30 de julho de 2011

cartas

"A correspondência em si mesma já é uma forma de utopia. Escrever uma carta é mandar uma mensagem para o futuro; falar a partir do presente com um destinatário que não se encontra ali, que não se sabe como estará (em que estado de espírito, com quem) enquanto lhe escrevemos e, principalmente, depois: ao ler-nos. A correspondência é a forma utópica da conversa, porque anula o presente e faz do futuro o único lugar possível do diálogo". 

(Ricardo Piglia, “Respiração Artificial”)
 
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catei a citação lá do blog do ítalo, o um-sentir

solidão, solidão.
a protagonista em constante movimento, encontrando-se com desconhecidos ou não,
compromissos marcados ou surgidos ao acaso. mas todos têm em comum a aura de solidão, como se o filme dissesse, estamos todos aqui, nos encontrando, mas estamos sempre sozinhos. a solidão está também na própria escolha dos cenários, muitas vezes abertos, dando a impressão de vazio. Nunca há um ambiente com muitas pessoas. Nos trens e nas próprias estações, há pessoas, mas muito poucas. Não há cenas de rua. Não há aglomerações. e há muito a solidão dos hotéis. o filme é bem lento, mas bonito, e mui bonita é esta aurore clemént. a última cena é linda (e triste) demais.


(OBS: comentário sobre filmes começarão a aparecer aqui, até que o filmow, essa defeituosa rede social para cinéfilos passe a permitir que resenhas e comentários sejam salvos e guardados. Sim, porque sou dessas pessoas que gostam de guardar tudo, qualquer nota ou espirro sobre um livro ou filme, acho que há um pouco de neurose nisso, não sei, um abraço)


29 de julho de 2011

As pessoas se empolgam e acham incríveis certas coisas e seus amigos, vizinhos de existir, não veem a graça, a beleza, que tédio, não entendem, pois elas se empolgam e acham incríveis outras coisas, bem diferentes, e assim sucessivamente, todos amigos e nenhum entendimento; é isso que move o mundo, gosto de pensar, essa nossa mania de ciclos

26 de julho de 2011

fuck

"My kids will have computers, of course, but they will have Kindles first"
Bill  Gates
eu quero um Lewis Carroll na minha vida

20 de julho de 2011

revolva-se, clarice. revolva-se.

(impressão minha ou é uma universidade?)

O ÁPICE DOS TEXTOS FALSOS
VIVA A INTERNET.

9 de julho de 2011

às vezes, paro de frente a uma palavra e me espanto bobamente. cor de rosa.
cor de rosa. é como se, por indefinido intervalo, eu tivesse esquecido o que há por trás do nome.
cor de rosa.
dar um F5 nos sonhos,
antes um trem a rasgar as campos da infância
and now we have a big wave of
placas
e sobram estradas
bueiros
não há mais volta
os passageiros apenas vem
e agora entre um looping e outro
a gente ri dos trens
chamam isso de montanha russa
eu não sei
onde estão os campos
se somos outrens

organização é tudo




até o fim do ano devo lançar meu futuro best-seller
 "como organizar sua biblioteca"

6 de julho de 2011

(reinaldo moraes falando sobre a flip 2010)

"De qualquer forma, sempre volta a pergunta: o que isso tudo tem a ver com literatura? A resposta, bem ao estilo tucano-uspiano, bem podia ser: e o que é que não tem a ver com literatura? De fato, tudo parece caber nesse generoso saco de gatos. Literatura é como as igrejas de antigamente, que viviam de portas abertas e abrigavam todo tipo de gente, das altas e prósperas figuras, a bêbados, miseráveis, loucos e assassinos, sem falar na cachorrada que sempre aparecia para farejar incenso e, eventualmente, morder a canela das beatas."

o post completo (bem grandim, aliás) está aqui
a julgar pelos tweets ( @raqcozer , @flip_se , @ProsaEVerso ), a fala do Antonio Candido sobre oswald na flip foi linda.
vou fingir que estive lá.

3 de julho de 2011

na última vez que vi Ruim, o poeta, ele estava
sentado na rua repetindo
me dá um trocadilho, me dá um trocadilho

2 de julho de 2011

a literatura e seus mistérios

Ontem à tarde, no trabalho, me peguei pensando em "morte em veneza",do thomas mann.
e não sei por quê. Li essa pequena novela há uns meses e na época achei um livro perfeito, mas não considerei-o um livro favorito.
Mas de alguma forma a história do Gustav Aschenbach ,um escritor atormentado, que se apaixona platonicamente pela beleza de um garoto, e que morre ao fim do livro, mexeu muito comigo. Se não tivesse mexido, não viria me assombrar numa tarde de sexta no meio do trabalho. E agora, depois de um sonho que se sonha acordado, fico tentando achar o porquê, algum sentido subliminar. se é que existe.

25 de junho de 2011

inquebrável poema,
paulcelanato
 divã para os corpos
bisturi para as almas
muita coisa se faz
sem as devidas armas

24 de junho de 2011

é bom pensar em ti como imagem
esquecida duquesa pelo baralho
a morar para além dos ônibus e hospitais

e assim,
virtual vírgula
a morar na imperceptível pausa do orador
você se equivale a qualquer um que não vejo
à figuras móveis a deslizar pelo salão de conveniências
como se o não visto não fosse
(e não é)

invisível
talvez faça amor com outro homem ou mulher
na ranhura do tabuleiro, esquecido quintal, uma casa mexicana
quase-ímpar, você existe,virtual,
desvirtuosa maneira de amar
a ponte o pênis o pênsil

22 de junho de 2011

e quem vai cumprir o impossível mandamento
de amar adeuses sobre todas as coisas

21 de junho de 2011

algo parecido com a felicidade

"Ao cabo de três assaltos o treinador parou o combate e desapareceu dentro da casa seguido por Merolino.
-- O massagista está esperando, disse o jornalista.
-- Quem é o massagista? -- perguntou Fate
-- Não o vimos, acho que nunca sai ao quintal, é cego, entende?, cego de nascimento, que passa o dia inteiro na cozinha, comendo, ou no banheiro, cagando, ou estirado no chão do quarto lendo livros no idioma dos cegos, aquela linguagem, como se chama?
-- O alfabeto Braille -- disse outro jornalista
Fate imaginou o massagista lendo num quarto completamente escuro e teve um leve estremecimento. Deve ser algo parececido com a felicidade, pensou."


Roberto Bolaño, 2666, (pg 272)
Tradução de Eduardo Brandão,
Companhia das Letras, 2010

19 de junho de 2011

e essa vontade de amar
pessoas do outro lado do oceano
do outro lado do tempo, talvez já mortas
a beleza conservada na tela do cinema,
ai auden,
enquanto joões e marias, tão vivos, na rua
corpos desinteressantes, areia pesada
inimaginável dormir sob
e então de novo a ansiedade me assalta sobre o chuveiro
essa vontade, e breton diz a beleza será CONVULSIVA, ou não será

será?

(se houvesse onomatopeia pra amar,
talvez piaf, piaf)

 e então paris volta a boiar,
um banho quente

como se isso matasse
urgentes vontades

17 de junho de 2011

quisso, Alfaguara?



E chega às livrarias o livro "Peregrinos", antologia de contos de Elizabeth Gilbert.
Sai pela Alfaguara, que vem publicando muita gente boa.
Gilbert é autora dos livros "Comprometida" e "Comer, rezar, amar"

Pergunta: diante disso, é possível que gilbert seja uma contista de qualidade?
Meu preconceito literário não acredita nessa possibilidade.
na contracapa, trechos de resenhas elogiosas do times e outros jornais.

Mais uma vez, digo
se alguém ler, mande notícias, purfa.

11 de junho de 2011

em flannery o'connor, o céu nunca é somente o céu

(claro, na tradução de J. R. O'Shea, Editora Siciliano, 1991)


do conto "Salve sua própria vida":

"A lua gorda e amarela apareceu nos galhos da figueira, como se fosse se empoleirar ali com as galinhas."

do conto (frase final) "Um templo do Espírito Santo":

"O sol era uma imensa bola vermelha, como uma hóstia elevada, encharcada de sangue, e quando afundou, desaparecendo de vista, deixou uma linha no céu, como uma estrada de barro vermelho boiando acima das árvores" 

(essa merece que eu busque o original. Ei-lo!)

