27 de agosto de 2023


oi, tudo bem?
há quanto tempo não te vejo
um trem-ave me atravessando
demorasse mais um tanto
não te reconheceria, desejo

vai se o desejo, vêm os vícios
cigarros fumados
têm seu quê de aprendizado
difícil medir o mal
sem vivalma do meu lado;
por todos os lados
um trem frenesi
me atravessando
sem freio
sob o fogo
simulacro  
dos vícios

oi, você está?
há quanto tempo não te vejo
um trem-flor me atravessando
pintasse a boca mais um tanto
não te reconheceria, desejo

me engajo sempre nessa fuga
cachoeira acima contramão 
com a luz cortada
ainda segue o trem
aos sacolejos na imensidão;
o impulso ao nada 
movimenta-o mesmo assim
falar sobre o objeto de desejo
é afastá-lo um pouco mais de mim

que mais posso fazer para além
de via linguagem sair desse mim?
trilhar os trilhos os trilhos de si
como objeto trem em movimento;
espatifar o céu de estrelas
nos olhos dos bichos me escondê-las
pela beleza como as abelhas
morrer fruto na palavra fim

oi, que há por aí nas antenas?

26 de julho de 2023

CUIDADO MADAME

eu sou maria gladys, você helena ignez

a vida chama às oito, mas só colamos às três

eu sou rato fudido, vc é rata fadada

arte improviso, pixo na praça

isqueiro roubado, cerveja barata

cinema de margem, desejo fumaça

feminino plural, sexo vampiro

quando ninguém mais espera

trilha arromba cena, no herói me atiro

quando ninguém mais ousa y quer

roubamo o cofre das vanguardas,

comemo o cânone de colher

vc uma homem eu um mulher

pra nois nenhum kikito

pra nois nenhum pouquito

desses grammys gremlins jabutis

os mil y outros quelônios

que esses demônios criam

para se sabonetear eu y tu

na cadeia eu y tu sem nada

escrito no lattes em nossa

novela sempre fora do ar

eu y tu sarrando y sarnando

modo cachorrada chanchada

sem osso sem moral sem paga

nos matam nos julgam nos apagam

a gente vai e mais grita se esfaqueia

droga barata injetada na veia y rodeia

y borra y apaga y goza outra vez

você maria gladys, eu helena ignez

25 de junho de 2023

questões de poesia

saber o que mallarmé

comia para lhe conter a 

azia já não dá mais pé

o que michaux queria do poema

não é tão relevante ao poeta

quanto saber o valor do michê

o poeta quer saber

se a bupropiona

funciona

se a ritalina mais atina

que desatina

se a libido pode vir

em comprimido

se pode misturar vida

com drogas e drogas

assim por tantos anos

sem graves danos

se o doutor que as prescreve

em vinte anos se atreve

a fazer consigo o inventário

de efeitos colaterais

a quem interessam tais carestias,

poemas sonoros e virtuais,

o ser e tempo da poesia?

certamente não ao poeta

paciente na sala de espera

de sua hipocondria.

17 de junho de 2023

Carta de amor

Florianopólis, Slam Xodó, 17 de Junho de 2023
 
Xodó, meu grande amor,
Ontem sonhei com você.
Os yanomami acreditam que, quando se sonha com alguém, é porque aquela pessoa está pensando muito na gente, contrariando a lógica psicanalítica de que a imagem do sonho fosse algo represada aqui, em quem sonha. Eu te pergunto: tens pensado em mim?
Por que carta não recebo. Nem mensagem, nem zap, nem DM, pombo correio, nada. Mas sonhei com você. E no sonho, você pairava em silêncio e outro alguém surgia e dizia: teu amor está feliz.
Meu grande amor,
Se você está feliz, eu estou feliz.
Amo muito tu.
Teu beijo me amortece feito cachaça de jambu.
Com Amor, Edu.

mas preciso amassar essa carta e tratar de outros amores.
Vou até recomeçar.

Cachorrópolis, Slam Xodó, 17 de Junho de 2023.

Xodós,
Contei para a Su que estou há semanas sem saber o que falar nesse rolê amoroso.
Pq meu coração demi tá vazio, eu demoro muito para me apaixonar.
E quando me apaixono, é sempre um amor cometa intenso que passa uma vez na minha vida
e depois só volta na próximo século.
Já recitei muitas vezes esse ano o poema sobre minha amiga cris, em que falo sobre demissexualidade. Ser demi e sapio é me atormenta. Falar sobre isso é como sair de um segundo armário, um armário dentro do armário de que todes nós saímos - ou ainda vamos sair.

homens, mulheres, não binaries.
o que eu amo é me sentir, ao mesmo tempo, acolhido e provocado, salvo e sacaneado por alguém seja quem for; isso para mim é que é amor. E é tão raro, tão raro. Não devia, mas eu odeio ser demi. Por que desse espaço eu não consigo sair, só me cabe aceitar e me amar muito nele.
Suelem ouve e diz: por que vc não fala sobre seu filho?
É o maior xodó de todos, mas não posso. Ultimamente, eu tenho chorado todos os dias em que não estou ao seu lado, de tanta saudade.
O nascimento dele mudou tudo. Me fez rever e bagunçou cada aspecto de quem sou: sexualidade,
masculinidade, sonhos de trabalho e faculdade. Ser pai tem sido uma viagem do caralho, repleta de amor, surpresa e tensão. Téo vai fazer cinco anos daqui a 3 dias, no dia 20 de Junho.  Téo, eu quero sempre sonhar com vc, porque de vc gosto demais.
Não vai ser hj que falarei mto do meu amorzão, gente, porque não quero me acabar em choro,
É sábado, dia de Slam Xodó, espero que a minha e a nossa noite acabe em gozo.
Ontem eu estava no slam Estrela D'alva. Vários xodós estavam lá, Mari Félix tava lá, Paula tava lá, WD tava lá, Íris e Rolvo tavam lá. Enquanto uma galera recitava, encostei na Corvalan, que fumava um cigarro e exalava aquela energia sensacional. Fiamos uma prosa e ela me leu um poema seu sobre inteligência emocional, que bateu forte em mim que nem haxixe do bom. Day, a tua poesia bate forte e me inspira. Naquela hora eu soube o que diria se avançasse pra segunda rodada. Falaria dos amores que me cercam, que me estendem a mão, sua vozes, seu corpos e assim e nunca me deixam eu me sentir só.
Obrigado meus amores. na ausência do teozão vcs são os meus xodós. Assim que acabar esse slam eu vou entrar no carro e tocar direto pra Joinville encontrar minha razão de viver, que deve estar com saudade de mim. 

Fim.














16 de junho de 2023

Vamos eu e você tomar um café da tarde
lá em casa, depois do trabalho. Fechado?
Só não chama mais ninguém porque onde
eu moro é bem apertado.

Se vc mora em área sujeita a alagamentos 
e deslizamentos,
Se vc se mata pra pagar aluguel - como eu -
Se mora num terreno pequeno
com várias outras casas
Se mora de favor
ainda que entre muito afeto
ainda que não falte comida e amor
se o teu aluguel compromete
mais de 30% da tua renda
entenda
sua moradia também é precária
a gente se sente assim, muito otária,
vendo um plano diretor ser aprovado
pra enriquecer construtoras 
e favorecer desmatamentos
enquanto há cada vez mais gente
dormindo sobre o cimento.

