eu não a vi. Não podia afirmar.
Continuava caminhando, e aos poucos de curiosa criança passei para o adulto desencantado que sou.
--- Não, vou afirmar. Era de felicidade. Tem que ser felicidade, não pode haver palhaço triste.
Dito isso para mim mesmo, parei. Estava diante de outro semáforo. A luz estava vermelha. Atravessei a rua com outros pedestres.
Decidi esquecer o palhaço e juntei-me à massa dos indiferentes.
Os carros passam, os pedestres passam. O sinal abre e fecha a toda hora. Novos carros, novas pessoas: no fundo, são sempre as mesmas. E assim como os malabares descrevem sempre o mesmo ciclo, o malabarista também representa sempre a mesma cena, participa do mesmo ciclo. Por mais alegre que seja, o palhaço não consegue esconder a tristeza de sua função. Sorrir, sorrir. Sorrir para olhos indiferentes.
Já é uma hora da tarde. Depois de muitas apresentações, o palhaço triste acumula certa quantia, que não consigo contabilizar daqui, mas sei que não é muito. Ele pára pra descansar na calçada oposta a onde eu me encontro. Está bem suado, mas a maquiagem é bem pesada e resiste. Por um momento, ele volve os olhos para o outro lado da rua e encontra os meus. Ou o palhaço tem os olhos tristes, ou então reflete em seus olhos a tristeza que esse cronista carrega nos seus. Talvez sejamos dois olhares tristes. Talvez. Reparo que ele se encontra no mesmo lugar que aquela bela mulher estava. Ela me ignorou com indiferença. Enquanto nossos olhos se refletem, eu arrisco um sorriso para o palhaço, como fiz para aquela mulher.
Aguardo. Agora ele não está trabalhando, então verei se seu riso é, naturalmente, triste ou alegre.
Vejo que seu rosto se contrai. Ele irá sorrir. Enfim, a revelação. O sinal, até então fechado, abre. Carros altos impedem que eu veja sua resposta. Ônibus e caminhões, carros em alta velocidade. Não diviso o jovem palhaço. O sinal fica amarelo. Os carros se acalmam. E os motoristas, estacam com suas indiferenças amarelas. O palhaço já saiu da calçada. Ágil, já está sobre a faixa de pedestres, brincando com seus malabares. Espero, como uma criança que vai ao circo pela primeira vez, o olhar do palhaço. Nada. Segue em sua loucura, na sua alegria demasiado racional para ser sincera. Palhaço triste e mentiroso. Criança que sou, saio desapontado. Vou caminhado pelas calçadas, com o sol ainda quente sob minha cabeça. Sem olhar pra trás, vou pensando no que teria acontecido durante aquele espaço de tempo. Aquela lacuna entre poucos segundos. O que haveria entre o meu sorriso e o esverdear do semáforo?
Tristeza ou alegria? Minha intuição apontava a tristeza. Mas eu não a vi. Não podia afirmar.
Continuava caminhando, e aos poucos de curiosa criança passei para o adulto desencantado que sou.
--- Não, vou afirmar. Era de felicidade. Tem que ser felicidade, não pode haver palhaço triste.
Dito isso para mim mesmo, parei. Estava diante de outro semáforo. A luz estava vermelha. Atravessei a rua com outros pedestres.
Decidi esquecer o palhaço e juntei-me à massa dos indiferentes.
O arquivo
Diante das mãos eu tenho
(num arquivo de religião, ciência e ferro)
Fotos, documentos, relatórios, amostras.
Que crimes cometeram; que produtos compraram; que doenças adquiriram essas pessoas
para estarem trancadas nessas caixas?
Diante das mãos eu tenho
filas e filas de histórias; de vidas; de desconhecidos,
mas o que eu queria mesmo
eram os motivos , eu queria os atos palpáveis:
as doenças, os crimes,
os flagrantes, os produtos da venda;
os motivos.
Pois o que hoje tenho diante de minhas mãos
é somente a parte descritível, oca e impalpável da humanidade.
(num arquivo de religião, ciência e ferro)
Fotos, documentos, relatórios, amostras.
Que crimes cometeram; que produtos compraram; que doenças adquiriram essas pessoas
para estarem trancadas nessas caixas?
Diante das mãos eu tenho
filas e filas de histórias; de vidas; de desconhecidos,
mas o que eu queria mesmo
eram os motivos , eu queria os atos palpáveis:
as doenças, os crimes,
os flagrantes, os produtos da venda;
os motivos.