"The sun was a huge red ball like an elevated Host drenched in blood and when it sank out of sight, it left a line in the sky like a red clay road hanging over the trees."

do conto "O rio":

"Ao pé da colina, a mata se abria bruscamente em um pasto salpicado aqui e ali com vacas de pêlo preto e branco e que descia, nível por nível, até chegar a um riacho largo e alaranjado, no qual o reflexo do sol se sobrepunha como um dinamite."

do conto "O círculo no fogo":

"O sol queimava tão avidamente que parecia disposto a atear fogo em tudo que estava à vista"

novamente, o conto "O círculo no fogo":

"A menina se embrenhou pela mata, e as folhas caídas soavam ameaçadoras sob seus pés. O sol subira ligeiramente e não passava de um buraco branco em um céu escuro, como uma abertura por onde o vento podia fugir, e os topos das árvores eram negros em contraste com o clarão."


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É claro que a leitura desses trechos é bem diferente se inserida dentro do contexto dos contos...

(Aliás, é interessante como em muitos desses contos, a metáfora do céu (na verdade, o sol, a lua, as nuvens) está intimamente ligada aos enredos. Caso da metáfora de "o círculo no fogo", conto que termina com uma cena piromaníaca, ou ainda a metáfora de "um templo do espírito santo", no qual a descrição do sol feita pelo narrador, "como uma hóstia ensanguentada", dialoga com uma cena anterior, na qual a protagonista observa um padre erguer a hóstia.)

mas a intenção foi mostrar a alta carga metafórica do texto da flannery.
e que carga.

7 de junho de 2011

I

viagem ao centro do quarto:

acabo de comprar mais uma passagem secreta
para atravessar a nada
esse vestíbulo

vocábulo perdido,
este quarto será eternamente do filho
ainda que filho não seja mais,
para sempre da palavra filho
para sempre gesto vago nas festas, estátua nos retratos

filho agora é homem feito

pedra
no meio do quarto,

II

viagem ao núcleo
da família:

furioso o penitente escava
es (cava) lo
atrás da porta trancada
a sete chaves, dentro de outros sete molhos
a tremelicar sob a lâmpada,
como se raios escuros de um sol inverso
penitenciária do desejo,
vou te contar como eram aqueles tempos em quadrilha
eu era jovem
e queria
contar às ondas onde se escondem os portos

III

do meu vô guardei arte de rimares
"o que passou passou/azar foi seu"
meu avô deitado
sob as cobertas dizia: estou fazendo malabares
só vivia deitado meu avô
faquír dos ossos de minha vózinha
um dia ele sumiu
foi viajar
disse meu pai

azar o dele,
me ocorreu


IV

tá comigo tá com ateus, taxei o bordão
a bordoar a cara gorda de minha tia rezadeira
anjo da guarda, meu bom amiguinho
guia esse minino
quantos cavalos no sonho
faltam-me dedos
para escavar

5 de junho de 2011

"Todos los días se cumple el aniversario
de un atentado"

- marina mariasch

(lembrando que,
se estivesse vivo,
fulano estaria fazendo hoje
seiláquantos anos)

4 de junho de 2011

"a quantas anda a vida"

vou deixar que minha mesa conte por mim:


da publicidade




O que diz ali no selo azul, no alto da capa: "O livro do ano, e do século" - The Guardian


(como pode um livro lançado em 2010 (ou 2009, agora não sei), ser considerado o livro do século?)

esse livro me cheira a "romance-assusta-classe-média-americana"

se alguém ler, avise-me. atualmente franzen ocupa a posição número 232353545 da lista de porler.

29 de maio de 2011

uhum!

RT @lencocorderosa Oswald de Andrade é o maior tuiteiro da literatura :D

28 de maio de 2011

desgraçadinho, pensava justino, enquanto o carimbo descia com força contra a certidão.
taki, minha sinhora,
tá registrado?
sim, sinhora, a partir de agora temos um novo cidadão (filho da putinha) na cidade.
o pequeno dormitava no colo gordo da mãe e justino dava um xauzinho,
lá se ia mais um nascido no século XXI
Ah, meus 21! Meus 12, ah, minha quimera!
Que merda, ando tão velho.
E esses filhos da putinhas que insistem em nascer em 2011. Não para.
Porra, não para.
Pra onde olho,
Para onde olhava, Justino via documentos
vias que diziam: marinaldo dos santos, felipe gabriel de souza, amanda de castro,
nascidos na maternidade de tal,
no hospital da cidade xis. Eu envelhecendo e esses putos nascendo.
Porra, não pará, carimbava justino.
Mas a vida de justino não era assim tão deprimente.
A vida, como todos sabem, é uma boquinha cheia de presas
sempre nos superprendendo. Se de um lado atormentavam-no as rechonchudas crianças, rebentos de rechonchudos pares de peitos,
justino encontrava satisfação nos olhares tristes ou indiferentes de outros:
então foi câncer de fígado a causa, meu sinhor? ,
(como uma barata tonta, a certidão de óbito)
que coisa né, sorrisinho sob o bigode,
carimbava justino

Uma nova editora

selo novo na área: Tordesilhas

Lançaram um livro da Pizarnik!

22 de maio de 2011

listas, listas

as famigeradas listas: sempre há quem as critique.
eu adoro. onde há uma, eis eu e minha caneta anotando sugestões.
o enzo potel fez há pouco, um top 3 para romances e contos lidos lá na coluna dele
deixo o meu:
1º Crime e Castigo, do Dostô.
2º O ajudante, de Robert Walser


3º O apanhador no campo de centeio (salinger), O grande Gatsby (Fitzgerald), Inferno (barbusse)? Breve romance de um sonho (schnitzler), O processo (kafka)?

Empate, vai. Não sei precisar qual.

Obs 1: O critério que utilizei foi o mesmo do enzo: obras que vão fundo, que mexem com a gente.
porque há várias obras, dentro dos meus "favoritos", que estão lá por outros motivos. Caso do louco "Macunaíma", ou do enfadonho "O ciúme", do Robbe-Grillet, um livro raso como uma poça que não recomendo a ninguém, mas no qual aprecio a cara de pau do autor.

Obs 2: Desculpem-me pelo primeiro lugar óbvio, mas tem que ser. Ele pôs um machado na minha mão.

Obs 3: Se fosse para considerar "A obscena senhora D", da hilst, como um romance, então ele deveria estar aqui. Mas vou contá-lo como uma narrativa curta, prosa poética. Deixo a lista para os romances mais tradicionais.

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E quanto aos contos, céus, que dificuldade. Não consigo definir 3, nem precisar qual o favorito. Alguns:

 - Bliss - katherine mansfield
 - Casa Tomada/As fases de severo de J. Cortázar
 - Nota de pé de página, de Rodolfo Walsh
- A queda da casa de Usher, Poe.
 - A prodigiosa tarde de Baltazar, de Gabriel G. Marquez

teu namorado bobo, etc

você me desculpe por se meter na tua vida
se assim faço, é porque eu queria meter na tua
você me desculpe por

21 de maio de 2011

sra. poetisa está invitada

tenho café
vamos fazer uma renga
lá em casa

entrada free até às
quarto

ou escolha:

open mouth
mulher desacompanhada
só paga
se quiser.
nonsense vc sabe mas te amo
mulher
tu és a pedra
no meu chapéu

A cummings' poem

if you like my poems let them
walk in the evening, a little behind you

then people will say
"along this road i saw a princess pass
on her way to meet her lover(it was toward nightfall)with tall and ignorant servants."



In: Etcetera: The Unpublished poems of E E Cummings. Liveright, 1983.

18 de maio de 2011

diante de minhas cartas repletas
de patas
e malabares
escritas com mão de amante desastrado
daia se faz silêncio:

ousada
me manda uma carta
em branco

14 de maio de 2011

carta pra ti

nem tanto carta, mais pra bilhete.
estou passando por uma fase ruim. Mal componho uma lista de compras. Mas talvez não tenha dificuldade nessa carta, pois a carta, quando resposta, não vem do nada. é conversa no papel, ela parte de um primeiro dizer. geralmente, se aceita esse tom, escolhe-se um ritmo e se responde. ou não, posso ler tua carta por cima e mandar uma resposta que não é resposta, uma carta despreocupada, falando de outras coisas, respondendo a perguntas que você não fez: aí seriam dois papos concomitantes. muita coisa se perderia, né?. é controverso, mas me parece agradável, bobo, vivo.
certeza que este bilhete, já longo, virando carta, há de te pegar de surpresa. primeira vez que te escrevo carta, agora vc saberá o que há tempos sabem meus destinatários amigos: me perco nos escritos. sou preguiçoso, desorganizado para com conversas, cartas, promessas, combinados, apostas. Mas carta, graças, não tem validade. Demoro anos, mas respondo. Quando se atrasa, o papo se perde, é isso?
Sim, se perde. E quando vamos procurar, achamos outras coisas pra falar. Coisas que não acharíamos se houvéssemos respondido a carta de pronto. Aliás, carta e prontidão não combinam.
Queria te escrever para falar pelo meu amor por telegramas, mas estou meio ruim, como já disse. Guardo para outro dia.
Contento-me em te responder, esperando que receba esta com o carinho de quem a escreveu.
só agora digo o que queria dizer logo no início: agradeço tua atenção, tuas leituras. gostei muito de receber tua carta virtual, embora tenha demorado a responder (mas quanto à demora, creio que você compreenderá a explicação que lhe dei)

escrita à mão tem caído em desuso, nós sabemos.
nossas gavetas andam feias e tristes, repletas de canetas e papéis de bala,
pois não trocamos mais cartas. Em compensação, empanturram-se nossas caixas de email, nossos blogs, nossas redes de contRatos.