Estresse do caralho.
Vamos eu e você dar uns bjo, fumar um fininho
e tomar um vinho
lá em casa, depois do trabalho. Fechado?
Só não geme tão alto que as paredes são
de papel e os vizinhos tão aqui colados.

uma cidade sem privacidade
uma cidade com pouca. ontade
de pensar coletivamente
vc e vc mesmo contra a fome
contra a corrente
contra qq um que lhe passe pela frente.
morador de rua morre de frio
mas se vc abrir agora as redes da prefeitura
estão cheias de gracinhas sobre obras executadas
quero que se foda essa ponte estaiada
a marina da beira mar e o engordamento das praias
a gente quer outros restaurantes populares
o engordamento das nossas crias
queremos moradias populares
políticas públicas em prol de melhores dias.

Vamos eu e você amanhã dar um passeio
Amanhã eu não posso e nem depois
tenho trabalho tenho rolê tenho academia
Amanhã você não pode nem depois 
tem filho pra criar tesão represado louça suja na pia
mas vamos mesmo assim à rua dar um passeio
ao centro, deixar o protesto ainda mais cheio.
mas é nas margens, onde acontece ombro a ombro outra dura política.

Tá foda. e há quem resista.
Os movimentos, as vizinhanças resistem.
Quem é de luta se organiza.
Se a gente não faz isso, 
o fascismo deita e rola.
uma cidade que permite
que um vereador escroto
persiga uma educadora
utilizando recursos
que deveriam estar
sendo revertidos em prol
da educação de todes
não será nunca uma
cidade digna de nota, que dirá de magia.
educação é diversidade, Bericó
educação é inclusão, seu bocó
e não sou que afirmo isso
é lei, está na constituição,
é ciência, está na BNCC
quem é você
pra dizer o que um
educador deve fazer
em seu espaço de trabalho?
vereador não tem que interromper aula
é professor e aluno que devem interromper
o funcionamento de uma câmara que
não segue aquilo que deveria seguir
que é o respeito às leis e aos interesses 
de uma maioria que de muitas coisas precisa
e a maioria hoje passa fome
e a maioria hoje passa mal
e a maioria hj vive de modo precário
ideologia não põe comida na mesa
ideologia não paga salário
só se for o teu, otário.

15 de junho de 2023

Ratoeira (segunda versão)

 Meu cravo encarnado, meu manjericão

Dá 3 pancadinhas no meu coração... 


vai embora o velho amor

no mesmo trem desce outro novo

cansado de vai e vem me faço nuvem

e eu chovo eu chovo e chovo


Vão rodando vão se amando

O amor velho e o amor novo

Vai girando meu planeta

Entre o sol e a lua

O que quer que eu peça ao vento

acabo sempre na mesma rua

Na mesma rua!

Na mesma porta mesma cama

meus versos se enroscando

pelas mesmas costas nuas

- Ah, não! Amor velho, não!


Eu não quero o teu amor

Já não quero essa roubada 

Eu não quero o teu amor

Eu amo mesmo a cachorrada


Vem chegando novo amor

levo ele então pra roda de Ratoeira

Pra comigo a dois trovar

Tecer o canto, o rolê das rendeiras

Pq além de fazer verso

homem tem que saber fiar!


Vem chegando novo amor

levo ele então pra roda de Ratoeira

que resiste na Caeira

Pra fisgar sua atenção 

Mas ele me escapa na Capoeira

por uma fresta no meu coração


Ele sempre tão envolvente,

chamando nas ideia divergente

Com seus mil corres, lutas e fitas

Fora as responsa fora o batente

Fora essa foda em frações capitalistas


Foda-se esse amor monoculturado!

A plantar organicamente amor no mundo

eu e você lado a lado

Te amar no Moçambique,

Te amar no Campeche, 

Te amar na Galheta

Ser pescado por teu pau na minha boca

Navegar nas águas da tua buceta


Foda-se esse amor monocultivado!

Esse amor mídia que se faz 

hoje no presente pelas redes

É muito mais careta

que o que se fazia

Em outras redes em

Em anos passados


Hey, Te amar no Carianos

por muitos e muitos anos

Te amar no Rio Vermelho

fodendo igual dois coelhos

Te amar no Monte Verde

Eu e tu contra a parede


meu cravo encarnado, meu manjericão

três tapas bem dados nesse rabão

meu galho de malva, meu buquê de flor

te encontro na esquina entre o prazer e a dor


Ah, não! lá vem ele, o velho amor


chega depois de muitos anos 

com um segredo pra contar

já não sou mais o mesmo

meu corpo fora de lugar


chega depois de muitos anos

com um segredo pra contar

cola então no meu ouvido:

me aperta forte vou gozar


chega depois de muitos anos

com um segredo pra contar

supero o ranço que de ti tenho

e enfim me ponho a te escutar:


"falaí cuzão, se não falou

que queria falar?"

"vc vai me ouvir, vc vai guardar bem?"                         

"vou, e te dou uma só estrofe:"


meu cravo encarnado, meu manjericão

dá três pancadinhas no meu coração

meu galho de malva, meu buquê de flor

nascestes no mundo para ser meu amor... 



11 de junho de 2023

Ratoeira (Roteiro)



Meu cravo encarnado, meu manjericão
Dá 3 pancadinhas no meu coração...         (lento, em cantilena)


vai embora o velho amor

no mesmo trem desce outro novo

cansado de amar me faço nuvem

e eu chovo eu chovo e chovo


vai embora o velho amor

vai de jegue, a trote lento 

e por isso me atormento

vai embora o velho amor

vai a jato, vai de avião

mergulho então na cachorrada

embarco na carreta furacão


Vão rodando vão se amando

O amor velho e o amor novo

Vai girando meu planeta

Entre o sol e a lua

O que quer que eu peça ao vento

acabo sempre na mesma rua

Na mesma rua!

Na mesma porta mesma cama

meus versos se enroscando

pelas tuas costas nuas


Eu não quero o teu amor
Já não quero essa roubada          (lento, parodicamente em cantilena)
Eu não quero o teu amor
Eu amo mesmo a cachorrada


Vem chegando novo amor

chamo ele então pra roda de Ratoeira

Pra comigo a dois trovar

Tecer o canto, o rolê das rendeiras

Pq além de fazer verso

homem tem que saber fiar!


Vem chegando novo amor

Chamo ele então pra roda de Ratoeira

que resiste na Caeira

Pra fisgar sua atenção 

Mas você me escapa na Capoeira

Você Me escapa feito um rio

a cortar meu coração

 

Você sempre tão envolvente,

chamando nas ideia divergente

Com seus mil corres, lutas e fitas

Fora as responsa fora o batente

Fora essa foda em frações capitalistas


Foda-se esse amor monocultivado!

A plantar organicamente amor no mundo

eu e você lado a lado

Te amar no Moçambique,

Te amar no Campeche,

Te amar na Galheta

Ser pescado por teu pau na minha boca

Navegar nas águas da tua buceta


Foda-se esse amor monocultivado!