Pois o que hoje tenho diante de minhas mãos
é somente a parte descritível, oca e impalpável da humanidade.
9 de fevereiro de 2009
Ausência e presença.
Qual o valor da presença? E o da ausência?
Explico.
Segunda-feira. Na rua temos o familiar barulho produzido por um carro-criança-apito-sirene-grito-espirro-relincho. Eu estou num prédio. Edifício. Centro Comercial. Que seja. O que importa é que estou num elevador de um prédio. Subindo ou descendo? Sei lá! Repito: o que importa é que estou fechado num elevador, protegido da adorável confusão do mundo. Mas não estou sozinho: ao meu lado há uma senhorinha. O elevador às vezes me incomoda. Ele é como a rua, lá fora: pessoas e pessoas que você não conhece, com quem não fala. Mas no elevador a convivência é forçada, por poucos segundos, mas é forçada. Viagens de elevador são rápidas, impossível descobrir alguma característica psicológica da pessoa que está ao seu lado, durante o percurso. O que podemos ver é se a moça é gostosa, ou se o senhor se veste mal, ou se a criança tem o nariz escorrendo. Mas e essa senhora ao meu lado? Como saber quem ela é realmente? Talvez essa curiosidade pareça estranha, eu mesmo não a possuía até aquele dia. Eu aperto o botão de um certo andar. A senhorinha outro. O elevador se movimenta, mas o silêncio que nos envolve parecia estar inerte: não há um único som. Nessa angústia silenciosa, sinto falta dos velhos clichês de elevador:
1- Poderia ter uma mulher super-atraente aqui.
2- O elevador poderia estar lotado, com o povo se apertando.
3- Poderia estar tocando aquelas musiquinhas de elevador (muito tranquilas, e talvez por isso, muito irritantes).
4- Poderíamos trocar comentários metereológicos ("está calor, não? Acho que vai chover...")
5- Alguém poderia soltar um peido. (credo! isso não!)
Não há clichês. O que há é uma senhorinha muito austera, silenciosa, com uma bolsa colorida no ombro esquerdo. O elevador para: um alívio sem razão cai sobre mim. A velhinha vai saindo do elevador, mas antes da porta fechar, me diz:
---Tchau.
E vai. A porta se fecha e eu sigo em minha viagem.
Eu sei o que você está pensando: e daí que uma velha te deu um tchauzinho? Bem, eu fiquei pensando... quando você se despede de alguém, está automaticamente reconhecendo a presença da mesma. E o que é uma presença? Um corpo ao seu lado é sempre uma presença? Talvez, para a velhinha, sim. Ou há algumas características que fazem com que você note a pessoa desconhecida ao seu lado? Penso que quando você se despede de alguém, está fazendo ela existir pra você, mesmo que seja um desconhecido. Onde eu quero chegar? Sei lá, só sei que há tantas e tantas pessoas que cruzam por mim nos elevadores da vida, e que não falam nada. É como se eu não estivesse ali. Não acho que isso é falta de educação. É hábito. Eu mesmo não me despedia das pessoas, até aquele dia em que viajei com a senhorinha da bolsa colorida. Até aquele dia em que eu parei pra pensar no quanto somos distantes e próximos ao mesmo tempo. Problemas, histórias tristes, causos engraçados: Histórias que se encontram a toda hora, que se cruzam, mas que ninguém vê, por que somos silenciosos, temos pressa e a vida é muito curta para engatilhar conversas com desconhecidos.
--- Tchau pra você também.
Explico.
Segunda-feira. Na rua temos o familiar barulho produzido por um carro-criança-apito-sirene-grito-espirro-relincho. Eu estou num prédio. Edifício. Centro Comercial. Que seja. O que importa é que estou num elevador de um prédio. Subindo ou descendo? Sei lá! Repito: o que importa é que estou fechado num elevador, protegido da adorável confusão do mundo. Mas não estou sozinho: ao meu lado há uma senhorinha. O elevador às vezes me incomoda. Ele é como a rua, lá fora: pessoas e pessoas que você não conhece, com quem não fala. Mas no elevador a convivência é forçada, por poucos segundos, mas é forçada. Viagens de elevador são rápidas, impossível descobrir alguma característica psicológica da pessoa que está ao seu lado, durante o percurso. O que podemos ver é se a moça é gostosa, ou se o senhor se veste mal, ou se a criança tem o nariz escorrendo. Mas e essa senhora ao meu lado? Como saber quem ela é realmente? Talvez essa curiosidade pareça estranha, eu mesmo não a possuía até aquele dia. Eu aperto o botão de um certo andar. A senhorinha outro. O elevador se movimenta, mas o silêncio que nos envolve parecia estar inerte: não há um único som. Nessa angústia silenciosa, sinto falta dos velhos clichês de elevador:
1- Poderia ter uma mulher super-atraente aqui.