Nova função social dos bilhetes e das listas de compras: lembrar-nos que temos caligrafia.

Tão bonito desenhar letras. Como a gente se permite ficar batendo em botões o dia inteiro, como macaquinhos amestrados?
A, para a letra A.
B, para a letra B
CÙ, às vezes me desanimo, pois quase todo assunto cai nesses poços sem fim chamado "discussão sobre a passagem do tempo" ou "a velocidade da que a porra de nossa vida, carrosel pseudoselvagem, tomou tem tomado. (mas a vida é linda, não se esqueça disso)

mas onde eu estava?
céus, que bilhete mais longo. outra coisa que sabem meus destinatários: sempre me perco. sempre escrevo muito menos ou mais do que gostaria.
ah, tua carta não ficou nonsense, não.  muito clara e bonita. passa amor pela vida, como sempre.
aliás, não é só vc, tenho reparado isso em outros amigos. o que é ótimo, pra quem escreve e pra quem recebe.
hoje escrevo muito â mão? não,
pouquíssimo.
como tenho feito poucas limonadas ou ouvido pouco the pretenders.
a gente sabe mas não aprende, né? adoro controvérsias, oxímoros, balas de gomas com cara de docinhas mas enormemente azedas.

mas onde eu estava? acho que perdi de novo nesse escrito,  o que ótimo, maravilhoso, é meu eterno desobjetivo
te agradeço por isso,

porque lulu bergantim não atravessou o rubicon

um autor fantástico que merecia mais fama do que tem hj:
josé cândido de carvalho.

8 de maio de 2011

[2]

RT @rilkeshake TORRO ano 2011 pouco uso única propr. troco p/ ano anterior + dinh.

7 de maio de 2011

um poema de Sá de Miranda

(poeta português, contemporâneo de camões.)


ESPARSA

Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador
eu naum, e agora com dor
quero perder meus sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d'ouvir as sereias;
eu não me soube guardar:
fui-vos ouvir nomear
fiz minh'alma e vida alheas

1 de maio de 2011

    espelho inverso,
    hidra de brinquedo,
   
    os namorados tristes
    se abraçam no shopping
    sem segredo

um poema de camila fortunato

sem querer



que às vezes você fere

sem querer ferir



e sem saber

destrói

o que há de ti

em mim



ai de ti, meu bem

que em meu peito morrerá

no fim

sem querer
 
 
------
 
clique AQUI para ler o poema em seu habitat natural

30 de abril de 2011

se estou com o vento, me dessarrumo

pois então, seu eliot
abril também sabe ser cruel
para as bandas do sul

confuso tempo este,
de frutos podres
e sabida doçura
de ruas apinhadas de pessoas com pressa
a tomar os mais longos caminhos
para suas cascas

mas,
como tudo, abril passa
e cede lugar a verões fora de época
perdidos fogos sem estrebarias
aladas sementes sem norte

e como toda chuva,
abril passa
abril poça
escuro caldo de memória e desejo, seu eliot

17 de abril de 2011

rosa me dizendo que amizade dada só pode ser amor,
mas o que dizer desses encontros furtados
choques cotidianos de gentes com pressa
esse oi tudo bem
sim, tudo ótimo
onde o amor nessa retórica torta
contra a qual não se reclama
como não desarmar-se, sorrir
diante de quem
pergunta tá tudo bem
sim
até mais ver

a palavra lançada não volta
só traz dor
a busca pelos dardos

não há autópsia possível
não há marca evidente do tiro
a palavra lançada não volta

pássaro imortal
a palavra lançada
não há

três somem

três somem
no escuro do quarto

e deste ballet
de impossível sincronia
é preciso um afogado

para que o amor escape
mais uma vez
                       por um tris
                                                     te

16 de abril de 2011

poema de Alcides Buss

De ler e andar


Há dias em que há

mais sentido nas ruas

do que nos livros.

Nesses dias se deve

de casa sair

e, dentro de si,

caminhar à escuta

da vida.



Há dias,

porém, em que mais

sentido há nos livros.

É preciso, então,

trancar-se em leituras

e, numa entrega de sonho,

misturar-se ao mundo


Alcides Buss

 
In: poesia para gostar de ler poesia. editora letradágua.

11 de abril de 2011

amores de vanguarda morrem cedo:
essa paixão,
dançada na corda
de bambas pernas,
já nasceu queda

e eis o bar
essas duas cadeiras sem mistério algum
esse jogo de persianas

acudam-nos garçons
piratas
e deuses
de última hora
que
vamos repensar a rota desse barco
essa sala de ausências:

onde pôr o amor
se não há vagas
no mar?
onde, sol, se põe
o amor
onde o sal,
onde o ciúme
essa tequila dos olhos?

precisamos propor
exercícios aos corpos:

(não sonhar com cavalos
a correr
em verde campo
imagem por demais pintada
e já sem agruras)

(descansar braços pernas
fazer da língua sutil arma branca
contra nossa arvorosa
 correnteza)

(desaprender
(os cílios
(joelhos
(e ouvidos
(voltar a ser cinema de sustos
imitação da chuva
singradura contra as pedras

oh, sim,
precisamos desarmar esses corpos
que amar também é ruir aos poucos
e casais se alimentam das migalhas de outros amantes

o amor canonizado
ai dele,
coitado
zeus nos livre fazer da paixão
um ponto de referência

tratemos de sorver aqui
nosso cálice de absintimentos
brindar o gratuito
saudar o banquete dessa época
viver essas ruas
a profusão de meninas
nosso
barco de cristal

10 de abril de 2011

rosas se agitando
jerry lewis na vitrola:
o rock ou o vento?

9 de abril de 2011

Um homem entra numa escola e mata várias crianças. Graças às suas caixas mágicas, todos no país passam a saber do ocorrido rapidamente. e não há quem não se comova, ainda que não queira pensar no fato. Porque se pensarmos um pouco só sobre o ocorrido, se desenharmos na mente, ainda que de forma tosca, um grupo de crianças sendo mortas; se imaginarmos, ainda que precariamente, que vida levava apenas uma dessas 12 crianças (do que gostava, como era seu rosto, o que pretendia fazer nesse fim de semana) cairemos num fosso interminável. notícias assim levam um pedaço da gente de forma silenciosa. roubam alguma coisa nossa que não tem nome. e, por não ter nome, sentimos o furto delas mas não reclamamos, pois impossível. as famílias das crianças que se foram desmoronaram. os outros, o resto do país, continuam de pé. nós continuamos de pé, seguindo. Apenas ruímos um pouco. E por quê? Porque já temos fardos suficientes, agruras diárias, pequenas tragédias. Não podemos atolar diante de cada tragédia que nos fere. O que seria de nós se carregássemos às costas todas as mortes que nos comovem? Por isso a dor breve, o furto sentido mas não reclamado. Por isso essa pequena ruína. Por isso já ligamos o rádio, abrimos um livro de contos. Por isso já combinamos de dançar hoje à noite e quem sabe passear na praia amanhã (se der sol). Ah, o esquecimento, essa faca de mil gumes. Se nesse momento ainda retumba na mente o assassinato das crianças, é certo que irá passar. Logo uma outra tragédia irá tomar seu lugar. Quem sabe um famoso goleiro matando de forma cruel uma mulher. Ou talvez um pai que atira sua filha pela janela do apartamento onde moravam. Certo é que há de vir. Enquanto isso, prossigamos ruindo, que a vida não pára. "Dá-me mais vinho que a vida é nada", disse Pessoa.

6 de abril de 2011

falou Bolaño

“Soy mucho más feliz leyendo que escribiendo.”


Roberto Bolaño

3 de abril de 2011

um velho drama moderno

Avatar 1:
"Acho essa comunicação via internet problemática, as pessoas em geral não tem compromisso (por exemplo, de responder uma msg, ou sente uma necessidade real de partilhar), é tudo muito superficial, 645 amigos, imagina, não fazemos sequer 10 amigos verdadeiros ao longo de toda a vida, os que derem sorte talvez 20... O que passa disso é outra coisa qualquer, porque amizade é como amor, exige dedicação, que se arranje aquele tempo que não se tem, que se esteja disponível e necessitado ao mesmo tempo. "




Avatar 2:
"vc tem razão, é muito difícil que das comunicações pela internet (sempre muitas, e sempre muito rápidas) saia algo sequer próximo de uma amizade como a que temos com nossos amigos na "vida real". porque a presença, o toque, é algo fundamental que a internet não possibilita. somos avatares que conversam. existimos nisso que escrevemos? sim. mas será uma existência virtual, frágil, que dificulta muito amizades, coisa que vc definiu muito bem."

extraído de uma conversa internética, numa dessas várias redes sociais nas quais a gente se perde.