Esse amor mídia que se faz 

hoje no presente pelas redes

É muito mais careta

que o que se fazia

Em outras redes em

Em anos passados


Hey, Te amar no Carianos

por muitos e muitos anos

Te amar no Rio Vermelho

fodendo igual dois coelhos

Te amar no Monte Verde

Eu e você contra a parede


meu cravo encarnado, meu manjericão            (ágil, mesmo tom das outras estrofes)

três tapas bem dados nesse rabão

meu galho de malva, meu buquê de flor

te encontro na esquina entre o prazer e a dor


chega depois de muitos anos 

com um segredo pra contar

já não sou mais o mesmo

meu corpo fora de qualquer lugar


chega depois de muitos anos

com um segredo pra contar

cola então no meu ouvido:

me aperta forte vou gozar


chega depois de muitos anos

com um segredo pra contar

supero o ranço que de ti tenho

e enfim me ponho a te escutar:


"falaí cuzão, se não falou              (Usar voz / posição no mic pra indicar novo personagem)

que queria falar                          
falaí, 
te dou uma estrofe:"


meu cravo encarnado, meu manjericão (em cantilena, reduz o ritmo nos 2 versos finais)

dá três pancadinhas no meu coração

meu galho de malva, meu buquê de flor

nascestes no mundo para ser meu amor...



26 de maio de 2023

Na prateleira...

na prateleira, nos poemas que um dia escrevi,
ali não, nos livros, fechados ou abertos, não estou.
ali, na prateleira da cozinha,
aquela mais embaixo,
entre temperos quase vencidos e ingredientes
só usados de vez quando, quando lhe apetece um bolo,
ali, numa sacola plástica dobrada, estou todo dia.
nas mensagens que mandei essa manhã,
nos áudios que mandei essa tarde,
ali não estou.
ali, entrando e saindo de portas,
entre crianças, a desenhar o verbo to be, 
estou - até o sinal.
quando na festa me vê,
mas não me ouve,
nessa festa não estou.
agora que não estou mais, 
quando alguém, goste ou não, 
vocaliza uma linha do meu poema, 
ali, feito voz, volto a estar.
quando alguém lança um bola ao ar, de plástico, couro, borracha,
leve ou pesada, pequena ou grande, e corre atrás dessa bola e a lança outra vez ao ar
e outra e outra, ali estou sempre 
e meus sapatos, não.
porque não estou, não se pintam as pedras.
quando alguém voltar a pintá-las, estaremos.
de surpresa ligo para mim mesmo:
estou e não me respondo, 
me escondo e durmo até tarde. 
se te apareço no sonho, 
saiba, estou com saudade.
quando, depois, bem depois, 
um jovem vai atrás dos antigos, a saber 
quem era aquele tio, aquela mãe, aquela vó, 
daquele rosto e daquele corpo e daquela voz
e recompõe ao mundo uma memória fugaz que não serve pra nada,
ali, na imagem inédita do passado, eu faço morada.


13 de maio de 2023

eros cura a depressão?

as várias mensagens por

responder e as fotos

por curtir dizem: não


hoje não, Hades,

voltes mais tarde

que não saio de casa:

a pia está cheia,

o drive está cheio,

pendurado no varal

meu par de asas.


eros cura a depressão?

o trabalho que dá abrir-se

em poemas, sessões de terapia,

conversas, esquemas, receituários,

o afeto sempre a mordiscar

o esmilinguido salário,

o leitor sempre com

um conselho ligeiro à mão,

não não não não!

tem horas que eros 

é um baita cuzão

e o depressivo faz

o papel de otário.


por que se demora na tristeza,

ele não vai trocar o disco?

por que ignora a face psicossocial

de sua enfermidade

para enfim curá-la,

ela não tem essa vontade?

por que insistem em ladainhas

pirão ralo d'água 

solidão e farinha,

por que não vivem

o agora, o hoje, 

por que não dizem: 

não choro, não saboto,   

não reclamo, nem de mim nem de você,

pernas para que te quero, Eros!

hoje só quero meu gato ao meu lado

quem te viu, quem te vê, Psiquê!

online hoje apenas para

skincare e autocuidado,

hein, hein? por quê?


eros cura a depressão?

sim! e não.

quando se encontram na rua

de madrugada 

voam garrafas

e comprimidos

e saem os dois na mão.


no outro dia, de ressaca,

um se levanta atrasado e vai trabalhar,

e outro confere discretamente

o celular, deixa um ou dois likes,

e depois mete o pé.

26 de abril de 2023

meu poete preferide

meu poeta preferido, na adolescência, era manuel bandeira
e eu passava a tarde inteira lendo seus poemas no sofá
tinha um chamado Porquinho da Índia
no qual ele arrematava que o porquinho da índia
tinha sido sua primeira namorada.
eu mudei muito desde essa época
mas essa ternura geral por todos os seres,
ainda me toca muito. 
ainda precisa ser repetida, semeada, recriada em novos poemas e exposta,
como um estandarte, um escudo, uma bandeira.

tem uma fita gramatical aí que tem gente 
que não curte a palavra poetisa e fala o poeta e a poeta
vamo neutraliza essa fita assim:
meu poete demissexual preferide é a WD,
pra quem deixo um beijo.
é inspirador sempre ouvir sua poesia
sabendo que por trás daquela levada venenosa
tem luta, correria e rolê... rolê só de ida / pra curtir a vida / baby traz bebida     [cantado]

meu poete preferide é a liza. 
para mim, uma baita atriz,
que potencializa
não só o poema que diz
como o espaço por onde
ele passa, feito brisa.

meu poete preferide é Adão Ventura. 
um poeta já falecido, a ser redescoberto,
como muitos escondidos artistas pretes do cânone branco.
salve solano trindade, salve cruz e sousa, conceição evaristo,
salve sebah, mvhs, breno, gab, rafa, hoa, corvalan, ariana, andressa, salve geral,
salve trajano margarida e indefonso juvenal
poetas que resistiram, que criaram redes, se aquilombaram em sarais, 
festas, rodas de conversa, poemas,
tudo isso nessa ilha, muito anos da gente nascer,
meus poetes preferides.

meu poete preferide é ana cristina césar.
descobrir seus livros foi uma paixão avassaladora, em nada diferente dos grandes amores que tive de carne e osso, porque eu não sei separar muito bem os afetos em prateleiras, os vivos e os mortos, os próximos e o distantes - acho besteira. como eu, ana c. amava cartas, poesia. como eu, ana c. estudou Letras e lutava contra a depressão. hoje tenho 32 anos. ana c. tinha 31 quando partiu. ana c. cadê você?

meu poete preferide é a belaisa, que acabou de se apresentar/que ainda vai se apresentar.  gosto do jeito que ela junta & bagunça as palavras, acho que ela envolve mto bem a gente numa trama quando fala. e aí ela ainda fala com aquela voz dela... ai.

meu poeta preferide é meu filho téo. ele, como toda criança que tem seu direito ao amor e à escuta atendidos, diz poemas maravilhosos. ele tem 4 anos e disse que quando fizer 44 vai ganhar um patinete de aniversário.

meu poete preferide é a Suellem, que não sabia, até outro dia, que esse slam iria ocorrer.
nos encontramos por acaso e lhe contei que havia um lugar onde era prazeroso ver e ouvir o som, a imagem, o corpo e o sentido.
isso me faz pensar que meu poete preferido está por aí na cidade e ainda não falou seus poemas porque a cultura, as políticas públicas, e o tempo livre do trabalhador assalariade ainda não se encontraram a ponto dele estar aqui entre nós hoje. estarmos aqui fazendo esse rolê acontecer quem sabe seja o caminho para meu poete preferide aparecer. obrigado por vir, é bom te ver.

meu poeta preferide nunca ganhou um slam. ele sequer compete, fala sempre nos mikes abertos e quando fala abala a estrutura de quem estava distraíde. 

meu poete preferide é stela do patrocínio. cazuza. mc carol. brecht. adilia lopes. caco de oliveira. angelo. hilda hilst. sabotage. magrão. roberto piva. 

ish, não dá, a lista é muito comprida. 
pra sair de fininho
como cacaso faria
deixo um beijo pra paula,
minha poeta preferida.
e um último e demorado beijo
prus poetes que atravessam minha vida.