2- O elevador poderia estar lotado, com o povo se apertando.
3- Poderia estar tocando aquelas musiquinhas de elevador (muito tranquilas, e talvez por isso, muito irritantes).
4- Poderíamos trocar comentários metereológicos ("está calor, não? Acho que vai chover...")
5- Alguém poderia soltar um peido. (credo! isso não!)
Não há clichês. O que há é uma senhorinha muito austera, silenciosa, com uma bolsa colorida no ombro esquerdo. O elevador para: um alívio sem razão cai sobre mim. A velhinha vai saindo do elevador, mas antes da porta fechar, me diz:
---Tchau.
E vai. A porta se fecha e eu sigo em minha viagem.
Eu sei o que você está pensando: e daí que uma velha te deu um tchauzinho? Bem, eu fiquei pensando... quando você se despede de alguém, está automaticamente reconhecendo a presença da mesma. E o que é uma presença? Um corpo ao seu lado é sempre uma presença? Talvez, para a velhinha, sim. Ou há algumas características que fazem com que você note a pessoa desconhecida ao seu lado? Penso que quando você se despede de alguém, está fazendo ela existir pra você, mesmo que seja um desconhecido. Onde eu quero chegar? Sei lá, só sei que há tantas e tantas pessoas que cruzam por mim nos elevadores da vida, e que não falam nada. É como se eu não estivesse ali. Não acho que isso é falta de educação. É hábito. Eu mesmo não me despedia das pessoas, até aquele dia em que viajei com a senhorinha da bolsa colorida. Até aquele dia em que eu parei pra pensar no quanto somos distantes e próximos ao mesmo tempo. Problemas, histórias tristes, causos engraçados: Histórias que se encontram a toda hora, que se cruzam, mas que ninguém vê, por que somos silenciosos, temos pressa e a vida é muito curta para engatilhar conversas com desconhecidos.
--- Tchau pra você também.
18 de janeiro de 2009
Estranhamento
Uma sala. Ampla, mas pequena. A luz é fraca, quase impossível. Os olhos demoram a reconhecer as obras, e quando vão se acostumando, alguém acende a luz: cegueira total.
Curiosa, a memória. Uma sala abrigando uma exposição artística. O dadá e o clássico na mesma obra. Passeia-se pelo corredor (que na verdade, são milhões de corredores que não a lugar nenhum, senão para aquele em que se está). Vai-se tropeçando: obscura sala. Encontra-se algo: "Que bela obra! Que magnífico!". Parece uma piada da Arte, mas trata-se de algo sério, essa é a síntese da Arte: a obra que tanto se admira nada mais é do que o próprio chão, duro e frio como a lembrança de um ato arrependido. Na certa, tropeçou-se em algo, batendo com o nariz na superfície. Bela obra, o chão. Fria obra, o chão e uma gota de sangue.
Demora-se a observar os quadros, como se alguém houvesse escondido segredos nos segundos planos da imagem. Mas não há nada. E isto -o nada- é tudo.
Os olhos, cansados, enxergam pouco das telas. O que se tem é uma mistura de cores, que variam de tom e textura conforme o modo e o ângulo que o ávido olhar assume. Esfomeado, o olhar. Tem pressa, por isso tropeça; cai; debate-se;xinga-se; chora; ri.
Mas há também esculturas nessa sala. Há cheiro. Há sons. Uma mistura de flores de infância e perfumes de homens e mulheres. Uma mistura de urina e café. Uma mistura de sexo e susto e fumaça e alecrim. Sim, há esculturas. Rachadas, trincadas, levadas ao chão. Quem passeia por aqui pergunta-se (isso sempre acontece, perguntar é única opção do homem nesse lugar) quem é o responsável por estarem sangrando seus pés. Uma dor lancinante: um caco fincado nos pés. Pés de velho ou bebê, isso varia. O tempo varia, a luz varia, e o homem (ah!o homem...) varíola. O homem se pergunta quem o tornou doente, de uma hora para outra. Seus olhos não veem mais. "Quem fez isso comigo? Acenda-se a luz que eu quero ver!"