PS: não quero soar fatídico, pessimista. acho, sim, que da troca de e-mails, cartas, recados,sei lá o quê, podem surgir amizades, que podem ser mantidas por anos. mas é raro.

entrevista com lídia jorge




Bruno, rapaz muito gentil, mostra-me esta entrevista com a escritora portuguesa Lidia Jorge.

um tanto longa, mas interessante.


um trecho da fala de Lídia:

"eu gosto imenso dos leitores que leem lentamente porque são aqueles que são capazes de respeitar na leitura aquilo que é o movimento interno de nosso pensamento."

2 de abril de 2011

Enfim, mais Walser

O público brasileiro contava com apenas um livro do suiço Robert Walser: "O ajudante", editado em 2003 pela Arx, em tradução de Zé Pedro Antunes. Apaixonei-me pelo romance que acompanha os passos de Joseph, um jovem que vai morar na casa de seu patrão, o engenheiro Sr.Tobler (o enredo do livro é mínimo. a graça está no modo como o autor apresenta os dramas íntimos e as reflexões do jovem em face da realidade falida que o cerca.)

Desde então eu vinha torcendo por novas edições no brasil, já que em portugal há várias traduções de walser (esses gajos, sempre na frente...). E agora ela veio: JAKOB VON GUNTEN - Um diário, que sai pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Tellaroli.


Um viva pra Companhia! :))))))
Outro viva pro meu bolso furado!  :((((((

27 de março de 2011

Re:

miniiiiiiiiiiiiiiina
que loucura devia ser  para os poetas
pegando em penas pra falar de suas coisas muy dolorosas
pois agora te escrevo aqui desse tectec super confortável
e meus problemas parecem um samba de tão ritmados

amada, menina, não sei por onde

começo: cascos ou carícias?
ando seviciada
e pari uma expressão: tomar dórres: tomo altos (e fico extremamente fébria)

brincar de amar tem me cansado
fui à caça de pontes estratégicas
eis o mapa:
pular num fosso imenso até estourar a bunda no SUL

faz sol aqui embora eu não veja
este computador, sempre este sofá de minha mãe
esse cheiro de mofo nos olhos,
vou abrir as janelas
vontade de dar uma festa
simples como se faz um café
amar como quem estende uma xícara que,
na mão do amigo
se estilhaça

desisti das troças - (divertidas, mas depressivas)
ando fazendo trovas, amiga
ando fazendo chás
e às vezes canto

e falando em coral, te conto uma:

hermoso rapaz
atravessa meu coração
pra pedir água

o que disse a ele?
ORA VÁ PRA PUTA QUE TE PARIU,
vá se eunucar!
eu quero um amigo logaritmo
quero um amor sedento
pra chafurdar nesse monte de areia que sou

um amigo pra brincar de tabela periódica
que entendesse meus verbetes

AMOR: 1- O mesmo que seara 2- O mesmo que Saara 3- amor é tudo que chamamos de amor 4- Amor é tudo que se ara e fenece e os cavalinhos comem.

E eu aguento?
que amor não é coisa para se conseguir
inapontável

amor é coisa que se ganha no palato
se leva nas coxas
se mata no mar

por isso a paixão: adorável jogo de piratas

é tão bom ignorar tudo, amiga
é assim que leciono
jogada no sofá de minha mãe
colecionando cartas e pontes de todas cores e tamanhos

o que você me conta de inútil?
tens trepado, sua samambaia?

segue em anexo minha razão
te mando minhas mais gozosas vibrações
te beijo


amália

26 de março de 2011

de castigo

sábado, 9 da noite, o telefone toca. é minha tia.
o que ela quer?
uma ajuda. minha prima tem uma tarefa (tá na oitava série) que não consegue fazer. é um poema. e como eu gosto de poesia e tal...
pode fazer um poema?
eu: ah, claro. (menino solícito)

aí eu pensei, ah, dá-se um jeito.
do outro lado da linha, a tia diz: tem uma condição. há palavras obrigatórias, que devem constar no poema. TODAS devem  constar (não sei como).
são elas:

PUREZA
CRIANÇA
VIDA
VIVER
FELIZ
CANTAR
BELEZA
APRENDIZ
DEUS (valei-me, saramago.)
BONITA
IRMÃO
CORAÇÃO
ALEGRIA
AMOR
FÉ
SAÚDE
SORTE

pode uma coisa dessas?
pensai no estrago.

23 de março de 2011

ai, ai ai, Cosac

editora de porte como o da Cosac Naify não pode deslizar desse jeito:

http://desengripando-a-ficcao.blogspot.com/2011/03/como-engripa-ficcao.html

poemas de kaváfis



 esperava mais dessa primeira leitura de kaváfis, poeta grego.
 há uma possível explicação, que está na pequena introdução do livro: esses "segredos" são 13 poemas sensuais que kaváfis não renegou mas que também não selecionou para publicaçao enquanto vivia. Algo como "não para publicação, mas pode ficar aqui", diz-se na introduçao. A tradução foi feita direta do grego por três tradutores, mas como se trata de uma pequena editora (edições nephelibata, de florianópolis. Lembrou-me a extinta Noa Noa, se bem que esta fazia edições bem mais sofisticadas.) fica a dúvida quanto à qualidade da tradução.
 Achei que são poemas muito simples, beirando o óbvio às vezes. Um que se pode destacar, que é mui bonito,  chama-se "E toquei e deitei em seus leitos". Posto ele aqui:


E TOQUEI E DEITEI EM SEUS LEITOS

Quando entrei na casa do prazer,
não fiquei na sala onde comemoram
com alguma ordem amores reconhecidos.

Fui aos quartos ocultos
e toquei e deitei em seus leitos.

Fui aos quartos ocultos
que os tem por vergonhosos e para os apontar.
Mas não vergonha para mim - pois então
que poeta e que artista seria?
Melhor se fosse um asceta. Estaria mais de acordo
muito mais de acordo com minha poesia;
do que me deleitar na sala tão banal.


Curioso como a ideia que passa no poema parece ser justamente contra o que eu disse: a poesia banal, muito simples, que beira o óbvio. tomara mesmo que a poesia de  kaváfis, os outros poemas, seja estes dos ocultos quartos, e não como "amores reconhecidos".

Este livreto (plaqueta, segundo a editora) é bom, mas nada fantástico. Mas continuo curioso para ler mais kaváfis, os poemas principais, especialmente se forem aqueles "poemas" com tradução do josé p. paes (acho que saiu pela ed. josé olympio)

- "Segredos". Edições Nephelibata. Tradução de M. Sulis, M. Jolkesky e A.Nicolacópulos. 2010.

9 de março de 2011

geração

rugas a conversar
de falas afiadas
e falos erguidos
como se juventude fosse brado como se
fosso impossível
como antebraços contra o sol
come meninos

eis nosso lote:
na mesma raia
afogamo-nos

8 de março de 2011

roda-gigante

quem metralhou?

quem metralhou
alta maré noturna
na boca do ocaso
(o vento)

dentro da noite
as meninas se acenam
e já entram no parque fluvial

final de domingo
comichão de medo
se na noite houvesse mais meandros
não descarrilavam as cordas,
e lá do alto as meninas veriam a pequena boca laranja

mas mui corrente o escuro
engole o degelo
e
entre
ra
  ja
da
   de
 ri
sos
revoam
      os
          casacos

uma placa dentalmetálica se solta:
(por que sussuram as meninas isoladas?)

pois papéis de balas,
céu de repicadas imagens
xaubeijam-se as meninas
sob noturna
enxurrada
e a rua
agora ganha dois tiros
no escuro.

chão batido,
campo sem flores a vender luzes
a flor não-sei-o-que-é
foi metralhada,
quem metralhou?

chove pelo chão.
se todos a favor da chuva quem contratempo
quem meninas
se ferinas
não cabem
quem noturnou?


(foi o vento)

dear

Let's sin

g
uess the name of the muse
c

1 de março de 2011

"Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse."




d'"O conto da Ilha Desconhecida", de josé saramago. editora Companhia das letras.