23 de abril de 2023

Cheiro de Amor (Roteiro)




Feito fumaça num quarto fechado

Você tomou conta dos quatro cantos

Acende um cigarro, queima a brasa

Eu sou o quarto, tu a fumaça                                   (cantado)


[tosse e afasta a fumaça com os braços

como se espanasse uma nuvem de fumaça pra fora do quarto]


De novo sinto o cheiro de amor no ar:

cebola & alho, o par perfeito, bem picados,

numa panela a refogar.


Batata Laranja, Abóbora Cabotiá

Batata Rosa, Gengibre, Alface

As frutas e legumes compõem

seu prato, decoram sua casa;

há um aroma vegetal por seu corpo, 

seu sexo, sua face.


Cheiro de alho nas mãos dela

uma nova forma de se preparar berinjela

ela vai e vem

de um lado a outro da cozinha,

à procura de uma certa faca,

uma seda, um abridor, uma tigela.


Chá de Malva, Hortelã

Azedinha, Ora pro Nobis, Salsão

Ele conhece as pancs, 

e está sempre a aprender uma nova receita

macarronada de palmito,

pasta de amendoim caseira

pesto vegano de manjericão

ele macera bem os ingredientes

pra logo mais nos macetarmos entre a gente

nus pelo chão


Não bastasse todas as coisas

em que se esmera

sabe ainda fazer

delícias com nabo

legumes com quem

não tinha me amigado

conversam comigo

em seu refogado

lugares de sabor

em que nunca tinha estado:

saio dali sem nunca mais vê-lo 

mas levo comigo o seu tempero


As cenouras de molho

pra durarem mais

beck bolado com alecrim

pra ficar rapidim em paz

os grãos no remolho

pra remoção de fitatos

a fumaça subindo da cozinha

em direção ao quarto...


Outra vez sinto o cheiro de amor no ar:

Bethania e Itamar, o par perfeito,

servidos sobre a cama e sobre a mesa

A louça lavada, a roupa amassada 

chocolate 80% cacau ou eu, escolha a sobremesa

seus ombros largos me envolvem

suas coxas me prendem

e chapo no cheiro de flor que seu corpo tem.


ei! te amar ainda

num mundo repleto

de gente linda

e carente de toque e afeto

me causa muito embaraço

por isso escrevo, traço e retraço

teu rosto em mil poemas

preferiria tretas e esquemas

suco de umbu, sorvete de pitaya

preferiria tardes de chapo

sem olhar para o relógio

eu entrego o meu corpo, é lógico!

para novos cultos, em novos altares

eu juro que mergulho fundo pelos ares

e o amor agora, o amor hoje

corre indiferente a esse Amor, Ainda

que por dentro me arde 

e como se não bastasse 

ainda me enche de embaraço

eu tô tentando te manter no peito 

mas a fumaça ocupa muito espaço


Sinto de novo o cheiro de amor no ar.

Na sua cozinha há sempre um aroma novo

de plantas a emergir das panelas

ela vai e vem

de um lado a outro

da minha vida

e os meus poemas...

                                               têm o cheiro dela.

23 de março de 2023

Eu já tomei meu remédio hoje?

se tomei, deveria estar mais feliz

se tomar uma dose muito alta,

complico as coisas mais um triz.


fico atento aos detalhes:

na roda ao lado a moça diz

eu nem sei o que comi no almoço rs

e todo mundo racha o bico.


corta pra sessão onde minha psico

me ensina a usar uma agenda 

como se eu tivesse chegado hoje ao planeta

a usar os alertas

a fazer na mão um X com a caneta


eta vida besta meu deus

eu já tomei meu remédio hoje?

pago um almoço para quem me ajudar.

17 de março de 2023

Felice II

volto do teu sonho 

ouvindo som alto

em vez de tomar a avenida dos passos

entro na chuva e me perco

nas curvas da estrada do salto

sabia que me perdia

pois a voz do rádio

aos poucos sumia

que há por aí, em tuas antenas?

o chiado do rádio 

o chilreio dos pássaros

o peito lleno de penas

um cheiro do passado

em retrogosto renovado 

com os pés molhados

retiro sapatos que não

consigo mais vestir

e ainda me deixam bonito

no espelho encaro 

essa nova versão

de mim sem paixão

e por respeito estendo

a mão para minha imagem dissonante

e é então que

errante por horas de folha e breu

uma árvore caída me diz:

é preciso voltar

se estirar na grama a pensar

que bicho me mordeu

que bicho sou eu

que há por aqui, em minhas antenas?

o chiado distante aos poucos

se torna uma estranha cantiga

que há muito não ouvia:

familiar e fugidia

me atira em outro dia

e aos poucos me guia 

pra fora da chuva.

4 de março de 2023

Demi III

A Cris é gay

Como Safo

que trago no

braço traçada.

A Cris é

fisioterapeuta

& artista

e traça a vida 

na manha

com suas gatas

suas pesquisas

e sua amada

pelo menos é assim hoje

por que a gente muda,

não muda? 

todo dia

nos sonhos 

uma nova versão

de nós é forjada 

vocês mesmo, 

dando uma olhada,

me parecem 

estranhíssimos

nessa noite estrelada: 

Tem mudança nessa mirada

e a pele de vcs

por algum motivo

ainda treme.

Eu, Edu,

sou Demi

como...

como...

como...

não conheço nenhum

poeta demi pra citar

mas elus existem

assexuais existem

demis existem

outras formas existem para 

além dessas

além do guarda-chuva

cinza em que nos abrigamos

ser amplo também

cada pessoa tem as suas

particularidades, meu bem

se vc conhece 

alguém assexual

você conhece 

aquela pessoa

e ela não vai

nunca representar

todas as formas 

de viver ou não viver

a sexualidade

ou

a assexualidade

Por isso a empatia

Por isso a escuta

atenta de cada um,

nossa responsabilidade.


É preciso falar

pôr o coração na mão

e abri-lo: 

em metades, se vc for romântico,

em pedacinhos, se vc for poliamoroso,

ofertá-lo assim mesmo, aberto, como um solo,

se for assexual arromântico,

para que se cultive ali o que te alimenta.

Eu tô dizendo tudo isso nessa levada

porque

não raro

das redes sociais

saio toda machucada

os termos que uma pessoa

usa para se definir e fortalecer

viram piada

"ah, mais uma caixinha"

minha sexualidade não é

uma caixinha, camarada

se eu quiser fazer dela uma caixa

que eu faça, uma aberta, bem enfeitada

mas é eu que devo a criar

como cabe a mim ouvir 

e respeitar 

os dones das outras caixas

ser quem se é não é caixinha

aliás, para uns é caixão,

não pode nos faltar essa noção

do que nos aproxima e nos difere;

as lutas que se travam em comum

e as lutas singulares de cada um;

discurso fere

palavras matam

não à toa

o Brasil

é o país que MAIS nos mata!

Para minha amiga Cris

eu conto meus sonhos, minhas dores,

quem eu sou de verdade

de como queria ser Safa

como Safo

meu sonho de ser 

uma grande vagabunda, 

transando safofo

um malandro romântico

safado só no off

para quem sabe assim

esquecer quem ainda amo

e que não está mais aqui no meu mundo

pessoas que não entendem por que

ainda penso nelas

se a fila do amor e do sexo anda e  o mundo taí 

cheio de corações por detrás das telas.