Controvertida, a memória. Extremamente humana, a memória. Tão humana quanto a violência gratuita ou a mentira.
Alguém devia perguntar: por que vistes, se já sabia da incerteza? Por que entrastes, se sabias que haveria medo?
Mas não há mais ninguém ali. Os sons que rondam a sala são uma profusão de notas vindas de todos os cantos. Notas que se misturam com os passos de quem passeia pelos corredores. Esses passos estão perdidos. "Quem fez isso comigo? Onde está luz"
Dir-se-ia que a Arte cansa. Sim, mas ela não faz isso sozinha. A culpa é desse desejo de imobilidade que acaba ofuscando o que era tão puro e simples: um rabisco de criança, um sorriso de um velho, as ondas do cabelo de uma mulher qualquer.
A Arte está aí. Olhe, mas não a oprima. Sinta-a mas não interfira nela. Ninguém precisa disso. A Arte já é propriedade; não é necessário esforço. Somente olhe: de todos os lados! Com todos os sentidos! Em todas as horas! Olhe sem se preocupar com a luz ou a trilha sonora. Não preocupar-se é possuir.
"Mas eu quero a luz, eu quero saber!"
Ah...a humanidade. Acendam-se as luzes então. É só acender que tudo se esclarece.
Não há mais escuridão. O que há é uma sala de jantar com os convivas degustando o jantarzinho...
Curiosa, a memória. Uma sala abrigando uma exposição artística. O dadá e o clássico na mesma obra. Passeia-se pelo corredor (que na verdade, são milhões de corredores que não a lugar nenhum, senão para aquele em que se está). Vai-se tropeçando: obscura sala. Encontra-se algo: "Que bela obra! Que magnífico!". Parece uma piada da Arte, mas trata-se de algo sério, essa é a síntese da Arte: a obra que tanto se admira nada mais é do que o próprio chão, duro e frio como a lembrança de um ato arrependido. Na certa, tropeçou-se em algo, batendo com o nariz na superfície. Bela obra, o chão. Fria obra, o chão e uma gota de sangue.
Demora-se a observar os quadros, como se alguém houvesse escondido segredos nos segundos planos da imagem. Mas não há nada. E isto -o nada- é tudo.
Os olhos, cansados, enxergam pouco das telas. O que se tem é uma mistura de cores, que variam de tom e textura conforme o modo e o ângulo que o ávido olhar assume. Esfomeado, o olhar. Tem pressa, por isso tropeça; cai; debate-se;xinga-se; chora; ri.
Mas há também esculturas nessa sala. Há cheiro. Há sons. Uma mistura de flores de infância e perfumes de homens e mulheres. Uma mistura de urina e café. Uma mistura de sexo e susto e fumaça e alecrim. Sim, há esculturas. Rachadas, trincadas, levadas ao chão. Quem passeia por aqui pergunta-se (isso sempre acontece, perguntar é única opção do homem nesse lugar) quem é o responsável por estarem sangrando seus pés. Uma dor lancinante: um caco fincado nos pés. Pés de velho ou bebê, isso varia. O tempo varia, a luz varia, e o homem (ah!o homem...) varíola. O homem se pergunta quem o tornou doente, de uma hora para outra. Seus olhos não veem mais. "Quem fez isso comigo? Acenda-se a luz que eu quero ver!"
Controvertida, a memória. Extremamente humana, a memória. Tão humana quanto a violência gratuita ou a mentira.
Alguém devia perguntar: por que vistes, se já sabia da incerteza? Por que entrastes, se sabias que haveria medo?
Mas não há mais ninguém ali. Os sons que rondam a sala são uma profusão de notas vindas de todos os cantos. Notas que se misturam com os passos de quem passeia pelos corredores. Esses passos estão perdidos. "Quem fez isso comigo? Onde está luz"
Dir-se-ia que a Arte cansa. Sim, mas ela não faz isso sozinha. A culpa é desse desejo de imobilidade que acaba ofuscando o que era tão puro e simples: um rabisco de criança, um sorriso de um velho, as ondas do cabelo de uma mulher qualquer.
A Arte está aí. Olhe, mas não a oprima. Sinta-a mas não interfira nela. Ninguém precisa disso. A Arte já é propriedade; não é necessário esforço. Somente olhe: de todos os lados! Com todos os sentidos! Em todas as horas! Olhe sem se preocupar com a luz ou a trilha sonora. Não preocupar-se é possuir.