27 de fevereiro de 2011

our sex as a cumming's poem:


our legs are wordSword

and

THIS ___________________ bed

(THIS p-a-g-e)


:

the
world

26 de fevereiro de 2011

explicação sem ninguém pedir

um tanto descabida, eu diria.

no comecinho de janeiro, caí de cama.
tomei uma saraivada de sintomas, e foram tantos, que foi difícil esclarecer a causa de tudo.
A princípio: stress. mal moderno. acúmulo de fadiga e preocupações em 2010.
O negócio é mudar os hábitos nesse ano! Céus, ainda resisto à ideia de que o stress pode derrubar alguém da forma como fez comigo.

Agora, quase dois meses depois, me sinto bem. Disposto. Com vontade de fazer todas as boas coisas que não fiz nesse tempo.
Isso inclui escrever mais aqui, visitar os colegas de blogosfera, estudar, entre tantas coisas.

Então é isso. Acho que esse comentário é o pontapé, um pouco tardio (mas sempre é tempo), para 2011.
essa postagem, claro, de nada serve. achei preciso, ainda que descabido.
mas, para a leitura valer a pena, recorro à adélia e sua poesia maravilhosa:

abraços

----


EXPLICAÇÃO  DE POESIA
SEM NINGUÉM PEDIR

Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

Adélia Prado


In: Bagagem. Editora Record.

14 de fevereiro de 2011

juventude

"Todos esses anos, falou ela em seguida, todos esses belos anos! Como todo aquele passado havia sido bom e justo. E os erros, todos aqueles erros: justos também. E as loucuras: quão necessárias! Ser jovem era errar, falar, agir sem pensar adiante; senão, onde ficaria o progresso? E as experiências vividas, teríamos o resto do tempo para refletir sobre elas, aprofundá-las. A vida, de qualquer modo, era longa demais para asfixiar a juventude."




Robert Walser –
In: O Ajudante. Editora Arx. (Trad. de zé pedro antunes)

13 de fevereiro de 2011

inferno

repleta de pombos
você corta a praça

parados, te observam sem susto ou fome.

10 de fevereiro de 2011

lenhadores

você me pergunta o que houve nesses últimos meses.
há alguma coisa diferente. vc me pergunta o que há.
Minto:

indaga algo sobre nuvens, sobretudo
acerca de nadas
sobre cercas que jura ter posto durante o sonho
e que já não limitam

mas é como se dissessse "que fez o tempo? que fez o tempo enquanto rachávamos lenha no quintal?" E eu lhe respondo, na mesma língua de lascas, que tens razão, que a culpa é sempre do tempo,
esse apartamento sem paredes onde moramos
como elétrons sem quem nos aparte
se batendo
e, no susto,
batizando soco de sexo
comemorando cada susto
como se convidados da noite

isso, amor, foi ele, o tempo, o nosso vizinho de porta, o que veio jejuar. foi ele, o malandro, sempre ele a nos espreitar. sempre ele, fechadura pela qual nos olhamos, eu e você, a gozar sem nossos corpos, eu e vc a gozar
contra a porta, gozo duro, seco, o que é bom, oh, sim, muito bom, rende o suficiente para o rigoroso inferno austral que faz por essas bandas. e
enquanto recolhemos gravetos te falo da formação das nuvens,
de como anda a construção das colméias e quantos amigos perdemos essa semana.
e você, companheira, pede sugestões sobre o menu: o que vamos jejuar esta noite?
sobre que belo prato fixaremos nossos olhos sem fome?
há de ser especial, pois ele vem hj, amor, o nosso vizinho, o tempo,
(esse a quem vc chama "o desgraçado", "o todo-ouvidos" ou simplesmente bufa, quando seu nome esquece.)
mas deixemos isso de lado; ele está aí
ele, querida, foi ele, tenho certeza:
que recolheu a chave escondida sob o tapete e vasculhou nossa  casa enquanto lenhávamos.
por isso essa confusão

por isso o suor doce a cama larga
por isso nossa lâmina de depilar desafinada
nosso gato agora sem nó
nossas coisas sumidas, antes pelos cantos, agora sobre a cama, agora tão larga
agora tão cedo que até nos lembramos de olhar o arrebol após o café.
por isso essa rotina mudada.

foi um ladrão um ladrão um ladrão
você repetia enquanto pratos se guardavam sozinhos
enquanto o vizinho, o tempo, caía sobre a mesa de jantar,
eu e vc a nos olhar assustados.
quem fez essa bagunça. não fomos nós. estávamos fora.
foi ele.
foi um ladrão um ladrão, vc diz, um tanto neurótica,
procurando onde se encostar
e o ventilador a levantar as folhas secas
e eu com receio de delatar os verdadeiros culpados
começo rápido
a falar sobre o duro trabalho das abelhas,
a fala a sobrepor a falha
e discorro sobre a nossa cota de lenha alcançada
e eu a te esconder, discorrendo pelos cantos,
a ameaça das nuvens
então um prato imaturo erra, vai ao chão:

céus, nós não temos quintal,
vc diz.

3 de fevereiro de 2011

doença de ler

"Porque a doença de ler, uma vez tomando conta do organismo, enfraquece-o a ponto de torná-lo fácil presa desse outro flagelo que habita no tinteiro e supura na pena. O desgraçado dedica-se a escrever."
 
 
 
Renée mandou-me, via skoob.
Trecho de "Orlando", de V. Woolf.
Parece fantástico.
 
Tradução de Cecília Meireles. Editora Nova Fronteira.

29 de janeiro de 2011

autógrafo

Paulo Francis e os romances


"Desisti de ler romances. Valery tinha razão. É impossível aguentar algo que começa "A Duquesa X acordou às 4 da tarde". Que que eu tenho com isso?"

Paulo Francis


A impressão que tenho ao ler hoje os escritos do Francis (não é da minha geração, infelizmente. Nunca vi suas reportagens para a televisão, nem li seus romances), é de um cara com um ego DESSE TAMANHO, e ao mesmo tempo com uma inteligência (com um baita conhecimento político/sociológico) DESSE TAMANHO, apresentados, quase sempre, com um humor muito peculiar. Gosto dele.



Obs: o trechinho  acima é de uma coluna de Francis, no jornal O Pasquim.
Extraído de  "O pasquim - Antologia - Volume III - 1973-1974. Editora Desiderata

PS: (para um draminha básico)

tenho escrito tão pouco aqui =( !
problemas humanos.
(naturais?)

15 de janeiro de 2011

um poema de adília lopes

uma moça me mostrou, por isso dessa vez não tenho a referência e não sei o texto tá exato. deve estar.
adorei o poema. primeiro dela que leio.

O Luna Parque

Eu julgava que aquilo era

um Luna Parque

saía-se como se entrava

e não acontecia nada irreversível durante

é o que é um Luna Parque

quando se é adolescente

mas não

quando dei por mim

já lá estava dentro

e não me lembrava

de ter entrado

quando disse agora quero-me

ir embora

riram-se ah minha rica

deste Luna Parque não se sai

quem cá vem não volta

não se volta atrás

então comecei a pensar

que ia passar o resto dos meus dias no Luna Parque

acabas por aprender vais ver

a fazer das tripas coração

habituas-te vais ver

nos primeiros tempos dói

dá vontade de vomitar

depois percebe-se que no Luna Parque que é

um sítio triste

pode não ser triste

sai muito caro

mas poder pode-se.
      "As paixões humanas são misteriosas, e as das crianças não o são menos que as dos adultos. As pessoas que as experimentaram não as sabem explicar, e as que nunca as viveram não as podem compreender. Há pessoas que arriscam a vida para atingir o cume de uma montanha. Ninguém é capaz de explicar por quê, nem mesmo elas. Outras arruínam-se para conquistar o coração de uma determinada pessoa que nem quer saber delas. Outras, ainda, destroem-se a si mesmas porque não são capazes de resistir aos prazeres da mesa – ou da garrafa. Outras há que arriscam tudo o que possuem num jogo de azar, ou sacrificam tudo a uma idéia fixa que nunca se pode realizar. Algumas pensam que só podem ser felizes em outro lugar que não naquele onde estão e vagueiam pelo mundo durante toda a vida. Há ainda as que não descansam enquanto não conquistam o poder. Em suma, as paixões são tão diferentes quanto o são as pessoas.

      A Paixão de Bastian Baltasar Bux eram os livros."



- A história sem fim, Michael Ende.

Editora Martins Fontes. Tradução de Maria do Carmo Cary.