O que a gente é e sente

é coisa nossa e que cabe

compartilhar;

isso se gente QUISER pôr nossa novela no ar;

para fazer minha vida melhor,

eu decidi abrir meu coração e falar.

a boca fala do que o coração está cheio.

e o meu está cheio de amor e safadeza e

também de duas certezas:


1) Amar com liberdade

é amar até mais tarde.


2) 

Seja o que for

para vc amor, 

é preciso dizer

É preciso falar

É preciso pôr

o coração na mão

e abri-lo.

26 de fevereiro de 2023

Bruno e Dom

Bruno e Dom
têm nomes e dons
rostos, vozes, histórias
e o peso do nosso luto, se somado,
não dá uma grama do peso que há
no peito da família que os ama
não vence o frio que deixaram
sobre as camas (sem chama)


É sempre assim:
a comoção nos toma e nos inflama
mas a internet é um solo que não pega fogo
(sem chama).

Cuidar dos vivos
é saudar os mortos
cuidar dos mortos
é fazer justiça
e para fazer justiça
é preciso manter vivos
os vivos.

Bruno e Dom
Brunas e Donas
Bruno e Dom estão em Palhoça agora
e precisam de nossa ajuda
Bruno e Dom estão ali na beira da BR101
nas comunidades e aquilombamentos
e por vezes vêm para o centro das cidades
pedir o fim do marco temporal, da violência, da fome
e precisamos ajudá-los.

Bruno e Dom tem fome
mas sua cidade não tem restaurante popular
se chamam Chico Mendes, Dorothy Stang, Berta Cáceres,
Vitor Guarani Kaiowa,
precisamos descobrir-lhes seus novos nomes e novas formas
(a luta é a mesma, desde há muito);
Bruno e Dom também se chamam
Bruna Andrade e Isabella Colst
mulheres trans assassinadas nos Ingleses
em outro crime sem solução.
É sempre assim:
a comoção nos toma e nos inflama
mas a internet é um solo que não pega fogo
(sem chama)

Cuidar dos vivos
é saudar os mortos
cuidar dos mortos
é fazer justiça
e para fazer justiça
é preciso manter vivos
os vivos

Uma poética TDAH II

enquanto cruzamos o Túnel Antonieta de Barros

ouço conselhos de Marco

você precisa se organizar

falo isso porque te amo e te quero bem

e sei que o mundo devora quem dá bobeira

é noite e eu fico calado pensando 

procurando uma forma de explicar

a ele que há 31 anos eu sei isso

e me esforço para não ser devorado

para eu mesmo não me devorar

depois já é a rua Hercílio Luz

e em outro cruzamento

um grupo de homens cishet

passa pelo slam a

debochar do varal de 

poesias amorosas

o medo que senti

relatei a WD

para quem a poesia é 

também - pressenti

a penúltima chance de 

se entender 

como faço para minha 

mensagem calar fundo

lá onde a dor ainda 

não tem nome e forma?

respiro fundo

e na dúvida entro

em outro túnel

21 de fevereiro de 2023

Demi II


Mexa comigo porque ando só.
Em amores perros me consumi
e renasci das cinzas desse pó
da zona cinza em que o amor
demi nasce e não se encerra
renasci mais forte, mais seguro,
mais gostoso, melhó...

Mexa comigo porque ando só
forjado em rebeldia e fogo no rabo
me faço demiurgo
e pela noite te procuro
de bar em bar,
de ave em ave,
nos motéis em São José
nas piscinas naturais da Lagoa
onde sinto medo e já não dou mais pé
ali também, pessoa, te procuro
meu corpo arde sobre camas estranhas
os sentidos do amor eu apuro
adivinho de sonhos e de sanhas
desejo extraído de entranhas
me abro em relações sem senhas
a ali me aventuro (e ali te procuro)

contrasenso amar um único fruto
que uma, hora, como tudo!
se corrói, por sua natureza,
muito antes amar a madureza
os frutos e seu processo
nosso amor em contínua negação
da ideia de progresso
sem medo de dizer
RETROCESSO!,
volto, me expurgo,
saio sozinho pela noite
mergulho no escuro
de encontro ao passado
eu e você lado a lado
de olho no futuro que não
cessa de nos acontecer

Mexa comigo por ando só
a cachorrada poliamorosa
não dispensa um xodó
o que se leva dessa vida
é o que se come o que se bebe
o que se fuma e o que se goza
o que se, namora, enfim, e só!
Por isso venha sem dó
com vinho e com massagem
para lamber os cantinhos do corpo
e não deixar crescer ali o pó
para envolver tuas coxas
às minhas axilas e inventar
marinheiros que somos 
um novo tipo de nó 
Mexa comigo, que eu deixo,
consentimento e com sentimento,
que é como se viramos
no vale demissexual
venha que ainda é carnaval
e é um desperdício eu e vc 
nesse samba de uma nota só
mexa comigo, que eu deixo,
mexa comigo porque ando só.

Felice

Quero sempre sonhar com você
Porque de você gosto demais
Quero sempre sonhar com você
Porque olhar já não posso mais
Sonhar é ver dormindo e deitado
Entre os bichos e a relva
sentir medo à posição ereta
de ser flagrado em sua 
própria casa.

À custa me levantam
o despertador
inimigo número um 
da onirografia
institui a quarta feira 
de cismas e a imagem
velha que vc faz de mim alija.

Aí morro, em eternidades falecidas,
bem longe dos teus cabelos
e mergulho na luz 
embotada do real
já há muito despida
de sensualidade.

2 de fevereiro de 2023

Cachorrada II

em "Betsy", de rubem fonseca,

a voz narrativa oculta o binário

homem-animal em prol de um bios

comum: acordo e me refestelo

(preguiçosamente!) na cama

com medo das feridas que há

para se lamber ao longo do dia.


em "Clau", de liniker,

o jogo é breve - por um instante

todes comemos escondidos

alguma coisa de nossas mães;

passado o pito, volta o cão 

na palavra 'você'; só não voltam

pra perto você, Betsy e outras nuvens

choradas nas caixas de luto e afeto.


que cruzamentos haveria

entre o queer e o animal?

se pergunta gabriel giorgi

parece que em mim também

se apetecem travessias singulares

em tardes de praia limiares

uns olhos que eram negros

um, dois, téo:

agora são mais castanhos

o pelo que era negro e escorrido 

o meu cheiro preferido

um, dois, téo:

aqui se crispa entre as mãos

a palavra você, entãose afasta

guapeca, guaipeva,

sem rastro, sem choro,

sem olhar para trás.

Cachorrada I


em Copacabana Mon Amour (1970), de Rogério Sganzerla, no minuto 01:09:22, o trabalhador, após matar o patrão, desfila pelo morro, enquanto dois cachorros de última hora tomam isso por um convite à farra geral na América.

em Linha de montagem (1983), de Renato Tapajós, no minuto XX:XX, enquanto um grupo de mulheres confraternizam-se à saída da fábrica, um catioro de rua de pelo preto passa por trás do proletariado e acessa a fábrica para implodi-la.

em Nitrato (1974), de Alain Fresnot, por alguns segundos, em meio ao inventário do abandono, surge, na tela, paulo emílio salles gomes, gato ao colo, a falar sobre bichanos e por isso o cinema não acaba a despeito de tantos atentados dos nossos caudilhos.