"Mas eu quero a luz, eu quero saber!"
Ah...a humanidade. Acendam-se as luzes então. É só acender que tudo se esclarece.
Não há mais escuridão. O que há é uma sala de jantar com os convivas degustando o jantarzinho...
6 de dezembro de 2008
O início, o fim e o meio

À meia luz, dançamos.
E meias-entradas pagamos. O cinema, o teatro, a vida, o tempo...
Só pagamos metade. O resto se paga sozinho.
Em meio a tudo isso, deslizam cores à procura de suas telas.
Estamos meio idosos, meio velhos, meio experientes, meio mortos.
Estamos na meia-vida. Sim, estamos.
Já não bebemos taças e taças de vinho. Somente meia.
Pés descalços? Nada disso! Sempre com meias!
E meias-calças? Você não usa mais.
Foi-se o tempo em que eu as retirava, lentamente, buscando suas coxas lisas. Foi-se o tempo em que você se irritava com os rasgos que surgiam nelas.
Esse tipo de prazer já não nos satisfaz como antes...
O sexo soa meio desnecessário. Deveria soar? Não sei. Talvez.
Não é uma questão moral ou natural... É um produto do tempo.
Nossa cumplicidade integral tornaria o sexo incestuoso.
Você é minha mãe, minha irmã, minha mulher.
Sexo é para estranhos. Sexo é para inocentes.
Sabe? Somos cúmplices, culpados pelo crime de viver uma só vida.
Reconheçamos:
Somos meio diferentes, e por isso, meio estranhos.
Cada palavra que pronunciamos é um meio-termo.
Cada palavra é resultado de uma média aritmética:
O que um pensa + o que o outro pensa
________________________________________
O que somos
Mas, afinal. O que somos, mulher?
Somos meio, meio... como posso dizer...
Meio incompletos.
Incompletos?!!!? Como podemos viver uma só vida, e ainda sim, nos sentirmos incompletos?!
Eu não sei, eu não sei... não posso saber tudo. Não quero saber tudo. E sei que você não quer. Você gosta desse amor ignorante que ama e não sabe porquê.
Você e eu gostamos dessa ignorância, dessa ignorância sadia. Ignorância que ri do que não sabe.
Os amigos nos perguntam: por que se casaram; por que tiveram filhos; por que razão vocês ainda mantêm esse amor de forma tão firme... E nós, com uma delícia nos olhos e nos lábios, respondemos em coro, como as crianças:
── Por que sim! Por que sim!
Você é meio triste por chegar até aqui e ainda estar incompleta?
Se for, nunca transpareceu nos meios-beijos, meios-choros e meios-sorrisos que me deu.
Não, eu tenho certeza, você é feliz.
Você não é mulher forte que arrebata tudo e vai embora quando se entristece.
Também não é mulher fraca que, diante da infelicidade, tenta adaptar-se à ela, esperando que um dia a situação melhore.
Aliás, nem mulher você é!
Você ainda é aquela adolescente,
Perdida entre sonhos de menina e de mulher.
Tuas cãs, teus pijamas, teus netinhos, teu corpo velho.
Eles gritam pra você.
── Olhe, querida, o que trouxemos pra você!
O início, o fim e o meio embalados num pacote.
Já passamos por todos eles, meu amor.
Não importa quanto tempo passe,
Sempre estamos bobos,
Curtindo o meio,
Estamos sempre no meio de tudo,
No meio da vida, no meio do salão...
(Agora sou somente eu quem grita)
── Olhe! Olhe, minha linda!
Não somos nós, ali no meio do salão?
Eu meio tenso, adolescente inseguro,
E você meio confusa (aquela perdição em sonhos, lembra?)
E tudo estava ao meio.
Meio tempo, ambiente meio romântico.
Meio bossa, meio rock,
Meio valsa, meio pisão no pé.
Lá fora, uma meia chuva cai...
E nós ali. E nós aqui.
À meia luz, dançamos.
1 de novembro de 2008
O coveiro
Varre a terra,
Atento à sua movimentação.
A hora incerta
(é sempre meia-noite?)
Convida-o a não pensar em nada,
E mais do que isso,
O silencio incita-o
(deslumbramentos de menino):
“Aqui é tudo tão frio, tão largo, tão boca aberta...”
Sentado num túmulo,
A enxada apoiada;
Descansa o bom homem,
Enquanto terra e ar noturno,
(dois lábios assimétricos)
Atraem-se, e exalam sobre ele,
O quente e doce hálito da memória...