25 de dezembro de 2010

notícias

e de repente a luz se apagou e eu ali na sala rodeado de livros e sem nenhuma vontade de ler (novidade), oh tédio que enche de chamas especialmente as saídas de incêndio. lendo vários livros ao mesmo tempo, todos com pouco ânimo, então me ocorre abrir outro, um terceiro, embora não sejam 2, mas 8, as leituras em curso, e esse terceiro era um livro de poemas ingleses do século XIX, oh brave and nervous time, fazendo aquela associação-livre (livre?) ridícula: poetas ingleses velhos - castiçais - leitura à luz de velas, o que logo abandonei pois tomei banho no chuveiro elétrico, o que me remeteu de novo a esse marasmous year, 2010, quase 2011, que hoje é dia 25, de São Natal.
se desisti dos velhos poetas, não desisti da leitura, ainda que esteja enfastiado de ler, é ainda a única saída. que mais poderia fazer em noite de natal sem luz elétrica e sono, será? então escolhi, dentre os livros da pilha o mais divertido - aparentemente - o menos sério, que é da sylvia orthof, historieta sobre Zoiúdo, um monstrinho composto unicamente por um par de olhos - que sorriem e falam. Simpático.
peguei essa folha pra me distrair enquanto não melhoro do estômago/enquanto a luz não vem. eu ia contar o caso dos cupins cremados na chama da vela, mas agora me ocorreu algo que nada tem a ver com o momento, pois agora me lembrei de um certo costume, que é o dizer "ah, mas ISSO  (qualquer coisa) é que nem andar de bicicleta: depois que a gente aprende nunca mais esquece". e isso é uma baita canalhice, quase sempre essas comparações são mentirosas, que para aprender a andar de bicicleta basta 10% de força/impulso e 10% de manutenção dessa força/impulso e 10%  de primeira coragem antiqueda e 10% de equilíbrio e os outros 60% não-sei-o-que-é.   ----> (existir?)
canalhices à parte (há como deixar as canalhices à parte? gangorra falha), meu estômago continua malvado. isso afeta a respiração, e ficar sem ar tem o mesmo gostinho de ver a tal luz branca no fim do túnel, pode crer. Bem, e vai que daí não deveria tomar café, pq café faz mal demais, e o próprio leite também nesses casos faz, pq é de difícil digestão, creio. mas que papo aborrecedor, opa, a luz voltou, e deixa o caso dos cupins e fogo, etc, pra outra hora e chama, vou, café

18 de dezembro de 2010

antimonotonia

fim de ano, muito cansaço, quero me enredar.
o Daki-Dali tá em hibernação até algum mês de 2011.
E quanto a este, sei que a poesia está sendo repensada.
tempo de silêncio, remoer umas ideias, abandonar outras. arrumar os erros, se é que dá.
mas falar de leituras é coisa que amo, então isso não vai faltar.
escrevendo aqui e ouvindo música, coisa que não recomendo, e sempre faço. té mais.




simples e bom, o monbojó.

11 de dezembro de 2010

aos pés dela

e abro e reabro um dois vinte e sete livros de poesia. que grande merda de estante oh que seleta.
há algum tempo aboli o verso, que aí ninguém pensa que é poema, daí fica ruim mas nem tanto. jogo tudo na cama, inclusive meus olhos corridos sem se ater em nada. ler é muito bom e bonito meu filho, como isso me aborrece.

dias assim sem remédio não me aguento. só consigo abrir o livro da ana que parecia não aguentar nem a si mesma se jogando a cada duas palavras do próprio texto, os poemas como se fossem sacadas, balcão daquele apê em que se debruçou e pediu um drinque ao ar, e só tinha o éter, e devia estar delicioso. e que putas sacadas ela tinha, era ela e nem parecia. ou parecia tanto que deixava de ser.

6 de dezembro de 2010

ritmo é o problema.
cena de faroeste:
alguém fica a atirar na ponta de meus dedos enquanto escrevo um poema.
alma gêmea, sim
nós both
de frente pro espelho
enforcados
em  novelo felino

assim:
dois bofes
dormindo no incesto
de fogo de palha

corações canalhas
a empatar carinhos
somos
gêmeos do
primeiro ovo

oh, sim,
gema
minhalma
alma que gêmea bem alto
nonada de novo
mesmos vizinhos

5 de dezembro de 2010

nunca encontrarei minha alma-gênia
porque ambos
abominamos lugares comuns

vinte anos

tava quase dormindo já diante do meu computador, esse sofá velho de minha mãe, a morena do outro lado do balcão quis puxar conversa. procuro desesperadamente algo pra esperar desse ano porvir.
-- meu namorado é arquitédio. tem um escritório no centro.
nessas horas sempre penso em foder como resolução para os problemas da juventude. saco do bolso meu celular pra olhar as horas mesmo tendo relógio no pulso que bate bate, tudo bem, só tens vinte anos, essa arritmia é sinal de bonança, diz-me o doutor. e a moça mexe que mexe o whisky triste dessa noite. penso em parabenizá-la, afinal, o tal namorado poderia ser um advogado ou médico, essas coisas que enojam:
-- preciso mijar.
falei assim, logo que vi meia-noite, como se cinderela precisasse mijar a pedido da malfadada corri pro banheiro, apostando chegar antes da meia noite e um cara tava lá gemendo. no espelho desse computador meu rosto envelhecido 18 anos, os melhores pra beber sozinho segundo meu pai.
a morena me aborrece, não posso sacar um chocolate que ela há de me olhar de soslaio. a boite tá estrelada e sem nuvens e na pista a música da moda. olhando pro teto da noite é que penso na idiotice de meu pai a recomendar bebidas e fodas como as melhores coisas a fazer nesse idade que não volta porque volta sim, regurgitada nessa barriga de chope dos quarenta anos. e dá-lhe tapas nas costas e risos, e no ar a fumaça da morena que fuma. que nojo detesto cigarros e esse chocolate amargo que comprei enganado pela embalagem, bonito vestido esconde suas pernas.
-- vamos nos casar em março, diz quando volto, ainda o mijo porvir nesse 2011.
tumtumtum, bate o coração no centro da pista. grandes merda ter um mictório no centro
mijar todo dia do décimo sexto andar na cabeça dos passantes. e de tumtumtum passa pra tectec, esses teclados são todos iguais, já não se fazem mais onomatopéias como antigamente. que mundo mais plástico, meus domingos morrendo assim distraídos, enganados por invólucros parecidos. morena amarga, queria ao leite. meu pai me queria médico.
a morena espirra e eu aproveito para desejar saúde aos noivos.

suspirão

saiu no Anotícia de Domingo os textos premiados, incluindo o meu em 3º. E os caras em vez de publicarem da forma como o texto chegou, decidiram revisá-lo. E revisor não curte neologismo, porque eles não figuram no dicionário. Daí  porsissó apareceu entre aspas (pense na cena: Grande Sertão: Veredas com as aspas em cada neologismo do Rosa) e eles trocaram o neologismo desmotevada (sem mote, sem tema) por desmotivada. Essa última cagou com a frase. Transformaram a personagem numa desanimada. hijos. paciência.
diga-me com quem andas
e eu te direi quem rês

retrato de meu pai

apelido de meu pai, dado em criança, é passarinho. diz a lenda que ele corria de braços abertos e daí veio. azarado, ferrado na vida, sempre tenho a impressão de que somos iguais. que repito um caminho aberto por ele. outros pés, outras ideias. mesmo caminho. não é sina, nem destino. o que seria? não sei. é um cara muito teimoso, alegre, ora calado, ora expansivo, ora generoso, ora nem tanto. e é uma crônica ambulante. dava um livro. tem cada história. guardo comigo muita coisa, cenas, frases, coisas que me marcam e não esqueço. meu pai é único. quem mais nesse mundo poderia cantar como ele? do nada, ele começa aquela dos beatles...

-- "Hey Jude....

E para aí. porque não sabe o resto e só isso fica bom.
meu pai com sono é engraçado. vai dormindo, olho miúdo
você fala algo, ele chacoalha a cabeça, braços cruzados, como se concordasse
qual! nem sabe do que você tá falando.
às vezes ele fica calado, olhar perdido.
o que pensa nessas horas? em problemas, talvez. ou em nada.
e dos apelidos, ele gosta. me chama de dugo. só ele me chama assim.
de qualquer outra pessoa, a alcunha soaria ridícula.
meu pai preocupado é uma imagem bonita.



meu pai?
é o Passarinho,
tem uma barriga grande
mas seus olhos
são pequeninhos

um poema de pablo neruda.

(esse é outro daqueles pra ler e suspirar pela vida toda)


ACONTECE


Bateram à minha porta em 6 de agosto,

aí não havia ninguém

e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira

e transcorreu comigo, ninguém.



Nunca me esquecerei daquela ausência

que entrava como Pedro por sua causa

e me satisfazia com o não ser,

com um vazio aberto a tudo.



Ninguém me interrogou sem dizer nada

e contestei sem ver e sem falar.



Que entrevista espaçosa e especial!


In: últimos poemas. editora LP&M. tradução de luiz miranda.