Na abertura de La teta asustada (2009), de Claudia Llosa, os perritos observam as tradições peruanas dispostas à mesa e torcem para que o Capital lhes deixem alguns nacos.

em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), de Renée Nader Messora e João Salaviza, os cães do povo Krahô, que nunca viraram latas na vida, celebram, entre os vivos, os mortos, cientes de que são parte igual da natureza - a serem chorados e amados também, por que não?

em A carrocinha (1955), de Agostinho Martins Pereira, Mazaroppi vive a fábula reencenada em cada esquina brasileira: o Novo Poder tem uma idade, uma cor e um gênero e odeia perritos de rua tanto quanto odeia pobres. Os próprios cachorros oferecem ao povo a saída (feminina) para nossos problemas américos: a tomada das ruas (femininas), donos que somos de nossas guias (explosões).

6 de dezembro de 2022

AMIGUES

A) contas coisas, amig,

e as coisas que diz não

ocupam espaço 

pelo contrário

parece que arejam

o próprio passo, um atrair

e dançar de meus 

planos e ideias

há tanto adormecidos

estrela cortante

você se foi e ficou a espera

parece que te vejo voltando

papai noel atrapalhado

saco entulhado às costas

tropeçando em caixas de dizer

cada caixa um conto

que vai sendo tecido

em volta do meu corpo

até sumir no ouvido

que é no fim o verdadeiro

coração das coisas:

te amo te ouço

até os ossos

e nunca te olvido



B)  os objetos todos dispostos à mesa

cada coisa em seu lugar, tu, meu par,

quero dizer e posso mas não digo e não posso

se escondo, transpareço, se me abro em discurso

dos outros mero responso,

de ti espero as melhores fofocas, 

corpo feito fonemas, corpo feito cama em si,

dispensando cortejos, nem pensar cantilenas,

nem pensar desabafos, que aí me sinto

fora da paisagem, peixe pura mágoas

não mais objeto, não mais personagem

nem pensar bater cabeça com as palavras

numa cantilena de dores, tu falas falas falas

e eis-me aqui fora da cena

tenho a faca e o queijo nas mãos

o queijo parece delicioso e a faca, também

empapuçado de vazios, nem por isso abandono

nosso jogo de dar e receber

oi, tudo bem? com minhas raízes

elevadas ao ar e em paz,

da terra me despeço, até mais,

mas antes não sabes da última:

30 de novembro de 2022

Soneto versão desktop

nas tuas abas os rumos, aos trancos, da esquerda
nas tuas abas, tijolo a tijolo, um novo projeto
dancinhas de tiktok, o pdf de um livro antigo
a receita de bolo vegano que, agora, dará certo

nas tuas abas Bolsonaro arde em fogo lento
nas tuas abas, com pé na terra, se faz a cadência 
o amor aquático, a medicina floresta adentro
a vida fundada em balanços e evidências

para onde vamos com o que aprendemos?
nas suas asas recifes natais fortalezas
desejos de sobra e certezas de menos

qual a escultura final dos dias pequenos?
nas suas asas, um a um, os sonhos somenos
se fazem lonjuras, delírios, correntezas

15 de novembro de 2022

Se eu sei cantar o amor

se sei o nome de cada músculo da face do meu amor e o melhor modo de acaricia-los

mas recebo com desconfiança suas conquistas

com medo de vê-lo voar para longe

de minhas mãos covardes,

... Então...  não há liberdade.


Se eu esquecer o fato elementar

De que vivo provisoriamente

Sobre terra indígena

E que o sonho da casa própria para meu filho

É um sonho branco e desmatado

Então... então, não há liberdade


Se eu largar tudo,

Jogar trabalho e família pro alto

viajar loucamente pelas estradas

mas nunca deixar de avisar

meus seguidores da ousadia

das minhas dores de algoritmo

Então, não há liberdade.


Se e quando eu chegar aos 84 anos...

Não estiver com o desejo de 

aprender uma nova língua

de aprender um novo trampo

de dar bananas ao capital

de novamente me apaixonar por um estranho

Entao, então não há liberdade.


Se eu criar um parque lindo e amplo

Para as pessoas da cidade

Mas não garantir comida barata

e transporte público de qualidade

para quem mora nas margens

poder viver a cidade

Então que se exploda esse parque de merda 


Se sempre saem versos loucos e livres de minha lavra

mas nunca uso o poder da palavra

para pedir Liberdade aos irmãos

trancafiados sob um sistema injusto

Então... então sou um grande covarde.


Se eu nunca de fato me engajar na luta

Se eu falhar em convencer cada companheiro

que se acha pouco criativo

que se acha sem graça

Que se acha azarado ou perdido

que cada um a seu modo modo fortalece a luta coletiva, que precisamos da criação e beleza de cada um, de cada um.

Então, poderei vencer batalhas, poderei obter algum destaque

Mas ao fim não haverá liberdade.


Se tarde da noite eu concluo tudo isso

E delicadamente me abstenho de ligar para o meu amor

E lhe contar como cresci e amadureci longe dele,

E contar como sobrevivi ao enterro dos meus erros... ah...


Se eu respeitar a distância e o silêncio

o tempo e o vento

Se eu amar esse alguem a ponto de amar o vento que o leva leva leva leva leva leva

para bem alto e aprender a me amar e amar

o velho amor em novos rostos e nomes

Aí... talvez.. para esse velho amor, seja muito tarde.

Mas dos sonhos de cinzas e chamas que lembrarei essa noite

certamente emergirá o pássaro azul da LIBERDADE.


11 de novembro de 2022

Truque

A) eu quero subverter o desejo,

de ti não posso nada mais esperar

se não o impossível

como todos que se põem às

camas mesas e banhos

eu quero o mesmo

um sentido, um motivo

eu quero subverter o desejo

até que esteja ele todo em riscos


B)  por conta de um derrame, 

     não posso sair de casa ainda.

     se tens pressa para o amor

     deslize pra esquerda minha foto

                                por favor


C) eu tenho um metro e noventa e quatro

    sempre que possível deixo esse aviso

    sair com alguém e não vê-la estragar tudo

    mais bonito é o corpo rebelde e insubmisso


D) meu amor demi te quer sempre por perto

     viciado pelo capital, apaixonado pela liberdade

    busca, se amando mais em dias inconstantes,

    reconhecer, no zunido da brisa, sinais de afeto  


E)

sem antes saber, não gasto minha tinta

você sabe aqui, em mim, o que quer?

vou repetir, me importa que não minta:

sabes, por si, o que faz teu querer aqui?


Z) eu quero... quero embaralhar o desejo,

de ti não posso nada mais esperar

se não o impossível

corpo envolvido

em nuvem nenhuma

a explodir em mínimos toques

num bailado, num rastilho

eu quero subverter o desejo

até que esteja ele todo em riscos

6 de novembro de 2022



Quando a saúde mental tá por um fio
equilibro o coração na ponta da caneta

sempre na vanguarda que não escolhi

a de ousar e experimentar de sempre criar

novos modos de apesar de tudo ser feliz sertralina, ritalina, psilocibina

Se dependesse de mim... era só pão com margarina...


o trabalho nos afasta, obrigações nos afastam...

mas é nossa falta de engajamento 

nas discussões sobre saúde pública

o que mais nos mata!


se vc não pode estender a mão agora

tudo bem, eu espero

mas lembrança de afeto

pq é setembro amarelo 

eu não quero


precisamos de políticas públicas 

mão com mão e

organização política 

do contrário não vamos

não vamos não vamos

salvar essas vidas


se vc não pode estender a mão agora

tudo bem, ³eu espero

mas campanha virtual

stories com prazo de validade 

pq é setembro amarelo 

eu não quero


nada cura mais do que políticas públicas para todes, 

medicamento e terapia pelo sus, toda semana!