Atento à sua movimentação.
A hora incerta
(é sempre meia-noite?)
Convida-o a não pensar em nada,
E mais do que isso,
O silencio incita-o
(deslumbramentos de menino):
“Aqui é tudo tão frio, tão largo, tão boca aberta...”
Sentado num túmulo,
A enxada apoiada;
Descansa o bom homem,
Enquanto terra e ar noturno,
(dois lábios assimétricos)
Atraem-se, e exalam sobre ele,
O quente e doce hálito da memória...
"M"
A
todos
que me
perguntam,
eu apenas digo:
ela foi tão-somente
um vago acontecimento,
mas no meu peito
trago imagens
imemoriais
cravadas
por ti.
todos
que me
perguntam,
eu apenas digo:
ela foi tão-somente
um vago acontecimento,
mas no meu peito
trago imagens
imemoriais
cravadas
por ti.
25 de outubro de 2008
Meu coração de Neandertal
Meu coração de Neandertal
joga-se em nevasca sem receio ou vontade:
vai porque é hora,
vai porque o tempo que se move
e é preciso alcançá-lo.
Meu coração de Neandertal
ignora a razão e os atalhos da evolução,
invade terras,
desmanchas limites,
é escravizado pelo vento.
Meu coração embevecido de ilogismo
ri de si mesmo,
come a si mesmo,
e se ensimesma
em pensar por que razão ainda resiste.
Por que resiste meu coração?
Por que não pensa,
não conjuga o tempo em suas multi-eras?
Esse meu coração,
tem a coragem firme de quem abriu mão do amor,
possui o frio infantil de quem se isola, em pensar que nada precisa.
Nada preciso. Tudo me é abstrato.
Meu coração de Neandertal
passa, árido, por mil outros corações subdivididos
em várias classes e órgãos,
e passa por eles,
como quem atravessa uma neblina
(Se está com os outros, está sozinho; Se está sozinho, está com os outros a seu lado...)
Esse meu coração ignorante,
sente prazer com o frio da solidão,
crendo que isso é heróico,
sei que caminho para a morte
em plena segunda-feira,
mas não ligo,
pois todo dia é a mesma rotina:
olho a linha afiada do horizonte,
afugento Deus, Diabo, mulher e filhos,
e corro,
não por medo, nem por vontade;
corro porque tenho que ir;
corro por que é o único caminho que resta.
(Os outros estão iluminados, abrindo passagem para as procissões).
Minha mente violentada,
assiste imóvel ao coração me levando para o precipício,
mas ela não chora, não se irrita,
não se abala,
simplesmente acata, subserviente,
sem pensar se abraça o bem, ou se beija o mal;
ela, mais do qualquer outro sabe,
que ninguém explica,
meu coração de Neandertal...
joga-se em nevasca sem receio ou vontade:
vai porque é hora,
vai porque o tempo que se move
e é preciso alcançá-lo.
Meu coração de Neandertal
ignora a razão e os atalhos da evolução,
invade terras,
desmanchas limites,
é escravizado pelo vento.
Meu coração embevecido de ilogismo
ri de si mesmo,
come a si mesmo,
e se ensimesma
em pensar por que razão ainda resiste.
Por que resiste meu coração?
Por que não pensa,
não conjuga o tempo em suas multi-eras?
Esse meu coração,
tem a coragem firme de quem abriu mão do amor,
possui o frio infantil de quem se isola, em pensar que nada precisa.
Nada preciso. Tudo me é abstrato.
Meu coração de Neandertal
passa, árido, por mil outros corações subdivididos
em várias classes e órgãos,
e passa por eles,
como quem atravessa uma neblina
(Se está com os outros, está sozinho; Se está sozinho, está com os outros a seu lado...)
Esse meu coração ignorante,
sente prazer com o frio da solidão,
crendo que isso é heróico,
sei que caminho para a morte
em plena segunda-feira,
mas não ligo,
pois todo dia é a mesma rotina:
olho a linha afiada do horizonte,
afugento Deus, Diabo, mulher e filhos,
e corro,
não por medo, nem por vontade;
corro porque tenho que ir;
corro por que é o único caminho que resta.
(Os outros estão iluminados, abrindo passagem para as procissões).