3 de dezembro de 2010

noite de quinta, tava lá na univille, no 7º prêmio expressão literária
fiquei em 3º, categoria conto/crônica.
texto selecionado foi o "carta pra ti é uma coisa engraçada...."  gosto dele até.
o encontro foi bem bacana, e saí de lá bem contente.
se bem que meu id (ou é ego?) ficou dizendo.... "buuuuuhh, é a maldição do terceiro lugaaaahhhr",
isso porque em 2008, então com 18 anitos, fiquei em terceiro, categoria poesia.
mas estar lá, ser reconhecido, isso é muito bão.
que venham mais!
e bora escrever. de vez em quando me revolto, e acho tudo uma merda sem fim (mas boa parte é)
aí estar lá no prêmio dá uma acordada. pra trabalhar. reescrever. pra ser feliz. se pá.

27 de novembro de 2010

sobre um romance de Italo calvino



primeiro de tudo, preciso dizer que li este livro num momento ruim, uma semana de muito cansaço e stress. por vezes, sentado em algum lugar, adormeci no meio de algum trecho. dizer isso tem uma conotação de desculpa pro que vou dizer, que é que gostei do livro, achei a ideia genial, mas como leitor despreocupado, 'não foi tudo aquilo", de modo que o livro não entrou para os favoritos. (como eu achava que iria acontecer - quem sabe numa releitura?). Essa preocupação em dar desculpas é covarde e tola: eu deveria simplesmesnte dizer "gostei, mas esperava mais, o que é natural" (bom, acabo de dizer). É um romance sobre o ato de ler romances, tanto que o protoganista chama-se simplesmente Leitor. Este leitor sofre com diversos percalços para terminar a leitura de seus livros. sempre que inicia um, algo acontece, o romance é interrompido, o gozo é cortado, e logo ele é atirado a outro começo de romance - que irá ser ceifado também. E por que não gostei tanto assim? Difícil. A ideia do livro é genial, e há passagens maravilhosas (vou botar pelo menos uma aqui no blog), mas creio não ter entrado nessa busca do leitor. alguns começos de romances - todos bem diferentes entre si - não me prenderam, e o enredo rocambolesco da procura do Leitor me enfastiou em alguns momentos. Quanto ao fim do livro, fiquei com a sensação de pé quebrado, embora seja impossível terminar de ler sem um sorriso diante do gracejo com que Calvino termina ser romance sobre romances. Acho que é isso: o enredo rocambolesco enfastiou, apesar das reflexões geniais sobre a leitura e de belas passagens. Calvino é um cara muito inteligtente. Outra coisa: ao fim do livro, há um apêndice que traz a resposta de calvino às indagações de um crítico italiano sobre o livro. Assim, ficamos conhecendo as intenções do autor. sobre esse apêndice, uma coisa me ocorre no momento. é sobre esse trecho: "Será mesmo verdade que meus incipit se interrrompem? Alguns críticos (...) e alguns leitores de gosto refinado sustentam que não: eles os consideram relatos acabados, que dizem tudo que deve dizer e aos quais não há nada para acrescentar. Sobre esse ponto não me pronuncio. Posso dizer que, de início, queria fazer romances interrompidos (..)" - Aqui tenho um pitaco. Alguns começos, incipits, possuem uma estrutura perfeita de conto - o melhor exemplo pra mim é "Ao redor de uma cova vazia" que é excelente, e é em certo ponto fechado. Se Calvino quisesse continuar, teria problemas porque muito já foi dito, e falar mais tenderia a ser "chuva no molhado". Além disso, esse incipit termina tão bem, com uma bela cena digno de conto excelente. Há outros exemplos de incipit-contos, mas discordo de quem vê em todos os inícios contos acabados. Não é bem assim, parece-me. "numa rede de linhas que se entrelaçam", por exemplo, até pode ser chamado de relato completo... mas então teremos de assumí-lo como um relato ruim, em que as cenas desenham-se mal - que faltou mais organização, o que seria um absurdo já que sabemos da capacidade fodástica do Italo de conduzir uma narrativa. Bem, o pitaco fica por aqui. A leitura está recomenda. E, bem, foi o primeiro livro dele que li. Mas tenho certeza, só de ler as outras sinopses, de que vou gostar mais de outras obras dele (eduardo, é impressão minha ou ainda você está tentando desculpar-se?). Palomar e As cidades Invisíveis, são pitacos. Tenho certeza que a hora que lê-los (esse das Cidades vou ler nas férias, já tá marcado ;P) vou amar, só de saber o tema. Bom, agora vou tratar de digitar alguma daquelas passagens que achei foda. Ah, lembrando, o começo do romance é demais, te prende, porque fala justamente sobre as nossa manias de leitores. Assim, empatizar com elas é facílimo, já que todo mundo tem suas manias. Eu me vi, durante essas primeiras páginas, quando Italo descreve aquele leitor que compra um livro e começa a abrir no escritório, em meio a documentos aborrecedores, fingindo que está concentrado em algum deles, mas - qual!- tá é abrindo o livro cuidadosamente e curtindo as primeiras linhas. Só não contem isso pro meu chefe. esse lance de empatia foi brincadeira, tá?

adolescência

Escola?
lá esqueço
o que sei

Catequese?
Encheu
o sacro

Passado?
dancei, cara
me ferrei

eu?
sombra que ilumina
meus pais

pais?
país do
por enquanto

Futuro?
dançarei
mais um tanto

23 de novembro de 2010

eu ri

O eterno problema da tradução...
Sr. William Blake e seu sarcasmo:

"It appears to Me that Men are hired to Run down Men of Genius under the Mask of Translators"

Na tradução de Mário Alves Coutinho:

"Acho que Homens são contratados para Depreciarem Homens de Gênio sob a Máscara de Tradutores"


In: Tudo que vive é sagrado (poemas de William Blake & D.H.Lawrence). Editora Crisálida, 2001.

21 de novembro de 2010

oh, boy
mozart is gone!

but he's still dancing
in my ringtone

19 de novembro de 2010

26 grávidas, ana c,
26 grávidas e você tomam banho de sol
de longe aguarda-se que o trem em que viajas
subitamente se traia
em doidivano suco
que loucos esses ventos quando descarrilham!
parece que
multiplicam a praia.

15 de novembro de 2010

"Quem te perturba? Quem estremece teu coração? Quem tateia ao trinco de tua porta? Quem te chama da estrada sem, no entanto, entrar pela porta aberta? Ah! É precisamente aquele que perturbas, aquele cujo coração estremeces, aquele à porta do qual tateias, aquele que chamas da estrada e pela porta do qual não queres entrar".

Franz Kafka.

Uma passagem e tanto.

Citado por Harry Laus, em seu diário. (Impressões de Leituras. Editora Bernúncia.)
Não sei qual o tradutor, e nem de que obra o trecho é extraído. Talvez traduzido pelo próprio Laus, talvez extraído dos diários de kafka, que era uma leitura que ele vinha fazendo na época que transcreveu esse trecho. (novembro de 1951)

Mais tiras. Agora de Arnaldo Branco.

André Dahmer e seu rei Emir

Adorei!

http://g1.globo.com/pop-arte/fotos/2010/04/tirinhas-rei-emir.html

14 de novembro de 2010

dois poetas


sexta foi dia de ler dois livros da Letradágua, editora que costuma publicar o pessoal daqui da região Norte, e também do Vale do Itajaí. E publicam, entre outros gêneros, bastante poesia. Rubens da Cunha, Caco de Oliveira e Fernando José Karl são alguns exemplos. Dessa vez, a leitura foi de "Cápsula", de Paulo César Ruiz, poeta nascido em bauru/SP (?), mas que morou em Joinville e publicou alguns livros aqui; e "livro de mercúrio", do blumenauense Dennis Radünz.