nada cura mais que café quente pão com margarina

na companhia de quem se ama

5 de novembro de 2022

Devir

há um golpe em curso, nas ruas

e é preciso ir às mesmas ruas dizer não 

mas que ruas se nunca mais as

juntos ocupamos, desunidos, senão?

haja copas dos mundos para

unir as pessoas, há muito distantes

separadas por uma pandemia, ou antes

separadas pelo vazio de um mundo virtual

sem toques, sem abraços e rompantes

pesada jornada de trabalho semanal

jornada de trabalho materno um eterno

abre e fecha levanta e cozinha e canta 

canções de ninar operários

jornada de trabalho de 44 otários semanais

contado nos dedos do chefe o horário do lanche

tempo para a cultura para ocupar as ruas jamais

acompanhando o protesto o passeio a fanfarra

podíamos ser e fazer muito mais

mas a gente trabalha e trabalha e de noite se esbarra

nas igrejas nos estádios nas festas em casas noturnas

nas ruas não muito, fosse a gente o que pode ser:

mais, mais, muito mais

nossa luz interior parcelada em cinco vezes no cartão

a gente trabalha e trabalha e de noite se encurrala

em camarotes pistas premium sem os parques ver

no trânsito nos bares nos motéis nos cruzamos

nas ruas não muito, fosse a gente o que pode ser:

mais, mais, muito mais

27 de agosto de 2022

Servidão Maria Glória de Melo


ali pesca pampos e poemas

que entram sempre pelas ventanas

retalhadas escamas barbatanas

                                                 

 no mar se aprimora; ali, mora e namora

 servidão maria glória de melo

 rua dos bobos muito à esquerda

número zero


na porta de entrada, a ilha explorada

na cama, vagabundíssima, madonna,

encantochada, assiste pornochanchada

                                                                                                                                           e lê arrabal


cuidasse de rimas e louros, ficaria até o arrebol

mas o que almeja é o impossível:

malandro jonas, mercador nato

atravessa noite a fundo a modo 

trazer do costão a anchova

fresca e farta que encha enfim

o prato seco da infância


olhos de preguiça, ombros fortes,

hoje, lamentavelmente, sente-se mal

o mar não está para peixe,

em memórias, em ilhas ressonantes,

agarrado a uma garrafa lançada das trevas,

passará o dia 

                                                         o mar 

khayamm manezinho,

sabe que a vida, 

inda mais sem vinho,

é nada.


15 de setembro de 2021

Construção para Darci de Matos

constroem prédios de infinitos andares
só não amam as matas ciliares.
constroem alianças, definem jantares
só não amam as matas ciliares.

circulam na Câmara, encontram-se em pares
só não amam as matas ciliares.
costuram acordos, praticam malabares
só não amam as matas ciliares.

celebram à mesa, garrafas, manjares
(à volta dos rios, secura, pesares)
concebem conflitos, açulam o cão de Ares
(à volta do fogo, jazigos, hectares)
fragilizam códigos, infectam azares

                               & as      águas      livres                                                     os    bichos


                                                                      os    ares

7 de setembro de 2021

"Coliseu Tropical" e os poemas de acordar




Em sua coluna poética para o Jornal do Brasil, Mário Faustino selecionou e observou diversas correntes da poesia brasileira e de outras nações. Ao comentar a poesia social, a partir do panorama norte-americano, falou sobre poetas competentes que "documentam e celebram uma época (...) poetas que 'promovem' a poesia, poetas cujos poemas podem ser lidos, declamados ou cantados". Um comentário tímido, quase a defender do esquecimento¹, no vasto mar das vanguardas, àqueles que se propõe a cantar os dilemas das cidades com viés participativo, buscando mobilizar o leitor-cidadão, sem perder de vista as graças do canto. O poeta social brasileiro remonta a antigas linhagens de nossa poesia, especialmente a satírica, de Gregório, Gonzaga, até os arroubos românticos contra a injustiça social, observada em Castro Alves e outros companheiros de sua geração. Tome-se, por exemplo, esse trecho extraído de Maria Firmina dos Reis, contemporânea de Alves, em poema condoreiro no qual o eu-lírico se dirige a um jovem poeta:

"(...)
Canta, poeta, a liberdade, ─ canta.
Que fora o mundo sem fanal tão grato…
Anjo baixado da celeste altura,
Que espanca as trevas deste mundo ingrato.
Oh! sim, poeta, liberdade, e glória
Toma por timbre, e viverás na história.
Eu não te ordeno, te peço,

Não é querer, é desejo;
São estes meus votos ─ sim.
Nem outra coisa eu almejo.
E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,
Ver-te poeta ─ e morrer."

A defesa insistente pela liberdade dos poetas românticos deve ser lida à luz do contexto escravista, sustentado pelo liberalismo em voga; e aqui  Alfredo Bosi nos lembra que comércio livre, dentro da ideologia reinante no final do século XIX, não significava necessariamente trabalho livre.  Isso posto, a superação do falso paradoxo liberalismo-escravismo e o estudo da evolução dessas ideias até o presente são condições para se ler a poesia que hoje encara os mil faces neoliberais, todas elas nem um pouco encabuladas com a história de manutenção da exploração servil que se arrasta no Brasil, dada sob a forma, hoje ainda!, do trabalho escravo, das (cada vez mais) múltiplas formas de subemprego, da tentativa insistente de afastar mulheres do mercado, bem como perseguição violenta às populações negras e indígenas e o ataque aos movimentos sociais, todos atos que organicamente fazem parte desse mesmo sistema econômico a ser combatido. O poeta social do século XXI, então, está saturado de história, compondo canções de acordar, já que é impossível para este dormir, em um país cuja educação, precarizada e sabotada, faz questão de propagar narrativas colonialistas para manter as máquinas girando. Entre outros atordoantes poemas de "Coliseu Tropical", quinto livro de Viegas Fernandes da Costa, destaca-se este "A MÁQUINA", que sonoramente envolve o leitor em uma armadilha mecânica:

A máquina mói a gente
A gente cansa da máquina.
Mas a máquina, que não tem nervo nem músculo,
que põe a gente minúsculo,
esta não cansa da gente.
E seu ranger de cerrados dentes e azeitadas engrenagens,
e seu torcer persistente,
primeiro põe a gente doente,
depois desistente 
como um velho cuco sem vida.


O ano é 2021 e ainda, outra vez mais, cabe-se fazer uma poesia do prosaico e circunstancial; a despeito de leituras que contestam a possibilidade de se atrelar o discurso poético a qualquer territorialização, impõe-se ao poeta a necessidade de construção de um contradiscurso ao feixe discursivo, via publicidade, artes espetaculares, telejornais, redes sociais, escolas, etc, que moldam as massas ao gosto fascista no Brasil dos anos Bolsonaro (2018-2022?). Para resistir, a memória histórica e a individual convergem nesse livro, frequentemente pelo recurso da crônica e da narrativa, dado o objetivo do autor de relembrar a quem o lê acerca de outras formas de vida e relação com Gaia. Aliás, a palavra "terra" (terra como pertencimento, terra a ser ambientalmente protegida, como territórios imaginários da infância, como objeto da luta de classes, terra como solo) tem seus sentidos vários amplificados nessa obra, não só porque "o campo é nosso coliseu tropical", como o autor comprova a partir de diferentes olhares - sempre meticulosos, ancorado na leitura e anotação - para a história de SC (O nome Desterro aqui ganha força ao invés de Florianópolis) e do BR, mas também pela consciência de que, a despeito da incessante evolução tecnológica, cuja estetização e espetacularização são tão caras ao Estado necropolítico², nunca deixamos de ser barro, em contínuas trocas com a natureza:

VII MIGRAÇÃO

hoje sonhei contigo
estávamos sentados sobre as dunas
pescando o mar
duas baleias descansavam serenas
com seus filhotes
e a brisa nos devolvia os corpos
(...)