Minha mente violentada,
assiste imóvel ao coração me levando para o precipício,
mas ela não chora, não se irrita,
não se abala,
simplesmente acata, subserviente,
sem pensar se abraça o bem, ou se beija o mal;
ela, mais do qualquer outro sabe,
que ninguém explica,
meu coração de Neandertal...
24 de setembro de 2008
A modelo
I
Uma dança de linhas,
uma ciranda de curvas:
é um mundo de cores, de gritos,
e movimentos involuntários aprisionados.
II
As mãos fechadas escondem florestas de medo e angústia,
os cabelos ressacados, as orelhas cavernosas,
as estalagmites no olhar:
crianças saem dos seios como o mais puro leite.
No chão, o leite morno da vida,
o sangue da ferida do espaço:
é o mundo que esconde,
é o mundo que se aperta, se estrebucha;
Ele quer sair,
no choro, no gozo, no sorriso,
mas a mulher, deusa feita de bronze e carne,
segura todo o peso do vazio
(uma corda entre os dentes e a gengiva),
e faz isso,
por amor à arte.
"Em certos dias"
Em certos dias,
eu acordo com a certeza de estar morto,
e então beijo tuas pernas com um amor puro,
e faço da tua vida um mar de gozo e canto,
e nesses dias durmo,
com uma delícia virtual em meus lábios:
o prazer de ter amado-te, ingenuamente
mesmo sabendo que não fiz nada,
por que nesses dias,
eu acordo morto.
eu acordo com a certeza de estar morto,
e então beijo tuas pernas com um amor puro,
e faço da tua vida um mar de gozo e canto,
e nesses dias durmo,
com uma delícia virtual em meus lábios:
o prazer de ter amado-te, ingenuamente
mesmo sabendo que não fiz nada,
por que nesses dias,
eu acordo morto.
21 de setembro de 2008
Pecadora
Arrancaram meu seio,
de espuma e juventude
E nele desenharam sete linhas, sete linhas de açúcar e fel,
E agora, todo Domingo,
Eu vou à missa,
E janto na missa as costelas do cordeiro de ouro,
E ao final, ao encontrar-me com o padre,
Abro minha blusa, e mostro a meu confessor,
Os caminhos que essas linhas têm tomado ultimamente...
de espuma e juventude
E nele desenharam sete linhas, sete linhas de açúcar e fel,
E agora, todo Domingo,
Eu vou à missa,
E janto na missa as costelas do cordeiro de ouro,
E ao final, ao encontrar-me com o padre,
Abro minha blusa, e mostro a meu confessor,
Os caminhos que essas linhas têm tomado ultimamente...
20 de setembro de 2008
A amante
Toda noite,
por entre as frestas dos meus olhos e das minhas portas,
invade o ambiente,uma canção seca,
como o mais antigo vinho,
uma canção de tempos remotos,
de eras perdidas,
papel de parede de crimes esquecidos
uma canção rápida,
que executa,
que se executa,
que morre na esquina de dois passos,
(sim, uma canção de passos),
um compasso de passos perdidos,
passos sob o medo da noite,
talvez uma canção de ninar,
entoada por fantasmas de sonhos adolescentes,
talvez um canto fúnebre ,
que celebra a morte do éter,
e comemora o grande vazio que é ter alguém junto a si, sem estar por dentro de si,
talvez uma canção de rádio, que acorda meu coração para mais uma noite de trabalho e vigília,
ou talvez,
seja tão-somente,
um solo instrumental,
talvez seja um amontoado de passos furtivos, que tropeçam no amor,
passos que tropeçam em si próprios,
e que denunciam,
você
subindo (ou descendo?)
as escadas de minha casa...
por entre as frestas dos meus olhos e das minhas portas,
invade o ambiente,uma canção seca,
como o mais antigo vinho,
uma canção de tempos remotos,
de eras perdidas,
papel de parede de crimes esquecidos
uma canção rápida,
que executa,
que se executa,
que morre na esquina de dois passos,
(sim, uma canção de passos),
um compasso de passos perdidos,
passos sob o medo da noite,
talvez uma canção de ninar,
entoada por fantasmas de sonhos adolescentes,
talvez um canto fúnebre ,
que celebra a morte do éter,
e comemora o grande vazio que é ter alguém junto a si, sem estar por dentro de si,
talvez uma canção de rádio, que acorda meu coração para mais uma noite de trabalho e vigília,
ou talvez,
seja tão-somente,
um solo instrumental,
talvez seja um amontoado de passos furtivos, que tropeçam no amor,
passos que tropeçam em si próprios,
e que denunciam,
você
subindo (ou descendo?)
as escadas de minha casa...