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Ruiz faleceu cedo, em 2001, sendo "Cápsula" uma obra póstuma.Talvez seja a única reunião, em livro, de seus poemas (não sei dizer). Publicou também um trabalho no jornalismo, em conjunto de outros, e "Códice", novela experimental, na qual subverte todas as regras do gênero, além de criar vários neologismos, transformando o livro num jorro de palavras, uma viagem total¹. E eu achei uma delícia a leitura desse "Cápsula". a poesia dele é breve, rápida, e repleta de humor. daí associá-lo a leminski, alice ruiz (ó o sobrenome), nelson capucho, é um pulo. mas dizer que ruiz é "um poeta marginal" ou "muito parecido com leminski" , etc , é jogar ele num balaio, apagando o que sua poesia tem de original. Porque ruiz, assim como leminski ou qualquer um dos citados acima (exceto alice, talvez) traz pra poesia muito bom humor e deboche. Mas é um deboche, um gracejo, que só pode vir dele, do paulo césar ruiz. seus poemas falam bem melhor do que eu:

paulo césar who is
poeta de merda
o mundo sob o nariz

-
corre ambulância!
se deus não quiser
paciência

-

que chique
joguei na retranca
deu xeque


por reunir essas características, bom humor, ironia, aliadas à brevidade de seus poemas, a poesia do ruiz é ideal pra levar pra meninada, creio, a fim de despertar (preparação para emitir lugar-comum, 1, 2 3 e ...) o gosto pela poesia. falando sério, não há como não simpatizar por essa poesia. Outra característica dela é a observação do cotidiano (algo que me direciona para Caco de Oliveira, outro baita poeta atuante em Joinville). Herdada da cultura oriental, esse exercício rende poemas e tanto. às vezes, é como uma fotografia: ("deu zebra/menino de rua/à espera do penta"). Deixo um último, ideal pra exemplificar esse poeta bom pra chuchu, que observou a dor (e graça) do cotidiano como poucos. adorei o livro, entrou para os favoritos. pra fechar:

roubar a paisagem
o olhar clic rapina
turva até a neblina


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A outra leitura é bem diferente. a poesia "despreocupada" (favor não confundir com relaxada, que o trabalho do poeta é duro sempre) dá lugar a uma poesia experimental, no qual o leitor sente que as palavras foram sendo lapidadas. opa, lapidadas não, que isso tem gosto de soneto parnasiano. ceifadas, laminadas, sei lá o que, algo assim, mais bruto. Coloco aqui dois poemas dos quais gostei muito, e daí falo um pouco da leitura.

Casas Noturnas (I)

a casa mora onde obra a noite
se nenhum rumo mais a mura
ou abre e fura a hora adentro
se a água mole a pedra aflora
e afora enfurna-se o relento

Casas Noturnas (II)
a casa acesa em cinza insone
no alheio sono dos anônimos

o cisma insano de arredores
onde os ânimos são nômades

a casa ilesa em chamas some
a ânsia: ócios: coisas: nomes

Escolhi esses dois, porque os achei do caralho. (o palavrão aqui é pra reforçar mesmo, desculpa a quem não gosta). Gostei mesmo. Do livro em geral, gostei menos. A poesia desse livro me foi muito estranha, o que é bom por um lado, já que a poesia tem que estranhar às vezes, confrontar-nos com as ideias e com a nossa língua. Mas eu sempre pendo para a poesia de ideia (retomarei essa história de poesia de ideia em futura postagem), do que esta de radünz, mais experimental, cujo cerne parece estar  na linguagem original e não tanto no mote, no tema, na ideia que se quer passar (vide poemas do ruiz, bem mais "acessíveis", digamos). Lembro-me que adorei "Exeus", livro anterior do Dennis. Mais do que este. Algumas características estão presente em ambos, como os poemas com tendência concreta, ao experimentar dispôr as palavras de forma não habitual. (na orelha, o editor e poeta j. gehlen pede para que o leitor não o veja como um poeta concretista, nem como simbolista, visto que dennis também aposta na musicalidade). Quanto à musicalidade, é nítida. vide os dois poemas acima. É um efeito muito interessante. Sinfonias noturnas, nesse caso.
Dito isso, vou-me embora que já é hora. Os dois poetas estão mais que recomendados.


PS: Eu ia falar também de "Imitação de espelho", de Ramone Abreu Amado, que tenho aqui em casa e também saiu pela mesmo editora dos 2 acima. Mas esse achei chato pra chuchu e abandonei. Quero retomar, mas fica pra outro momento. e é bom que retome mesmo, porque posso mudar de ideia quanto ao julgamento do livro, coisa que já aconteceu.

Notas inúteis:

¹ Repare que "viagem total" tem sido considerada cotidianamente, de um modo vulgar, como "besteira", "coisa tosca, sem sentido". O que é um erro. O sentido que empreguei, está claro, é o primeiro. De viagem mesmo. Viagem total de besteira não tem nada. Pelo contrário, é uma maravilha.

² "bom pra chuchu" sempre foi uma expressão brega pra mim. mas após ler "O apanhador no campo de centeio", livro de J. Salinger, cismei com a expressão-bordão do protagonista (ou pelo menos, a versão que o tradutor escolheu), o holden (adorei ele, é por isso). acho essa coisa (de as palavras entrarem e sairem de moda) algo muito legal. ainda mais porque é algo hiper-mega-ultra pessoal.

13 de novembro de 2010

menina passarinheira

para a daia


passarinho me contou
que meu amor estava infeliz
xinguei o metido, mirei nele
errei por um triz

ainda sim,
fui lá ver o meu bem
lá onde moramos
longe pra caramba
na corda bamba
no trilho do trem

bati na porta da caverna
e divisei no fundo no canto na beira
na parte mais fria e quieta
a menina passarinheira
cadê tuas asas, perguntei
não sei não sei não sei

vish, pensei, e fui pra geladeira
catei dois copos de tapa na cara
e de soco em soco
bebedeira

que a vida bate na gente
a gente é fraco
e cai no buraco
e o buraco é fundo
diz a canção

mas a vida
não morre na rima
sorte a nossa
querida

e tem outra coisa
menina aguerrida
tristeza não é problema
pelo contrário
comprida felicidade
é coisa de otário
compreende o esquema?
pois explico

quanto maior o salto
maior a perna

fiquemos tristes, tristes
como dois tigres tristes
que quando a alegria vier
ninguém vai segurar
alegria presa
quando vem
violenta
violeta
estoura um trem
dentro da gaiola
louca
coração último
céu de nossa boca


é, menina passarinheira
diz a lenda que tá sempre triste

e sempre lá é hora?
chuta esse prato de alpiste
e vamosimbora

10 de novembro de 2010

um barato fundamental




eterno ex-estranho
ainda que eu não entenda
o vice rouco
do seu louco verso

de poema em poema
te entranho

7 de novembro de 2010

cheguei hoje à conclusão de que não consigo manter um diário ínfimo, não rola, sai falso. o do harry laus é interessante, tô lendo. cara inteligente, ele. tem uns malabarismos straños ao escrever, mas isso é estilo, não? curti ele porque gosta do dostoiévski e é um cara um tanto deprimido. era né, que morreu faz tempo. tem uma passagem que gostei, onde está?, peraí, eu já acho. por favor, peraí. (sério, só mais um instante). demorei, vc não percebeu eu sei, pq a daiane me chamou aqui pra pedir uns nomes de autores que fizeram inovações linguísticas, mas isso não vem ao caso. ó o trecho de que falava:

"Onze de maio de 1950, talvez não me tenhas dito nada. Ou quem sabe me disseste, como terão dito todos os outros dias, e eu nada tenha compreendido?"

Puta desconsolo, isso. Na verdade, o trecho era outro, mas quando fui buscá-lo não achei. mas havia este outro trecho aí  de cima. sei lá. se eu tivesse bebido, diria estou deprimido ou foi efeito do vinho? mas é meio-dia. estou deprimido ou foi efeito do almoço materno? preguiça que não é preguiça, chamam de tédio, né, corali? noite que não é noite. O caso é que isso não é momento. é fase. de lua. vai e volta a maré amarrada no dedo do menino brincador.  queria que fosse momento macunaíma, mas nada tem disso. momento holden caulfield/leminski, perhappiness. Sei cá, mews. Hoje é domingo, MAS ISSO NÃO É UM PÉ DE CACHIMBO, diria o Magrinho, aquele pintor francês surrealista. surreal. surrealista. engraçado, esses jogos de palavras não combinam com o que pretendem representar. surreal/surrealista. coisa mais óbvia, de sonhado isso num tem nada. gosto do Magrinho. Mais do que o Dali, aquele mais derretido. Gosto do Magrinho pq ele é daqueles que botam uma porta no teto e saem passeando por dentro das gotas. desses que botam um leão em cima da cama. Há um leão em cima da minha cama, às vezes. é engraçado. isso dá um poema, se pá. ou dava, que não sou poeta. tentei, tentei. mas sou muito bobo. uma noite sentei a Beleza no meu colo e achei uma delícia. É assim que os maus poetas se mostram. tá tocando um som bom aqui, Red House. sensual. é bom que a música distrai. não tô mais deprimido. ok, foi brincadeira, ainda estou. e escrever é coisa que não ajuda. tenho baita preguiça, talvez por isso não funcione um diário. Laus, sete de Novembro pode estar falando, numa hora dessas, será? vou fazer um minuto de silêncio, para tentar ouví-lo. aproveito e velo o tal de seis de Novembro.

27 de outubro de 2010

não bato bem da cuca:
pra bocarra
do bicho
corro
quando à noite
maluca
ela vem me pegar

24 de outubro de 2010

questão de pontuação

um é pouco
dois é bom
três é demais

- vai um ponto de exclamação ali, professor?