Logo, ao invés de celulares, o livro de Viegas contrapõe experiências lúdicas/corporais ("Eu que chutei latas de azeite na rua"[...]): são muitos os caminhadas/encontros (como as visitas do Ornitorrinco) nas imagens desse livro,  assim como as referências à transmissão oral de saberes, ou ainda os bilhetes como pontes de contato, como ocorre em "BILHETES QUE ERNESTO ENVIOU PELOS CORREIOS EM ENVELOPES COM ENDEREÇO DO REMETENTE DESCONHECIDO; os poemas-personagens, aliás, cumprem um papel importante em um livro que frequentemente se mostra referencial/denotativo, desaliviando o efeito cumulativo por meio do aforismo, do humor e da fábula.  Essa intenção circunstancial, transparecida  nas contínuas alusões nos poemas, e guiada por meio das "Explicações desnecessárias", ao final do livro, onde se referenciam alguns pontos de partida, parte deles extraídos do noticiário nacional, mas também outras da observação da natureza, bem como estudo da história e literatura de Santa Catarina, ou ainda extratos da memória, uma das forças motoras desse livro - essa intenção é o contraponto natural ao desejo de fazer da poesia um instrumento de intervenção no real. Esse processo pode ser percebido em diferentes momentos da poesia catarinense, mesmo antes da década de 60, quando o termo poesia social passa a concorrer (por mais discutível que o seja) com outros movimentos poéticos localizados naquele momento, ainda que não tenha contornos precisos quanto à forma. Afinal, não se trata de aderir a alguma moda, mas alçar a palavra à condição de discurso/debate, entendido como ação, algo percebido em parte da poesia significativa do simbolista Cruz e Sousa ou nas poéticas de Trajano Miranda e Ildefonso Juvenal no começo do século XX. A partir dos anos 60, as referências dessa poesia multiplicam-se³ pelo estado, inclusive na Blumenau, cidade natal de Viegas, com a poesia atuante de Lindolf Bell (poeta maior, Bell é uma referência declarada pelo autor de "Coliseu Tropical"), não apenas pelo conteúdo/forma dos textos mas também pelas iniciativas, junto com Alcides Buss, de divulgação da palavra poética - ação, enfim. Dessa forma, um sentimento de urgência/obrigação leva, por vezes, o poeta a abrir mão de outras poéticas, desinteressadas na missão de intervir diretamente no real por meio do registro crítico do que se passa em determinados datas/locais, para tentar acertar/acordar os habitantes desse aqui-e-agora:

"Tem este lugar onde o dia nasce poesia e clichê. Onde o dia nasce promessa. Onde o dia veste um pote de margarina. O diabo é que sempre há, na padaria da esquina em que tomo meu café, um televisor ligado no telejornal."

Chama a atenção o papel central que as leituras da história exercem no livro de Viegas. São frequentes na obra, por exemplo, as alusões a Canudos e Contestado, episódios em geral mal compreendidos pela população brasileira, cuja instrução formal, controlada pelo Estado-algoz, esforçou-se por ocultar ou adulterar a compreensão de duas das maiores tragédias do país. Para Rosa e Trevisan⁴, "discutir a Guerra do Contestado enquanto biopolítica é uma tarefa desafiante, já que não houve uma valorização consequente do acontecimento, porque o sofrimento e as barbáries não foram suficientemente elaborados e transformados em um valor cultural.". É, então, num campo marcado pela alienação histórica, circunscrito em um estado construído sobre violências recobertas por narrativas fantasiosas colonialistas, que Viegas - professor e historiador- joga, sempre buscando mostrar ao leitor quão integrados estão (não se tratam, como pode parecer, de "pontas") fatos históricos de um certo passado e um certo presente, que não pode ser lido de forma anacrônica - a criança morta à praia, como peixe, não está distante, sob uma arbitrária construção histórica, dos homens e mulheres mortos no Congo em nome da expansão colonial, posto que o mesmo sistema econômico as produziu, este mesmo que segue aí lançando celulares cada vez mais leves e mais funcionais:

"Presidente que manda atirar em cidadãos brasileiros é coronel", está escrito na ficção de Donaldo Schüler. O império caboclo de João e Zé Maria, Teodora e Maria Rosa, de Adeotado o flagelo de Deus. Dez mil mortos nas contas dos generais brasileiros que - e pandemia do século vinte nos mostrou - não sabem contar. Dez mil mortos apagados da biografia do Brasil escrita pelas historiadoras Lilia Schwarz e Heloisa Starling. Era o ano de mil novecentos e doze nas terras do Contestado. O dragão de ferro arrebentando a mata e ferindo a terra, o gafanhoto de aço semeando a morte. Pela primeira vez na história botaram gafanhotos de aço para semear a morte no céu. Na conta dos olhos que viram a terra calcinada, nove mil foram as casas queimadas, vinte mil as vidas humanas destruídas pelo Estado nacional.  

E assim, pensando o agora a partir do olhar para o passado, Viegas Fernandes da Costa "prevê" o futuro também, afinal é sabido, por quem ainda guarda algum senso, o esgotamento de recursos que fatalmente marca a continuidade da expansão da doutrina neoliberal pelo país. Esse poema, por exemplo, foi publicado antes do início do alargamento da faixa litoral de Balneário Camboriú e, mesmo não retratando diretamente esse fato, bem que o poderia ser. "Coliseu Tropical" é, pois, um retrato em movimento de um país, com seus estados e cidades tropicais, e um convite ao acordar para a tarefa de se repensar seu destino, partícipes que somos dessa história:

Tudo deságua nesse mar
o sol, os barcos, a lama
Também nossa infâmia
é alimento dos teus peixes
Nossa tristeza diluída nos rios
capilares de tua existência
Nossa insônia, gula, falta 
esparramada em tuas praias
no profundo dos teus abismos
onde brilham coloridas
assustadas aberrações.


¹ Não faltam exemplos de olhares preconceituosos da crítica literária a textos com viés participativo/social; vide, por exemplo, o modo como Antonio Hohlfeldt analisa as obras de Alcides Buss e Carlos Damião em "A literatura catarinense em busca de identidade", associando "madureza" de estilo ao desenvolvimento de outros temas que não o social.

² Para usar termo extraído dos versos do autor, cujos poemas estão repletos de referências da Literatura, História, Filosofia, etc.

³ Muitos nomes devem ser lembrados por algum estudo amplo que mapeie essas poéticas. Alguns ainda pouco lidos e pouco estudados como, por exemplo, Maura Senna Pereira e Ildefonso Juvenal.

 ⁴ROSA, Geraldo Antonio da Rosa; TREVISAN, Amarildo Luiz. BIOPOLÍTICA NA CATÁSTROFE DO CONTESTADO: CONTRIBUIÇÕES PARA REPENSAR A FORMAÇÃO DE PROFESSORES. Disponível em: http://www.anpedsul2016.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2015/11/eixo12_GERALDO-ANTONIO-DA-ROSA-AMARILDO-LUIZ-TREVISAN.pdf