7 de setembro de 2008
Poemas Vagabundos
Estou no sofá
Escrevendo este poema
Penso que meus poemas
São feitos para os outros
(por que eu faria pra mim? Se fosse pra mim não escreveria; pensaria)
Mas os outros não os compreendem
Até os entendem,
Mas não do jeito que eu queria que fosse
Então descobri que somos todos
Poemas ambulantes
Vivemos para os outros
E nunca somos entendidos por todos
Sempre há alguém para interpretar-nos
De uma maneira errada (será errada?)
Gostando ou não de poesia,
Bruto ou sensível,
Culto ou analfabeto,
Somos todos poemas vagabundos, ambulantes
De versos livres,
Sem qualquer mote decente,
Que Deus escreve, todos os dias,Sentado no sofá de sua casa
Escrevendo este poema
Penso que meus poemas
São feitos para os outros
(por que eu faria pra mim? Se fosse pra mim não escreveria; pensaria)
Mas os outros não os compreendem
Até os entendem,
Mas não do jeito que eu queria que fosse
Então descobri que somos todos
Poemas ambulantes
Vivemos para os outros
E nunca somos entendidos por todos
Sempre há alguém para interpretar-nos
De uma maneira errada (será errada?)
Gostando ou não de poesia,
Bruto ou sensível,
Culto ou analfabeto,
Somos todos poemas vagabundos, ambulantes
De versos livres,
Sem qualquer mote decente,
Que Deus escreve, todos os dias,Sentado no sofá de sua casa
31 de agosto de 2008
"Esses teus olhos"
Esses teus olhos,
tão frios, cheios de miados e ganidos seguros
fitam-me, enlaçam e remetem meu coração
à primeira fila do sub-desentendimento.
Esses teus olhos estranhos
procuram os meus por um motivo masturbante,
menina selvagem travestida de porcelana chinesa,
Porcelana vagabunda com requintes de gata no muro
Esses teus olhos frios, mendigos
estendem suas mãos e recusam e devolvem o troco:
olhos de brasa angélica, gélica de gelo ardente.
Como um soneto sem versos,
Esses teus olhos, se teus mesmo,
Assustam-me, pois não fazem sentido.
tão frios, cheios de miados e ganidos seguros
fitam-me, enlaçam e remetem meu coração
à primeira fila do sub-desentendimento.
Esses teus olhos estranhos
procuram os meus por um motivo masturbante,
menina selvagem travestida de porcelana chinesa,
Porcelana vagabunda com requintes de gata no muro
Esses teus olhos frios, mendigos
estendem suas mãos e recusam e devolvem o troco:
olhos de brasa angélica, gélica de gelo ardente.
Como um soneto sem versos,
Esses teus olhos, se teus mesmo,
Assustam-me, pois não fazem sentido.
Internato
Uma porta atrás de mim se fecha,
mas o vento vem pela frente.
Pequenos elos destoam,
ferrolhos se esgueiram pelos beirais e rodapés.
(A luz pisca, reafirmando a continuidade do tempo)
Trancado. Preso. Enlabirintizado
Dois passos se cruzam e se cumprimentam,
o chão tem ares de parede,
e o meu sentimento é da cor do teto.
(Confesso-me todo sábado, mas nunca confirmo meu endereço).
mas o vento vem pela frente.
Pequenos elos destoam,
ferrolhos se esgueiram pelos beirais e rodapés.
(A luz pisca, reafirmando a continuidade do tempo)
Trancado. Preso. Enlabirintizado
Dois passos se cruzam e se cumprimentam,
o chão tem ares de parede,
e o meu sentimento é da cor do teto.
(Confesso-me todo sábado, mas nunca confirmo meu endereço).
A pia
(Em minha gramática matinal, o sujeito oculto cai logo ao primeiro toque)
Na pia,
as mentiras ontem implantadas,
hoje laminadas,
amanhã repostas.
Produtos da idade:
anos-bebuns,
anos-vagabundos,
anos-felizes.
Anos idos. Partidos.
A vida de sempre, de volta ao ralo.
Na pia,
as mentiras ontem implantadas,
hoje laminadas,
amanhã repostas.
Produtos da idade:
anos-bebuns,
anos-vagabundos,
anos-felizes.
Anos idos. Partidos.
A vida de sempre, de volta ao ralo.
Assinar:
Postagens (Atom)
